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Mulher no espelho, de Helena Parente Cunha


Helena Parente Cunha em Mulher no espelho, publicado em 1985, desloca para Salvador (Bahia) o cenário do enredo, que, para quase toda essa geração de mulheres escritoras, parece estar no âmago de sua imaginação criadora, a história de sua própria imagem vilipendiada pela espoliação masculina: E vou começar a minha estória. Agora, na superposição de meus rostos, em convergência de datas. Aqui no cruzamento de meu corpo com o espaço de minhas imagens. Tenho o que dizer pois vou dizer-me a mim mesma (Cunha, H. P., 1985) mas, como qualquer pessoa que se põe diante da memória ou dos espelhos. O recurso confessional é mais uma vez o caminho literário eleito e o lamento dorido é prolongado nesta autora que sob uma dupla identidade (a real, passiva e a do espelho, revoltosa) realiza uma reflexão ininterrupta em torno de si mesma e de seu "estar no mundo": Não desejo narrar a mulher que me escreve. Quero narrar a mim mesma somente (Cunha, H. P.) Mas quem é ela? Perseguindo obsessivamente a própria identidade, a voz narradora (a do espelho) descreve amarga e punitivamente a mulher que reflete: a heroína do fracasso cotidiano, do sofrimento anônimo, da miséria sem remédio.

A personagem, inominada, de Mulher no espelho é sangrenta e sexual na flagelação que se inflige, de um lado e se submete, de outro. Autoflagelação que se transforma em ódio derramado sobre o universo familiar que a cerca e do qual tenta se libertar por rompimento violento, que termina em remorso partilhado pela personagem e seu duplo.

As violências que são praticadas no romance contra a "instituição" e o "Nome do Pai" são penalizadas pela morte do filho chorado por ambas, a mulher real e a mulher refletida: Agora estamos paradas, uma olhando para a outra, os pés roídos de ratos. Os espelhos multiplicam as imagens até o infinito. Mas nosso remorso nos une. Meu rosto no espelho é o dela. Ela sou eu. Eu sou ela. No final os espelhos se rompem metaforizando o reencontro da própria personalidade e da identidade feminina da protagonista.

Este é o desfecho de uma narrativa contada através de espelhos que da realidade histórica circundante nada mostram, confirmando a hipótese de que o excesso de subjetivismo e a contínua reflexão autobiográfica desta fase impediram a filtragem de uma realidade social em que o registro das mudanças (políticas e comportamentais) poderia estar presente.

Mulher no espelho permanece sendo sua obra mais polemizada pelo choque que causaram sua linguagem rasgada e o comportamento quase debochado da protagonista, ainda hoje considerado, por muitos, como inadequado para uma mulher.

Aspectos Estruturais

Apresenta um foco narrativo múltiplo, além de não possuir um único narrador ao longo da história. Predomina, no entanto, o foco narrativo em primeira pessoa.

Existem três figuras que participam do processo de gênese literária: a personagem, a mulher que escreve e a autora. É bom lembrar que a autora é apenas referida no decorrer da narrativa, não chegando, portanto, a ser um personagem inserido na trama. A história surge do enfrentamento entre personagem e mulher que escreve.

O enredo é não linear, e é marcado por constantes digressões e "flashbacks".

O tempo é predominantemente psicológico.

Embora haja a especificação do espaço físico (cidade de Salvador, especialmente bairros do Rio Vermelho e da Vitória), o predomínio ainda é o do espaço psicológico.

A fragmentação dos períodos e o uso de frases nominais é uma marca do estilo da obra.

Aspectos Especiais

- Presença do discurso livre indireto e do fluxo de consciência.
- Uso da metalinguagem e da conversa com o leitor.
- Presença de monólogos interiores.
- A presença do tom lírico-poético em certas partes do romance.

Aspectos Temáticos

- Questionamento metafísico.
- A presença da cor local baiana.
- A identidade feminina e a condição da mulher na sociedade.
- O próprio processo de criação artística.

> Veja aqui entrevista com a autora

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