Manifesto Antropofágico, de Mário de Andrade

  • Data de publicação

Publicado na "Revista Antropofagia" (1928), Manifesto Antropofgico propunha: alimentar-se de tudo o que o estrangeiro traz para o Brasil, sugar-lhe todas as idias e uni-las s brasileiras, realizando assim uma produo artstica e cultural rica, criativa, nica e prpria. Era preciso desvincular-se de laos passados, como o simbolismo, ainda fortemente presente naquela poca. O nome do manifesto recuperava a crena indgena: os ndios antropfagos comiam o inimigo, supondo que assim estavam assimilando suas qualidades.A idia do manifesto surgiu quando Tarsila do Amaral, para presentear o ento marido Oswald de Andrade, deu-lhe como presente de aniversrio a tela Abaporu (aba = homem; poru = que come).

Escrito com a ajuda de Mrio de Andrade e Raul Bopp, considerado o mais radical de todos os manifestos da primeira fase do Movimento Modernista. Ao resgatar a crena indgena de que os ndios antropfagos, ao comerem seus inimigos, estariam assimilando suas qualidades, ele defende uma espcie de projeto de resistncia s incorporaes feitas sem o devido senso crtico, A proposta era devorar a cultura e tcnicas estrangeiras e submet-las a uma digesto crtica em nosso estmago cultural, de forma assimil-las ou ainda vomit-las, se fossem consideradas imprprias ou indesejveis.

Oswald de Andrade alude ironicamente a um episdio da histria do Brasil: o naufrgio do navio em que viajava um bispo portugus, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por ndios antropfagos.

Leia na ntegra o Manifesto Antropofgico:

"S a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

nica lei do mundo. Expresso mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religies. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a me dos Gracos.

S me interessa o que no meu. Lei do homem. Lei do antropfago.

Estamos fatigados de todos os maridos catlicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermevel entre o mundo interior e o mundo exterior. A reao contra o homem vestido. O cinema americano informar.

Filhos do sol, me dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No pas da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramticas, nem colees de velhos vegetais. E nunca soubemos
o que era urbano, suburbano, fronteirio e continental. Preguiosos no mapa-mndi do Brasil.

Uma conscincia participante, uma rtmica religiosa.

Contra todos os importadores de conscincia enlatada. A existncia palpvel da vida. E a mentalidade pr-lgica para o Sr. Lvy-Bruhl estudar.

Queremos a Revoluo Caraba. Maior que a Revoluo Francesa. A unificao de todas as revoltas eficazes na direo do homem. Sem ns a Europa no teria sequer a sua pobre declarao dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela Amrica. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiao. O contato com o Brasil Caraba. Ori Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revoluo Francesa ao Romantismo, Revoluo Bolchevista, Revoluo Surrealista e ao brbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.

Nunca fomos catequizados. Vivemos atravs de um direito sonmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belm do Par.

Mas nunca admitimos o nascimento da lgica entre ns.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro emprstimo, para ganhar comisso. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lbia. Fez-se o emprstimo. Gravou-se o acar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lbia.

O esprito recusa-se a conceber o esprito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofgica. Para o equilbrio contra as religies de meridiano. E as inquisies exteriores.

S podemos atender ao mundo orecular.

Tnhamos a justia codificao da vingana. A cincia codificao da Magia. Antropofagia. A transformao permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversvel e as idias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que dinmico. O indivduo vtima do sistema. Fonte das injustias clssicas. Das injustias romnticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraba.

Morte e vida das hipteses. Da equao eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistncia. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicao com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O ndio vestido de senador do Imprio. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas peras de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

J tnhamos o comunismo. J tnhamos a lngua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Noti

Noti Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tnhamos a relao e a distribuio dos bens fsicos, dos bens morais, dos bens dignrios. E sabamos transpor o mistrio e a morte com o auxlio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exerccio da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

S no h determinismo onde h mistrio. Mas que temos ns com isso?

Contra as histrias do homem que comeam no Cabo Finisterra. O mundo no datado. No rubricado. Sem Napoleo. Sem Csar.

A fixao do progresso por meio de catlogos e aparelhos de televiso. S a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimaes antagnicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionrios, definida pela sagacidade de um antropfago, o Visconde de Cairu: - mentira muitas vezes repetida.

Mas no foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilizao que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus a conscinda do Universo Incriado, Guaraci a me dos viventes. Jaci a me dos vegetais.

No tivemos especulao. Mas tnhamos adivinhao. Tnhamos Poltica que a cincia da distribuio. E um sistema social-planetrio.

As migraes. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatrios e o tdio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfigurao do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famlias e a criao da Moral da Cegonha: Ignorncia real das coisas+ fala de imaginao + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

preciso partir de um profundo atesmo para se chegar idia de Deus. Mas a caraba no precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moiss divaga. Que temos ns com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o ndio de tocheiro. O ndio filho de Maria, afilhado de Catarina de Mdicis e genro de D. Antnio de Mariz.

A alegria a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memria fonte do costume. A experincia pessoal renovada.

Somos concretistas. As idias tomam conta, reagem, queimam gente nas praas pblicas. Suprimarnos as idias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a me dos Gracos, e a Corte de D. Joo VI.

A alegria a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura - ilustrada pela contradio permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absoro do inimigo sacro. Para transform-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porm, s as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se d no uma sublimao do instinto sexual. a escala termomtrica do instinto antropofgico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a cincia. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, contra ela que estamos agindo. Antropfagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do cu, na terra de Iracema, - o patriarca Joo Ramalho fundador de So Paulo.

A nossa independncia ainda no foi proclamada. Frape tpica de D. Joo VI: - Meu filho, pe essa coroa na tua cabea, antes que algum aventureiro o faa! Expulsamos a dinastia. preciso expulsar o esprito bragantino, as ordenaes e o rap de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituies e sem penitencirias do matriarcado de Pindorama."

Comentários

Siga-nos:

Confira no Passeiweb

  • O primeiro voo do Homem no espaço

    Em 12 de abril de 1961 o homem decolava, pela primeira vez, rumo ao espaço. Em 2011, no aniversário de 50 anos deste fato, ocorreram comemorações no mundo inteiro e, principalmente, na Rússia.
  • Tsunami

    Tsunami significa "onda gigante", em japonês. Os tsunamis são um tipo especial de onda oceânica, gerada por distúrbios sísmicos.
 

Instituições em Destaque

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo:
 
 
 
-

Notícias e Dicas - Vestibular

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas do Vestibular e dicas de estudo: