Malagueta, Perus e Bacanaço (Livros), de João Antônio

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A obra Malagueta, Perus e Bacanao, de Joo Antnio, um livro composto por oito contos e uma novela, que destaca-se pela linguagem fora dos padres estticos ainda predominantes. Joo Antnio da nfase em sua literatura ao mapeamento dos biscateiros destacando nessa, que sua fase paulista, os espaos dos bairros de So Paulo. Os contos so ambientados em espaos tipicamente masculinos, como os quartis do exrcito, os sales de sinuca e as rodas de samba, e se caracterizam por um grau de realismo maior que o normal.

Esta caracterizao parcial e provm de uma leitura superficial dos contos de Joo Antnio.

Nesta obra, Joo Antnio exps de forma simples e lrica (mas contundente), flagrantes da vida minscula de personagens suburbanos, registrando especialmente o drama dos jogadores de sinuca, os ltimos malandros paulistas, condenados ao desaparecimento pela urbanizao feroz da cidade. Contos como "Menino do caixote", "Afinao da arte de chutar tampinhas" e o prprio conto-ttulo do livro esto entre as melhores histrias curtas brasileiras de todos os tempos.

Este foi o livro de estria de Joo Antnio nas letras brasileiras, publicado em 1963. Traz em suas pginas o submundo das classes perifricas, os desassistidos pela sociedade, juntamente com suas particularidades, ou melhor, seus problemas. Pormenores eficientemente mostrados por algum que vivencia, de perto, cada fato, os costumes tpicos dos seres que escolhe como personagens e os transporta literatura, reproduzindo-os com a sabedoria de um eminente criador artstico.

A averso ao trabalho institucionalizado, por parte do ser malandro, tambm se faz notar em Malagueta, Perus e Bacanao j que os tipos que habitam a obra, particularmente os da ltima parte intitulada Sinuca, se enquadram neste caracterizao, graas focalizao dada pelo narrador que observa e relata os diversos acontecimentos, adotando uma postura semelhante dos protagonistas, inclusive na prpria escolha da linguagem desses tipos, que acaba assumindo como sua e, por este motivo, os define literariamente como malandros.

atravs de um narrador como esse, aderente s personagens do submundo ficcional de Joo Antnio, que figuras como Paran, do conto Frio, Vitorino, de Menino do Caixote, e as trs personagens-ttulo e mestres da sinuca de Malagueta, Perus e Bacanao so trazidas ao conhecimento dos leitores como tpicos vadios que perambulam por diversos ambientes e fazem da picardia, da malcia e da trapaa seu meio de vida, seu modo peculiar de trabalhar.

Sobrevivem sua maneira, burlando a fome, a falta de dinheiro e demais infortnios, como os policiais ou malandros mais talentosos.

Neste livro o autor se faz um verdadeiro descobridor, na medida em que adentra o mundo dos excludos, dando a ver, pela linguagem, uma realidade at ento oculta, desconhecida para os leitores, vale dizer, para os membros da camada privilegiada.

Existe uma diversidade de tipos nestes contos de Joo Antnio, como por exemplo, o malandro especialista em sinuca e cuja aparncia decadente, representado na figura do velho Malagueta, de Malagueta, Perus e Bacanao. No mesmo conto, tem-se tambm a presena de um gigol meticuloso, a personagem Bacanao.

Joo Antnio renovou o tratamento de temas urbanos ao desenvolver uma transfigurao do homem marginalizado, humilhado, dando-lhe estatuto artstico. Por isso, claro que a mera incluso de personagens proletrios, malandros, bomios numa narrativa no despertaria maior interesse, no fosse o poder de estilizao do escritor. Tal perspiccia estilstica tambm se revela na estrutura interna de Malagueta, Perus e Bacanao, pois os temas urbanos so ramificados numa diviso estratgica que se amarra pelo tema abstrato da busca.

As histrias do livro so distribudas em trs partes distintas, mais especificamente em temticas diversas:

- A primeira parte, intitula-se Contos gerais, cujas narrativas so: Busca, Afinao da arte de chutar tampinhas e Fujie. Esta parte traz a marginalizao ligada mais diretamente a uma subjetividade impulsionada pela procura de si e a transgresso no amor impossvel.

- A segunda parte intitula-se Caserna, e fazem parte as narrativas: Retalhos de fome numa tarde de G.C. e Natal na cafua, o homem preso procura uma forma de liberdade, o ambiente dos quartis, o mundo aparentemente da ordem, representado pelos militares.

- A terceira e ltima seleo de narrativas, denomina-se Sinuca, na qual esto as narrativas: Frio, Visita, Menino do caixote e Malagueta, Perus e Bacanao, so textos onde a marginalizao social se avulta, pois os personagens esto encurralados entre a rua e a mesa de sinuca. Estes textos ocupam boa parte da obra e tematizam, como citado, o cotidiano dos jogadores de sinuca. nesta parte que a malandragem, juntamente com o trfico de drogas e a prostituio, se tornam evidentes.

Nas duas primeiras partes, as narrativas equilibram a emotividade de histrias simples e uma notvel ausncia de sentimentalismo. J a ltima que instaura um dos temas primordiais do escritor: o mundo da sinuca e da malandragem.
Podemos dizer que no conto Malagueta, Perus e Bacanao, se articula o ncleo forte deste livro, atingindo a sua plenitude no arranjo e na distribuio da estrutura. O ritmo ajustado fala, a frase delineando os tipos, a expresso definindo o nico jeito de ser da existncia possvel.

As narrativas so flagrantes vivos da vida de determinadas camadas populares de So Paulo, fixados com uma tcnica que, devidamente transposta, aproxima-se de quadros impressionistas. Aqui, a maneira de ver o mundo a dos personagens, pois Joo Antnio assume cada um, transfigura-se neles. No faz discurso, no defende tese: abre a ferida e deixa-a sangrar. Tudo construdo pela imagtica da cidade grande, com o vento frio, com as suas ruas tortuosas e suas instituies fustigando os seus marginais. Nas narrativas vmo-los passar, tocados, de vez em quando parando ali no bar deserto, quando todos os cautelosos do mundo esto dormindo, quela hora da manh. a partir da imagem potica que Joo Antnio conserva o frescor daquilo que revela, pois, para constru-la, seu esprito inventa um sistema de afinidades, que constituem em absoluto um reflexo da realidade, mas um desenho por ele prefigurado. Trata-se de um olhar singularssimo sobre a nossa realidade urbana, pois ele v a densidade dramtica que primeira mirada no se consegue enxergar no dia-a-dia das classes subalternas, a pequena burguesia sofrida, a arraia mida dos espaos grados. Em Malagueta, Perus e Bacanao no h obstculos entre a imagem e a coisa, e por isso no h sombra entre a palavra e a realidade circundante, a no ser as meias-tintas de um olhar impressionista.

Embora haja mesmo realismo feroz na obra, uma essncia suave e vulnervel se esconde atrs da aparncia brutal. o lirismo. o esforo esttico de Joo Antnio em expressar a oposio entre a vida social dos personagens e as suas emoes individuais. Essa oposio aparece tambm numa variante que, porm, tende a desaparecer no decorrer do desenvolvimento literrio do autor, num processo em que a poesia envolve e eleva o marginalizado socialmente. E Joo Antnio no traz os conceitos sociais de fora para as suas formaes lricas, mas os sorve da rgida intuio delas mesmas.

No conto-ttulo, Malagueta, Perus e Bacanao, por exemplo, as personagens andam, movimentam-se, perambulam, mas as palavras so parcas, os dilogos econmicos. Predomina o silncio ao longo da narrativa, o que significativo do estilo adotado por Joo Antnio, que se utiliza da economia para obter o mximo de significao. A conteno verbal dos personagens compensada por uma linguagem onde a imagem se incorpora, se une palavra, poetizando-a. Assim, h um dilogo entre Malagueta e um co, um vira-lata, que se d apenas atravs do olhar. Dilogo silencioso e fraternal, ausente de palavras, mas prenhe de significados: um velho, quase mendigo, se reconhece no co e vice-versa. A denncia emerge da poesia na cena tocante, onde a carga potica elimina qualquer possibilidade de uma literatura denotativa e panfletria. O processo lrico humaniza o homem e o co simultaneamente, surpreendendo-os na sua solido, na sua carncia e precariedade.

O conto que d ttulo ao livro, "Malagueta, Perus e Bacanao", descreve as andanas de trs malandros jogadores de sinuca pela noite de So Paulo. A ao tem incio num bar da Lapa, lugar onde tambm termina a narrativa. Depois de passarem por Barra Funda, Centro e Pinheiros tentando faturar uma grana, os parceiros voltam Lapa sem dinheiro. A circularidade confere recorrncia fabular narrativa, como se os personagens vivessem num moto-contnuo o perde-ganha infinito da malandragem.

O conto cresce se lido junto com as primeiras narrativas do livro. Os protagonistas de "Busca" e "Afinao da Arte de Chutar Tampinhas" tambm oscilam entre trabalho e vagabundagem, entre ordem e desordem, entre os plos positivo e negativo da sociedade, funcionamento que Antnio Cndido definiu como "dialtica da malandragem".

A conteno que se pode depreender da ausncia da fala dos personagens em momento to angustiante indica a opo do autor por uma dico maneira de Graciliano Ramos. Dizer muito com pouco. H uma economia de meios, um estilo sincopado; a realidade opressora antes sugerida, insinuada nos silncios das falas dos personagens.

Todas as narrativas de Malagueta, Perus e Bacanao, tem forma e motivo indissociveis.

Os contos de abertura equilibram com maestria a emotividade de histrias simples e uma notvel ausncia de sentimentalismo. Os ltimos instauram aquele que seria um dos temas primordiais da obra do escritor: o mundo da sinuca e da malandragem, com seus tipos, sua tica, sua esttica, por meio de uma estilizao brilhante da linguagem oral.

Ao utilizar a linguagem do malandro, jeitos, cdigos, o escritor chega a uma sintaxe malandra. Nesse sentido, os erros sintticos, os enunciados quebrados, as frases curtas, a sonoridade reproduzindo a linguagem oral (o autor procura abreviar o mximo possvel as diferenas entre linguagem oral e linguagem escrita), as grias, os esteretipos, os ditos populares, as tragdias cotidianas etc, no devem ser entendidos superficial e preconceituosamente. Constituem partes integrantes de um tipo especfico de criao literria, realizada atravs do trabalho de montagem, que com suas caractersticas, no encontra similar na Literatura Brasileira, a no ser, claro, e de maneira apenas aproximativa no caso de Lima Barreto, pai adotivo do autor Joo Antnio.

O estilo de Joo Antnio adequado forma catastrfica do conto, que conta sem contar, revela pelo que oculta, at o momento final, quando o desenho se completa e o segredo se revela. O escritor recria em suas obras um mundo real, que estimula a esttica das coisas como elas so. Os contos so escritos numa prosa dura, reduzida s frases mnimas, rejeitando qualquer elegncia e, por isso mesmo, adequada para representar a fora da vida.

Malagueta, Perus e Bacanao um livro que se pergunta, no comeo dos anos 60, sobre o destino do Brasil urbano e industrial. A obra uma utopia de um pas positivamente malandro: frgil e inventivo, erudito e popular, violento, mas amoroso, fraterno, ainda que espoliador.

Sinuca, samba, futebol, arte e a prpria literatura se afiguram assim como prticas reais e metafricas, pontos de fuga rumo a um horizonte futuro.

O discurso do narrador de Malagueta, Perus e Bacanao to individualizado, to colorido e to desprovido de autoritarismo ideolgico como o discurso das personagens.

Sua posio fluida, porque usa a linguagem das personagens representadas na obra. Ele no pode opor s suas posies subjetivas, um mundo mais autoritrio e mais objetivo.

A marginalizao dos personagens de Joo Antnio no se reduz questo econmica, pois ele trata a excluso como um processo multifacetado, que se refere situao em que o homem no tem a possibilidade de viver a sua totalidade, seja numa dimenso cultural, social, poltica, econmica ou psicolgica. Essa complexidade do processo de excluso aparece nas narrativas, Afinao da arte de chutar tampinhas e Fujie, cujos personagens tem posio econmica estvel, mas participam de uma excluso subjetiva.

Malagueta Perus e Bacanao pode ser considerada como uma sntese da obra jooantoniana, pois apresenta narrativas cujo processo criativo se d de dentro para fora, se atirando, em algumas delas, para um mundo que no exatamente o da chamada marginlia, ao qual os seus textos so sempre relacionados. Fujie e Afinao da arte de chutar tampinhas, por exemplo, trazem o erotismo e a alegoria, respectivamente, revelando um autor antenado com o homem nas suas mais complexas relaes com o amor e com a arte.

Dentro da resistncia que a poesia opera na construo significativa da obra, a alegoria em Afinao da arte de chutar tampinhas, tem papel importante, pois nesse discurso de recusa e inveno, est um ataque mecanizao do pensar e do dizer, pois o autor renova e intensifica a relao entre a palavra e os objetos. O universo da obra, portanto, povoado, antes de qualquer rtulo reducionista, por seres humanos, comuns, cotidianos cuja essncia dolorida e sofredora, se delineando, muito mais, como testemunhos do que como arqutipos. Seus personagens do um testemunho atual, sendo o criador apenas um solidrio na apreenso dos mais abrangentes apelos, do desencontro pela excluso social ou ntima.

Texto proveniente de:
Jane Christina Pereira - Doutoranda em Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Luciana Cristina Corra - Ps-Graduada em Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP)

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