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Notícias de Bordo, de Linhares Filho


O livro de poemas, de Linhares Filho, Notícias de bordo, é composto de 70 composições, entre as quais 23 são sonetos. As restantes constituem-se de versos livres, versos polimétricos. Este livro reúne o que, na concepção literária de Linhares, melhor representa a sua produção de 1968 até os nossos dias e dá uma visão mais ou menos inteira e acabada da feição da poética de Linhares Filho.

O refinamento, em sua poesia, dá-se de diversas formas. Independente da temática, ele é intrínseco: está no discurso e na visão dos narradores. Se observarmos seus textos sob este ponto de vista, notaremos que em Sumos do Tempo (1968), seu primeiro livro, a cosmovisão e a linguagem, que regerão toda a poética de Linhares Filho, já estão aí configuradas: o poeta já nasceu maduro e com um discurso acabado. Isto deve ser fruto das suas leituras, dos seus estudos e pesquisas como professor universitário, e, principalmente, da sua maneira de ver o mundo.

Procedimentos estilísticos

Comparando alguns poemas desse primeiro livro com, por exemplo, poemas do livro Cantos de Fuga e Ancoragem, de 2007, com a distância de 40 anos, portanto, nota-se que a linguagem e a cosmovisão estão muito próximas. Há, por isto, uma constância de procedimentos discursivos. O que mudou com o tempo foi a nova formulação de conceitos e algumas temáticas.

O metapoema, por exemplo, presente em quase todos os livros, reafirma alguns desses conceitos, além de nos mostrar também algumas atualizações no pensamento do poeta.

Em "Poema Algo Cômico de Minha Essência", Linhares Filho configura o perfil do poeta como aquele ser que vê, diferentemente, o mundo, o que, do ponto de vista da realidade, é correto, porque o artista vê aquilo que a grande maioria não consegue enxergar (o detalhe e a sensibilidade para ver isto é atributo do poeta).

A sensibilidade é o elemento que o diferencia do ser comum; ela é o guia, que o sensibiliza sobre as coisas do mundo, ou sobre os sentimentos que regem o universo da vida. É por isso que o homem comum não o entende, se concebê-lo como um homem comum:

O que só me vê passar carregado de embrulhos,
enfrentando apressado os transeuntes
para tomar o ônibus das dezessete e trinta,
não me entende.

O poeta, assim, solicita do homem comum mais aparatos sensoriais e mais percepções para enxergá-lo como poeta, como um artista que vê o mundo sob outro ponto de vista; solicita, portanto, dele (leitor), algo mais do que viver cotidianamente: isto é uma aprendizagem (aqui está, por exemplo, um dos refinamentos da poesia de Linhares Filho).

O homem comum somente começa a entender o poeta se visar alguns detalhes (este é o aprendizado):

Se também me vê ficar insone alta noite,
empunhando a pena, o olhar longínquo,
os lábios em movimento, sem articular palavra,
talvez me entenda...´

Na primeira estrofe, também há outra linha refinada e sutil de conceitos: o narrador define-se pela visão do outro. Este é o apelo que o eu-lírico faz ao leitor comum, ou seja, para reconhecê-lo como uma pessoa-poeta.

Sobre o olhar do outro, ´empunhar a pena e ficar com o olhar longínquo´ tanto pode conotar uma postura mais romântica desse ser (o poeta que fica olhando para dentro de si, em busca de algo - inspiração? - para escrever), como pode conotar uma típica postura do pensador (aquele que racionaliza o discurso. O olhar longe tanto pode indicar o esperar - a inspiração - como o pensar - a razão). Existe aqui, portanto, uma visão racional sobre o discurso, ao mesmo tempo em que o narrador assume toda a postura de um ser que tem a ´capacidade de beijar a noite´. Com isto, ele volta s encobrir-se com o manto sutil da poesia, que lhe dá o direito (e até o dever) de fazer isto. É por este motivo que o narrador se contenta: quando o outro o vê desta forma.

Este jogo, com as palavras e com os conceitos (na segunda estrofe, o narrador define-se por ele mesmo - ´Sou, sobretudo, o que compõe sonatas´ -, diferentemente da primeira), trava um constante diálogo com o leitor atento. Atento, porque a poesia de Linhares Filho é intelectualizada, instiga o pensar. O nível de confissão da poética de Linhares Filho, portanto, sensibiliza o leitor de outra forma: através da reflexão. É isto que o faz partidário, também, da Geração-45.

O aspecto dual em sua poesia aparece em outros níveis, como, por exemplo, no da linguagem e no da retórica.

No poema em análise, Linhares Filho é metafórico e metonímico. É metafórico quando há a afirmação de que o poeta é aquele que ´beija a noite´. É metonímico, quando o narrador diz que toma um ônibus. Os dois lados do mundo estão aqui: o real e o imaginário. É o equilíbrio, por um lado; por outro, o instintivo, o espontâneo, o sem-regras. É dionisíaco e apolíneo, mesmo que haja uma predominância do segundo, em sua poética.

A metáfora e a metonímia também se configuram, nessa mesma estrofe, de outra maneira:

Assim, sou um grande atento para as horas e os quilômetros.
Mas, esqueço, quase sempre, de dar corda ao relógio
e de obedecer à linguagem semafórica do trânsito...
(Quando me atrasar nos compromissos, saibam-me desculpar.
Quando me adiantar ao sinal, não me atropelem!...)

Horas e quilômetros constituem uma metáfora; relógio e semáforo são referenciais seguros do real.

Retoricamente, os dois pólos semânticos ficam bem configurados: o leitor (principalmente os que somente ´habitam´ o mundo real) devem ter sabedoria para distinguir os dois seres - o poeta e o homem comum.

A natureza temática

No livro de Linhares observa-se o homem preocupado com os seus mundos, exterior e interior, traçados ao gosto dos sentidos e sentimentos, não apenas do esteticismo. O poeta não tem preocupação alguma com o engajamento de sua obra, apenas, como se fosse pouco, poetiza as vivências nos vários planos de sua vida, pessoal, acadêmica, literária, social, dentre outros. São poemas extraídos de sete livros, cabalisticamente selecionados, no entanto não se pretende dar um tom espiritual e enigmático à obra do poeta de Lavras, visto que ele mesmo já traçou esses elementos como pertinentes a sua vida.

De Sumos do tempo (1968), foi extraído o texto "Poema algo cômico de minha essência", onde viceja o cosmopolitismo de alguém cansado da vida moderna e enfadonha, e tão somente aliviado pelo ato de escrever poesia. Nesses versos o poeta se diz por acaso, pois o homem traz em sua alma o traquejo do mundo, seja de qual tempo for, algo que pode ser ilustrado com a última estrofe do interessante "Poema algo cômico de minha essência":

A primeira parte tende à reflexão filosófico-espiritualista, mas não adota sistema algum de religião ou filosofias. É claro que existem as recorrências literárias, entretanto não determinam o sentimento do poeta, sevem como exemplos e referenciais, jamais como determinação de seu texto poético.

A tematização da morte, muito freqüente em Literatura, não delimita o versejar de Linhares, nota-se apenas uma marca que também faz parte da vida, seja de quem fica ou de quem parte, conforme os versos de "A minha mãe, habitante da morte":

Tua branca rede já não se arma
para a sesta. Todavia guardo,
com o ranger longínquo dos armadores,
a placidez do teu sono,
a entreter o meu sonho.

Além da morte, outros temas são o amor em sua tríplice dimensão: eros, filia e ágape (erotismo, amizade e caridade); a atitude existencial-ontológica; a própria poesia (o metapoema); o misticismo; o civismo; a preocupação social; o memorialismo; o telurismo; o lirismo familiar. Tudo isso se impregna do prestígio da metáfora marítima, porque Linhares sente-se poeticamente um navegador existencial.

Na segunda parte, "Voz das coisas", verifica-se não mais uma transição entre o poeta e a poesia, não mais reflexões existencialistas, mas a consolidação de uma poesia rica e engenhosa, paralela aos maiores nomes do cânone em Língua portuguesa. Inicia-se com uma composição carregada de ironias que marcam o cotidiano das entidades de um século promissor em seu início, mas tenso e contraditório se mostrou em seu final.

Se tivermos de engajar o texto do poeta em algum segmento de estilo, podemos afirmar que tanto autor como poesia estão inseridos no contexto estético modernista.

Créditos: José Aglailson Lopes Pinto, ensaista e professor | Paulo de Tarso Pardal, professor, ficcionista, ensaísta e compositor

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