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Madrigal lúgubre (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade


"Madrigal lúgubre" é um tocante e trágico poema em tempo de guerra.

Poema lírico, pastoril, que valoriza um cenário alegre, bucólico, matinal e amoroso. O adjetivo lhe traz feições funéreas e macabras.

Nesse poema, o eu-lírico fala da frustração afetiva e insatisfação sexual. É um texto de intensa sátira, em que acusa a necessidade subjetiva do amor.

Com um olhar desencantado sobre seu século repleto de crises e falências morais, o mineiro itabirano constrói o lirismo reflexivo amargo e irônico deste poema.

Em "Madrigal lúgubre" o desencanto amargo com os horrores provocados pela omissão da elite burguesa dominante, representada metonimicamente na imagem da princesa encastelada num mundo artificial, já assume o tom do grotesco no próprio título que unifica no mesmo plano a forma poética do Madrigal, composição engenhosa e elegante, um galanteio dirigido às damas e o vocábulo lúgubre, que se refere ao fúnebre, lutuoso, triste, desencantado.

ó princesa! ó donzela
em vossa casa, de onde o sangue escorre
quisera eu morar

Ao desconstruir as expectativas do que seria a função galanteadora do Madrigal, Drummond prepara o ambiente da crítica moral dirigida à apodrecida elite burguesa dominante, seja essa cooptada pelo jogo de interesses econômicos internacionais, ou seja, diretora da máquina do mundo capitalista. Os detentores do poder e seu falido projeto civilizador são simbolizados na imagem da princesa omissa, de beleza longínqua que habita um mundo ilusório, à margem da espessura da vida real, e que tece com "mãos níveas e mecânicas (...) algo parecido com um véu", alienador, mas que não consegue ocultar a crueldade de sua civilização. "O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso / que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo".

As imagens grotescas da lama e dos detritos humanos, gerados por essa elite omissa, surgem no verso de abertura do poema, que desvela o inumano soerguimento desse mundo artificial e alienado das minorias hegemônicas detentoras do poder. A metafórica "casa feita de cadáveres" de onde o sangue escorre, a sociedade capitalista, se erigiu através da destruição da dignidade humana, da exploração física da mão-de-obra dos estratos mais inferiores da pirâmide social e se sustenta através da morte de anônimos combatentes de guerra a expandir os mercados consumidores das elites nas conquistas dos campos de batalha. Essa semântica do dejeto humano (os cadáveres) transita pelos demais versos com algumas variações vocabulares (meninos mortos, mutilados, dois mil e oitocentos atropelados).

Não vos direi dos meninos mortos
(nem todos mortos, é verdade,
alguns apenas mutilados).
Tampouco vos contarei a história
Algo monótona talvez
Dos mil e oitocentos atropelados
No casamento do rei da Ásia (...)

Mas volta, com pungência crítica, na incômoda consciência culposa da princesa-burguesia na quarta estrofe, onde surge a imagem grotesca e surrealista do sangue criminoso de séculos de exploração social a fluir pelas escadarias desse castelo-mundo capitalista.

Sutil flui o sangue nas escadarias
Ah, esses cadáveres não deixam
Conciliar o sono princesa?
Mas o corpo dorme; dorme assim mesmo.

É interessante notar como Drummond assume a função de porta-voz dessas sobras humanas que regressam dos campos de batalha ou que são exterminadas nas invasões das cidades européias, com certo ar de compaixão por serem tão estigmatizadas quanto ele.

A "sujeira" desse mundo é representada, escatologicamente, na imagem do "palácio em ruínas", que se corrói despertando a necessidade de despertar a velha princesa (a burguesia alienada) para a construção de um novo momento histórico-social mediante os gritos e o despertar dos mortos (os cidadãos alienados) pelo soar das trombetas. Este despertar retumbante surge como uma clara releitura social da passagem bíblica do livro “Apocalipse” (o juízo final) do Novo Testamento, como metáfora da esperança utópica de reação popular contra o atual estado caótico da sociedade.

Princesa, os mortos! Gritam os mortos!
Querem sair! Querem romper!
Tocai tambores, tocai trombetas,

Outras manifestações grotescas da imundice moral desse mundo em decomposição surgem no sexto verso da segunda estrofe na imagem do "jornal sujo, embrulhando fatos, homens e comida guardada". Há uma possível alusão aos tablóides da imprensa oficial, que compactuavam com a sujeira moral de seu tempo por distorcer os fatos, embrulhar a divulgação verídica das profundas iniqüidades sociais.

Além disso, há uma clara referência aos jornais usados, sujos, que aquecem o frio dos sem tetos (embrulhando os homens) e guardam os restos de refeições lançadas ao lixo (embrulhando comida).

Num gesto de desespero, nesse madrigal fúnebre e desencantado, o poeta almeja uma reconciliação com a distante princesa-burguesia ("arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós"), mas somente vislumbra esse acerto de contas num futuro utópico. “Adeus, princesa, até outra vida”.

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