Memorial do Convento, de José Saramago

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Anlise da obra

Publicado em 1982, o Memorial do Convento, de Jos Saramago, narra o perodo de construo de um Convento, em Mafra, em cumprimento de promessa feita pelo rei D. Joo V. Concomitantemente, narrada a construo de uma passarola, sonho do padre Bartolomeu com os auspcios do rei, mas perigosamente margem do Santo Ofcio. O padre ajudado pelo casal Baltasar / Blimunda.

Uma das questes corticais neste romance a fronteira entre a histria e a fico. Saramago no se v como um escritor histrico mas antes como um autor de uma histria na Histria. O seu argumento traduz-se numa estratgia narrativa que entrecruza trs planos relevando o da fico da Histria e o do Fantstico em detrimento do plano da Histria.

Memorial do Convento consegue articular um plano da Histria (Portugal no sculo XVIII, durante o reinado de D. Joo V, com Autos-de-F, procisso de penitentes, casamento dos infantes...) com um plano da fico da Histria (elementos histricos que so moldados pela ficcionalidade transformando, por exemplo, D. Joo V e a rainha Ana de ustria em caricaturas e elevando, na edificao de Mafra, um heri coletivo e annimo os milhares de trabalhadores) e o plano do Fantstico (construo da Passarola, sonho de Blimunda, Baltasar, personagens ficcionais e Bartolomeu Loureno, figura histrica do tempo).

Neste romance, Saramago transforma Mafra num smbolo do pas.

A escrita de Saramago integra-se nos novos caminhos do romance em Portugal nos ltimos anos tendo sabido recriar os caminhos do Fantstico. Em Memorial do Convento, a vertente fantstica, no sendo instituda como referncia isotpica primordial, funciona pela oposio ao mundo retratado, como elemento fundamental. No romance, a realidade histrica encontra-se enleada nas teias da fico e mais concretamente no fantstico quando fatos conhecidos pelo leitor so cruzados com elementos meta-empricos, como o nimo que d ao homem a possibilidade de voar e o jejum que comunica filha da feiticeira a capacidade de vislumbrar o interior dos humanos. O fantstico torna-se em Saramago "um modo de exacerbar a ateno sobre a terra portuguesa, sobre as suas demasias e os seus golpes.

Estrutura da obra

O romance est dividido em 25 captulos no-denominados, sem numerao alguma tambm, estabelecendo-se como diviso apenas os espaos em branco entre os que compem a obra.

Espao / Tempo

No romance existem alguns espaos nomeados:

1. O palcio que abriga a nobreza de D. Joo V, por onde o clero transita com facilidade;

2. As ruas de Lisboa, sempre cheias da "arraia-mida", o povo pobre , faminto;

3. A quinta (chcara) para onde vo Blimunda e Baltazar construir a Passarola;

4. A cidade de Mafra e os arredores.

O tempo narrativo do tipo cronolgico e est inserido entre duas datas: "dezessete de novembro deste ano da graa de 1717" e , como indica o ltimo captulo, a data da morte do escritor e comedigrafo brasileiro Antnio Jos da Silva, o Judeu, autor das Guerra de Alecrim e Manjerona, em 1739.

Ou seja, a histria que vamos analisar tem durao temporal de 22 anos.

O volume percorre um perodo de aproximadamente 30 anos na Histria de Portugal poca da Inquisio. O cenrio rico, registrando no s o fato histrico, mas reconstituindo a vivncia popular, numa viagem a diferentes povoados ao redor de Lisboa.

Foco narrativo

A obra, de imediato, traz uma novidade para o leitor: o narrador, indubitavelmente onisciente, comporta-se de uma forma inusitada ao apresentar a fala dos personagens. A forma cannica de se materializar o discurso direto com a utilizao dos chamados verbos dicendi e de uma notao constituda por dois pontos (:) e travesso () ou aspas (" "). Saramago no se utiliza desse expediente, adotando uma forma nova:

Blimunda levantou a cabea, olhou o padre, viu o que sempre via, mais iguais as pessoas por dentro do que por fora, s outras quando doentes, tomou a olhar, disse, No vejo nada. O padre sorriu, Talvez que no tenha vontade, procura melhor, Vejo, vejo uma nuvem fechada sobre a boca do estmago. O padre persignou-se, Graas a Deus, agora voarei. (p. 124)

O foco narrativo do romance do tipo cambiante, tambm chamado mltiplo, com predominncia em 3 pessoa. Verifique os exemplos:

1. Foco com terceira pessoa:

"J se deitaram. Esta a cama que veio da Holanda quando a rainha veio da ustria, mandada fazer de propsito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil cruzados, que em Portugal no h artfices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem se sabe se de madeira o magnfico mvel, coberto como est pela armao preciosa, tecida e bordada de flores e relevos de ouro, isto no falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e armada ainda no havia percevejos nela, to nova era, mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migraes no interior do palcio, ou da cidade para dentro, rica de matria e adorno no se lhe pode aproximar um trapo a arder para queimar o enxame, no h mais remdio, ainda no o sendo, que pagar a Santo Aleixo cinqenta ris por ano, a ver se livra a rainha e a ns todos da praga e da coceira." (p. 16)

Observao: Tanto em primeira quanto em terceira pessoas, o narrador se comporta como uma espcie de "guia" para seus leitores. Usa pronomes demonstrativos como se apontasse os acontecimentos, os seres e as coisas:

"Esta a cama que veio da Holanda(...)"

"Este que por desafrontada aparncia, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalo, parece soldado, Baltazar Mateus."

 2. Terceira + primeira: cambiante

"A pontos de h pouco tempo terem soltado uns cento e cinqenta de culpas menos pesadas, que ento estavam no Limoeiro, por junto, mais de quinhentos, com as muitas levas de homens que vieram para a ndia e que acabaram por no ser necessrios, e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta, que se declarou uma doena que nos ia matando a todos, por isso soltaram aqueles, um deles sou eu."

 "(...) enquanto no vai corporalmente acabar em Angola, para onde ir degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de crist- nova, que tenho vises e revelaes, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouo vozes do cu, mas explicaram-me que era efeito demonaco(...)

Memorial do Convento consegue articular um plano da Histria (Portugal no sculo XVIII, durante o reinado de D. Joo V, com Autos-de-F, procisso de penitentes, casamento dos infantes...) com um plano da fico da Histria (elementos histricos que so moldados pela ficcionalidade transformando, por exemplo, D. Joo V e a rainha Ana de ustria em caricaturas e elevando, na edificao de Mafra, um heri coletivo e annimo os milhares de trabalhadores) e o plano do Fantstico (construo da Passarola, sonho de Blimunda, Baltasar, personagens ficcionais e Bartolomeu Loureno, figura histrica do tempo).

O narrador apresenta uma natureza multmoda. As suas vozes mltiplas e a dificuldade de distino entre a sua voz e a das personagens so ainda fatores ancilares se prestarmos ateno ao distanciamento/aproximao em relao aos acontecimentos narrados com ironia e humor. O narrador assume o papel de comentador e de crtico no se furtando a uma relao de cumplicidade com o narratrio, utilizando a primeira pessoa do plural propiciando a este uma atitude de anlise e de crtica relativamente ao tempo representado e o seu prprio tempo de enunciao.

O autor, na linha da inovao e no caminho da subverso, consegue criar um ritmo de escrita que lembra a poesia, conjugando enumerao, comparao e metfora, introduzindo aforismos, provrbios e ditados, recriando o uso da pontuao, usando marcas do discurso oral, construindo efeitos irnicos e humorsticos e entrelaando o seu discurso com outros discursos literrios (como o de Cames) e jogos de conceitos tpicos do Barroco. O prprio Saramago, na posio de narrador do Memorial do Convento, explica sua opo pela recuperao da imaginao na escrita: "...fingindo, passam ento as histrias a ser mais verdadeiras que os casos verdadeiros que elas contam..." (Memorial do Convento pg.134).

O narrador utiliza o anacronismo em comentrios e crticas estabelecendo um paralelo entre o passado e o presente, levando a que elementos atuais se incorporem no passado como acontece com o comentrio "diramos hoje de gala" quando se refere a um uniforme.

Personagens

A reconstruo do romance histrico em Saramago tem na personagem, como j indiciamos, outro exemplo de subverso. Na tradicional ordenao das personagens do romance histrico, podamos encontrar o protagonista-tipo, representante das evolues do momento histrico-social e as figuras histricas tpicas. Estes elementos so a anttese em Saramago.

A personagem neste autor excntrica e singular. Destaca-se pelo inslito e pela diferena, como Baltasar e os seus poderes sobrenaturais ou Blimunda... Por outro lado, o coletivo dos trabalhadores de Mafra, porventura esquecidos num romance histrico tradicional, so elevados pela diferena ao centro das atenes na narrativa, numa ntida inteno de valorizao.

Blimunda uma personagem que se destaca pela dinmica que imprime ao e pelas suas facetas peculiares: em jejum, consegue ver "por dentro" pessoas e objetos, numa combinao do popular, do fantstico e do fictcio.

O padre Bartolomeu Loureno o oposto do clero da poca: acadmico e intelectual que tem dvidas, um inventor que sonha com uma mquina fantstica.

A subverso conhece o seu grau mais elevado no tratamento das grandes figuras histricas. Ao contrrio do que acontece no romance histrico de Scott e Tolstoi onde Maria Stuart, Lus XI ou Kutusov so figuras inesquecveis de recorte de poca, pessoal e humano, em Saramago as figuras histricas perdem a sua grandeza histrica e so pintadas com as cores da caricatura. So exemplos mximos o rei e a rainha, meros instrumentos da necessidade nacional em produzir um herdeiro.

A subverso ainda transgresso na forma de tratamento das personagens Baltasar e Blimunda que assumem, no fundo, o centro do romance ao contrrio do que o leitor poderia esperar a partir das pginas iniciais, nas quais Mafra e o casal real se perfilam como ncleo da narrativa.

A relao entre Baltasar e Blimunda est fora de todos os cdigos, nomeadamente os sociais da poca tornando-se este par um smbolo da transgresso e de mensagem para fora do seu tempo e para todos os tempos. O casal institudo em comunho com o universo numa ligao amorosa ilcita e desviante, sem cnone ou regra de poca, alcanando num espao sem igual uma perfeio que no deste mundo.

1. Personagens Histricos

D. Joo Quinto, rei de Portugal, a quem se atribua grande sabedoria, mau humor e sexualidade exagerada. No romance, retratado como um libertino ignorante, libidinoso e vulgar, que gostava de montar rplica da Baslica de S. Pedro.

D. Ana Maria Josefa, princesa austraca que se tornou rainha de Portugal, casada com D. Joo V. A histria a descreve como beata, submissa e medrosa.

Padre Bartolomeu Loureno de Gusmo, brasileiro, nascido em 1685, apelidado de "O Voador" por ter inventado a passarola (aerstato); morto em 1724, dado como louco pela Inquisio.

Domnico Scarlatti, msico italiano barroco, comps inmeras msicas para cravo e esteve realmente em Portugal por tempos, ensinando msica para a infanta D. Beatriz. Ao voltar Itlia, notabilizou-se e ganhou nome e destaque como compositor e maestro.

2. Personagens de fico:

As personagens que compem este romance nos encantam pela singeleza de que so compostas, pela coragem, bravura. Mas sobretudo nos encantam pelo que so de humanas, inquietas e capazes de ir ao encontro de seu verdadeiro destino.

Blimunda de Jesus (Blimunda Sete-Luas) - uma criatura diferente: enxerga as pessoas "por dentro" se estiver em jejum. Tem 19 anos, forte, decidida, ama Baltazar assim que o v, sabia que ele seria seu amor para sempre: "Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos mdio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o corao. Estavam ambos nus."

Baltazar Mateus (Baltazar Sete-Sis) - fora soldado e, na guerra, perdera a mo esquerda: "Foi mandado embora do exrcito por j no ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mo esquerda pelo n do pulso, estraalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros." Tem 26 anos, forte e destemido. Tambm sabe que ter Blimunda para sempre: "Baltazar Mateus, o Sete-Sis, est calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estmago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e s vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lascado carvo de pedra."

Outras personagens - Joo Elvas, Manuel Milho, Jos pequeno, lvaro Diogo e Ins Antnia (cunhado e irm de Baltazar), Marta Maria (me de Baltazar) e Joo Francisco (pai de Baltazar).

Enredo

Jos Saramago volta a apresentar no romance, um contador de histrias, Manuel Milho, trabalhador na construo do Convento de Mafra e amigo de Baltasar Sete-Sis, um dos protagonistas da narrativa. Em volta de uma fogueira, antes de dormir, sentavam-se os amigos para ouvir a histria contada  por Manuel Milho por etapas, deixando o melhor da histria sempre para o dia seguinte, acirrando, assim,  a curiosidade dos ouvintes que resistiam contra a postergao do fim da narrativa:  "... O Jos Pequeno protestou, Nunca se ouviu histria assim, em bocadinhos, e Manuel Milho emendou, Cada dia um bocado de histria, ningum a pode contar toda... (Memorial do Convento - pg. 253). A histria de Manuel Milho acaba com uma lio moral que ensina aos ouvintes o exemplo daqueles que perseguiram tenazmente as suas vontades.

D. Joo V est casado com D. Maria Ana Josefa h mais de dois anos, mas ela ainda no engravidou. A rainha reza novenas e, duas vezes por semana, recebe o rei em seus aposentos. preciso dizer aqui que o rei, quando ambos se casaram, dormia com ela todos os dias, mas resolveu separar os aposentos por causa de um cobertor de penas de ganso que trouxe ela da ustria, e, com o passar do tempos, somando-se a ele humores de ambos, passou a ter cheiro insuportvel. O rei no fez ainda 22 anos e monta, para se distrair e porque gosta, a rplica da Baslica de S. Pedro.

Mas, O cntaro est espera da fonte, metfora para definir que a rainha est espera do rei como se fora um vaso onde ele depositar seu sucessor. E para os aposentos da rainha o rei se dirige, mas, como se fosse um apresentador, o narrador nos informa que chegou ao castelo D. Nuno da Cunha, bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Afirma o bispo que o frei Antnio de So Jos assegurou que se o rei se dignasse a construir um convento em Mafra, teria descendncia:Enquanto isso, a rainha conversa com a marquesa de Unho, rezam jaculatrias e proferem nomes de santos. Sado o bispo e o frei, o rei se anuncia D. Maria tem que "guardar o choco", a conselho dos mdicos e murmura oraes, pedindo ao menos um filho que seja. Sonha com o infante D. Francisco, seu cunhado e dorme em paz. Em paz? Os percevejos, mal cessam as mexidas no colcho real, "comeam a sair das fendas, dos refegos, e se deixam cair do alto do dossel, assim tornando mais rpida a viagem." D. Joo tambm sonhar esta noite, em seu quarto. Sonhar com seus descendentes, com o filho que poder advir da promessa da construo do convento de Mafra. Um convento, conforme disse frei Antnio de S. Jos, s para franciscanos...Frei Miguel da Anunciao morreu de tifo (ou febre tifide) e seu corpo exalou, durante trs dias, nas cerimnias, um suavssimo cheiro: "(...) se vivo fizera caridades, defunto obrava maravilhas." A notcia correu e, antes que invadissem a igreja procura de milagres, levaram o corpo s ocultas, e s ocultas o enterraram:

O narrador enfatiza que Lisboa terra de ladres que pilham as igrejas e acrescenta que outros lugares tambm foram roubados: Guimares, por exemplo. Um outro caso que narrado sobre milagres o de ladres que foram roubar a igreja de S. Francisco e que l foram recebidos pelo prprio santo, em pessoa. Um dos ladres, tomado pelo pavor, sofreu um choque to grande que ficou como morto, estatelado, no cho. Socorrido por fiis que o colocaram sobre o altar, recuperou-se. O santo transpirou demasiado e para fazer acordar o homem que estava dado como morto, passaram nele uma toalha umedecida com o suor do santo. O ladro se recuperou e, levantou-se e foi embora, "salvo e arrependido".

Outro caso contado pelo narrador o do furto de trs lmpadas de prata do convento de S. Francisco de Xabregas no qual entraram gatunos pela clarabia e, passando junto capela de Santo Antnio, nada ali roubaram . Entrando na igreja, os frades deram com ela s escuras. Constato que no era o azeite que faltava, mas as lmpadas que haviam sido levadas; os religiosos ainda puderam ver as correntes de onde pendiam as lmpadas se balanando e saram esbaforidos pelas estradas, atrs dos ladres.

E ento, desconfiados de que os ladres pudessem estar ainda escondidos na igreja, deram volta a ela, palmilharam-na e s ento viram que no altar de Santo Antnio, rico em parta, nada havia sido mexido.O frade, inflamado pelo zelo, culpou Santo Antnio por ter deixado ali passar algum, sem que nada lhe tirasse, e ir roubar ao altar-mor: O frade deixou que o Menino "como fiador", at que o santo se dignasse a devolver as lmpadas. Dormiram os frades, alguns temerosos que o santo se desforrasse do insulto... Na manh seguinte, apareceu na portaria do convento um estudante que, querendo falar ao prelado, revelou estarem as lmpadas no Mosteiro da Cotovia, dos padres da Companhia de Jesus. O narrador faz-nos desconfiar que tal estudante, apesar de querer ser padre, fora o autor do furto e que, arrependido, deixara l as lmpadas, posto no ter coragem de restitu-las pessoalmente.

Voltaram as lmpadas a S. Francisco de Xabregas... Retoma o narrador o caso do frei Antnio de S. Jos, observe que ele (o narrador) faz-nos de novo desconfiar de que o frei, atravs do confessor de D. Maria Ana, tinha sabido da gravidez da rainha bem antes de que o rei.

Os homens vo procisso e as mulheres ficam janela, "esse o costume." Os penitentes passam com grilhes enrolados s pernas, os ombros suportando grossas barras de ferro; chicoteiam-se com cordes em cujas pontas prendem-se bolas de cera dura Depois de rezar, D. Maria Ana, acompanhada das damas, comea a adormecer. Sonha com o sudrio e quando adormece profundamente aparece-lhe o cunhado Francisco, montado em um cavalo enfeitado, voltando da caa: Sem a mo, que ficara metade em Portugal, metade na Espanha, Baltazar no se dobrara: mandara fazer um gancho e um espigo, perambulara pelo interior de Portugal, soubera que o exrcito de que fizera parte andava agora roto e disperso, a tropa andava descala e violentando mulheres.Baltazar dirigia-se agora para Lisboa, credor de uma mo que perdera na guerra. Leva os ferros no alforge porque, em dados momentos, sente que ainda tem a mo e, por isso, se sente mais livre e feliz. como se escondesse de si mesmo esta infelicidade. Passa por Peges e ali matar um homem, entre dois que o quiseram roubar, mesmo que os avisasse que nada portava de valor.Baltazar sonha freqentemente que ainda tem a mo que perdera; anda descalo. De barco, terminou o percurso e chegou a Lisboa, finalmente. O cais imundo, com seus cheiros, agua os sentidos de Baltazar e torce-lhe o estmago, mas ele tem esperanas de que o indenizem pela mo perdida. De longe, v o palcio de D. Joo V e vendo passar as pessoas, d-lhe uma enorme saudade da guerra. Andou por bairros e praas e, por fim, tarde, foi beber um caldo portaria do convento de So Francisco. Conhece Joo Elvas, soldado como ele, um pouco mais velho. Ambos pobres, perdidos por Lisboa, procuram um lugar para dormir: dormiram entre homens, uns temendo os outros, contando casos de assassinatos e mortes.

D. Maria Ana est de luto pela morte do irmo Jos, imperador da ustria, que morreu de varola. Apesar de grvida, sangraram-na trs vezes e deixaram-na to debilitada a ponto de estar abatida. O palcio tambm est triste, o rei declarou luto oficial; mas a cidade, esclarece o narrador, est alegre: Hoje vai haver um auto-de-f, um domingo e os moradores gostam de assistir aos tormentos impostos aos condenados. O rei jantar na Inquisio junto com os irmos, os infantes, a rainha, pelo motivo exposto, no participar da festa. Abunda a comida, o rei sbrio e no bebe vinho.O povo furioso grita improprios aos condenados, as mulheres, debruadas nos peitoris, guincham: "a procisso uma serpente enorme". Entre as pessoas, est Sebastiana Maria de Jesus, a me de Blimunda. Procura aflitamente pela filha, que imaginava estar condenada tambm a degredo e de quem no ouviu o nome. V a filha entre as pessoas que acompanham o auto, mas sabe que ela no poder falar-lhe, sob pena de condenao. padre e Baltazar estavam com ela em casa:

Baltazar nem sabia por que viera quela casa; depois do auto-de-f viera a ela com padre Bartolomeu Loureno; Blimunda deixara a porta aberta para que Baltazar entrasse. Ele viera atrs, o padre acendera a candeia e Blimunda esquentou a sopa para os trs.Havia somente uma colher. O padre comeu primeiro e passou-a a Baltazar e, depois, pegando a colher de que se servira o soldado, dirigiu-se Blimunda: Casados...O padre deitou a bno em tudo quanto cercava o casal e saiu.Blimunda jura que nunca olhar por dentro de Baltazar, ele retruca que ela j o fez: "Juras que no o fars, e j o fizeste." Deitaram-se. Blimunda era virgem e entrega-se a ele. Com o sangue que correu dela, persignou-se, fez uma cruz sobre o peito de Baltazar. E quando amanheceu, ele viu Blimunda deitada a seu lado, de olhos fechados, a comer po. Quando terminou de comer, abriu os olhos e disse: "Nunca te olharei por dentro."

Corre um boato de que os franceses esto para invadir Portugal, mas chega, na verdade, uma frota francesa trazendo bacalhau, o que andava em falta. Baltazar imagina como se sentem os soldados que esperavam pela batalha,o soldado que mora em Baltazar sente saudades da guerra, mas imagina que se para l fosse teria muitas saudades, demasiadas, de Blimunda, de quem ainda no consegue decifrar direito a certa cor dos olhos.Estavam Baltazar e Joo Elvas no Terreiro do Pao, conversando, quando viram sair do palcio o padre Bartolomeu de Gusmo; Joo Elvas o aponta como "o Voador". O padre chama Baltazar a um lado e diz que, aps ter falado aos desembargadores sobre a penso de guerra pretendida pelo soldado, por ter perdido nela a mo, responderam a ele que "iam ponderar o teu caso, se vale a pena fazeres petio, depois me daro uma reposta."

Baltazar pergunta quando poder obter a resposta e Bartolomeu diz que no sabe, mas promete pessoalmente falar ao rei, "que me distingue com sua estima e proteo." O soldado espanta-se ao saber que o padre privava da amizade do rei e nada fez para salvar a me de Blimunda, que tambm era sua conhecida.Baltazar pergunta a ele por que o apelidaram O Voador. O padre diz porque voara:

Bartolomeu se queixa de que as pessoas no o compreendem e diz temer o Santo Ofcio, por isso tem amizades que o defendam e cheio de precaues. O soldado, ento, pergunta a ele, que conhecia a me de Blimunda e sabia-lhe as artes, por que a moa sempre come po antes de abrir os olhos.Bartolomeu convide Baltazar para ir a S. Sebastio da Pedreira ver a mquina que estava construindo; aluga uma mula, mas Baltazar vai a p; o padre lhe diz que chama por ironia o seu objeto voador de "passarola". Ao chegar ao porto da quinta do duque, onde est a mquina voadora, o padre tira a chave do bolso e abre o porto, depois conduz Baltazar at o celeiro.Bartolomeu indica-lhe leme, velas e mastro e o convida para trabalhar para ele, o que assusta o soldado, que se considera, na realidade, um homem do campo e, ainda por cima, maneta. Sete-Sis ouvira com ateno a explicao do padre e levantando um pouco os braos, tomado de coragem, disse.

O padre arranjou emprego para Baltazar, enquanto no pode, por falta de dinheiro, continuar a construir a passarola. O Sete-Sis trabalha num aougue do Terreiro do Pao, transportando peas de carne nas costas. Podem, ento, ele e Blimunda, comer melhor, com o que ganha de resto. D. Maria Ana est no fim da gravidez, bojuda "como uma nau da ndia". Holandeses invadem Pernambuco, naus trazem carregamento da China, h lutas no Recife, mas nada disso interessa rainha que batizara a princesa, no dia de Nossa Senhora do , sete bispos e "ficou a chamar-se Maria Xavier Francisca Leonor Brbara, logo ali com o ttulo de Dona adiante, apesar de to pequena ainda, est ao colo, baba-se e j dona(...)" Do tio e padrinho, D. Francisco, ganhou uma cruz de brilhantes, pouco, perto do que a me recebera do cunhado: brincos de diamantes, de alto valor.Baltazar e Blimunda foram ver a festa, ele mais cansado, de tanto carregar tanta carne para o banquete; e di-lhe a mo esquerda, na qual usa o gancho para tais finalidades; Blimunda segura-lhe a mo direita. Frei Antnio morrera pouco antes, sem ter visto o fruto de sua premonio.

Baltazar acorda sempre cedo, antigo hbito de soldado, e o narrador nos anuncia que o ano mudou j, distante aquele dia em que ambos se conheceram e se amaram pela primeira vez. Todos os dias, antes que nascesse o sol, Blimunda acordava e, antes de abrir os olhos, comia o po que deixava de propsito no alforje.Baltazar, hoje, escondera-lhe o po: "Hoje se saber.", anuncia o narrador pondo-a diante de ns a buscar e tatear o que o soldado havia escondido. Baltazar avisa a mulher que escondera o po; ela grita, apavorada, brava. Confessa a ele que "enxerga as pessoas por dentro", caso esteja em jejum, por isso come o po, mastigando-o vagarosamente antes de abrir os olhos.Durante todo o dia, no trabalho, duvidou Baltazar se tivera ou no tal conversa com a mulher que amava, achando que sonhara. noite, combinaram que , dia seguinte, sairiam cedo, ela na frente, sem comer, ele atrs, sem ser visto por dentro e caminhariam pela cidade. Assim foi. Blimunda indica o lado de dentro das pessoas: uma mulher com uma criana no ventre, mas o beb tem duas voltas do cordo enrolado no pescoo; v um um peixe gigante, fossilizado, sob o granito, um frade com suas bichas. E indica-lhe um lugar, onde pede que ele cave com o gancho, procura da moeda que ali se encontra.

Pede que a leve para casa, no quer mais ver. Da tena que pediu ao padre Bartolomeu, nada de notcias ainda; e sabe que o mandaro embora do aougue logo que possam se livrar dele; restar, no entanto, a portaria dos conventos onde se oferecem caldos: difcil morrer de fome em Lisboa. O infante D. Pedro nascido e quatro bispos o batizaram..O rei foi a Mafra escolher onde se construiria o convento prometido.

Blimunda e Sete-Sis foram trabalhar na quinta do duque de Aveiro, a pedido do padre. Levavam um quase nada como mudana, to pouco os haveres dos dois; e a moa deixou para sempre o lugar em que nascera, onde viveu Sebastiana Maria de Jesus.Passam a morar ali; Blimunda cata os bichos do cabelo de Baltazar, mas ele pouco pode ajud-la: falta-lhe a mo com que mate o inseto. Mas nem sempre o trabalho pode ser completo para Sete-Sis. Uma vez ou outra, levanta-se Blimunda mais cedo, e sem pr os olhos em Baltazar, vai inspecionar o trabalho da passarola, a ver se descobre bolha de ar entranada nos escondidos do ferro utilizado. Vai desvendando onde o ferro frgil e disso gosta o padre. De vez em quando, o padre vem por l a experimentar para aquelas paredes os sermes que compem, enquanto Blimunda varre o ptio e Baltazar bate os ferros que compem a passarola. O padre observa que precisa construir ali uma forja para que possam fundir os ferros.Anuncia-lhes, ainda, que vai para a Holanda, onde pretende aprender a arte de comandar o ter, o que far subir a nave at onde queira.Baltazar e Bliunda despedem-se de Lisboa e vo a uma tourada; na madrugada seguinte,os dois partem para Mafra.Baltazar foi recebido pelo pai e pela me, que demonstraram por ele muitas saudades. Contou-lhes a guerra, a mo perdida e apresentou-lhes Blimunda. Tiveram alguma dvida sobre ela, mas esta contou-lhes a vida, a de sua me, negou ser judia e acabou tocando o corao de Marta Maria, a sogra. A nica irm de Baltazar, Ins Antnia, casara-se com lvaro Pedreiro e j tinha dois filhos.Baltazar dispe-se a arrumar trabalho para si e Blimunda, mas Marta diz que prefere que ela fique, para que possa conhec-la devagar. Blimunda, ao ver os filhos de Ins, sabe que o mais velho vai morrer de bexigas (varola) e que s o mais novo sobrar.Em Lisboa, a rainha engravida novamente. D. Pedro morrer e o novo infante ser rei .

Baltazar ajuda o pai no campo, onde, por fora da mo perdida, tem que reaprender cada coisa. Ainda tenta auxiliar o cunhado na construo da quinta dos viscondes de Vilanova e pela primeira vez lhe ocorre que poderia ter perdido uma perna, em vez do brao, seria bem mais fcil, dessa forma, viver. Todos esperam que se inicie a construo do convento, a, sim, haver trabalho para todos.Em Lisboa, o rei anda doente e de vez em quando lhe do confisso e extrema-uno; vai para Azeito ver se com mezinhas se curam estas melancolias de que sofre. D. Francisco fica em Lisboa, a tramar a sua vida e a do prprio irmo; pela cabea dele passam pensamentos esquisitos como casar-se com a cunhada. Por sua vez, D. Maria Ana tem sonhos que considera .Confessam-se ambos o amor que nutrem um pelo outro, mas D. Joo se salvar e nunca mais D. Maria reviver tais sonhos ou conversas com o cunhado.

O padre Bartolomeu regressou da Holanda, no sabemos se trouxe ou no os segredos que buscava. Foi Quinta de S. Sebastio da Pedreira: trs anos inteiros haviam se passado e tudo estava abandonado, o material que trabalhara disperso pelo cho, "ningum adivinharia o que ali se andara perpetrando." O padre v rastros de Baltazar, mas no os v de Blimunda e julga que ela morrera. Depois, parte para Coimbra, no sem antes passar por Mafra, onde vai ver os homens que iniciam o trabalho do Convento.Procurou por Baltazar e Blimunda, ao proco, informa que os casara em Lisboa. Blimunda veio abrir a porta e reconheceu-o pelo vulto, quando desmontava. Beijou-lhe a mo. Marta Maria estranhou que sua nora fosse abrir a porta a quem no batesse ainda. Mais tarde, chegam Baltazar e o pai e aquele, por convivncia com Blimunda, ao ver a mula adivinha tratar-se do padre. Marta Maria, que j desconfiava ter uma "nascida" (tumor) no ventre, lamenta nada ter a oferecer ao padre, nem comida a no ser o galo -, nem abrigo para passar a noite. O padre Bartolomeu dorme na casa do proco e, pela madrugada, chegam Blimunda e Baltazar. Ela sem comer. Bartolomeu os ama, eles sabem:Baltazar pergunta se o ter a alma e o padre diz que no, que da vontade dos vivos que ele se compe. Blimunda espantou-se e o padre pediu que ela o olhasse por dentro. Ela viu uma nuvem escura, altura do estmago. Era a vontade, diferente da alma, o que faria voar a passarola. Bartolomeu montou na mula, disse que ia a Coimbra e que, quando retornasse Lisboa, mandaria avisar os dois para que l tivessem. Baltazar ofereceu o po Blimunda, mas ela pediu, primeiro, pra ver a vontade dos homens que trabalhavam no convento.

O filho mais velho de Ins Antnia e lvaro Diogo morreu h trs meses, de bexigas. lvaro tem a promessa de conseguir emprego na construo do convento; Marta Maria sofre de dores terrveis no ventre. Joo Francisco est infeliz porque o filho partir novamente para Lisboa, e o convento dar trabalho a muitos homens. Blimunda foi a missa em jejum e viu que dentro da hstia tambm havia a tal nuvem fechada, vontade dos homens... O padre Bartolomeu de Gusmo escreve de Coimbra e diz ter chegado bem, mas agora viera uma nova carta para que seguissem para Lisboa "to cedo pudessem". Partiram em dois meses, porque o rei vinha a Mafra inaugurar a obra do convento. Sete-Sis e Blimunda conseguiram lugar na igreja. No dia seguinte formou-se a procisso, o rei apareceu. A pedra principal foi benzida; foi tanta a pompa que gastaram-se nisso duzentos mil cruzados. Partiram Baltazar e Blimunda para Lisboa. A me Marta Maria se despede do filho dizendo que no o tornar a ver. Blimunda e Sete-Sis dormem na estrada. Por fim, chegaram quinta onde esperariam o padre voador. Mal chegaram, choveu.

Os arames e os ferros enferrujaram-se e os panos da passarola cobrem-se de mofo; o vime, ressequido, destrana-se: "obra que em meio ficou no precisa envelhecer para ser runa." Baltazar experimenta os ferros, tudo perdido, melhor comear outra vez. Enquanto o padre no chega, constri-se a forja, vai-se a um ferreiro e v como se faz o fole. Quando Bartolomeu de Gusmo chegou e viu o fole pronto, pea por pea desenhada e feita por Sete-Sis, ficou contente e disse: "Um dia voaro os filhos do homem." Encomendou a Blimunda duas mil vontades dos homens e mulheres que morreriam a fim de que, junto com mbar e ms, pudessem fazer subir a nau que agora construam. O padre distribui tarefas, indica a Sete-Sis onde comprar ferro, vime e peles para os foles, pede segredo absoluto de tudo o que esto a fazer. Trabalham na passarola quase um ano inteiro, procisses passam em delrio pelas ruas, povo misturado ao clero, clero misturado aos nobres.

O padre Bartolomeu Loureno voltou a Coimbra j doutor em cnones, e agora pode ser visto na casa de uma viva. D. Joo manda vir da itlia o maestro barroco Domnico Scarlatti, a fim de dar lies de msica a sua filha, a infanta D. Maria Brbara. Maestro e padre tornam-se amigos, comungando as mesmas idias e sonhos. Confiante no amigo, o padre leva-o a S. Sebastio da Pedreira. Padre Bartolomeu apresenta os amigos e a passarola a Scarlatti. Blimunda chega da horta trazendo "brincos de cereja", a fim de brincar com Baltazar. Quando os viu, o msico pensou: Vnus e Vulcano... bom voc se lembrar disso tambm: o mito que rege o livro exatamente este: Vnus e Vulcano, a deusa da beleza e o feio e desengonado, manco Vulcano, filho feito somente por Hera, a quem horrorizou o nascimento de filho to feio... O padre diz a Scarlatti que ele e Baltazar tm, ambos, 35 anos e que no poderiam ser pai e filho, mas poderiam ser irmos; portanto, desde o comeo da histria, o tempo que se passou pode ser contado: nove anos.Mostrada a passarola por dentro, retira-se o msico, mas promete voltar e trazer o cravo, que tocar enquanto Blimunda e Baltazar trabalham. O padre l permaneceu, onde treinou seu sermo para que os dois ouvissem. Discutem sobre Deus uno, trino. Blimunda adormeceu, com a cabea apoiada no ombro de Baltazar; um pouco mais tarde ele a levou para dormir. O padre saiu para o ptio, e toda a noite ali permaneceu, tomado por tentaes.Muitas vezes voltou o maestro quinta e pedia que no parassem o trabalho; ali, em meio aos rudos e grandes barulhos, confuso, tocava seu cravo.H um surto de varola em Lisboa, oriundo de uma nau vinda do Brasil. O padre pede Blimunda que v cidade e recolha as vontades das pessoas. assim que ela, em jejum, um dia inteiro se pe a recolher tais vontades. Um ms depois, so mais de mil vontades presas ao frasco em que Blimunda as recolhia; e quando a epidemia terminou, ela havia aprisionado duas mil vontades.Foi ento que Blimunda caiu doente. Nada a curava da extrema magreza; mas um dia, Scarlatti ps a tocar e ela abriu os olhos e chorou. O maestro veio, ento, todos os dias, havendo chuva ou sol; e a sade de Blimunda voltou depressa.Um dia , Baltazar e Blimunda vo Lisboa e encontram Bartolomeu doente, magro e plido. Parecia ter medo de algo.

O duque de Aveiro est por voltar, Blimunda e Sete-Sis querem saber que destino daro s suas vidas. Morre o Infante D. Miguel por salvar D. Francisco, dizem que o reino est mal governado. Blimunda diz ao padre saber que o Santo Ofcio se aproxima dele e Bartolomeu fica com medo de que o acusem de haver se convertido ao judasmo (isso realmente aconteceu na histria real de Bartolomeu Loureno de Gusmo), que se entrega a feitiarias. Presos quinta, os dois vem passar os meses; um dia, ouvem a mula do padre bater os cascos nas pedras.

Eram duas horas da tarde e havia muito trabalho a fazer, no poderiam mais perder sequer um minuto. retiraram as telhas, colocaram as bolas de mbar nos cruzamentos dos arames, abriram as velas superiores. Blimunda est calma, como se em toda a sua vida nada mais tivesse feito seno voar. s quatro horas est tudo pronto; o cravo ficar l, a fim de despertar a curiosidade dos inquisidores. Subiu a passarola. Baltazar e Blimunda foram lanados ao cho, Bartolomeu controlou-a e chamou os dois:

J no tinham medo de nada, ela e Baltazar. Quando Sete-Sis viu que voavam to belamente, ps-se a chorar; aquele homem to forte, que j estivera na guerra e j matara um homem com seu espigo, chorava agora de felicidade. Abraaram-se os trs e ainda tiveram tempo de ver, do alto, os homens que os perseguiam. Nada foi achado na quinta a no ser vestgios, nem o cravo se achou porque Scarlatti, indo visitar a quinta, viu quando os trs fugiam s pressas na passarola. Entrando, deu fim ao cravo, jogando-o no poo. Quando, finalmente, passam por sobre Mafra, velejam sobre as obras do convento e as pessoas, tantas, julgam ter visto ali, naquela hora, passar sobre eles o Esprito Santo. A mquina pousara, o padre, falando a pessoas invisveis, parece ter enlouquecido. Quando ambos dormem, o padre tenta atear fogo mquina , mas Baltazar e Blimunda, sacudidos do sonho, salvam a passarola. Ao amanhecer, do pelo desaparecimento de Bartolomeu de Gusmo. Fingindo vir de Lisboa, chegam a Mafra. Ouvem os homens estarrecidos contarem sobre a passagem do Esprito Santo sobre o convento.

Num tempo em que sucedem tantos prodgios, Blimunda e Sete-Sis no podem comentar que voaram porque estariam perdidos. Estavam todos na casa dos pais de Baltazar, o pai estava triste pela morte da me, mas Ins Antnia contou-lhes, maravilhada, os prodgios do Esprito Santo. Na manh seguinte, Baltazar sai de casa com o cunhado e vai em busca do emprego na obra da construo do convento. A Mafra, chegam notcias de que Lisboa sofreu um terremoto, no muito danoso, apenas caram beirais: Cuida dela, esconde-a melhor. Dois meses mais tarde, v Blimunda que, como sempre, vem esper-lo no caminho. Ao v-la toda trmula e nervosa, presume que o pai est doente, mas no. Blimunda lhe conta que Scarlatti est na casa do visconde. No outro dia, desconfiada de que ele viera delat-los, rondou o palcio. Scarlatti tinha feito um pedido ao rei para que pudesse pr os olhos sobre a construo do convento e o visconde o hospedara, apesar de no gostar de msica. Mas encontram-se, e se falam. No dia seguinte, o msica vai embora, mas no caminho esperam-no, para se despedirem, Baltazar e Blimunda. Scarlatti vai triste.O reino portugus vai cada vez melhor: diamantes, especiarias, impostos, milhes de cruzados se arrecadam. D. Joo V pensa o que fazer com tanto dinheiro, mas conclui que deve ser a alma a primeira a ser cuidada. Em Mafra, continua a construo do convento.Cada um deles conta, em primeira pessoa, a sua histria de famlia, destino e expectativas, e cada um deles narrador em foco cambiante.Durante muitos meses, Baltazar havia puxado e empurrado carros de mo, at que um dia, com a promoo e ajuda de Joo Pequeno, comeou a puxar uma junta de bois, fazendo companhia ao amigo corcunda. Se l podia funcionar como boieiro um aleijado, podiam, ento, ir dois. Quando amanhece, logo que o dia nasceu, em meio ao calor de Junho, os homens saem a cumprir trs lguas at o lugar onde est a pedra. Pelo tamanho, tal pedra espanta a todos que confessam nunca ter visto coisa igual na vida. Todos se dispuseram a cavar, a achar caminho, maneira ou jeito de lev-la a Mafra sem que quebrasse. O narrador lembra Arquimedes: "Dem-me um ponto de apoio para vocs levantarem o mundo", parodia. Puxada a brao, l vinha a pedra, em meio a um grande alarido das pessoas; depois, como que transportado para a guerra, Baltazar viu, num timo de segundo, um esguio de sangue: um homem se ferira, mas os esforo continuam.

extenuante ler o captulo, pleno de descries dos esforos para que tal pedra fosse removida: no primeiro dia, no avanaram mais do que quinhentos passos. Os homens dormem quando anoitece, alguns contam histrias sobre reis e rainhas. Continuam as histrias contadas pelos homens, histria sem p nem cabea, meninas com estrelas na testa, princesa que guardava patos. Francisco Marques, distrado, foi atropelado e morto pelo carro, a roda passou sobre o ventre, que ficou uma pasta de vsceras e ossos. Depois, ao chegarem ao fundo do vale, a plataforma desandou e atingiu dois animais: foi preciso que os matassem.Baltazar tinha ido seis ou sete vezes ao Monte Junto, a fim de ver a passarola, remediar-lhe os estragos que o tempo ia causando nela; como se se enferrujassem as lminas de ferro, levou para l uma panela de sebo e untou cuidadosamente as juntas

Pela primeira vez em trs anos, Blimunda diz que quer ir junto para aprender o caminho. No caminho, cortou os vimes, colheu lrios d'gua para Blimunda que fez deles uma guirlanda para enfeitar o burro. O tempo de primavera e as flores cobrem o campo, e Blimunda toma nota do caminho para, se precisar, reconhec-lo depois, quando sozinha. Chegaram ao monte; Baltazar trabalhou, ferindo-se na mo. Tudo est em estado de decomposio; enquanto ela cosia as velas, ele azeitava as engrenagens. Dormiram depois de se procurarem cheios de amor um pelo outro e, ao amanhecer, sem olhar seu homem por dentro, Blimunda foi olhar as esferas e viu dentro delas as vontades presas. Comeu po, Baltazar acordou e fizeram amor novamente.Pelo meio da manh, acabaram o trabalho: por serem dois, a mquina estava como que renovada e se foram para Mafra outra vez.Morreu o pai de Baltazar, Joo Francisco.D. Joo V continua a montar e desmontar a baslica de S. Pedro, "um lugar de fingimento onde nunca sero rezadas missas verdadeiras, embora Deus esteja em todo o lado." E mandou chamar o arquiteto de Mafra, um tal Joo Frederico Ludovice, a fim de pedir-lhe que construsse em Portugal uma baslica igual ao do Vaticano. O arquiteto concordou, mas achou-o nscio porque a obra exterior poderia ser a mesma, mas teria ele, o rei, que fazer nascer um pintor como Rafael, um Sangallo, um Peruzzi , para a fazer valer algo.

Inconsolvel, melanclico, o rei resolve, ento, ampliar o convento de Mafra e se rene, no dia seguinte, com o provincial dos franciscanos que, ouvindo to boa notcia.Assim que saram o provincial e o arquiteto, mandou D. Joo V vir sua presena o guarda-livros. E dobra o rei o salrio do guarda-livros. A Mafra, manda o rei um vedor, doutor Leandro de Melo, para que encontre Joo Frederico Ludovice e lhe entregue uma carta. O engenheiro beija o selo real e empalidece: no bastava o que havia combinado com o rei e este j lhe envia outro aumento para o prdio, quer agora um novo corpo da construo, que abrigue trezentos frades e que se arrase logo o monte por detrs da obra e tudo o que ao redor dela est. O rei escreveu a Baltazar e Joo Pequeno. Ento, o rei sabia de tudo... Baltazar pensa em responder, tem vergonha, mas pensa no seu rei. Sabedor de que poderia morrer sem ver o convento inaugurado, D. Joo V d uma ordem ao corregedor: buscar e intimar todos os homens de Lisboa, qui de Portugal, para que fossem todos trabalhar em Mafra. O trecho se parece com a despedida dos parentes, na Praia do Restelo, por ocasio da sada das naus de Vasco da Gama para as ndias.

De todo Portugal chegam homens e so escolhidos um a um. A Infanta Maria Brbara casa-se com Fernando da Espanha. Esta a marca do tempo narrativo de Saramago: os fatos histricos. O noivo tem dois anos a menos que ela, e nunca ser rei, pois o sexto na linha sucessria. Domnico Scarlatti toca seu cravo para uma multido de ignorantes, por ocasio do casamento da Infanta Dona Maria Brbara, na fronteira com a Espanha. Neste captulo, o narrador fala da procisso que levar os santos para serem colocados nos altares do convento de Mafra: S. Francisco, Santa Teresa, Santa Clara, S. Vicente, S. Sebastio e Santa Isabel. Seguem tambm para Mafra frei Manuel da Cruz e seus novios, trinta, e ali, quando chegam cansados, so recebidos em triunfo. Baltazar vai para casa, o narrador nos anuncia que ele est velho: Depois da ceia, quando todos dormem, Baltazar leva Blimunda para ver as esttuas; juntos, vem a lua nascer enorme, vermelha. Ele anuncia que vai ao Monte junto na manh seguinte, ver como est a passarola. Ela pede cuidados, ele responde que ela fique sossegada, que seu dia ainda no chegou.Olham os santos inertes, o que seria aquilo? Morte, santidade ou condenao? Quando amanheceu, Blimunda se levantou e pegou a comida para o farnel do marido que ia ao Monte Junto, acompanhou-o at fora da vila: "Adeus, Blimunda, Adeus Baltazar." E se separam.Ao chegar ao lugar onde est a passarola, Baltazar come as sardinhas que lhe pusera a mulher no alforje: havia tanto trabalho a fazer.

Baltazar no voltou para casa, o que fez Blimunda no dormir aquela noite. Esperara que ele voltasse ao cair do dia, haveria os festejos da sagrao da baslica, mas ele no voltara. Em jejum, olhando as pessoas que passavam para a festa, estava sentada numa vala e ali ficou, vendo o que os seres carregavam por dentro; recebendo xingamentos, dizendo outros. Voltou para casa, ceou com os cunhados e o sobrinho. Tambm no dormir. O rei vir a Mafra e Blimunda no o ver; vai esperar Baltazar pelos caminhos, desesperadamente tentando encontr-lo. Grita inmeras vezes por ele. Viu os arbustos arrancados, a depresso que o peso da mquina fizera no cho e o alforje de Baltazar. Procurou por todo lado, os ps sangrando nos espinhos. Comeou a subir ao cume do monte, a fim de poder ver tudo ao redor. Mas no caminho estacou, sua frente caminhava um frade dominicano, corpulento, a quem perguntou pelo seu homem, faltava-lhe a mo esquerda, no o tinha visto? Viera c por ouvir dizer que aqui habitava um enorme pssaro...

O frade aconselha-a a procurar abrigo, vai anoitecer, poderia dormir ali, nas runas do mosteiro. Sentada beira do caminho, o cabelo desgrenhado, vazia do homem que ama, Blimunda chora e pensa em Baltazar, se morto, se vivo. Depois vai se refugiar nas runas onde o frade a busca tentando saciar seus instintos. Mas Blimunda o mata com o espigo de Baltazar. E depois, arrancando o espigo que se fincara entre as costelas do frei, ps novamente a andar.Depois, imaginou ela a caminho de Pedregulho que ele poderia estar em Mafra, que tinham se desencontrado no caminho e ps-se a correr como uma doida. tardinha, chegaram Ins Antnio e lvaro Diogo e a encontraram dormindo. Pela manh, esquecida de comer o po, viu-os por dentro, vomitou e Ins achou que ao fim de todo este tempo poderia ela estar grvida. O narrador nos anuncia que D. Joo V fez quarenta e um anos e que era 22 de outubro de 1730. Durante nove anos, Blimunda perambulou pelos caminhos de p e lama, de branda areia e pedra aguda, neve. Ainda no queria morrer. Sabia que Baltazar estava vivo e se dispunha a procur-lo por onde quer que fosse.

Julgavam-na doida, mas ouvindo-lhe as demais sensatas palavras e aes, ficavam indecisos se aquilo que dizia era ou no falta de juzo completo. Passou a ser chamada de A Voadora, e sentava-se, ento, s postas, ouvindo das mulheres as queixas. Por onde passava, as mulheres lamentavam, depois, que seus homens no tivessem tambm sumido, para que elas pudessem, ao menos, devotar-lhes um amor to grande quanto o de Blimunda a Baltazar. E os homens, quando ela partia, ficavam tristes inexplicavelmente tristes.Pouco faltou para que a tomassem como santa. Milhares de lguas andou Blimunda, quase sempre descala, "Portugal inteiro esteve debaixo desses passos". Voltava aos lugares por onde passara, sempre indagando. Seis vezes passara por Lisboa, esta, a que vinha agora, era a stima. Sem comer, o tempo era chegado para ela. No Rossio, finalmente encontrou Baltazar. Havia l um auto-de-f. Eram onze os condenados fogueira; entre eles, estava o brasileiro Antnio Jos da Silva, o Judeu, comedigrafo autor das Guerras de Alecrim e Manjerona.

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