Moça com flor na boca, de Airton Monte

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Moa com Flor na Boca, do poeta e contista Airton Monte, uma coletnea com pouco mais de sessenta textos, entre tantos guardados nas reminiscncias da memria mais que perfeita - um tipo de arquivo recm-descoberto.

Em Moa com Flor na Boca, o autor viaja por todos os caminhos da crnica. E o faz exatamente por ser poeta e prosador de primeira linha. Suas crnicas, publicadas diariamente em jornais, tm o sabor de poemas lricos ou de contos introspectivos. como se ele no as escrevesse para jornais, mas para a posteridade.

O cronista s vezes se volta para o cotidiano imaginado, porque no conta fatos ou episdios, mas descreve estados dalma (Histrias do cotidiano, A palavra muda, O repouso do guerreiro) e faz da crnica pea ficcional. A mulher no aqurio conto de fino lavor. Personagens, quase sempre sem nome explcito, povoam muitas dessas crnicas, que se assemelham a contos. Em Telefone, retratos, escorpio v-se um homem desesperado em determinados lugar e tempo e sua histria. Em outra composio um homem bem vestido chupa manga na calada e faz o cronista lembrar a infncia, o tempo das mangas, dos quintais (...eu pulava (o muro) no ressonar das tardes de domingo pra roubar manga-rosa no p. A infncia, alis, um dos temas favoritos do cronista) (Consideraes sobre o longe, Declarao de amor). Essas lembranas no poderiam deixar de remeter ao passar do tempo, ao envelhecimento, morte (Um dia absolutamente normal, La belle dame sans merci).

Essa viso do mundo o leva a pintar personagens solitrios, como os goleiros: Quando se postam imveis debaixo das traves, so a metfora vida de uma palavra perdida entre parnteses. Ou a no carecer de personagens, como se quisesse dizer que uma histria nem sempre precisa deles. Ou precisa tanto deles que todos os possveis personagens se apresentam, embora por momentos, no palco. Como numa arca de No. Crnica surrealista , talvez, o melhor exemplo disso. Pea literria de altssimo valor, assemelha-se a um mosaico imenso, pintado no cho ou longe dele, no cu, no no-lugar: Um rosto no escuro, como nos filmes de Hitchcock; Uma princesa e um sapo passeando de brao dado na floresta negra, como nos contos de Andersen e dos irmos Grimm; Um aperto de mo, um par de algemas, um arrocho no peito, um ataque de asma, um teso recolhido na inocncia do stiro, como s se l em quem veio da Hlade, conheceu Dante e se fez Airton Monte.

A solido, o desencontro das pessoas no mundo tambm esto em Moa com Flor na Boca. Como o homem e a moa que no se falam, em Moa de azul-celeste. Ou na potica A mulher de preto. Outras vezes, a solido no est muito longe, pelo contrrio, atinge em cheio o prprio cronista (ou o narrador, se quiserem), como em A nudez do cronista.

Em algumas crnicas a busca do mundo leva o cronista a se afastar de si mesmo. Ou buscar o mundo com os olhos, cata de histrias, e se levar consigo pela cidade (De palavra em palavra). Imaginar-se na Fortaleza de sua infncia, adolescncia e juventude, na Praia de Iracema, na borda da velha ponte derruda (Namorados, namorai). Essa Fortaleza est presente em diversos momentos do livro, ora em forma de lamento, ora de exaltao (Feliz aniversrio, Fortaleza, A morte anunciada).

s vezes no exatamente o mundo fsico que o cronista esquadrinha, mas o mundo interior ou a vida no seu decorrer. O que so os domingos, as tardes de Domingo, a solido domingueira (Os passarinhos fujes, A casa cheia de palavras)?

Entretanto, a crnica tem muitas vezes como protagonista o prprio cronista, que tambm pode ser visto como um personagem, semelhana do que acontece nas narrativas em primeira pessoa. H ainda a possibilidade de o cronista se voltar para o prprio ato de escrever, questionar o que seja escrever e se mostrar o mais sincero possvel: gosto de brincar com palavras (Licena potica). Ou se mostrar angustiado por no ter sobre o que escrever (O mar mulher).

Um dos temas mais caros ao cronista Airton Monte a mulher. No exatamente a prpria mulher, a namorada, a amante, ou a mulher do prximo, a fatal, a imaginada, mas a mulher como ser. E, de tanto se ocupar dela, termina criando peas de autntica ourivesaria, contos da melhor feio literria, como em Desejos de mulher. Mas nem s de mulher vive o cronista. O homem tambm ocupa um lugar especial na carpintaria do escritor, o que absolutamente normal. No conto Enfim, livre, um homem solitrio pensa. Isto , a solido se abate sobre os seres de forma indefensvel. Outras figuras masculinas povoam as composies do livro, s vezes com descrio minuciosa. Em Figuras urbanas o protagonista um preto alto e magro feito um guerreiro etope.

O mais freqente em Airton Monte , sem dvida, a crnica potica, realizada sempre com muita sabedoria e talento. Em algumas delas o eu se pluraliza, se torna ns, numa atitude puramente lrica, como em S. O. S. Deus. O narrador ou o eu, nesses momentos, se desnuda de todo para o leitor. Ou para si mesmo. Abre a janela para o nada, em completo desnimo, em plena desiluso. Ou pinta um auto-retrato em branco e preto, com pinceladas rspidas e rpidas (Atestado de identidade). Essa busca de si mesmo leva o cronista a, vez em quando, tecer consideraes sobre o ato de escrever e, mais ainda, sobre o ser poeta, como se v em O desertor da poesia, espcie de ato de f ao contrrio, se no for lido como pura ironia. Em Licena potica observou: Sim, escrever trata-se fundamentalmente de brincar, embora muitas vezes seja um jogo perigoso, arriscado, que pode nos levar paz dos precipcios, bem-aventurana dos infernos que em ns mesmos residem, silenciosos e ocultos sob a pele das palavras ainda no escritas.

Aiton Monte no tenta ludibriar o leitor e, quando a ele se dirige, o faz com humildade (Vocs, meus parcos leitores, que perdem seu preciso tempo lendo essas aleivosias que escrevo...) E pede desculpas se, por acaso, estiver a repetir o tema (O poeta naturista). O que natural para o cronista que diariamente escreve. Essa angstia j se manifestava em O mar mulher, a angstia da falta de assunto, de no ter visto nada que valesse a pena servir de tema para uma crnica: H dias assim, to terrivelmente medocres que sequer inspiram a mais reles croniqueta.

Airton Monte, poeta e contista de vocao lrica, mas tambm social, no poderia deixar de se indignar com as guerras, o caos, as catstrofes e suas conseqncias. A crnica que encerra o volume Os olhos das crianas de Bagd um soco no estmago de todos ns: Os olhos das crianas de Bagd so faris acesos na escurido de nossas conscincias.

A crnica de abertura do livro e que d ttulo ao mesmo, j faz uma sntese dos elementos recorrentes do autor: o lirismo, a ironia mordaz, o jogo dos contrastes e a circularidade:

A esta hora tardia em que escrevo, o dia de amanh j se anuncia no melanclico cantar de um galo insone, exilado na grande cidade. Claro que o mundo no pra enquanto dormimos. As coisas continuam acontecendo, seguindo seu prprio ritmo.

Numa mesma escala do tempo, num botequim da periferia, compadre Raimundo matou compadre Francisco por causa de uma dose de cachaa pedida e recusada. Em uma cobertura luxuosa da Avenida Beira-Mar, um marido (respeitvel cidado) espancou outra vez a mulher s porque ela abraou e beijou um velho amigo de faculdade. Trancado no quarto, olhos fixos na tela do computador, o filho de 5 anos sente o dio envenenando sua dolorosa meninice.

J no centro da cidade, que jamais dorme, maus meninos de boas famlias ateiam fogo a um mendigo bbado, s para tornar a noite menos chata. Pela internet, um casal ainda jovem se ama por correspondncia e usa nomes falsos e troca retratos fictcios.

Num sobradinho branco, de janelinhas azuis recm-pintadas, beira do mar, um homem e uma mulher celebram no altar de Vnus sob as bnos de Afrodite. Num terreno baldio, uma criana estuprada e morta pelo vendedor de picols.

Na Praia de Iracema, as vendedoras de flores poetizam a noite srdida. Dentro de um mesmo universo multifacetado, h, ao mesmo tempo, uma lua-de-mel, um velrio de pai rico onde os filhos choram com advogado ao lado e com firma reconhecida. Ah, quantos dramas, quantas tragdias acontecendo agora enquanto escrevo, inclusive uma cano que se solta pelo ar, uma estrela cadente, uma nuvem esculpida caprichosamente pelo vento, um homem solitrio recitando poemas de amor e seu corao gritando vida, meus olhos sonhando com a mgica viso de uma moa linda, com um sorriso de jardim suspenso da Babilnia e, certamente, irremediavelmente com uma flor na boca, que o poeta colher inevitavelmente, imune ao veneno de todos os espinhos. (p. 7 e 8 )

As passagens "A esta hora tardia em que escrevo..." e "Ah, quantos dramas, quantas tragdias acontecendo agora enquanto escrevo..." apontam um elemento inerente composio de Airton Monte: a circularidade; isto , os enunciados estabelecem entre si vasos comunicantes, e a escritura resulta de um entrelaar-se de fios, semelhana de uma teia. Tecelo, o autor possui um fio-mestre; deste, podem desprender-se outros fios, mas quele estaro subordinados.

Cronista, o autor se apresenta ao leitor como um homem comum, que tambm luta pela sobrevivncia, que, como qualquer outro homem, trabalha, ainda que destoe do quadro geral: "o dia de amanh j se anuncia" cidade, mas para ele, cronista, uma "hora tardia", pois, da mesma forma como aquele "galo", ele, tambm, um "insone" e um "exilado", em sua "caverna" - espao de sua criao.

A "mquina do mundo" o faz tecer uma srie de reflexes acerca dos contrastes que compem a crosta do cotidiano. E, como "As coisas continuam acontecendo", passa a colher, aleatoriamente, alguns episdios, configuradores do espetculo humano, estabelecido no grotesco, uma vez que ao lado do belo reside o feio; do puro, o impuro; da virtude, o pecado etc.

Assim, no mesmo instante em que nasce um "beb", fazendo com que a humanidade se engrandea "no doce mistrio da carne", num "botequim da periferia", um compadre matou o outro, por motivo banal. Mas, como a violncia est entranhada no homem, e ultrapassa a fronteira da misria social, numa "cobertura de luxo", um "marido" - ironicamente composto com um "respeitvel cidado" - espanca, tambm por motivos banais, a esposa, enquanto em outro quarto, preso ao computador, o filho, criado na abastana, j destila "dio", reconhecendo o absurdo de sua infncia infeliz.

Concomitantemente, no "centro da cidade, que jamais dorme," porque abriga o lixo social - prostitutas, travestis, trabalhadores noturnos etc -, "maus meninos de boas famlias ateiam fogo a um mendigo bbado, s pra tornar a noite menos chata". (Nessa passagem, o cronista relembra um episdio que, em verdade, aconteceu em Braslia: jovens de classe mdia alta - todos estudantes - atearam fogo ao corpo do ndio Galdino que dormia em um banco num ponto de nibus, j que se perdera dos companheiros - vieram a uma audincia no Planalto - e esperava encontr-los ao amanhecer. Os jovens - assassinos do ndio - declararam, poca, que fizeram aquilo porque estavam entediados.)

Como se v, no se tratou de um gesto imotivado. certo que, em relao vtima, eles no cultivavam qualquer sentimento de dio, de vingana etc. Na ps-modernidade, o consumo chega a um ponto de reificao que se torna montono; desse modo, eles consumiram uma imagem que eles mesmos produziram: o desespero do ndio em chamas - um espetculo visual que tem, assim, relao com o consumo; pois, afinal de contas, estavam "entediados".

A imagem do "casal ainda jovem" que se ama por correspondncia e usa nomes falsos e troca retratos fictcios remete a uma problemtica da contemporaneidade: a teatralidade social, a dificuldade de comunicao, a artificialidade das atitudes. A sexualidade, ainda que esteja ligada verdade individual, escorregadia, imprecisa e desemboca em dvidas e em interrogaes. Se num "sobradinho branco", um casal celebra o amor liberto das convenes sociais, num "terreno baldio, uma criana estuprada e morta".

Airton Monte, em muitas passagens de suas crnicas, entrega-se ao potico e nos brinda com imagens surpreendentemente belas: "Na Praia de Iracema, as vendedoras poetizam a noite srdida". As "flores", no espao noturno, substituem as palavras de amor e de amizade, e estes sentimentos, confirmando o paradoxo humano, palmilham, na "Praia de Iracema", o mesmo territrio das drogas, do lcool e da prostituio.

Por fim, em meio a canes, estrelas, nuvens, o poeta sonha "com a mgica viso de uma moa linda... com uma flor na boca" - a "flor" surge em toda a sua fora lrica, como smbolo de esperana, mesmo que frgil, a insurgir-se contra os descaminhos do mundo, a desumanizao. A "moa", trazendo na boca uma "flor" o quadro da promessa de renovao tanto do mundo quanto do corao do poeta, que, "imune ao veneno de todos os espinhos", colher a o seu gro de beleza.

Airton Monte escreve em ziguezague; desse modo, um de seus procedimentos o de eliminar verdades absolutas; e brinca com o leitor, ao conduzi-lo por caminhos falsos ou rotas incompletas. Funciona mais ou menos assim: apresenta um argumento, enumera justificativas e finge completar o pensamento; mas apenas finge complet-lo, pois, logo em seguida, toma um outro rumo.

Finalmente, ressalta-se o discurso intertextual como uma das marcas de seu discurso literrio, uma vez que um leitor voraz e carrega dentro si, entrelaados, fragmentos de tantas lguas de livros; bem como de canes, amante que de jazz, de blues, da bossa-nova, do samba-cano, dos boleros etc.

Texto parcial: Revista Agulha

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