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Meninão do caixote (Conto da obra Malagueta, Perus e Bacanaço), de João Antônio


A sinuca tematiza o conto Meninão do Caixote. Narrado em primeira pessoa, o texto possui uma particularidade: a narração de primeira pessoa se despersonaliza em terceira, em fragmentos como o abaixo selecionado:

Meninão do Caixote... Este nome corre as sinucas da baixa malandragem, corre Lapa, Vila Ipojuca, corre Vila Leopoldina, chega a Pinheiros, vai ao Tucuruvi, chegou até Osasco. Ia indo, ia indo. Por onde eu passava, meu nome ficava [...].

Nota-se, inicialmente, que o narrador fala de seu nome e dos trajetos pelos quais a sua carreira de bom jogador torna-se conhecida, para depois se identificar como o sujeito da fala.

Esse é um dos momentos em que João Antônio faz malabarismos fantásticos com o ponto de vista narrativo. Também no instante em que, iniciando o relato aos leitores, declara: “sem meninão do Caixote, Vitorino não se agüentava”, temos, novamente, a despersonalização do foco narrativo.

O narrador-protagonista, Meninão do Caixote, considera o malandro Vitorino como um professor de picardias, a figura responsável pela sua iniciação no mundo da sinuca e da malandragem.

Ele possui uma aparente candura, própria da sua pouca idade. Quando morador de Vila Mariana, um bairro de São Paulo, brincava de carrinho de rolimã com o primo Duda. Ao mudar-se para a Lapa, numa “rua sem graça” e sem a companhia do antigo amigo e primo, desperta-lhe o interesse pelo jogo ao ver a performance do habilidoso Vitorino na sinuca. Este, mesmo despertando a atenção por seu aspecto desagradável, passa a ser admirado pelo garoto:

Porque Vitorino era um bárbaro, o maior taco da Lapa e uma das maiores bossas de São Paulo. Quando nos topamos Vitorino era um taco. Um cobra. E para mim, menino que jogava sem medo, porque era um menino e não tinha medo, o que tinha era muito jeito, Vitorino ensinava tudo, não escondia nada [...].

Vitorino é descrito pelo narrador-protagonista como uma figura repulsiva, apesar das grandes habilidades como jogador profissional. Entre os jogadores de sinuca do escritor, não é regra a boa aparência e a malandragem também pode ser representada por seres mal trajados, como Vitorino:

Um homem feio, muito branco, mas amarelado ou esbranquiçado, eu não discernia, um homem de chapéu e de olhos sombreados, os olhos lá no fundo da cara, braços finos, tão finos [...].
O sujeito dos olhos sombreados, sujeito muito feio, que sujeito mais feio! No seu perfil de homem de pernas cruzadas, a calça ensebada, a barba raspada, o chapéu novo, pequeno, vistoso, a magreza completa. Magreza no rosto cavado, na pele amarela, nos braços tão finos [...]. E magreza até no contorno do joelho que meus olhos adivinhavam debaixo da calça surrada [...].

A descrição acima revela que o malandro é o próprio representante das principais carências humanas. O seu aspecto físico de excessiva “magreza”, a pele amarelada quase “esbranquiçada” e os olhos sombreados, juntamente com os trajes “surrados” e “ensebados”, conforme aponta o jovem narrador-protagonista, compõem a figura como o retrato da fome e da privação.

A mãe anônima de Meninão do Caixote, pelas indicações do filho, possui o perfil de uma mulher batalhadora, exigente, séria e, sobretudo, solitária devido à ausência do marido, um caminhoneiro que permanece longe de casa e da família por períodos que variam de dois a três meses, transportando óleo para o Nordeste. Uma dona-de-casa que, ao primeiro sinal do desvio do filho, tem como única atitude o pranto, o desespero. A anterior soberania de uma mãe autoritária cede lugar a um sentimento de incapacidade, a uma sensação de perda de controle sobre o filho, levado, agora, pelas mãos da malandragem, pelas mãos de Vitorino:

Os pés de mamãe na máquina de costura não paravam [...].
Brigas em casa, choro de mamãe. Eu não levantava a crista não. Até baixava a cabeça [...].
Mamãe me via chegar, e às vezes, fingia não ver. Depois, de mansinho, eu me deitava. E depois vinha ela e eu fingia dormir. Ela sabia que eu não estava dormindo. Mas mamãe me ajeitava as cobertas e aquilo bulia comigo. Por que ia para o seu canto, chorosa.
Mamãe, coitadinha [...].

Após ter-se tornado um dos mais conhecidos jogadores da Lapa, graças ao malandro Vitorino, Meninão do Caixote, apesar da fama e do reconhecimento de muitos parceiros de jogadas, não se mostra totalmente corrompido e entregue ao universo da malandragem e tenta, por várias vezes, abandonar a sinuca e a vida mundana à qual havia se rendido, mesmo que parcialmente. Mesmo mergulhando no jogo, a jovem personagem não passa para a fronteira do vício adulto, ou seja, a sua infantilidade não chega a se corromper e, portanto, não se instala em definitivo na marginalidade. Na realidade, anseia por retornar à sua normalidade de garoto que freqüenta colégio e não mais desobedecer sua mãe. O desejo de afastar-se do ambiente da malandragem pode ser comprovado em algumas de suas reflexões:

Também não era bom ser Meninão do Caixote, dias largado nas mesas da boca do inferno, considerado, bajulado, mandão, cobra. Mas abastecendo meio mundo e comendo sanduíche, que sinuca é ambiente da maior exploração.
Dava dinheiro a muito vadio, era a estia, gratificação que o ganhador dá. Dá por dar, depois do jogo. Acontece que quem não dá, acaba mal. Não custa à curriola atracar a gente lá fora [...].
Ô divisão cheia de sócios, de nomes, de mãos a pegarem no meu dinheiro! [...].
Estava era sustentando uma cambada, sustentando Vitorino, seus camaradas, suas minas, seus...
Um dia mando tudo pra casa do diabo [...].
Larguei uma, larguei duas, larguei muitas vezes o joguinho. Entrava nos eixos. No colégio melhorava, tornava-me outro, ajustava ao meu nome [...].

Meninão, de “bajulado” transforma-se em “explorado” e, neste caso, nos deparamos com uma dupla nomeação da personagem, já que de malandro passa a “otário”, simultaneamente, na partilha do dinheiro das partidas.

Ao final da narrativa, após um jogo com o malandro Tiririca, considerada entre os malandros como uma partida cara, a decisão do narrador-protagonista em parar de jogar parece alcançar seu ápice.

Mesmo “navegando pelo atribulado e atraente mundo da sinuca, o meninão chega de volta aos braços de sua mãe”. Após vê-la trazer-lhe o almoço no bar onde jogava e sair em seguida, sem ao menos repreendê-lo, Meninão do Caixote emociona-se e decide parar com a sinuca depois de “dois anos de taco” e grandes vitórias. A emoção o domina e atinge a nós leitores. Torna-se necessária a transcrição do final memorável da narrativa:

O seu almoço.
Um frio nas pernas, uma necessidade enorme de me sentar. E uma coisa me crescendo na garganta, crescendo, a boca não agüentava mais, senti que não agüentava. Ninguém no meu lugar agüentaria mais. Ia chorar, não tinha jeito [...].
O choro já serenando, baixo, sem os soluços. Mas era preciso limpar os olhos para ver as coisas direito. Pensei, um infinito de coisas batucaram na cabeça [...].
Larguei as coisas e fui saindo. Passei a cortina, num passo arrastado. Depois a rua. Mamãe ia lá em cima. Ninguém precisava dizer que aquilo era um domingo... Apertei meu passo, apertei, apertando, chispei. Ia quase chegando. Nossas mãos se acharam. Nós nos olhamos, não dissemos nada. E fomos subindo a rua [...].

No ato da jovem personagem “limpar os olhos” identificamos, por parte da mesma, a tentativa de uma “limpeza” ou mudança na própria vida que leva no subversivo mundo da malandragem. A atitude de limpar significa o mesmo que, retirar de si, toda a nebulosidade que o encobre e, conseqüentemente, o impede de enxergar a realidade. Após a “limpeza”, ou melhor, a retomada de consciência, a personagem, apressadamente, alcança a mão de sua mãe e agarra-se à única coisa que lhe transmite segurança, a pessoa de sua absoluta confiança.

Diante do fragmento acima, podemos acrescentar que são os laços afetivos com sua mãe que o fazem abandonar a carreira de jogador.

Somada à fragilidade infantil do narrador-protagonista, ressalta-se que o jogo para ele funciona como um brinquedo, a superação de um vazio e evasão de um potencial lúdico, haja vista "que jogava sem medo, porque era um menino". A sinuca, encarada como um simples divertimento, o afasta da solidão que sente após a mudança de endereço e também provocada pela constante ausência do pai, caminhoneiro. Para os adultos, entre eles o malandro Vitorino, a sinuca tem o efeito da fuga da realidade social e de alienação às injustiças e privações.

Pela descrição do narrador-protagonista, nota-se que a narrativa é retrospectiva, pois, já de início, utilizando o recurso do flash back, Meninão do Caixote anuncia que, após ter abandonado a sinuca e novamente inserido no sistema social, seu patrão e mestre Vitorino decai completamente. Perdido sem o seu aprendiz, ele se entrega de vez à boêmia e às drogas:

Fui o fim de Vitorino. Sem meninão do Caixote, Vitorino não se agüentava.
Taco velho quando piora, se entreva duma vez. Tropicava nas tacadas, deu-lhe uma onda de azar, deu para jogar em cavalos. Não deu sorte, só perdeu, decaiu, se estrepou. Deu também para a maconha, mas a erva deu cadeia. Pegava xadrez, saía, voltava...
E assim, o corpo magro de Vitorino foi rodando São Paulo inteirinho, foi sumindo. Terminou como tantos outros, curtindo fome quietamente nos bancos dos salões e nos botecos [...].

Para Meninão do Caixote a sinuca aparenta ser “uma dimensão nova”, uma fuga aos problemas domésticos e às frustrações da mãe, mesmo que momentaneamente.

Nessa narrativa, um lirismo irremediável traz a essência de uma infância abortada pela marginalização. Com um aumentativo no apelido, um menino conta sua história de homem precoce, todo o seu conflito de menino-homem.

Da Vila Mariana à Lapa, da amizade boa à solidão, de menino que brinca a homem que joga, do Meninão que joga ao filho que sente, ou seja, é pelo contraste que visualizamos a busca pelo seu lugar no mundo e em si mesmo. Meninão do Caixote nos conta como descobre a sinuca, se perde e se reencontra.

Ao iniciar a narrativa com uma conclusão, o autor trabalha com a expectativa em grau máximo. “Fui o fim de Vitorino. Sem meninão do Caixote, Vitorino não se agüentava”. Uma história que, já no início, se revela trágica: “Taco velho quando piora, se entreva duma vez. Tropicava, nas tacadas, deu-lhe uma onda de azar, deu para jogar em cavalos. Não deu sorte, só perdeu, decaiu, se entregou. Deu também para a erva, mas a erva deu cadeia. Pegava xadrez, saía, voltava...”.

A poesia que permeia tudo é imprescindível para dar conta do lúdico e do drama que pode carregar um menino pobre. Nas suas lembranças, a marca da felicidade só existe no passado: “Na rua vazia, calada, molhada, só chuva sem jeito, nem bola, nem jogo, nem Duda, nem nada”.

No contraponto presente-passado, respectivamente, a ausência do pai é acentuada pela lembrança de vivências anteriores repletas de emoções boas. O presente é só solidão: “Agora, na Lapa, numa rua sem graça, papai viajando no seu caminhão, na casa vazia só os pés de mamãe pedalavam na máquina de costura até a noite chegar”.

A mãe, solapada pelo trabalho, não era mãe de corpo inteiro, sem palavras ou afetos, só o seu pé existia para o menino. Pai e mãe igualmente ausentes pelo trabalho. Está aqui, novamente, a crítica ao trabalho numa sociedade de classes, que, nesse caso, é exaustivo e aniquila a relação de afeto, um trabalho em função de uma sobrevivência insípida. A presença da mãe só se dá quando surra o menino e disso ele se lembra bem: quando chegava molhado do banho de rio (dessa surra não se queixava, estivera feliz com Duda), quando levava bilhete de uma professora hipócrita. Ele apanha de todas as formas, por dentro e por fora, se machuca com a vida que leva:

Mas agora a chuva caía e os botões guardados na gaveta da cômoda, apenas lembravam que Duda ficara em Vila Mariana. Agora a Lapa, tão chata, que é que tinha a Lapa? E exatamente numa rua daquelas, rua de terra, estreita e sempre vazia. Havia também uma professora que lia o seu livro e me esquecia abobalhado à frente da lousa. Depois o bilhete para minha mãe me bater, castigo, surra, surra. E papai que viajava no seu caminhão, quando viajava se demorava dois-três meses.

Com todas as surras, ele desaprende a felicidade, com a ausência dos pais, desaprende a ser filho amado, com a escola hipócrita, desaprende tudo, só a vida lhe ensina:

Era um caminhão, que caminhão! Um GMC novo, enorme, azul, roncava mesmo. E a carroceria era um tanque para transportar óleo. Não era caminhão simples não. Era carro tanque e GMC. Eu sabia muito bem – ia e voltava transportando óleo para a cidade de Patos, na Paraíba. Outra coisa – Paraíba, capital de João Pessoa, papai sempre me dizia.

De maneira pungente o aprendizado da vida substitui o da escola: ele “sabia muito bem” a geografia da sua realidade.

Apesar da ausência, o pai é o seu ícone de força e importância que, metaforizado pelo caminhão, retrata bem tal dimensão: “O que interessa é que papai tinha um GMC, um carro-tanque GMC e que enfiava o boné do couro, ajeitava-se no volante e saía por estas estradas roncando como ele só”.

Menino que ainda precisa de leite, brinca pela rua de barro, a caminho da compra: “Na rua brinquei, com a lama brinquei. O tênis pisava na água, pisava no barro, pisava na água, pisava no barro, pisava na água, pisava no barro, pisava...”.

Numa “gratuidade do ato” machadiana, Meninão, depois de não encontrar o leite no lugar de sempre, lembra-se do bar Paulistinha. O trecho que traz essa informação, carregado de metáforas, anuncia o que aquele ambiente viria a significar para ele: “O remédio era ir buscar ao Bar Paulistinha, onde eu nunca havia entrado. Quando entrei, a chuvinha renitente engrossou, trovão, um traço rápido cor de ouro lá no céu. O céu ficou parecendo uma casca rachada. E chuva que Deus mandava”.

Exatamente quando ele entra no bar é que surge a tempestade. O som da trovoada revela-se como o rufar dos tambores, a anunciação celestial do dinheiro, simbolizado pela “cor de ouro lá no céu”. Um raio racha o céu; “Casca rachada”, abalo na vida do menino. Um prenúncio da antecipação da maturidade, do tempo: “Fiquei preso ao Bar Paulistinha. Lá fora, era vento que varria. Vento varrendo chão, portas, tudo, sacudiu a marca do ponto do ônibus, levantou saias, papéis, um homem ficou sem chapéu. Gente correu para dentro do bar”.

O tempo passa rápido para Meninão: ele se interessa pela sinuca, por um jogo de homens. Um homem em especial, chamou-lhe atenção: Vitorino. Num corpo marcado pela malandragem, surpreende Meninão com sua amabilidade, permite que este observe seu grande jogo por vários dias. Um jogo mágico de cores e ritmos que inebria o menino: “... na pressa das bolas na mesa, onde ruídos secos se batiam e cores se multiplicavam, se encontravam e se largavam, combinadamente”.

Num ambiente quase onírico, o interesse por Vitorino, o dono de taco mágico, é inexorável: “Aquela fala diferente mandava como nunca vi. Picou-me aquela fala. Um interesse pontudo pelo homem dos olhos sombreados. Pontudo definitivo”.

Um interesse pontudo por Vitorino lhe pica, ele está envenenado, envolvido na mágica do jogo:

Pra mim, Vitorino abria uma dimensão nova. As mesas. O verde das mesas, onde passeava sempre, estava em todas, a dolorosas brancas, bola que cai e castiga, pois, o castigo vem a cavalo.
Para mim, moleque fantasiando coisas na cabeça...
Um dia peguei no taco.
Joguei, joguei muito, levado pela mão de Vitorino, joguei demais.

Na sua vida opaca, uma nova dimensão, o verde esperança. Mas nada é gratuito, a branca pode castigar o jogo, a vida. As fantasias de menino são só para ele, já que para os homens, o é jogo sério, dolorido. Dentro de sua perspectiva onírica do jogo, próprio da sua idade, o vive como a superação da sua solidão no novo bairro: “jogava sem medo”, “era um menino”. A desproporção da sua altura para o jogo lhe rende o apelido:

Eu era baixinho como mamãe. Por isso, para as tacadas longas era preciso um calço. Pois havia. Era um caixote de leite condensado que Vitorino arrumou. Alcançando altura para tacadas eu via a mesa de outro jeito, eu ganhava uma visão! Porque não se mostrasse meu jogo iludia, confundia, desnorteava [...] As apostas contrárias iam por água abaixo.
Porque me trepasse num caixote e porque já me chamassem Meninão...
Meninão do Caixote... Este nome corre as sinucas da baixa malandragem...

Já transformado em mito, o seu nome avulta a sua habilidade nos tacos. Num jogo de homens, um menino em cima de um caixote era um Meninão, menino aumentado: “Crescia, crescia o meu jogo no tamanho novo do meu nome [...] O caixote arrastado para ali, para além, para as beiradas da mesa. / Minha vida ferveu. Ambientes, ambientes do joguinho. No fundo, todos os mesmos e os dias também iguais. Meus olhos nas coisas”. Os olhos aparecem como uma câmera e é como se esta fosse os olhos dos personagens e o diretornarrador fosse dirigido por eles. Como na vida, ele busca na sua condição de homem um ângulo melhor. O ambiente que o instiga a ser homem dá e tira (alegrias, castigos, entusiasmo, dureza). Já cedo conhece a dolorosa antítese da vida do joguinho: “Meus olhos se entristeciam, meus olhos gozavam. Mas havendo entusiasmo, minha vida ferveu. Conheci vadios e vadias [...]. Aos quatorze, num cortiço da Lapa de Baixo conheci a primeira mina. Mulatinha, empregadinha, quente”. Homem o suficiente para o sexo, “galinho de briga”, no jogo, baixava a crista diante da mãe chorosa: “Umas coisas já me desgostavam. Jogava escondido, está claro. Brigas em casa, choro de mamãe. Eu não levantava a crista não. Até baixava a cabeça”.

O descompasso entre as regras do jogo da malandragem e os da sua mãe, o desacerto entre sua idade, seu tamanho real e suas jogadas (atitudes) de homem, começam a aparecer, num diálogo com o personagem de “Frio”. O mundo da sinuca, da malandragem o desgosta também:

Dureza, aquela vida: menino que estuda, que volta à casa todos os dias e que tem papai e tem mamãe. Também não era bom ser meninão do Caixote, dias largado nas mesas da boca do inferno, considerado, bajulado, mandão, cobra. Mas abastecendo meio mundo e comendo sanduíches, que sinuca é ambiente da maior exploração.
Dava dinheiro a muito vadio, era a estia, gratificação que ganhador dá. Dá por dar, depois do jogo. Acontece que quem não dá acaba mal.
Não custa à corriola atacar a gente lá fora.

Nem a proteção familiar, aconchego de um lar, nem o desamparo da sinuca; nem céu, nem inferno: ele equilibra-se num caixote, é também um desajustado.

O jogo da vida desses que se ajeitam nas fissuras da sociedade sempre acontece sob um irremediável castigo: “E eu ia aprendendo – o joguinho castiga por princípio, castiga sempre, na ida e na vinda e o jogo castiga. Ganhar ou perder, tanto faz”.

O castigo vinha de todos os lados, da exploração da malandragem à tristeza da sua mãe, agora já resignada:

Mamãe me via chegar, a às vezes, fingia não ver. Depois, de mansinho, eu me deitava. E depois vinha ela e eu fingia dormir. Ela sabia que não estava dormindo. Mas mamãe me ajeitava as cobertas e aquilo bulia comigo.
Porque ia para o seu canto, chorosa. Mamãe coitadinha.

O amor de mãe ultrapassa qualquer expectativa. Sonado, acabado, sentia o afago e a proteção incondicional simbolizada pelas cobertas ajeitadas. A tensão entre ação (menino) e reação (mãe), vai aumentando na narrativa, assim como a busca de identidade do menino miúdo de quatorze anos:

Larguei uma, larguei duas, larguei muitas vezes o joguinho”.
Entrava nos eixos. No colégio melhorava, tornava-me outro, me ajustava ao meu nome. Vitorino arrumava um jogo bom, me vinha buscar. Eu desguiando, resistia. Ele dando em cima. Se papai estava fora, eu acabava na mesa. Tornava à mesa com fome das bolas, e era uma piranha, um relógio, um bárbaro. Jogando como sabia.
Essas reaparições viravam boato, corriam os salões, exageravam um Meninão do Caixote como nunca fui.

O sujeito não é mais o menino, são as reaparições, que “corriam salões”; a identidade dele se perde no mito Meninão. Ele não suporta mais a exploração de Vitorino, não se ajeita mais ao apelido. Pára de jogar três meses, mas Vitorino, com sua “fala camarada”, o convence de aceitar o pedido de revanche de Tiririca, um grande taco:

Mas era um grande taco. Perdendo é que era grande. Mineiro, mulato, teimoso, tanta manha, quanta fibra. Um brigador. Um dos poucos que conheci com um estilo de jogo. Bonito, com puxadas, com efeitos, com um domínio da branca! Classe. Joguinho certo, ô batida de relógio, aparato, fantasia, cadência, combinação, ô tacada de feliz acabamento! A sua força eram as forras. Os revides em grande estilo. Porque para Tiririca tanto fazia jogar uma hora, doze horas ou dois dias. O homem ficava verde na mesa, curtia sono e curtia fome, mas não dava o gosto.

A descrição da ginga de Tiririca chega numa escrita também cadenciada, que revela o domínio da branca, por parte do escritor, pois seu jogo poético nunca cai no preciosismo da linguagem. Meninão é então rendido pela catártica beleza do jogo:

Tiririca. A conversa já mudou, o malandro em São Paulo, querendo jogo comigo, aquilo me envaidecia... Tiririca me procurando.
[...]
No ônibus uma coisa ia comigo, era o último, perdesse ou ganhasse, bem falando, eu não queria nem jogar, ia só tirar uma cisma, quebrar Tiririca duma vez, acabar com a conversa, não por mim, que eu não queria jogo. Mas pelo gosto de Vitorino, da curriola, não sabia.

Ele não sabe o motivo real daquele último jogo, só sabe que quer “quebrar, acabar”, com o resto da malandragem que nunca lhe coube direito, afinal tem uma mãe que o ama e o seu amor o puxa dali, determina sua escolha: “Prometera voltar a casa para o almoço. Claro que voltaria. Tiririca era duro, eu sabia. Deixá-lo. Eu lhe quebraria a fibra. Fibra, orgulho, teima mandaria tudo para a casa do diabo. Já havia mandada uma vez”.

Fibra, orgulho, teima, liquidando isso, na vida do joguinho não restaria mais nada. A lembrança da mãe chorosa o fazia querer purificar-se daquilo, daquela chateação do joguinho sujo:

Uma e meia no relógio do bar e eu pensei em mamãe. Ali rodando a mesa, o caixote para aqui, para ali, como as horas voavam.
Começamos, por fim, as partidas de um conto.
Fui ao mictório, urinei, lavei a cara. Lavando aos poucos, molhando as pálpebras, deixando a água escorrer. Pensei com esperança em liquidar logo aquele jogo; mamãe estaria esperando.

O lugar privilegiado, no texto, é construído contra tudo o que não é ele, como o momento de êxtase contra o resto da duração. Quanto mais tempo passa, quanto mais pensa em sua mãe, mais força para se livrar do mito e da máscara incômoda de menino aumentado. A metáfora da purificação, do retorno a si mesmo, se presentifica definitivamente no gesto de urinar, pôr para fora as impurezas do seu eu e na limpeza gradativa do rosto, como se lentamente tirasse uma máscara. Quer liquidar o jogo de sinuca como quem quer começar outro, o jogo do amor maternal. Há um paralelismo entre a esperança do menino e a da mãe. Finalmente eles estão em sintonia. A tensão quase resolvida.

Triunfante, ele ganha o jogo e tem uma visão abrupta, determinando tudo:

O jogo acabou. Primeira discussão em torno da mesa, gabos, trocas de dinheiro.
Vinha chorosa de fazer dó. Mamãe surgindo na cortina verde vinha miudinha. Não disse uma palavra, me pôs a marmita na mão.
— O seu almoço.

A mudança súbita, também na narração, marca a surpresa do amor incondicional que o toca definitivamente. Ao surgir na cortina verde, a imagem da mãe parece gradualmente, pelo uso do gerúndio, ir transpondo o verde da mesa, simbolizada por uma cortina que separa a fantasia da realidade, como o palco, do publico. Surge trazendo o alimento mais esperado: o amor. O choro do menino é incontrolável, porque símbolo da expurgação: “E uma coisa crescendo na garganta, crescendo, a boca não agüentava mais. Ia chorar, não tinha jeito”. Depois de tirada a máscara, o menino precisa limpar os olhos:

O choro já serenando, baixo sem os soluços. Mas era preciso limpar os olhos para ver as coisas direito. Pensei, um infinito de coisas batucaram a cabeça... Taco batido por mim. E agora mamãe me trazendo almoço...
Eu ganhava aquilo? Um braço me puxou.
— Me deixa.

Ele escolhe a leveza de ser filho à secura de ser jogador de sinuca - menino apenas:

Larguei as coisas e fui saindo. Depois a rua, mamãe ia lá em cima. Ninguém precisava dizer que aquilo era um domingo... Havia namoros, havia vozes e havia brinquedos na rua, mas eu não olhava. Apertei meu passo, apertei, apertando, chispei. Ia quase chegando.
Nossas mãos se acharam. Nós nos olhamos, não dissemos nada. E fomos subindo a rua.

Passada a cortina, volta para a sua realidade de menino, “num passo arrastado”, dolorido. Não era fácil deixar a camaradagem do jogo, mas também não era fácil agüentar sua exploração. O amor pela mãe o empurrava, tinha pressa em se reconstituir. Filho e mãe perdidos um do outro, acham-se, as “mãos se acharam”. Eles, ao subirem a rua ascendem aos seus papéis. Mais uma vez, e agora para sempre, as diferenças entre a mãe e ele são resolvidas num lirismo despido, enternecedor.

Podemos, portanto, visualizar nessa narrativa a marca essencial da expressão poética que é a universalidade e a totalidade, pois além da sua estrutura rítmica, exterioriza afetos e sentimentos através de suas imagens.

Texto proveniente de:
Jane Christina Pereira - Doutoranda em Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Luciana Cristina Corrêa - Pós-Graduada em Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP)

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