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O corpo (Contos), de Lacordaire Vieira


No livro de contos O Corpo, de Lacordaire Vieira, a arte do autor revela a linguagem do sábio que conhece a hora certa de exprimir seu pensamento. Por isso, o silêncio predomina nos textos. E o silêncio é uma forma de comunicação. Os contos evidenciam a retórica do silêncio por meio de metáforas. Há uma forte influência do regionalismo e dos costumes goianos.

Sua arte não pretende ser comunicativa, porque a sua finalidade é a expressão, o movimento, a ação. O contista seleciona as palavras, mergulha no rio da linguagem, numa incessante perquirição à procura da polissemia e chega às profundezas do discurso onde tudo é silêncio mistério. Mais uma vez, Lacordaire Vieira mostra seu talento de excelente contista.

De acordo com o próprio autor, a sua intenção ao batizar sua obra foi mostrar a forma com a qual é tratada e supervalorizada a beleza física no formato da chamada “beleza idealizada” pela sociedade de um modo geral, principalmente aqui, no mundo Ocidental, onde as pessoas chegam a perder a individualidade, buscando traços e formas que julgam perfeitos, uma vez que adotam referenciais de beleza incitadas principalmente pela mídia.

Outro ponto que merece destaque, é o fato de que, em cada conto, após uma análise mais acurada, pode-se observar que a narrativa sempre está relacionada a alguma parte do corpo humano, seja ela física (matéria) ou psíquica (mente). Um bom exemplo deste culto ao corpo encontra-se no primeiro conto, intitulado “Os Seios de Sofia”, onde, às vésperas do noivado, o namorado de Sofia descobre que esta não possui um dos seios, o que o deixa confuso e indeciso quanto ao casamento.

Outro ponto interessante dos textos de Lacordaire é a presença de algumas marcas autobiográficas, o que aparece de uma forma implícita, discreta e sutil. Para o autor, escrever é uma forma de terapia, onde encontra a oportunidade de dizer o que quer, quando não tem a quem dizer, ou seja, a idéia contida na conhecida máxima popular que afirma que “o papel aceita de tudo”. O conto “A Pequena Morte de Martinha” exemplifica bem estas marcas autobiográficas, ao passo que o autor realmente perdeu uma irmã com apenas alguns meses de vida, como o que foi narrado. Outra característica autobiográfica pode ser observada em “A Morte ao Vivo”, onde é feita uma homenagem ao escritor João Antônio, amigo de Lacordaire, o qual foi encontrado vários dias após a sua morte, sozinho, em seu apartamento. Neste conto, pode-se observar um outro valor da sociedade contemporânea que o autor quis destacar: a solidão e o individualismo.

Os contos

Os seios de Sofia: Dois noivos se encontram em um barzinho. Ela, a noiva, se encontrava animada com a data do casamento que se aproximava. No entanto, o noivo buscava uma forma de se livrar do compromisso pois descobre que a noiva, Sofia, não tinha um dos seios.

A-mãe-te: História de Leila, uma mãe solteira, e seu filho deficiente. Ela começa um namoro e só depois conta sobre o filho que é bem aceito pelo namorado.

Meu cão: Um menino pobre que com um feitiço fez um "capeta" para si. Com seu capeta aprontava muitas: roubava bolas de gude e enganava os outros quando criança. Quando adulto planejou, no dia da mulher, jogar soda cáustica no rosto de uma, sendo encorajado pelo"capeta" que possuía. Bebeu para criar coragem, brigou por conta da espuma do chope. A mulher, a vítima escolhida foi embora, e por fim ele só acabou bêbado.

Touro sob espora: Um homem tinha matado muitos animais, mas nunca havia matado uma mulher. Foi até a casa de uma delas, beberam juntos, mas ele se manteve sóbrio. A mulher, no entanto, estava embriagada. Levou-a então à banheira e a matou. Ele ainda lembrava-se que no tapete dormia um gato.

O baixinho: História de um senhor de baixa estatura que completou cinqüenta anos. No dia de seu anivérsario planejou matar quem entrasse em seu apartamento. Durante a espera pela vítima, relembrou a infância, quando matava lagartixas e passarinhos, e passou a ter dó de porcos e galinhas. Lembrou também que apanhava na rua e trancava-se em casa. Sempre fora motivo de piada devido à sua altura. Relembrou as festas-surpresa que já havia ganhado. Esperou por sua vítima em vão, pois ninguém apareceu. Era o dia de seu anivérsario.

Bunda! Bumbum: Raimunda tinha os glúteos grandes e chamava a atenção por isso. Um dia deixou Bentevino, um vizinho, entrar em casa, esperando uma reação do marido, Mão-de-Pilão, que cometesse eum crime. Mas nada aconteceu.

Vênus de Milo: História de Dr. Plínio, um ex-juíz e sua esposa fiel, Sara. Na narrativa ele fica apenas lembrando o passado junto à sua fascinação por braços.

Dente de ouro: Uma forte chuva, um raio matou os primos Jerônimo e Bento Matos. O irmão de um dos dois, João Batista, no dia do velório dos mortos buscou Benevides para retirar os quatro dentes de ouro de um dos falecidos. Ao sair de casa para se dirigir ao local do velório para fazer o serviço, estava chovendo. Benevides andou pouco e caiu morto por causa de um raio.

Nariz de gelo: Narra a visita de um rapaz a um necrotério e a descrição das coisas que ali viu.

Mindinho seu vizinho: Um rapaz, depois de cometer um roubo, teve como castigo, os dedos da mão direita arrancados, e assim são narrados os empedimentos e a vergonha que tal desfalque lhe causava.

Pré-Tensão: Numa reunião de família aconteceu um crime. A polícia chegou. Ali, muitos fumavam e os jovens usavam brincos.

A morte ao vivo: Conto divido em cenas que mostram um homem que morre acompanhado de uma série de informações fornecidas pela sua televisão que permaneceu ligada.

Ai-de, Ai-dos: Em um laboratório clínico, na sala de espera, todos ali presentes estavam tão absorvidos pela televisão, que apenas um homem e uma menina notam a chegada de mais uma pessoa.

Faniquim: Um homem sai do trabalho às cinco e quarenta e cinco. Estela sempre o esperava. Em determinado dia Estela relembra de seu cão companheiro, Faniquim, e deseja não ter que sair e esperar o homem que saia às cinco e quarenta e cinco, mas como sempre ele vai e os dois vão a um barzinho e bebem chope.

A pequena morte de Martinha: Conto que narra um pequeno momento de recordação. Uma menina morreu com alguns meses de vida e seu irmão, sempre muito ocupado com seus afazeres, ao passar com sua mulher pelo cemitério onde ela está enterrada, pára o carro e sozinho entra e busca o túmulo de sua irmã. Vive recordações e depois vai embora.

Ciscos nos olhos: Era Natal. Um homem estava lendo, quando de repente aparece à sua frente um menino ensangüentado. O homem prefere não parar a leitura que já havia sido muitas vezes interrompida. O menino fica imóvel desconcentrando o homem que não cede. Quando termina de ler o menino não estava mais lá.

Pré-amar e pré-amor: Helena, uma adolescente apaixonada por seu professor, Heitor, procura chamar-lhe ao máximo sua atenção. Pediu a ele uma entrevista. Ele concedeu e lhe falou com franqueza, iniciando um discurso. Helena simplesmente se foi e nunca mais voltou.

Peixe-mãe: Narra a história de um homem que ficou rico e vivia em uma mansão, que de fato nunca imaginara. Então relembra sua infância, quando sua mãe sumiu e ele nem percebeu, criando-se sozinho na praia dos pescadores.

A caminho do antes: Narra a ida de um homem para o escritório. No caminho vai olhando a paisagem da cidade desfazendo e trocando-a na mente, pela paisagem antiga de quando ainda ali era apenas um campo.

Uma flor no meio do caminho: O pai sofre um derrame e não leva mais a vida que antes levava, de muitas bebida e mulheres. Fica na cadeira, em casa, paralítico, com a mãe fica cuidando dele. A mãe dele, aos nove anos fora trabalhar de doméstica-babá, aos quinze virou recepcionista em um escritório que era tão escuro que não se acostumava com a claridade do lado de fora quando ia embora, por isso não viu o carro e por isso talvez não chegou em casa.

Boca mouca: Uma mulher que depois de mudar de número, telefone e CEP viu que tinha se esquecido de si mesmo no endereço antigo, então foi em busca dos amigos passados. Ela descobriu que Rita, sua melhor amiga, tinha se tornado surda e muda, e assim também reencontra a todos.

Fonte parcial: Jhonathan Gonçalves Rocha, acadêmico do curso de Biomedicina da UCG

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