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Nariz de vidro, de Mário Quintana


Em um dos maiores exemplos de sensibilidade poética, Mario Quintana apresenta o amor de criança e as imagens da infância em uma coleção de poemas selecionados por Mary Weiss e publicados em 1984.

A moça do arame, equilibrando a sobrinha, perturba o menino. Uma flor nasce, curiosa e ingênua. Um idiota da aldeia tem um surrão todo de penas cheio e a aia despetala estrelas para embalar o sono do reizinho, enquanto um anjo, todo molhado, soluça no seu flautim. Assim são os poemas da obra Nariz de vidro:

pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão
.

Os textos de Mário Quintana tematizam a vida, fazendo reflexões sobre seu significado. Pequenos flashs da natureza, uma cena do cotidiano, um relato de amor-criança, esses poemas encantam adolescentes e adultos. Muita delicadeza, lirismo e nostalgia são as marcas dessa coletânea.

Poemas escolhidos

O POEMA

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para
         [Sempre na floresta noturna.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

RECORDO AINDA...

Recordo ainda ... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite mortal!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada fora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

O CIRCO O MENINO A VIDA

A moça do arame
Equilibrando a sombrinha
Era de uma beleza instantânea e fulgurante!
A moça do arame ia deslizando e despindo-se.
Lentamente.
Só para judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
Até parecerem dois pires:
Meu tio dizia:
“bobo!”
Não sabes
Que elas sempre trazem uma roupa de malha por baixo?
(Naqueles voluptuosos tempos não havia nem maiôs nem biquínis...)
Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens
Segredava-me
Sempre:
“Quem sabe?”

Eu tinha oito anos e sabia esperar.

Agora não sei esperar mais nada
Desta nem da outra vida.
No entanto
O menino
(que não sei como insiste em não morrer em mim)
ainda e sempre
apesar de tudo
apesar de todas as desesperanças,
o menino
às vezes segreda-me baixinho
“Titio, que sabe?...”

Ah, meu Deus, essas crianças!

INSCRIÇÃO PARA UMA BARREIRA

A vida é um incêndio: nela
Dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
Se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
Cantemos a canção da vida,
Na própria luz consumida...

A GENTE AINDA NÃO SABIA

A gente ainda não sabia que a Terra era redonda.
E pensava-se que nalgum lugar, muito longe,
Deveria haver num velho poste uma tabuleta qualquer
— uma tabuleta meio torta
E onde se lia, em letras rústicas: FIM DO MUNDO.
Ah! Depois nos ensinaram que o mundo não tem fim
E não havia remédio senão irmos andando às tontas
Como formigas na casca de uma laranja.
Como era possível, como era possível, meu Deus,
Viver naquela confusão?
Foi por isso que estabelecemos uma porção de fins de mundo...

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