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No Retiro da Figueira (Conto), de Moacyr Scliar


No conto No Retiro da Figueira, de Moacyr Scliar, o narrador-personagem relata sua experiência, da sua família e de outras famílias sobre a perspectiva de viver em um condomínio fechado cujo nome dá título ao conto. Assustados com a violência e a insegurança dos grandes centros urbanos, as famílias descobrem no condomínio divulgado através de um prospecto, a solução para seus problemas, por mais que tal promessa de felicidade dê origem à desconfiança, como se pode perceber já na primeira frase do conto: “Sempre achei que era bom demais.”

Um prospecto publicitário constitui um elemento essencial ao conto. Ao longo das três primeiras páginas, podem ser recolhidas as seguintes alusões a este pedaço
de papel que decide o destino das personagens:

Bem como dizia o prospecto [...]”, “[...] exatamente como o prospecto as descrevia [...]”, “Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta.”, “Todos tinham vindo pelo prospecto.” “[...] o prospecto tinha sido enviado apenas a uma quantidade limitada de pessoas.”, “[...] tal como prometido no prospecto [...].” (SCLIAR, 1995, p. 60-62)

Como se pode notar, este prospecto colorido é fundamental, pois é através dele que as pessoas descobrem a existência do Retiro da Figueira e se interessam
tanto que decidem visitar o local e garantir a compra de uma residência sem demora, pois em poucos dias todas as unidades são vendidas. O que o prospecto contém é atraente sob todos os sentidos: imagens de casas sólidas e bonitas, gramados, parques, pôneis, lago, campo de aviação, árvores, pássaros e um sistema de segurança desenvolvido com alta tecnologia. Na chegada ao local, os candidatos a compradores e, em seguida, moradores, comprovavam a fidelidade das imagens do prospecto, além de entrar em contato com a gentileza e a amabilidade dos guardas.

O prospecto e a realidade permanecem coincidentes durante pouco mais de um mês. Passado este período, começam os dissabores: a sirene de alarme começa a
tocar e os condôminos, por quatro dias seguidos, são impedidos de sair do salão de festas, o local determinado para a concentração de todos em caso de emergência. Até que um jato pousa no campo de aviação, transportando um homem com uma maleta que é entregue aos guardas. Eles partem junto com o avião e com o dinheiro pago pelo resgate dos moradores seqüestrados do Retiro da Figueira. De felizardos habitantes de um paraíso, todos passam à condição de vítimas e reféns.

É interessante observar que o prospecto não é a única fonte de disseminação das imagens simuladas. Os personagens confirmam ao vivo as maravilhas que tinham
sido apresentadas sob a forma impressa. Mesmo assim, o estado de coisas não é mantido por muito mais do que um mês. A armadilha não tarda a ser revelada, confirmando a suposição do narrador-personagem, para quem tudo “era bom demais”.

Em “No retiro da Figueira”, existe também uma tensão entre sólito e insólito que vai se revelando gradativamente no decorrer da narrativa. A mesma conta a
história de uma família que recebe um prospecto de um condomínio fechado “maravilhoso” que oferecia segurança extrema. Apavorados com a violência, eles
decidem se mudar. A narrativa, que começa construindo o espaço da cidade, com violência e que se desloca para o condomínio fechado e sua promessa de segurança, nada tem de diferente dos paradigmas que regem a realidade referencial, sendo assim, aparentemente não há acontecimentos insólitos na narrativa. No entanto, uma série de fatos começam a ser descobertos dando um caráter de estranhamento, de fuga da ordem habitual das coisas à mesma.

Estruturada nas ironias que se revelam no fim da narrativa, a mesma se estrutura com personagens em busca da segurança, chefe de segurança do condomínio, famílias em ascensão financeira, etc. Os indícios que alimentariam, no desfecho, o grande acontecimento insólito gradativamente vão se manifestando: os prospectos foram enviados a pessoas selecionadas, as pessoas eram sempre sorridentes e prestativas. Até que no fim da narrativa as famílias não saem do condomínio, por ordens de segurança.

Então, eles descobrem que foram seqüestrados e estão presos no Retiro da Figueira. Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago pelo nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais aos nosso – que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais. (SCLIAR, 2006, 81)

Mais uma vez, as tensões entre sólito e insólito vão emergindo. O retiro que proporcionava segurança, ao mesmo tempo prendia as famílias como um cativeiro.
Vê-se, neste caso, o espaço diegético corroborando a reconstrução de novas realidades, pois, o espaço de condomínio transforma-se em cativeiro causando a desconstrução das identidades e a fragmentação dos espaços, das realidades. O que parecia a solução dos problemas vai se tornando o problema maior. Ao constatar o insólito, a realidade se reestrutura e se configura de uma nova maneira, com novos personagens, este é o momento da passagem do sólito para o insólito, o processo que através da percepção, interfere e fragmenta a realidade referencial.

Conto na íntegra

         Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso. Bem como dizia o prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranqüilo, um dos últimos locais – dizia o anúncio – onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao condomínio: Retiro da Figueira.
         Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à cidade – e eram uns bons cinqüenta minutos – ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes – e sobretudo dos guardas. Oito guardas, homens fortes, decididos – mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: “ah, mas ele deve ser formado em alguma universidade”. De fato: no decorrer da conversa ele mencionou – mas de maneira casual – que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
         Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança; trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém roubado e espancado; e quando uma amiga nossa foi violentada por dois marginais, minha mulher decidiu – tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de procurar um lugar seguro.
         Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se morássemos num edifício mais seguro o portador daquela mensagem publicitária nunca teria chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo enfiado sob a porta transformou-se – como dizia o texto – num novo estilo de vida.
         Não fomos os primeiros a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário; entre nossa primeira visita e a segunda – uma semana após – a maior parte das trinta residências já tinha sido vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto. E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança.
         Naquela semana descobri que o prospecto tinha sido enviado apenas a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo, só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores – e viu nisso mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
         Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da manhã começavam seu afinado concerto. Os pôneis eram mansos, as aléias ensaibradas estavam sempre limpas. A brisa agitava as árvores do parque – cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa para ver se estava tudo bem – sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez uma lista dos parentes e amigos dos moradores – para qualquer emergência, explicou, com um sorriso tranqüilizador. O primeiro mês decorreu – tal como prometido no prospecto – num clima de sonho. De sonho, mesmo.
         Uma manhã de domingo, muito cedo – lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham começado a cantar – soou a sirene de alarme. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um pouco assustados – um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao salão de festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
         O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir que não saíssemos naquele domingo.
         – Afinal – disse, em tom de gracejo – está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as quadras de tênis...
          Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente contrariado.
         Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada. Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho. Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não poderíamos sair – os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião o chefe dos guardas respondeu que, mesmo de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
         – E vocês, por que não nos acompanham? – perguntou o cirurgião.
          – E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.
          Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas nós os víamos e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
          Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando nada daquilo.
          Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
          Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós – amedrontado, pareceu-me – e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
          O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião decolou e sumiu.
         Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao nosso – que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.

Fonte parcial: Flávio Garcia, Publicações Dialogarts

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