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Livro de ocorrências (Conto), de Rubem Fonseca


Fazendo jus a seu título, "Livro de ocorrências" conta, em detalhes, três ocorrências policiais.

Narrado em primeira pessoa por um delegado, "Livro de ocorrências" consegue posicionar-se num interessante ínterim entre o frio e seco registro criminal e a narrativa literária.

A primeira ocorrência relatada é de uma mulher que vai à delegacia registrar queixa contra seu marido, por agressões físicas. Ainda que a mulher se arrependa de ter ido até a polícia ("Ubiratan é nervoso, mas não é má pessoa. Por favor, não faz nada com ele.") o delegado (cujo nome não é revelado ao longo do conto) decide ir até a residência do casal: "Eles moravam perto. Decidi ir falar com Ubiratan. Uma vez, em Madureira, eu havia convencido um sujeito a não bater mais na mulher; outros dois, quando trabalhei na Delegacia de Jacarepaguá, também haviam sido persuadidos a tratar a mulher com decência."

Ubiratan, um halterofilista rude e arrogante, mostra-se indisposto a acompanhar o delegado. Após algumas frustradas tentativas de persuasão verbal, o policial-narrador saca seu revólver. Mediante a persistência do desacato de Ubiratan, o delegado atira em sua coxa. O término da primeira ocorrência tem seu quê de ironia: Ubiratan, sendo levado de ambulância para o hospital por um frio delegado que em seguida o conduziria, finalmente, para a delegacia.

A segunda ocorrência trata de um acidente: "Um ônibus atropelou um menino de dez anos. As rodas do veículo passaram sobre a sua cabeça deixando um rastro de massa encefálica de alguns metros. Ao lado do corpo uma bicicleta nova, sem um arranhão." O motorista foi preso em flagrante por um guarda de trânsito. Uma pequena multidão contempla o cadáver em torno do cordão de isolamento.

Duas pequenas passagens marcam essa segunda ocorrência. Na primeira, uma senhora idosa e mal-vestida tenta ultrapassar o cordão de isolamento com uma vela na mão, "para salvar a alma do anjinho". Na segunda, uma mulher em crise histérica rompe o cordão de isolamento e toma o corpo em seus braços. Depois de muita luta os policiais conseguiram tirar o morto dos braços da mulher e recolocá-lo no chão. A ocorrência termina com o motorista-assassino em frente ao delegado. Registra o narrador: "Era um homem magro, aparentando uns sessenta anos, e parecia cansado, doente e com medo. Um medo, uma doença e um cansaço antigos, que não eram apenas daquele dia."

A terceira e mais breve das ocorrências trata de um suicídio. Um morador do subúrbio, casado e com um filho, estava morto em seu banheiro: "A casa cheirava a mofo, como se os encanamentos estivessem vazando no interior das paredes. De algum lugar vinha um odor de cebola e alho fritos". Após todas as perguntas terem sido devidamente feitas à viúva, ao remexerem no corpo, este solta um gemido. "Ar preso, esquisito não é?", diz o ajudante do delegado. Ambos riem, sem vontade. O morto, "um homem franzino, a barba por fazer, parecia um boneco de cera" não havia deixado bilhete nem nota alguma sobre seu suicídio. "Eu conheço esse tipo, quando não agüentam mais eles se matam depressa, tem que ser depressa senão se arrependem", diz Azevedo. Por fim, Azevedo, o ajudante do delegado, urina no vaso sanitário, lava as mãos na pia e as enxuga na camisa. Fim da ocorrência.

Observar a narrativa fonsequiana sob a lente naturalista é bastante possível em diversos momentos e em diversos aspectos. Em “Livro de ocorrências” tal pensamento não é diferente. Todas as ocorrências narradas são em subúrbios do Rio de Janeiro, envolvendo personagens quase sempre pertencentes a uma classe menos abastada. Tal ambiência também é pertinente ao Naturalismo, que, por muitas vezes, teve suas narrativas “científico-literárias” caracterizadas por personagens pobres. Se no universo Naturalista o comportamento humano é destrinchado em seus aspectos mais baixos, o mesmo ocorre no conto de Rubem Fonseca.

Na primeira ocorrência se tem uma situação de violência doméstica, que o narrador enfatiza ser comum tendo em vista a quantidade de casos semelhantes já resolvidos por ele. Na segunda ocorrência, é narrado em detalhes um acidente automobilístico que vitimou um menino. A caracterização extremamente fria, sangrenta e detalhada da morte da criança remete diretamente a momentos clássicos da narrativa naturalista.

Detalhes como a pequena multidão de curiosos que assistem, com certo deleite, o corpo, bem como a compaixão da idosa pobre e o desespero da mulher que abraça o defunto são cenas de concentração de massas populares onde alguns personagens tomam atitudes que tramitam entre o exagero, o absurdo e o ridículo. Por fim, na terceira e última ocorrência, tem-se o relato de um suicídio. Novamente o ambiente é pobre, e a naturalidade com que os personagens (o delegado e seu auxiliar, Azevedo) lidam com a situação chega a ponto de ambos rirem quando o morto solta um gemido devido a um pouco de ar ainda preso em seus pulmões. A narrativa é concluída com Azevedo urinando no mesmo banheiro onde estava o corpo do suicida.

Ao término da leitura destas ocorrências, fica a sensação de que poderiam ser dez, vinte, inúmeras ocorrências. O realismo bruto contido nestas pequenas histórias remetem o leitor diretamente a um verdadeiro livro de ocorrências de uma mesa de uma delegacia, onde a cada novo dia algo surge em suas páginas.

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