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Nova Antologia Poética (Organizado por Antônio Cícero e Eucanaã Ferraz), de Vinícius de Moraes


Nova Antologia Poética, de Vinícius de Moraes, é uma obra que reúne 112 poemas deste autor, reorganizados pelos poetas Antônio Cícero e Eucanaã Ferraz. Poucos poetas brasileiros aliaram grande refinamento estético a uma enorme popularidade como Vinicius de Moraes. Seus versos marcaram a literatura brasileira ao longo de mais de cinqüenta anos, e alguns deles são conhecidos até mesmo por pessoas pouco habituadas à leitura de poesia.

A Nova antologia poética lança um olhar renovado sobre a produção de um dos poetas que mais influenciaram a cultura brasileira do século XX, tanto na literatura quanto na música popular.

A poesia de Vinicius de Moraes (1913-1980), conforme ele mesmo afirma no prefácio de sua Antologia poética, divide-se em duas fases que traduzem posturas diferentes frente à vida e à criação lírica:

Primeira fase: Correspondendo à sua formação religiosa, os dois primeiros livros inserem-se numa linha que poderia ser designada como neo-simbolista. Intensas conotações místicas, desejo de transcendência, busca do mistério e um confronto entre as solicitações da alma e as do corpo impregnam estes textos de um fervor espiritual nebuloso e rebuscado. O romancista católico Octávio de Faria disse que o poeta oscilava entre "a impossível pureza e a inaceitável impureza". Na primeira estrofe do poema Ânsia, percebe-se este clima de "perdição" representado pelo amor físico:

Na treva que se fez em torno a mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma (...)

Por outro lado, a linguagem solene, excessiva, centrada em versos longos (que remetem aos versículos da Bíblia) e no uso de adjetivação farta e de longas enumerações confere aos poemas um caráter retórico e um tom de falsidade que os tornam hoje quase ilegíveis.

Segunda fase: a partir de 1943, com Cinco elegias, a poesia de Vinícius começa a mudar. Nela - segundo o próprio autor – "estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com a difícil mas consciente repulsa ao idealismo dos primeiros anos". Esta vinculação à realidade mais imediata dá-se esquematicamente em três planos:

- o canto do amor concreto e a exaltação da mulher;

- a valorização do cotidiano e a abertura para o social;

- a utilização da linguagem coloquial.

Veja Soneto da Fidelidade (poema da segunda fase).

Ferraz e Cícero, abandonaram esta divisão ao organizar Nova Antologia Poética. Eles rejeitaram as leituras cristalizadas e os lugares comuns que se formaram em torno da obra do autor. O resultado foi uma seleção que servirá tanto para apresentar Vinicius aos leitores não iniciados, como para oferecer ao público familiarizado com sua obra uma nova chave de compreensão.

Poema escolhido (primeira fase)

O dia da criação
Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal. (...)
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios (...)
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento (...)
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado (...)
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, (...)
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias (...)
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo (...)
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

A ironia está presente em O dia da criação, poema contido na Nova Antologia Poética, onde o autor transita numa constante oposição entre matéria e espírito. Transitamos, como ele, entre crença, referência e questionamento, com uma leve incursão pelos caminhos da ironia.

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