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O fisco (Conto), de Monteiro Lobato


Em "O Fisco", conto de Monteiro Lobato, o cenário é a cidade de São Paulo, mais precisamente, o parque do Anhangabaú.

Neste conto, além de dividir o conto em Prólogo, Epílogo e Primeiro Ato, Monteiro Lobato vale-se de um recurso muito explorado no cinema: subverte a sequência cronológica. Inicia sua história pelo incidente central, voltando atrás para explicar o que aconteceu antes e para que o leitor entenda como se chegou a ele. Também a descrição da personagem central, Pedrinho, lembra o texto dramático em sua concisão e no emprego do Presente do Indicativo: Pedrinho sai. Nove anos. Franzino, doentio, sempre mal alimentado e vestido com os restos das roupas do pai. (LOBATO, 1951, v. 3, p. 61)

Um menino, filho de imigrantes italianos, tenta ajudar a família se tornando engraxate. Mas assim que se dirige à praça, é abordado por um fiscal da prefeitura que exige dele a licença municipal. Sem o dinheiro para a licença, o menino é levado até sua casa, sua mãe tem de gastar as últimas economias do mês e o menino bem-intencionado acaba por levar uma surra do pai, enquanto o fiscal se dirige ao bar da esquina para tomar uma cerveja com o dinheiro que “arrecadara”. O narrador elabora sucessivas comparações entre o organismo humano e a vida na cidade. A rua é a artéria; os passantes, o sangue. O desordeiro, o bêbado e o gatuno são os micróbios maléficos, perturbadores do ritmo circulatório determinado pelo trabalho, em particular dos imigrantes italianos. O soldado de polícia é o glóbulo branco — o fagocito de Metchenikoff. E continua o conto: "Mal se congestiona o tráfego pela ação anti-social do desordeiro, o fagocito move-se, caminha, corre, cai a fundo sobre o mau elemento e arrasta-o para o xadrez."

Nesta narrativa, Monteiro Lobato se vale da ficção para chicotear as iniquidades tributárias que tanto combatia. Vê-se que o garoto, sem autorização da Prefeitura (e ele nem sabia o que era ou porque havia necessidade disso) fora surpreendido pelo fiscal:

"– Então, seu cachorrinho, sem licença, heim? Exclamava entre colérico e vitorioso, o mastim municipal, focinho muito nosso conhecido." [43]

E continua Lobato:

"A miserável criança evidentemente não entendia, não sabia que coisa era aquela de licença, tão importante, reclamada assim a empuxões brutais." [44]

A família, muito pobre. Após narrar os dramas dessas famílias, que viviam no Brás, no início do século, Lobato imagina a criança de volta para a casa:

"Horas depois o fiscal aparecia em casa de Pedrinho com o pequeno pelo braço. Bateu. O pai estava, mas quem abriu foi a mãe. O homem nesses momentos não aparecia, para evitar explosões. Ficou a ouvir do quarto o bate-boca.O fiscal exigia o pagamento da multa. A mulher debateu-se, arrepelou-se. Por fim, rompeu em choro." [45]

E a mulher teve de pagar:

"Mariana nada mais disse. Foi à arca, reuniu o dinheiro existente – dezoito mil réis ratinhados havia meses, aos vinténs, para o caso dalguma doença, e entregou-os ao Fisco." [46]

Lobato, ainda, anota o epílogo, começa com o Fiscal:

"E foi à venda próxima beber dezoito mil réis de cerveja." [47]

Por fim, quanto ao menino:

"Enquanto isso, no fundo do quintal, o pai batia furiosamente no menino." [48]

O conto dimensiona, a partir de uma questão tributário-administrativa, o problema da justiça. Lobato valeu-se do conto para expressar sua opinião sobre um funcionalismo corrupto, arrogante e ineficiente.

No conto Lobato dimensionou a questão em nível de drama humano, que vivera ao longo de sua vida de homem de negócios. Para o escritor, a miséria radicava na desigualdade da distribuição dos bens, que, poderia ser mitigada por um sistema tributário mais humano.

Crédtos: Prof. Manuel, Colégio Sagrado Coração de Jesus, Marília, SP | Elizamari Rodrigues Becker, Doutora em Literatura Comparada, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRSG) | Enio Passiani, Mestre em Literatura, Unicamp, SP | São Paulo - Educando pela diferença para a igualdade - UFSCar - Mód. 2.

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