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Não a ti, Cristo odeio ou menosprezo (Poema), de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)


O poema Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo, de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, mostra que, para o autor o paganismo é uma visão intelectual da verdade. Sua maior defesa é abominar o culto ao deus único, e desta forma ataca o cristianismo:

(...) “Não a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo (...)
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo” (...)

Cristo é considerado o deus do sofrimento, em razão de toda a sua história, e a única coisa que Reis jamais admitirá é o sofrimento e o amor, já que é um epicurista, é o pagão que nega o Cristianismo dedicando odes a Cristo, explicando a recusa ao movimento religioso cristão, e não exatamente a Cristo.

Reis abomina o culto a um deus único, usando este argumento como a sua principal defesa com uma preocupação exagerada:

NÃO A TI, Cristo, odeio ou te não quero.
Em ti como nos outros creio
deuses mais velhos.
Só te tenho por não mais nem menos
Do que eles,
mas mais novo apenas.

Esta ode revela de antemão uma das respostas que se procura para a pergunta: Ricardo Reis realmente odeia o cristianismo? Qualquer pessoa adepta do paganismo admite todos os deuses. Ricardo Reis não é diferente, por mais que seja pagão. Declara que admite Cristo como seu deus também, entre os outros deuses pagãos, traindo-se a si mesmo, pois muitas vezes manifesta seu acolhimento ao cristianismo.

Para ele esses versos são como fósseis ou restos de antigas civilizações, ou seja, como se os tivesse escrito em um tempo que já não existe mais, o tempo em que os escreveu ou a época clássica. Pergunta a si próprio se terão mais sentido no corpo das odes em que se inserem ou serão já esvaziados de sentido.

Poema na íntegra:

Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
           Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupar,
           Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A stéril dor da humanidade antiga
           Sim, nova pulcritude
Trouxe ao Panteão incerto.

Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
           Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
           Panteão que preside
           A nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
           Trouxe algo que faltava
           Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
           Vai enxugar o pranto
           Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, stultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
           Das presenças maiores
           Ou parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
           Supersticiosos leigos
           Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
           Cada vez maior força
           Plo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
           Nós homens nos façamos
           Unidos pelos deuses

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