Manifesto Pau-Brasil, de Oswald de Andrade

  • Data de publicação

Publicado em 1924 no jornal "O Correio da Manh", enfatizava a necessidade de criar uma arte baseada nas caractersticas do povo brasileiro, com absoro crtica da modernidade europia. Alm de ter provocado discusses sobre o surgimento da conscincia nacional, o Manifesto Pau-Brasil conseguiu atualiz-la; rediscutindo a realidade com uma linguagem novssima. To importante para a poesia modernista, j trazia no seu bojo os germes que gerariam o antropofagismo. O Manifesto Pau-Brasil reivindicava uma linguagem natural, avesso ao bacharelismo e pedantismo, conclamava a originalidade nativa. O primitivismo como imaginao, liberdade de esprito, a juno do moderno e do arcaico brasileiro culminando com uma revoluo artstica nacionalista tendo por base suas razes primitivas.

Manifesto Pau-Brasil estava intimamente ligado aos poemas do volume de intitulado Poesia Pau-Brasil. Alm disso, eram vrias as reflexes que o manifesto continha de cunho esttico, isto , direcionadas especificamente poesia. claro, em sua linguagem telegrfica e aforismtica, o manifesto vinha carregado do esprito de poca do qual Oswald devedor: as vanguardas.

Leia na ntegra o Manifesto Pau-Brasil

"A poesia existe nos fatos. Os casebres de aafro e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, so fatos estticos.

O Carnaval no Rio o acontecimento religioso da raa. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordes de Botafogo. Brbaro e nosso. A formao tnica rica. Riqueza vegetal. O minrio. A cozinha. O vatap, o ouro e a dana.

Toda a histria bandeirante e a histria comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citaes, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difcil.

O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. No podemos deixar de ser doutos. Doutores. Pas de dores annimas, de doutores annimos. O Imprio foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavio de penacho.

A nunca exportao de poesia. A poesia anda oculta nos cips maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitria.

Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.

A volta especializao. Filsofos fazendo filosofia, crticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.

A Poesia para os poetas. Alegria dos que no sabem e descobrem.

Tinha havido a inverso de tudo, a invaso de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de socilogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.

gil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilgico. gil o romance, nascido da inveno. gil a poesia.

A poesia Pau-Brasil. gil e cndida. Como uma criana.

Uma sugesto de Blaise Cendrars : - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos far partir na direo oposta ao vosso destino.

Contra o gabinetismo, a prtica culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idias.

A lngua sem arcasmos, sem erudio. Natural e neolgica. A contribuio milionria de todos os erros. Como falamos. Como somos.

No h luta na terra de vocaes acadmicas. H s fardas. Os futuristas e os outros.

Uma nica luta - a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importao. E a Poesia Pau-Brasil, de exportao.

Houve um fenmeno de democratizao esttica nas cinco partes sbias do mundo. Institura-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que no fosse l mesmo, no prestava. A interpretao no dicionrio oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a mquina fotogrfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado - o artista fotgrafo.

Na msica, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava comps para a pleyela. Stravinski.

A estaturia andou atrs. As procisses saram novinhas das fbricas.

S no se inventou uma mquina de fazer versos - j havia o poeta parnasiano.

Ora, a revoluo indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites comearam desmanchando. Duas fases: 1) a deformao atravs do impressionismo, a fragmentao, o caos voluntrio. De Czanne e Malarm, Rodin e Debussy at agora. 2) o lirismo, a apresentao no templo, os materiais, a inocncia construtiva.

O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidncia da primeira construo brasileira no movimento de reconstruo geral. Poesia Pau-Brasil.

Como a poca miraculosa, as leis nasceram do prprio rotamento dinmico dos fatores destrutivos.

A sntese

O equilbrio

O acabamento de carrosserie

A inveno

A surpresa

Uma nova perspectiva

Uma nova escala.

Qualquer esforo natural nesse sentido ser bom. Poesia Pau-Brasil

O trabalho contra o detalhe naturalista - pela sntese; contra a morbidez romntica - pelo equilbrio gemetra e pelo acabamento tcnico; contra a cpia, pela inveno e pela surpresa.

Uma nova perspectiva.

A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma iluso tica. Os objetos distantes no diminuam. Era uma lei de aparncia. Ora, o momento de reao aparncia. Reao cpia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irnica, ingnua.

Uma nova escala:

A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianas nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indstria, da viao, da aviao. Postes. Gasmetros Rails.

Laboratrios e oficinas tcnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulguraes. Estrelas familiarizadas com negativos fotogrficos. O correspondente da surpresa fsica em arte.

A reao contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A pea de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idias, uma mistura. O quadro histrico, uma aberrao. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.

Nossa poca anuncia a volta ao sentido puro.

Um quadro so linhas e cores. A estaturia so volumes sob a luz.

A Poesia Pau-Brasil uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.

Nenhuma frmula para a contempornea expresso do mundo. Ver com olhos livres.

Temos a base dupla e presente - a floresta e a escola. A raa crdula e dualista e a geometria, a algebra e a qumica logo depois da mamadeira e do ch de erva-doce. Um misto de "dorme nen que o bicho vem peg" e de equaes.

Uma viso que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas eltricas; nas usinas produtoras, nas questes cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.

Obuses de elevadores, cubos de arranha-cus e a sbia preguia solar. A reza. O Carnaval. A energia ntima. O sabi. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajs e os campos de aviao militar. Pau-Brasil.

O trabalho da gerao futurista foi ciclpico. Acertar o relgio imprio da literatura nacional.

Realizada essa etapa, o problema outro. Ser regional e puro em sua poca.

O estado de inocncia substituindo o estada de graa que pode ser uma atitude do esprito.

O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adeso acadmica.

A reao contra todas as indigestes de sabedoria. O melhor de nossa tradio lrica. O melhor de nossa demonstrao moderna.

Apenas brasileiros de nossa poca. O necessrio de qumica, de mecnica, de economia e de balstica. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Prticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscncias livrescas. Sem comparaes de apoio. Sem pesquisa etimolgica. Sem ontologia.

Brbaros, crdulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minrio e a dana. A vegetao. Pau-Brasil."

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