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Longe dos olhos (Conto), de Machado de Assis

  • Data de publicação

Longe dos olhos é um conto de Machado de Assis, onde no seu início o narrador declara:

E não é romance isto, senão histórica verídica e real, pelo que, vai esta narrativa com as exíguas proporções de uma notícia, sem enfeites de estilo nem recheio de reflexões. O caso conto como o caso foi.

E, realmente, nessa narrativa não há maiores preocupações com análise psicológicas das personagens, assim como também não se nota a costumeira ironia e ambigüidade de Machado de Assis.

Enredo

O comendador Aguiar, pai do bacharel João Aguiar, e o desembargador, pai da jovem Serafina, desejavam muitíssimo que seus filhos se unissem em casamento. Nenhum dos jovens, tinha qualquer inclinação amorosa pelo outro.

Assim, quando o comendador falou claramente com o filho sobre o provável romance, e o moço declarou que não se interessava por Serafina e que amava a formosa Cecília, o velho Aguiar sentiu-se decepcionado e irritado:

"- Tu levas-lhe em dote os meus bens, a tua carta de bacharel e um princípio de carreira. Que te traz ela? Nem sequer essa beleza que só tu lhe vês. Demais, e isto é importante, não se dizem boas coisas daquela família."

O mesmo aconteceu na casa de Serafina, quando esta afirmou que amava o jovem Tavares e que não tinha a menor intenção de namorar João Aguiar.

"- Isto é uma loucura, exclamou o desembargador; esse rapaz (o escolhido) é bom coração, tem carreira, mas a carreira está no princípio, e demais... creio que é um pouco leviano."

Apesar das oposições paternas, tanto o bacharel Aguiar como a linda Serafina resolveram não renunciar aos seus respectivos amores, pensando que, com o tempo, talvez vencessem a resistência dos pais.

Como as famílias do comendador e do desembargador se visitasse com muita freqüência, João e Serafina acabaram fazendo uma boa relação da amizade e, após algum tempo, comentaram o absurdo das intenções paternas e resolveram lutar juntos (os dois pares de namorados) para levar os pais a aceitarem Cecília e Tavares, respectivamente.

"Com o tempo vieram eles (João e Serafina) a fazer-se confidentes mais íntimos: esperanças, arrufos, ciúme, todas as alternativas de um namoro, comunicados um ao outro; um ao outro se consolavam e se aconselhavam em casos em que eram necessários consolação e conselho."

Tanta intimidade fez com que o comendador, certo dia, chamasse o filho para dizer-lhe que todos já haviam percebido seu namoro com a filha do desembargador e que o casamento já poderia ser feito naquele ano. João replicou ao pai que nada havia e sofreu, mais uma vez, a irritação e o repúdio do pai. Porém:

"- Meu pai tem razão, dizia ele às vezes consigo; se eu não amasse a outra, devia amar a esta, que é certamente comparável a Cecília. Mas é impossível; meu coração está preso a outros laços..."

A situação arrastou-se, sem muitas novidades, até que "Serafina recebeu uma carta de Tavares dizendo-lhe que não voltaria mais à casa de seu pai, por este lhe haver mostrado má cara nas últimas vezes que ele lá estivera."

Apesar do desgosto de Serafina com essa atitude do namorado e apesar de ele lhe escrever todos os dias cartas longas e muito amorosa, o rapaz não voltou atrás e realmente deixou de visitá-la.

O único consolo de Serafina eram as confidencias que trocava o filho do comendador:

"- A desconfiança é o único defeito dele, dizia Serafina; mas é grande (...) arreda toda a felicidade."

E João replicava:

"- Eu a esse respeito, não tenho motivo de queixa... Cecília tem a virtude oposta num grau que me parece excessivo. Há nela um quê de simplória..." dois dias depois dessa conversa; "adoeceu levemente o bacharel". E recebeu cartas da namorada e também da confidente.

"Quando ele se levantou da cama, estava bom fisicamente, mas recebeu um golpe na alma. Cecília ia para a roça durante dois meses; eram manias do pai."

Logo que Cecília partiu, João, encontrando-se com a confidente, queixa-se do tempo em que deveria ficar longe da amada, mas logo diz que seria fácil de suportar. Serafina se surpreende, e João justificativa:

"- Sim, conversando com a senhora, que sabe tudo, e fala destas coisas de coração como senhora de espírito que é."

Nessa mesma noite, João sonhou com Serafina e, porque continuou pensando muito nela, "para se castigar desta preocupação, escreveu uma longa carta a Cecília falando muito de seu projetos de futuro."

Quando veio a respostas, em certo trecho dizia Cecília:

"Se eu fosse ciumenta... se eu fosse desconfiada... havia de te dizer agora muito duras coisas. Mas não digo, amo-te e sei que me amas. Mas por que havia eu de dizer duras coisas? Porque nada menos de quatorze vezes falas no nome de Serafina. Quatorze vezes em quatorze páginas, que são todas minhas."

É fácil perceber que, nessas alturas, já havia amor entre João e Serafina. O narrador, porém, ainda alonga um pouco a narrativa, contando que João vai à roça matar saudades da namorada e que, durante os dia em que lá esteve, sentia "uma sombra, uma coisa inexplicável" dentro de si.

"No quarto dia escreveu uma carta à filha do desembargador, que lhe respondeu com outra, e se eu disser à leitora que tanto um como outro beijaram as cartas recebidas, a leitora verá que a história se aproxima do fim e que a catástrofe está próxima."

A catástrofe de que fala o narrador foi a "terrível descoberta" da paixão recíproca entre João e Serafina. "Foi principalmente a ausência que lhes confirmou a descoberta. Os dois confidentes aceitaram esta novidade um pouco perplexo, mas muito contentes."

No entanto, os dois resistiram um pouco, principalmente pela preocupação de não ferir Cecília e Tavares. Serafina foi a que mais resistiu, chegando mesmo a passar alguns dias sem querer encontrar o bacharel João.

Mas "a resistência de Serafina durou o que duram as resistências de quem ama. Serafina amava; no fim de quinze dias abateu as armas. Tavares e Cecília estavam vencidos".

Os dois namorados traídos revoltaram-se e sofreram muito; "afinal Cecília casou e Tavares está diretor de companhia".

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