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O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho


Segundo livro de José Cândido de Carvalho, lançado em 1964, O Coronel e o Lobisomem funde o realismo fantástico (inspirado na literatura de cordel e na fábula), e o retrato dos resíduos da sociedade patriarcal brasileira, valorizadora, da coragem e atrelada, simultaneamente, a superstições e atavismos de toda a natureza.

Esse realismo "fantástico" ou "mágico" que aproxima José Cândido de Carvalho de autores importantes de ficção latino-americana (Gabriel Garcia Marques, Vargas Losa etc) pode ser entendido como a resposta artística ao fenômeno de desmagicização do mundo, resultado do violento choque entre o Ocidente que avança e os povos extra-europeus que se rebelam, tentando consciente ou inconscientemente , defender suas criaturas autóctones. É ainda uma vez, a luta do instinto contra a civilização; do primitivo contra o moderno, do mágico contra o racional, do surreal contra o real.

A obra é regionalista, narrada em primeira pessoa, e sua ação de se desenvolve nas primeiras décadas do século XX. O romance explora as situações satíricas e o ridículo das personagens. Busca a valorização da cultura popular, principalmente rural.

O coronel e o lobisomem apresenta algumas características semelhantes às do romance de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas: a linguagem marcada pela variante caboclo-sertaneja e a presença de seres míticos como sereias e lobisomem. Em termos de sua estrutura narrativa é de se destacar o fato de Ponciano contar sua própria história, inclusive a loucura final, o que, em se tratando do romance tradicional, é um absurdo. Por outro lado é interessante sublinhar que, de todas as obras da chamada nova narrativa, O coronel e o lobisomem é uma das mais conhecidas e lidas, por ser extremamente interessante e atraente.

Das poucas análises publicadas sobre a obra, uma delas define com precisão o aspecto contraditório do personagem central: o herói de José Cândido de Carvalho poderia ser definido como um coronel decadente que, num tempo que não é mais o seu, se debate entre a atração de um agrupamento semi-urbanizado e racionalizado (Campos dos Goitacazes) e a vida do mundo perdido do interior, mundo este ainda estruturado em bases mítico-sacrais, no qual o lobisomem e a sereia são aceitos como seres naturais, reais, que integram o acontecer normal da existência.

Com O coronel e o lobisomem, José Cândido de Carvalho criou um estilo próprio, em que usa sufixos e prefixos para subverter a língua portuguesa, dando-lhe mais vida. É uma mistura da oralidade e do formal, com muito neologismo (criação de palavras), o que dificulta uma assimilação mais fluente.

O personagem Ponciano de Azeredo Furtado, narrador-coronel do título, de tão cativante, é daqueles que fazem o leitor esquecer-se de que estão lendo um romance. Passamos a acreditar que ele realmente existe, que se trata de um homem de carne e osso, um ser vivo, tal como nós. Homem que é homem duas coisas de principal deve ter: barba grande e voz grossa. O charuto é para espantar o povinho dos empréstimos, descreve-se o coronel.

Enredo

Ponciano de Azevedo Furtado, neto de Simeão, oficial superior da Guarda Nacional, proprietário de fazendas de gado do interior fluminense, que, atraído pela vida da cidade e pela atividade de negociante, emigra para Campos dos Goitacazes, não conseguindo, porém, integrar-se no meio urbano. Dividido entre o mundo dos pastos e a vida citadina, Ponciano enlouquece, depois de perder quase toda sua fortuna.

Espécie de herói picaresco dos Campos dos Goitacazes, estado do Rio de Janeiro, conta suas façanhas e seu esforço em lutar contra as mais variadas formas de injustiça: contra o valente de circo (Vaca-Braba), contra o cobrador de impostos, contra o tipo agiota. Espécie de cavaleiro andante das causas perdidas, solteirão rico, é cobiçado pelas mães ansiosas pelo casamento de suas filhas.

Apesar de fraco no entendimento de coisas econômicas e administrativas (especulação do açúcar) é um forte na arte de desencantar assombrações e cair na artimanha de mulheres casadas.

Ao lado de Ponciano vivemos os mais divertidos casos e as mais fantásticas aventuras, caçamos uma onça-pintada e deparamos com uma sereia. Também namoramos bastante, que o coronel é chegado "num recurvado de moça bonita". O ponto culminante da narrativa é o embate com o lobisomem: não é qualquer um comedor de farinha que pode lidar com lobisomem, bicho de muita astúcia no atacado e no varejo.

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