Memórias inventadas: a segunda infância, de Manoel de Barros

  • Data de publicação

Dezessete textos compem esta obra de Manoel de Barros, Memrias inventadas: a segunda infncia, que une a poesia do mato-grossense com ilustraes de sua filha, Martha Barros.

Tudo que no invento falso. Com esse paradoxo, Manoel de Barros inicia este livro que so fragmentos de lembranas livres em um tempo aparentemente invisvel. Cada trecho diagramado em pginas soltas e podem ser lidos em qualquer ordem, sem nenhum tipo de linearidade. Afinal, a imaginao do autor no possui regras determinadas.

Conforme se passeia pelas pginas, percebe-se o tom potico de Manoel. O autor se preocupa com cada palavra, esculpindo um texto que tem como preocupao primordial a busca pela beleza.

Na introduo do livro, intitulada Manoel por Manoel, o escritor diz ter saudade do que no foi. Diz, ainda, que no teve uma infncia peralta como gostaria. Agora, brinca livremente com as palavras e acredita que desfazer o normal, h de ser uma norma.

Manoel de Barros busca a essncia existente por trs da palavra. Para ele, mais do que o significado literal, as palavras tm o poder de simplesmente encantar, sem a necessidade de possuir uma funo definida. O indizvel, aqui, mais valorizado que uma frase que informa sem emocionar. As palavras, nas memrias inventadas, voam livres sem obedecer a regras que, por fim, podem assassinar seu encanto.

Apesar de valorizar e celebrar o abstrato, Manoel de Barros demonstra conscincia e opinio clara sobre atitudes que compem a realidade. Eu no sei nada sobre as grandes coisas do mundo, mas sobre as pequenas eu sei menos, afirma no texto Desprezado.

J em Sobre importncias, o autor relativiza o valor das coisas. Para Manoel, a importncia s pode ser medida pelo encantamento que ela produz em cada pessoa. Como um grande empresrio poderia concordar com a afirmao Uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mos de uma criana mais importante para ela do que o Empire State Building? Manoel de Barros corre na contramo de quem pensa no prazer de possuir e esquece o encanto das coisas simples. As palavras em desordem, dessa forma, ajudam o leitor a perceber que, na realidade, a imaginao a coisa menos falsa que o homem j inventou.

Com leveza, inocncia e simplicidade, o autor tece suas memrias infantis, sem mostrar a angstia de bons tempos aqueles, hein?!; ao contrrio, parece ter prazer no que faz. E prazer tem o leitor, ao encontrar l relatos/lembranas da empregada que o ensinou-lhe o sexo aos quinze anos; ou a lacraia descarrilada (meninos separaram os gomos de uma lacraia, como se se tratasse de um trem); ou de quando o lxico de um menino no tem mais que oito palavras.

Embora seja prosa, esse livro de Manoel de Barros traz momentos de pura poesia como a tentativa de desenhar uma manh e cometer um desenho ertico, com a manh de pernas abertas para o sol; ou nos trechos (a seguir, entre aspas, transcritos diretamente da obra): eu no sei nada sobre as grandes coisas do mundo, mas sobre as pequenas eu sei menos; os verbos servem para emendar os nomes [...] bentevi cuspiu no cho. O verbo cuspiu emendava o bentevi com o cho; que a importncia de uma coisa h que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em ns.

Mais que prosa, poesia, msica ou qualquer outro rtulo que se possa aplicar ao trabalho de Manoel de Barros, est neste livro a linguagem perfeita, mesmo que no tenha sido esta sua inteno. No livro: quisera uma linguagem que obedecesse a desordem das falas infantis do que as ordens gramaticais [...] desfazer o normal h de ser uma norma.

Trecho do livro

"Eu no amava que botassem data na minha existncia. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em ns. A gente era o que quisesse ser s usando esse advrbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma rvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garas me beijam e me abenoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir s origens de uma coisa ou de um ser. Ento agora eu estou quando infante. Agora nossos irmos, nosso pai, nossa me e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho no tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roava nas palhas. A me cozinhava, lavava e costurava para ns."

Fontes: A Folha de Londrina | Faculdade Cásper Líbero

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