Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

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Anlise da obra

Morte e Vida Severina, o texto mais popular de Joo Cabral de Melo Neto, um auto de natal do folclore pernambucano e, tambm, da tradio ibrica. Foi escrito entre 1954-55.

Naquela ocasio, Maria Clara Machado, que dirigia o teatro Tablado, no Rio, pedira que Joo Cabral escrevesse algo sobre retirantes. O poeta escreveu, ento, um grupo de poemas dramticos, para "serem lidos em voz alta" e os dedicou a Rubem Braga e Fernando Sabino, "que tiveram a idia deste repertrio".

Morte Vida Severina tem como subttulo Auto de Natal pernambucano e tem inspirao nos autos pastoris medievais ibricos, alm de espelhar-se na cultura popular nordestina.

por esse motivo que, no poema, Joo Cabral usa preferencialmente o verso heptassilbico, a chamada "medida velha", ou redondilho maior, verso sonoroso e facilmente obtido.

Morte e Vida Severina estruralmente est dividida em 18 partes; no entanto, outra diviso muito ntida pode ser feita quanto temtica: da parte 1 a 9, compreende-se o priplo de Severino at o Recife, seguindo sempre o rio Capibaribe, ou o "fio da vida" que ele se dispe a seguir, mesmo quando o rio lhe falta e dele s encontra a leve marca no cho crestado pelo sol. Da parte 10 a 18, o retirante est no Recife ou em seus arredores e sofridamente sabe que para ele no h nenhuma sada, a no ser aquela que presenciou no percurso: a morte.

Sua linha narrativa segue dois movimentos que aparecem no ttulo: "morte" e "vida". No primeiro, temos o trajeto de Severino, personagem-protagonista, para Recife, em face da opresso econmico-social, Severino tem a fora coletiva de uma personagem tpica: representa o retirante nordestino. No segundo movimento, o da "vida", o autor no coloca a euforia da ressurreio da vida dos autos tradicionais, ao contrrio, o otimismo que a ocorre de confiana no homem, em sua capacidade de resolver os problemas sociais.

O auto de natal Morte e Vida Severina possui estrutura dramtica: uma pea de teatro. Severino, personagem, se transforma em adjetivo, referindo-se vida severina, condio severina, misria.

O retirante vem do serto para o litoral, seguindo a trilha do rio Capibaribe. Quando atinge o Recife, depois de encontrar muitas mortes pelo caminho, desengana-se com o sonho da cidade grande e do mar.

Resolve ento "saltar fora da ponte e da vida", atirando-se no Capibaribe. Enquanto se prepara para morrer e conversa com seu Jos, uma mulher anuncia que o filho deste "saltou para dentro da vida" (nasceu).

Severino assiste ao auto de natal (encenao comemorativa do nascimento). Seu Jos, mestre carpina, tenta demover Severino da resoluo de "saltar fora da ponte e da vida".

Texto na ntegra e comentrios

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM E A QUE VAI

O meu nome Severino,
como no tenho outro de pia.
Como h muitos Severinos,
que santo de romaria,
deram ento de me chamar
Severino de Maria;
como h muitos Severinos
com mes chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
h muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como ento dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: o Severino
da Maria do Zacarias,
l da serra da Costela,
limites da Paraba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
j finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabea grande
que a custo que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais tambm porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doena
que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e at gente no nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roado da cinza.

Neste trecho, Severino retirante se apresenta s pessoas e tenta, quando mais possa, logo de incio individualizar-se. Para tanto, usa referncias pessoais, de sobrenomes e nomes e geogrficas. Intil, ele apenas um igual a tantos outros Severinos e, desse modo, difcil desidentificar-se de maneira a distanciar-se deles, os seus iguais em sofrimento, dor, busca, no mesmo espao geogrfico da secura, fome, misria e ignorncia.

A partir do 31o verso, no entanto, sua fala deixa de ser individualizada. Ao observar que "somos muitos Severinos/iguais em tudo na vida:/na mesma cabea grande/que a custo que se equilibra..." o retirante funde sua saga saga dos outros nordestinos, junta-se a eles no destino da retirada, da busca de sadas, da procura, pobreza, sofrimentos e sonhos. E, corajosamente se anuncia:

Mas, para que me conheam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a histria de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presena emigra.  

ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE " IRMOS DAS ALMAS! IRMOS DAS ALMAS! NO FUI EU QUE MATEI NO!"

A quem estais carregando,
irmos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
A um defunto de nada,
irmo das almas,
que h muitas horas viaja
sua morada.
E sabeis quem era ele,
irmos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
Severino Lavrador,
irmo das almas,
Severino Lavrador,
mas j no lavra.
E de onde que o estais trazendo,
irmos das almas,
onde foi que comeou
vossa jornada?
Onde a Caatinga mais seca,
irmo das almas,
onde uma terra que no d
nem planta brava.
E foi morrida essa morte,
irmos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
At que no foi morrida,
irmo das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
E o que guardava a emboscada,
irmo das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
Este foi morto de bala,
irmo das almas,
mais garantido de bala,
mais longe vara.
E quem foi que o emboscou,
irmos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
Ali difcil dizer,
irmo das almas,
sempre h uma bala voando
desocupada.
E o que havia ele feito,
irmos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pssara?
Ter um hectares de terra,
irmo das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
Mas que roas que ele tinha,
irmos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
Nos magros lbios de areia,
irmo das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.
E era grande sua lavoura,
irmos das almas,
lavoura de muitas covas,
to cobiada?
Tinha somente dez quadros,
irmo das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma vrzea.
Mas ento por que o mataram,
irmos das almas,
mas ento por que o mataram
com espingarda?
Queria mais espalhar-se,
irmo das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
E agora o que passar,
irmos das almas,
o que que acontecer
contra a espingarda?
Mais campo tem para soltar,
irmo das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
E onde o levais a enterrar,
irmos das almas,
com a semente de chumbo
que tem guardada?
Ao cemitrio de Torres,
irmo das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
E poderei ajudar,
irmos das almas?
vou passar por Toritama,
minha estrada.
Bem que poder ajudar,
irmo das almas,
irmo das almas quem ouve
nossa chamada.
E um de ns pode voltar,
irmo das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
Vou eu, que a viagem longa,
irmos das almas,
muito longa a viagem
e a serra alta.
Mais sorte tem o defunto,
irmos das almas,
pois j no far na volta
a caminhada.
Toritama no cai longe,
irmo das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
Partamos enquanto noite,
irmo das almas,
que o melhor lenol dos mortos
noite fechada.

Neste trecho Severino inicia o caminho e encontra dois homens que carregam um defunto numa rede. So os "irmos das almas", comuns no serto nordestino: a eles cabe, gratuitamente, lavar e vestir o defunto, velar e, posteriormente enterr-lo em lugar digno.

O defunto Severino Lavrador "mas j no lavra" e os "irmos das almas" o esto trazendo da caatinga, morto bala, numa emboscada. Inquieto, Severino pergunta o porqu da morte. E fica sabendo que o mataram por questo de terra.

Esse apenas o primeiro dos muitos Severinos que encontrar na viagem.

O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR PORQUE SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERO

  Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que h muitas vilas grandes,
cidades que elas so ditas;
sei que h simples arruados,
sei que h vilas pequeninas,
todas formando um rosrio
cujas contas fossem vilas,
todas formando um rosrio
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosrio
at o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: no fcil
seguir essa ladainha;
entre uma conta e outra conta,
entre uma a outra ave-maria,
h certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias at de donos,
e onde o p se descaminha.
No desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no plo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios l de cima,
to pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no vero tambm corta,
com pernas que no caminham.
Tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas no vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas;
ouo somente distncia
o que parece cantoria.
Ser novena de santo,
ser algum ms-de-Maria;
quem sabe at se uma festa
ou uma dana no seria?

No percurso que reinicia, Severino tem medo de perder-se porque o rio foi "cortado"pelo Vero, j no h indcios nele, quase: "Mas como segui-lo agora/que interrompeu a descida?" Verifique que no trecho aparecem com freqncia as palavras 'fio", "linha"e "rosrio", o que nos remete ao mito grego das trs Parcas, donas absolutas da vida humana, elas tecem o fio da existncia, medem-no e, por fim, o cortam quando queiram.

Perdido e atnito, Severino ouve ao longe uma cantoria. outro Severino que encontra. E, mais uma vez, encontra-o sob o signo da morte que permeia a sua vida.

NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTO CANTANDO EXCELNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES

Finado Severino, quando passares em Jordo e o demnios te atalharem perguntando o que que levas...
Dize que levas cera, capuz e cordo mais a Virgem da Conceio.
Finado Severino, etc. ...
Dize que levas somente coisas de no: fome, sede, privao.
Finado Severino, etc. ...

Dize que coisas de no, ocas, leves: como o caixo, que ainda deves.
Uma excelncia dizendo que a hora hora.
Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.
Duas excelncias...
... dizendo a hora da plantao.
Ajunta os carregadores...
... que a terra vai colher a mo.

A cantoria se resume em cantar as "excelncias"do defunto. Excelncias quer dizer "qualidades". Cantando, os sertanejos recomendam o defunto para que quando ele atravesse o Jordo possa e seja cercado pelos demnios possa dizer o que leva da vida. sempre pouca coisa: capuz, cordo, a Virgem, fome, sede , privao.

interessante notar, no entanto, que a morte sempre compartilhada. O campons nunca est sozinho quando morre, outras pessoas, solidariamente, tomam conta dele, compartilham o momento.

CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMP-LA POR UNS INSTANTES E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.

Desde que estou retirando
s a morte vejo ativa,
s a morte deparei
e s vezes at festiva;
s a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que no foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que menos
vivida que defendida,
e ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas porque
parar aqui eu no podia
e como o Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos at que as guas
de uma prxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou ser que aqui cortando
agora minha descida
j no poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(ser que a gua destes poos
toda aqui consumida
pelas roas, pelos bichos,
pelo sol com suas lnguas?
ser que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de gua no antigo
sobrar nos poos ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo h para que decida;
primeiro preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se no rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poder me dar notcia.

Severino, por um tempo, pensa em parar a viagem porque "s a morte vejo ativa"; pensa em procurar trabalho onde se encontra. Veja a comparao, j nos versos finais entre "vida"e "linha"; e note que o verbo "cortar"tambm se faz presente: outro remetimento ao mito das trs Parcas.

Parar, procurar trabalho... note aqui que o retirante no deseja emigrar, deixar a terra de origem. Ele v uma mulher na janela e pensa em pedir a ela notcias sobre um trabalho qualquer.

DIRIGE-SE MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABER

Muito bom dia, senhora,
que nessa janela est;
sabe dizer se possvel
algum trabalho encontrar?
Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de l?
Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra m;
no h espcie de terra
que eu no possa cultivar.
Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por l?
Tambm l na minha terra
de terra mesmo pouco h;
mas at a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
Tambm de pouco adianta,
nem pedra h aqui que amassar;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazia por l?
Conheo todas as roas
que nesta ch podem dar:
o algodo, a mamona,
a pita, o milho, o caro.
Esses roados o banco
j no quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia l?
Melhor do que eu ningum
sei combater, qui,
tanta planta de rapina
que tenho visto por c.
Essas plantas de rapina
so tudo o que a terra d;
diga-me ainda, compadre;
que mais fazia por l?
Tirei mandioca de chs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavradas
pela seca faca solar.
Isto aqui no Vitria
nem Glria do Goit;
e alm da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
Sei tambm tratar de gado,
entre urtigas pastorear:
gado de comer do cho
ou de comer ramas no ar.
Aqui no Surubim
nem Limoeiro, oxal!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por l?
Em qualquer das cinco tachas
de um bangu sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
Com a vinda das usinas
h poucos engenhos j;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer l?
Ali ningum aprendeu
outro ofcio, ou aprender:
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
Mas isso ento ser tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saber.
Deseja mesmo saber
o que eu fazia por l?
comer quando havia o qu
e, havendo ou no, trabalhar.
Essa vida por aqui
coisa familiar;
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelncias,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
J velei muitos defuntos,
na serra coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhvamos a meias,
que a freguesia bem d.
Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
Vou explicar rapidamente,
logo compreender:
como aqui a morte tanta,
vivo de a morte ajudar.
E ainda se me permite
que volte a perguntar:
aqui uma profisso
trabalho to singular?
, sim, uma profisso,
e a melhor de quantas h:
sou de toda a regio
rezadora titular.
E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
boa essa profisso
em que a comadre ora est?
De um raio de muitas lguas
vem gente aqui me chamar;
a verdade que no pude
queixar-me ainda de azar.
E se pela ltima vez
me permite perguntar:
no existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
Como aqui a morte tanta,
s possvel trabalhar
nessas profisses que fazem
da morte ofcio ou bazar.
Imagine que outra gente
de profisso similar,
farmacuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes s avessas,
sobem do mar para c.
S os roados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultiv-los fcil:
simples questo de plantar;
no se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e do lucro imediato;
nem preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

O retirante dirige-se mulher da janela, dando-lhe bom dia e perguntando se h trabalho por ali; curiosa, ela lhe pergunta que tipo de trabalho ele fazia "por l". Severino diz que foi sempre lavrador de "terra m". A mulher vai fazendo perguntas, ao que ele responde o que sabe fazer: arar at a "calva da pedra", plantar mamona, algodo, pita, milho e caro... A mulher diz aqueles roados o banco nem quer mais financiar. Ele anuncia que sabe tratar de gado e cuidar das casas de purgar, o que no interessa mulher.

Mas h uma resposta magnfica que Severino d a ela, por fim:

"deseja mesmo saber

o que eu fazia por l?

Comer quando havia o qu

e, havendo ou no, trabalhar."

A mulher, ento, informa-lhe que ali s h trabalho para os ofcios que envolvam a morte: benditos e ladainhas para rezar, cantar as excelncias de um defunto. E se apresenta como "rezadora titular"da regio.. S h trabalho ali nos "roados da morte", que do lucros imediatos, na hora de semear, ou seja, quando "se planta"no cho o defunto.

O RETIRANTE CHEGA ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM

Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela uma terra doce
para os ps e para a vista.
Os rios que correm aqui
tm a gua vitalcia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o cho, gua mina.
Vejo agora que verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
no plantarei minha sina?
No tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a brao
contra a piarra da Caatinga
ser fcil amansar
esta aqui, to feminina.
Mas no avisto ningum,
s folhas de cana fina;
somente ali distncia
aquele bueiro de usina;
somente naquela vrzea
um bangu velho em runa.
Por onde andar a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
to fcil, to doce e rica,
no preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do ms,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitrio ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.

Severino chega Zona da Mata e se espanta porque Os rios que correm aqui/tm a gua vitalcia. E v a Usina. Apesar de tanta riqueza, quase no v gente e pressupe que todos estejam "feriando". Imagina Severino que ali tudo seja fcil, "decerto a gente daqui/jamais envelhece aos trinta"... Engana-se: o lugar est vazio porque as usinas prescindem dos homens, tudo mecnico, nada requer o trabalho braal de gente igual a ele.

Prossegue Severino o seu caminho.

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITRIO

  Essa cova em que ests,
com palmos medida,
a cota menor
que tiraste em vida.
de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
a parte que te cabe
deste latifndio.
No cova grande,
cova medida,
a terra que querias
ver dividida.
uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estars mais ancho
que estavas no mundo.
uma cova grande
para teu defunto parco,
porm mais que no mundo
te sentirs largo.
uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
no se abre a boca.
Vivers, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e ters enfim tua roa.
A ficars para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas savas.
Agora trabalhars
s para ti, no a meias,
como antes em terra alheia.
Trabalhars uma terra
da qual, alm de senhor,
sers homem de eito e trator.
Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
sers semente, adubo, colheita.
Trabalhars numa terra
que tambm te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
Ser de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
Ser de terra e tua melhor camisa:
te veste e ningum cobia.
Ters de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
Como s homem,
a terra te dar chapu:
fosses mulher, xale ou vu.
Tua roupa melhor
ser de terra e no de fazenda:
no se rasga nem se remenda.
Tua roupa melhor
e te ficar bem cingida:
como roupa feita medida.
Esse cho te bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
Esse cho te bem conhecido
(bebeu o moo antigo).
Esse cho te bem conhecido
(bebeu tua fora de marido).
Desse cho s bem conhecido
(atravs de parentes e amigos).
Desse cho s bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
Desse cho s bem conhecido
(te espera de recm-nascido).
No tens mais fora contigo:
deixa-te semear ao comprido.
J no levas semente viva:
teu corpo a prpria maniva.
No levas rebolo de cana:
s o rebolo, e no de caiana.
No levas semente na mo:
s agora o prprio gro.
J no tens fora na perna:
deixa-te semear na coveta.
J no tens fora na mo:
deixa-te semear no leiro.
Dentro da rede no vinha nada,
s tua espiga debulhada.
Dentro da rede vinha tudo,
s tua espiga no sabugo.
Dentro da rede coisa vasqueira,
s a maaroca banguela.
Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.
Na mo direita um rosrio,
milho negro e ressecado.
Na mo direita somente
o rosrio, seca semente.
Na mo direita, de cinza,
o rosrio, semente maninha.
Na mo direita o rosrio,
semente inerte e sem salto.
Despido vieste no caixo,
despido tambm se enterra o gro.
De tanto te despiu a privao
que escapou de teu peito a virao.
Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
E agora, se abre o cho e te abriga,
lenol que no tiveste em vida.
Se abre o cho e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
Se abre o cho e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

Este trecho o mais conhecido da pea de Joo Cabral, a parte mais terrvel do auto. L est outro Severino morto, levado pelos amigos ao cemitrio. Cada um deles canta uma parte da despedida. H aqui a mais lcida condenao do poeta: os latifndios matam o homem que se dispe a lutar pela terra. E os consomem como "espigas debulhadas", roendo-lhes as foras, a mocidade, a fibra de trabalhador.

Esse Severino tem agora a cova em palmos medida, lugar onde cabe e se aninha o que antes queria a sua parte na terra.

Todos os amigos questionam a maneira como os patres tratam seus empregados, explorando-lhes a fora de trabalho, pagando-lhes uma ninharia.

o momento mais dramtico do poema de Joo Cabral e detalha bem a vida do nordestino campons, lavrador de terra sempre m porque explorado por seus patres metonimicamente representados pelo latifndio.

O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE

Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
no foi a grande cobia;
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta;
se na serra vivi vinte,
se alcancei l tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estend-la um pouco ainda.
Mas no senti diferena
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferena a mais mnima.
Est apenas em que a terra
por aqui mais macia;
est apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de calia,
a vida arde sempre, com
a mesma chama mortia.
Agora que compreendo
porque em paragens to ricas
o rio no corta em poos
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosrio de nomes
que a linha do rio enfia;
chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosrio, derradeira
invocao da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

De novo, aqui, as palavras "rio", "fio"e "linha" podem ser observadas. Os advrbios "aqui" (Zona da mata) e "l" (serto) se contrapem, Severino chega ao Recife e anuncia que sua viagem acabou. Ele veio como o rio em busca do mar, porque o Recife sempre foi a porta pela qual os nordestinos deixavam sua regio.

CHEGANDO AO RECIFE, O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO P DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS

O dia de hoje est difcil;
no sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de c.
As avenidas do centro so melhores,
mas so para os protegidos:
h sempre menos trabalho
e gorjetas pelo servio;
e mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
Pois eu me daria por contente
se me mandassem para c.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
no estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
est decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
que o colega ainda no viu
o movimento: no o que se v.
Fique-se por a um momento
e no tardaro a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vo chegar (ou partir, no sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
so como o porto do mar:
no muito ali o servio:
no mximo um transatlntico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas este setor de c
como a estao dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de algum.
Mas se teu setor comparado
estao central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde no pra o vaivm?
Pode ser uma estao
mas no estao de trem:
ser parada de nibus,
com filas de mais de cem.
Ento por que no pedes,
j que s de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o servio?
No creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde esto os endereos
e o bairro da gente fina:
isto , para o bairro dos usineiros,
dos polticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos banguezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros);
bairro tambm dos industriais,
dos membros das associaes patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profisses liberais.
Difcil que consigas
aquele bairro, logo de sada.
S pedi que me mandassem
para as urbanizaes discretas,
com seus quarteires apertados,
com suas cmodas de pedra.
Esse o bairro dos funcionrios,
inclusive extranumerrios,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para l vo os jornalistas,
os escritores, os artistas;
ali vo tambm os bancrios,
as altas patentes dos comercirios,
os lojistas, os boticrios,
os localizados aerovirios
e os de profisses liberais
que no se liberaram jamais.
Tambm um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras tambm as gorjetas.
Gorjetas aqui, tambm,
s d mesmo a gente rica,
em cujo bairro no se pode
trabalhar em mangas de camisa;
onde se exige qupi
e farda engomada e limpa.
Mas no foi pelas gorjetas,
no, que vim pedir remoo:
porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro;
aqui ao menos h mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.
E que disse o Administrador,
se que te deu ouvido?
Que quando aparea a ocasio
atender meu pedido.
E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?
No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.
E onde vais trabalhar agora,
qual o subrbio que te cabe?
Passo para o dos industririos,
que tambm o dos ferrovirios,
de todos os rodovirios
e praas-de-pr dos comercirios.
Passas para o dos operrios,
deixas o dos pobres vrios;
melhor: no so to contagiosos
e so muito menos numerosos.
, deixo o subrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
a gente sem instituto,
gente de braos devolutos;
so os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
a gente retirante
que vem do Serto de longe.
Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
E que ento, ao chegar,
no tm mais o que esperar.
No podem continuar
pois tm pela frente o mar.
No tm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
E da maneira em que est
no vo ter onde se enterrar.
Eu tambm, antigamente,
fui do subrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Serto
que desce para o litoral, sem razo,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterr-los em terra seca.
Na verdade, seria mais rpido
e tambm muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
O rio daria a mortalha
e at um macio caixo de gua;
e tambm o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
E no precisava dinheiro,
e no precisava coveiro,
e no precisava orao
e no precisava inscrio.
Mas o que se v no isso:
sempre nosso servio
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
E esse povo l de riba
 de Pernambuco, da Paraba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra s, aqui chegando
cemitrios esperando.
No viagem o que fazem,
vindo por essas caatingas, vargens;
a est o seu erro:
vm seguindo seu prprio enterro.

Cansado da viagem, Severino senta-se rente ao muro de um cemitrio e ouve a conversa entre dois coveiros. Eles falam de morte, o que permeia esta jornada severina, e impressionam o retirante a veemncia de suas falas rspidas que anunciam diferenas entre enterrar ricos e pobres.

Para o cemitrio de Santo Antnio vo os homens como jornalistas, escritores, artistas e os de profisso liberal; para os da Casa Amarela, onde agora Severino est, vo os miserveis de toda a sorte, "gente dos enterros gratuitos".

Um dos coveiros comenta que o rio Capibaribe devia dar-lhes uma mortalha macia, sem que precisassem de dinheiro ou coveiro e assusta o retirante ao anunciar que quando vm da caatinga, "Vm seguindo o prprio enterro."

O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

Nunca esperei muita coisa,
preciso que eu repita.
Sabia que no rosrio
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
no seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre ps e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu brao esperariam.
Mas que se este no mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a gua pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Serto,
meu prprio enterro eu seguia.
S que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda est com vida.
A soluo apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem tambm l de cima,
que me faa aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixo macio de lama,
mortalha macia e lquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de gua que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
no seca, vai toda a vida).

Esta parte um lamento com a quebra das expectativas de Severino. O que ele deseja pouca coisa: um trabalho, gua, farinha, algodozinho da camisa, dinheiro pro aluguel. Sonhos de um homem simples que se desmancharam ao saber que viera seguindo o prprio enterro e que sua vida est por um triz. Imagina que tenha chegado adiantado uns dias, apenas.

APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A GUA DO RIO

Seu Jos, mestre carpina,
que habita este lamaal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura d vau?
sabe me dizer se funda
esta gua grossa e carnal?
Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a mar est cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaas, alvarengas,
muitas de grande calado.
Seu Jos, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
no preciso muito gua:
basta que chega ao abdome,
basta que tenha fundura
igual de sua fome.
Severino, retirante,
pois no sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estmago,
se cruza quando se come.
Seu Jos, mestre carpina,
e quando ponte no h?
quando os vazios da fome
no se tem com que cruzar?
quando esses rios sem gua
so grandes braos de mar?
Severino, retirante,
o meu amigo bem moo;
sei que a misria mar largo,
no como qualquer poo:
mas sei que para cruz-la
vale bem qualquer esforo.
Seu Jos, mestre carpina,
e quando fundo o perau?
quando a fora que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxo das guas
no melhor se entregar?
Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque seno ele alaga
e devasta a terra inteira.
Seu Jos, mestre carpina,
e em que nos faz diferena
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num brao do mar misria?
Severino, retirante,
muita diferena faz
entre lutar com as mos
e abandon-las para trs,
porque ao menos esse mar
no pode adiantar-se mais.
Seu Jos, mestre carpina,
e que diferena faz
que esse oceano vazio
cresa ou no seus cabedais,
se nenhuma ponte mesmo
de venc-lo capaz?
Seu Jos, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
h muito no lamaal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada vista?
Severino, retirante,
sou de Nazar da Mata,
mas tanto l como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de compr-la.
Seu Jos, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
h nessa vida a retalho
que cada dia adquirida?
espera poder um dia
compr-la em grandes partidas?
Severino, retirante,
no sei bem o que lhe diga:
no que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
, de qualquer forma, vida.
Seu Jos, mestre carpina,
que diferena faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor sada:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

Esse tambm um momento dramtico e terrvel do auto: Severino encontra-se com seu Jos, mestre carpina. No preciso dizer com quem, alegoricamente, ele se encontrou... Morando nos alagados, nas casas palafitadas, mocambos do Recife, seu Jos interrogado pelo retirante.

A metfora "saltar da ponte e da vida", renunciar existncia, no surpreende o homem que ouve a conversa do retirante a lhe perguntar sobre o rio, tambm metaforicamente a significando a prpria existncia, com suas guas fundas e lodosas. um dilogo figurado, intenso. A "vida de retalho", pequena e medida.
Mas os dois so surpreendidos por uma notcia.

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VER

Compadre Jos, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e no sabeis
que vosso filho chegado?
Estais a conversando
em vossa prosa entretida:
no sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais a conversando;
pois sabei que ele nascido.

A mulher anuncia o nascimento do filho do carpinteiro.

E voc j sabe o que esta representao significa: o nascimento de outro Severino, aproximado, o auto, dos modelos pastoris das peas medievais. , metaforicamente, o nascimento de Jesus, em meio pobreza. O subttulo do poema se explica agora: auto de Natal pernambucano.

APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

Todo o cu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a mar
esta noite no baixou.
Foi por ele que a mar
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro no voou.
E a alfazema do sargao,
cida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.
E a lngua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaal.
Todo o cu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
socilogos do lugar.
E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que no irradia.
E este rio de gua cega,
ou baa, de comer terra,
que jamais espelha o cu,
hoje enfeitou-se de estrelas.

Aproximam-se todos para louvar o menino recm-nascido, tal como os reis magos. E vo saud-lo dentro da pobreza, como ela lhes permitir.

COMEAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECM-NASCIDO

Minha pobreza tal
que no trago presente grande:
trago para a me caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservar nosso sangue.
Minha pobreza tal
que coisa no posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui so todos irmos,
de leite, de lama, de ar.
Minha pobreza tal
que no tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
Minha pobreza tal
que no tenho presente caro:
como no posso trazer
um olho d'gua de Lagoa do Carro,
trago aqui gua de Olinda,
gua da bica do Rosrio.
  Minha pobreza tal
que grande coisa no trago:
trago este canrio da terra
que canta corrido e de estalo.
Minha pobreza tal
que minha oferta no rica:
trago daquela bolacha d'gua
que s em Paudalho se fabrica.
Minha pobreza tal
que melhor presente no tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunham.
Minha pobreza tal
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravat.
Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
Siris apanhados no lamaal
que h no avesso da rua Imperial.
Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

Cada um entrega ao menino o que tem de mais precioso: caranguejos, leite, gua, um canrio da terra, bolacha d'gua, boneco de barro, abacaxi, tamarindos, jacas, mangabas e cajus. Ainda: siris, mangas e goiamuns.

So as ofertas dos homens simples, que tiram de si mesmos os melhores presentes para saudar a vida que comea. Outra vez a solidariedade posta palma, mostrada e demonstrada, largamente exercida por todos.

FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS

Ateno peo, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde j posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprender a engatinhar
por a, com aratus,
aprender a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinaro
o anfbios caranguejos,
pelo que ser anfbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprender a caar:
primeiro, com as galinhas,
que catando pelo cho
tudo o que cheira a comida;
depois, aprender com
outras espcies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris;
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamaro
fazendo dos dedos iscas
para pescar camaro.
Ateno peo, senhores,
tambm para minha leitura:
tambm venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
necessrio que eu diga:
no ficar a pescar
de jerer toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
no pensem que a vida dele
h de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que a vida do homem de ofcio,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipcios.
No o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fbrica:
se est negro no lama,
graxa de sua mquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de mar
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao p.
E mais: para que no pensem
que em sua vida tudo triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez at lhe conquiste:
que mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.

As ciganas prevem o futuro do menino, uma boa e a outra m. Uma delas, a m, d ao menino a leitura de um destino trgico: ser pobre, fazendo dos dedos iscas/para pescar camaro, para sempre atrelado ao lamaro dos mocambos; mas a cigana boa prediz-lhe um futuro melhor, porque o que v no lama que o envolva, "mas graxa"de alguma fbrica, o que equivale a dizer que ele ascender socialmente.

FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC.

De sua formosura
j venho dizer:
um menino magro,
de muito peso no ,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
De sua formosura
deixai-me que diga:
uma criana plida,
uma criana franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
Sua formosura
deixai-me que cante:
um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a mquina de homem
j bate nele, incessante.
Sua formosura
eis aqui descrita:
uma criana pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mos que criam coisas
nas suas j se adivinha.
De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avels
contra o Agreste de cinza.
De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatria
na caatinga sem saliva.
De sua formosura
deixai-me que diga:
to belo como um sim
numa sala negativa.
to belo como a soca
que o canavial multiplica.
Belo porque uma porta
abrindo-se em mais sadas.
Belo como a ltima onda
que o fim do mar sempre adia.
to belo como as ondas
em sua adio infinita.
Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
Belo como a coisa nova
na prateleira at ento vazia.
Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
Infecciona a misria
com vida nova e sadia.
Com osis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

O menino saudado pelos vizinhos, amigos. Todos trazem presentes e o comparam s coisas boas da vida. Embora ele seja um menino magro, "tem peso de homem"; criana franzina , mas "tem a marca de homem". E belo como tudo que os cerca. De todos os versos, ressaltam-se:
 
"belo como uma coisa nova/ na prateleira at ento vazia"

"Belo como um caderno novo/quando a gente principia."

  metforas das necessidades fundamentais do homem: o alimento e a educao.

  O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE EM NADA

Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu no sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se no vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheo essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
difcil defender,
s com palavras, a vida,
ainda mais quando ela
esta que v, severina;
mas se responder no pude
pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presena viva.
E no h melhor resposta
que o espetculo da vida:
v-la desfiar seu fio,
que tambm se chama vida,
ver a fbrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
v-la brotar como h pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando assim pequena
a exploso, como a ocorrida;
mesmo quando uma exploso
como a de h pouco, franzina;
mesmo quando a exploso
de uma vida severina.

Terminada a festa, seu Jos mestre carpina vem falar com Severino. O dilogo final de uma beleza rara: o que vale a vida, mesmo que ela seja como a do menino? Como a de Severino?

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