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O mameluco Boaventura, de Eduardo Frieiro


O romance O mameluco Boaventura, publicado em 1929, de Eduardo Frieiro, remete ao passado de Minas e busca reviver a turbulenta civilização do ouro. Em meio a esse contexto, a vida sentimental do mameluco Fernão Boaventura conduz a narrativa e se mescla aos episódios de conquistas e riquezas dos arraiais do ouro.

Neste romance de fndo histórico, Frieiro desenvolve uma história em que a ação é o elemento forte da narrativa. Os episódios são recortados de forma a apresentar um painel típico do século XVIII nas Minas Gerais, na época do governo do Conde de Assumar.

Em O mameluco Boaventura, a situação do Brasil-Colônia que abrange as grandes revoltas em torno de personagens fictícias, faz a História confundir-se com a ficção e as personagens com o real. Em meio a isso, desenvolve-se a história de um herói – Boaventura – que passa pela turbulência da vida, perde sua amada e se transforma em seguidor de um caminho que transcende a sua essência.

Não faltam ao enredo ingredientes resgatados do Romantismo. A heroína, que tem a morte como única saída, é um exemplo entre vários da formulação romântica tão ao gosto dos escritores brasileiros do século passado. O romance de Frieiro, no entanto, é comedido. A situação do casal que enreda o romance é mais um pretexto para sediar o ambiente das Minas Gerais do que um drama de dimensões desproporcionais, que transborda sentimentalismos. O tratamento às situações heróicas acontece num plano mais realista do que propriamente romântico, ou seja, não há o derramamento sentimentalista que alguns autores românticos conferiam ás suas personagens. Recriar um passado histórico e trazê-lo como enredo é, também, uma reminescência romântica que encontramos neste romance. Claro está que o enfoque é diferente; não encontramos na trama de Frieiro aquele ufanismo próprio dos românticos.

Outras cenas, ao longo da narrativa, resgatam traços fortes do Realismo/Naturalismo, como por exemplo, o espancamento do escravo Eliezer, descrito com todos os detalhes cruéis. Ou, então, a descrição detalhada e chocante da cafusa nanica e corcovada Rita.

Também as pequenas mostras do caráter de algumas personagens denotam um certo tom realista na obra de Frieiro. Não se quer dizer com isso que O mameluco Boaventura seja um exemplo da obra Realista; ele está filiado ao Modernismo, dada a data de sua primeira publicação. Desponta no romance de Frieiro, acima de qualquer julgamento crítico ou filiação a uma determinada estética, uma pesquisa séria e competente acerca do tema tratado e do engedramento da linguagem que caracteriza o tempo tratado nesse texto, acerca do período colonial mineiro.

Dois momentos históricos são recriados por Frieiro nesse romance. O primeiro, de menores proporções no enredo, foi o conflito emboaba de 1709, de que o narrador dá notícia ao contar sobre a corrida dos primeiros reinícolas às Minas do Ouro.

O segundo momento histórico se deu por volta de 1920, “quando os levantes de mineiros refletiam a insatisfação ante o fisco”. Frieiro recria o levante fazendo contracenar as personalidades que encabeçaram o episódio, como o Conde de Assumar e seus dragões, e as personagens ficcionais, como o mameluco Boaventura e seu séqüito, por exemplo.

Sobressai, no romance como na História, a ferocidade de D. Pedro de Almeida, o Conde de Assumar, governador da Capitania. A seqüência do comando de Assumar e o destino dos rebeldes não está no enredo; o curso da história muda, com a mudança de Boaventura. É a ele que acompanhamos até o final da narrativa, contemplando o momento de sua tomada de consciência diante dos fatos que fizeram dele a personagem forte, atrevida e rebelde.

Toda a trama que envolve Fernão Boaventura é relatada por um narrador em terceira pessoa. Ele vai contar uma história acontecida num tempo remoto, distanciando, assim, o tempo da enunciação do tempo do enunciado. O romance de Frieiro recria o cenário colonial brasileiro pondo-nos em contato com a linguagem da época, sem com isso deixar a narrativa pedante ou ilegível. O seu vocabulário, de admirável precisão nas descrições e de louvável contemporaneidade nos diálogos, dá-nos a impressão de que defrontamos um escritor que se deixa absorver pelo assunto que versa”.

O romance de Frieiro, apesar da época de publicação (1929), muito pouco, ou quase nada, tem das primeiras tendências modernistas. Frieiro era, na verdade um avesso ao movimento modernista, como se verá a seguir. O mameluco Boaventura pode ser considerado um romance linear, em que não se constatam novidades narrativas. Isso não quer dizer que não tenha sua expressividade.

O autor aborda um tema regional de pouca monta no contexto histórico brasileiro, visto a pouca historicidade acerca dos levantes nas Minas do Ouro em nossa produção didática. Essa temática, então, é um dos atrativos do romance de Frieiro.

Personagens

Fernão Boaventura: Filho de Caetano Boaventura e uma cunha (daí o nome de mameluco), era um rapaz valentão e atrevido que ficara rico com a herança deixada pelo pai. Fernão fora educado no colégio de jesuítas, em São Paulo, onde “fez o currículo de humanidades e freqüentou lições de artes, teologia e casos de consciência”. Mas não tinha nada a ver com aquilo; a vida eclesiástica não combinava com seu temperamento ardiloso. Está sempre acompanhado de seu capanga Chicão, um negro forte e corajoso. Apaixona-se por Violante, a filha de seu inimigo Vilarinho, o Trasmontano. Rapta a jovem, mas não alcança o casamento pois tem de fugir à perseguição do pai de Violante e das forças do governo, por ter-se aliado aos amotinados do levante de Pitangui. Adoece mortalmente, mas é salvo por seu padrinho, o Frei Tiburciano, que, além de curá-lo, abre-lhe as portas do evangelho. Termina a história a caminho do convento beneditino, no Rio de Janeiro, onde irá filiar-se.

Caetano Boaventura: Pai de Fernão. Veio de Taubaté atrás do ouro das Minas. Ficou riquíssimo com as datas metalíferas que adquiriu às margens do Ribeirão do Carmo.

Frei Tiburciano de São José: Frade capuchinho, padrinho de crisma de Fernão. Tinha seus cinqüenta anos, era robusto e bem disposto. Em sua face redonda e avermelhada pendurava-se uns óculos. Era um homem íntegro, considerado modelo de bom sacerdote.

José Gomes Vilarinho: Era de uma família de Trás-os-Montes, o que lhe conferia a alcunha de Trasmontano. Enriquecera rapidamente com as rendosas lavras minerais e fazendas de criação nos Currais da Bahia, sem falar no comércio de aguardente, fume e carne, que lhe rendiam bons lucros. Morava num casarão assombrado no Arraial de Baixo. Era casado pela segunda vez com D. Maria Joaquina, com quem não tivera filhos. Era um homem rígido e formal, incapaz de alguma cordialidade. Tratava a mulher cerimoniosamente; no fundo, desprezava-a por sua esterilidade sem remédio.

Violante: Filha do Trasmontano e enamorada de Boaventura. Dama formosa, delicada, recém-vinda da Bahia, onde morava com a avó. Era filha do primeiro casamento de seu pai. Pesava sobre si a ameaça de um enorme sacrifício. Sei pai, após sua fuga com Boaventura, jurava encerra-la num convento da Bahia. Isso não chegou a acontecer, porque Violante morre, nos seus poucos vinte anos, de paixão e penúria.

Andresa: Era a mucama de Violante. Era uma mulata ardente, bonita e astuta. Namorava com Eliezer, com quem se encontrava às escondidas do patrão. Fiel à sua Violante, Andresa é a intermediária do romance da moça e Boaventura. Foge com a sinhazinha e Fernão, quando o rapaz rapta a jovem amada.

Eliezer: Escravo fiel de Boaventura. Fora flagrado em seus amores com Andresa e pagou caro por isso. Levou uma surra enorme dos homens do Trasmontano. A pedido de seu patrão, combina com Andresa um plano para ajudar o namoro proibido de Fernão e Violante, não sem antes consultar o feiticeiro Manuel Oxalá. Eliezer era vivo e ladino; gostava de tocar sua pequena flauta de bambu, com que fazia serenatas a Andresa.

Manuel Oxalá: Era um preto ancião, já caquético, de cabelos e barba brancos. A ele recorreu Eliezer para falar sobre a missão de que fora encarregado. Queria saber se seria novamente castigado. Eliezer entregou a ele os galos e o bornal das oferendas para o sacrifício, mas isso não bastara. O velho bruxo queria também a recompensa adiantada do trabalho que ia fazer, o que explicou direitinho fazendo o gesto universal do polegar e o indicador da mão direita que exprime dinheiro. Depois de receber as moedas do rapaz, o negro seguiu o ritual e, por fim, tranqüilizou Eliezer.

Alf. Suzarte: Rapaz bem apessoado, alferes de auxiliares do terço da Vila-Real de Sabará. Era um sujeito sem escrúpulos, de quem se contavam histórias bem escabrosas. Certa vez envolvera-se com a amaziada de um negociante baiano, com quem fugira. Era caso de morte publicamente executada, mas o alferes foi se esconder junto aos homens de seu terço e nada lhe aconteceu. Segundo uma crítica tendenciosa do Frei Tiburciano, Suzarte gostava de se poluir com escravas negras. Estava encantado por Violante, a quem pretendia corrigir, com o tempo, os calundus de sinhazinha caprichosa. Morreu nas mãos de Fernão, por época do levante de Pitangui.

D. Pedro de Almeida, o Conde de Assumar: Era o governador da Capitania de São Paulo e Minas (1919). Era ex-comandante do exército português na guerra da sucessão de Espanha. Descendia da ilustre estirpe dos Almeidas. Tinha pouco mais de trinta anos. Seu governo foi austero e baseava-se na seguinte tática: dividir para reinar. Na prática, isso significava trocar força e prestígio por favores. Ordenou rigorosa devassa e o pronunciamento dos cabeças nos levantes ocorridos nas Minas.

Dona Querubina: Era uma viúva que tinha uma pensão e uma loja de comidas e bebidas nos campos da Cachoeira. Por duas vezes Fernão esteve na pensão de D. Querubina. Uma, quando fugia da Vila-Rica por ocasião do desacato que fez ao escrivão, quando fora tomar satisfação sobre as terras suas que passaram às mãos do Trasmontano. Outra, quando foge de Pitangui, após o fracassado levante. É na pensão de D. Querubina que Fernão se restabelece e se introniza nos aprendizados divinos.

Além dessas personagens, figuram no romance o Figueirinhas, mercador de escravos e bugingangas; Nicota e Josefa, serviçais de D. Querubina; o Taturana, capanga de Vilarinho; o Ouvidor; Martinha, mulher de André Baracho; Manuel Nunes Dias, o famigerado caudilho aclamado ditador pelos Emboabas; Antônio Pereira, o português que comprara por oitocentas oitavas de ouro, as casas, as ferramentas e as terras do último morador do extinto Arraial do Carmo; o frade suro em cuja tonsura Fernão urinou, por vingança na pessoa errada, e que raptou a Nicota; e a feia Rita, a nova serva da pensão.

Enredo

A narrativa tem início com a venda de um escravo a André Baracho, um bem sucedido comerciante estabelecido em Passagem, a meio do caminho entre a Vila do Carmo e a Vila-Rica. O vendedor é Figueirinha, um mercador do Reino acostumado a abastecer a região com mercadorias vindas por navios. Baracho menosprezava a mercadoria, o mercador valorizava seu produto. O negócio se fecha nas duzentas oitavas, ambos os mercadores sabendo que fizeram um bom negócio.

André Baracho, é um imigrante português bem-sucedido, com sua loja de regatão, suas lavras de ouro, roças de milho e por volta de 1706, com os primeiros reinícolas que vinham atraídos pela fama das descobertas do ouro nos sertões das Minas Gerais.

Chegou pobre; o que tinha de seu trazia às costas. Era, entretanto, ambicioso e meteu-se em especulações de toda sorte: “mercadejava escravos, barganhava animais, receptava e contrabandeava o ouro”. A única característica que manteve foi a rudeza de seus hábitos; era um sujeito grosseirão. Bom negociante, andou a apossar-se de umas jazidas que eram de direito de Fernão Boaventura, herdadas de seu falecido pai. Baracho, sentindo que poderia ter complicações com o mameluco, transferiu as terras recém-adquiridas para o Transmontano, numa transação, certamente, ilegal.

Caetano Boaventura, paulista de Taubaté, chegou às Minas como todos os outros aventureiros, logo aos primeiros rumores da descoberta do ouro. De início, explorou o Ribeirão do Carmo e a Serra do Ouro-Preto, cujo ouro propiciou-lhes bens e riqueza.

Caetano era viúvo e seu único descendente era seu filho Fernão, que teve como alcunha carijó. Quando Caetano Boaventura morreu, em 1715, o jovem mameluco herdou todos os seus bens. Não tardou que Fernão fosse tomar satisfação da negociata de Baracho. Fernão Boaventura era um jovem temido nas Minas, onde “só a violência e o estrondo das armas impunham respeito”. Acompanhado de seu grupo, foi ter às terras do Batatal, onde tinha um lavradio de ouro. Mandou enxotar as escravas de Baracho, que lá estavam com o pretexto de vender aguardente, doces e outras comidas. Na verdade, as escravas serviam para entregar ao receptador o ouro roubado pelos escravos empregados nas minas. Em seguida, Fernão seguiu para as terras adquiridas recentemente pelo Transmontano e pôs para correr os que ali trabalhavam na extração.

Fernão e seu grupo continuaram seu caminho para Vila-Rica, a fim de resolver a pendência das terras que passaram para o Transmontano por intermédio do escrivão local. Chegaram sem muito alarido, já que Vila-Rica era um território dominado quase que exclusivamente pelos representates do rei. Os paulistas haviam perdido esse território para os reinícolas, que souberam explorar as minas, consideradas esgotadas pelos paulistas, com técnicas em uso nas colônias espanholas. Com isso, reativaram a extração. Assim surgiu o arraial do Ouro-Preto, “núcleo da futura Vila-Rica, a mais opulenta e povoada da Capitania.” A descrição de Vila-Rica é bastante precisa.

Dando seqüência à narrativa, o episódio do suposto padre Sinfrônio destaca um acontecimento que parece comum à época: o rapto de uma escrava para que servisse a um clérigo. O caso é que Fernão e seu grupo buscavam pouso na casa de Dona Querubina. Lá, avistaram um padre, que confundiram com o tal Sinfrônio de quem ouviram a história sobre ter roubado uma mulata escrava do velho Boaventura. Quiseram, então, vingar o acontecido. A vingança acertou a pessoa errada e o bando dispensou o pouso da viúva.

Outro flagrante dos costumes de então aconteceu com Eliezer, um escravo de Boaventura que namorava Andressa, a mucama de Violante, filha de José Gomes Vilarinho, o Transmontano. O casal foi descoberto e Transmontano mandou dar um corretivo no rapaz, aproveitando a ausência de Boaventura. A surra foi grande. Quando soube do acontecido, Fernão invadiu a casa do Transmontano para uma vingança. Enquanto afrontava o dono da casa, o grupo de Fernão tirava a forra na senzala.

A cena serviu para a apresentação da jovem Violante, que intercedeu para que a violência acabasse. Seu pedido impressionou Fernão, que atendeu à súplica da jovem. Daí em diante, Fernão Boaventura começou a cortejar a moça, à revelia de Vilarinho e de D. Maria Joaquina, madrasta da jovem.

José Gomes Vilarinho chegara ao Brasil ainda jovem, recomendado a um rico mercador da Bahia, para quem trabalhou como caixeiro. Casou-se com uma das filhas do mercador, com quem teve uma única filha, ficou viúvo, mudou-se para as Gerais para negociar por conta própria, contraiu segundas núpcias com uma paulista, que não lhe dera filhos. Morava no Arraial de Baixo, na vila do Ribeirão do Carmo.

Após o pedido de Violante, a respeito da invasão de Boaventura e seu grupo em terras do Transmontano, Fernão tornou-se outra pessoa. Enamorou-se.

Naquela noite, Fernão dormiu mal. A moça Violante não lhe saía do pensamento. Aquele pedido tão doce inaugurou um desejo enorme no peito do rapaz. Precisava revê-la! Mas como, naquele vilarejo em que as poucas famílias viviam reclusas em suas propriedades, distantes do movimento? A família de Violante, apenas raramente, aparecia na missa dominical da matriz do Carmo.

Fernão esperou cinco longos dias até o evento. Arrumou-se com esmero, esperando fazer boa figura. Aguardou no adito da igreja a chegada da família Vilarinho. Com ares de fidalgo, Fernão faz uma reverência discreta à passagem da moça, o que deixou o Trasmontano contrariado. Violante só percebeu a presença do rapaz à saída; olhou-o com seus olhos cinzentos e pareceu reconhecê-lo. Poucas vezes teve o mameluco a mesma oportunidade; percebendo a insistência do rapaz, o Transmontano decidiu não retornar à missa do Carmo. Fernão esperava em vão. Estava enfeitiçado por aquela menina.

No dia 19 de abril de 1719, D. Pedro de Almeida, o Conde de Assumar, ofereceu um sarau à condessa pelo seu aniversário. Estavam presentes as personalidades mais consideráveis da Vila do Carmo e da Vila-Rica. Entre eles, a família Vilarinho. Estava também, para contragosto do Transmontano, o jovem Boaventura. Fora levado por seu padrinho, o Frei Tiburciano de São José, homem de letras e santidade. Estava presente, também, para desventura de Fernão, o jovem e bem apessoado alferes Suzarte.

A conversa continuava, agora sobre o governo do Conde de Assumar. Nos dizeres dos dois, era ele um homem austero, disciplinador, de carreira feita nas armas. Era apoiado pelos paulistas, com exceção da cobrança dos quintos, contra o que toda gente se recentia.

Frei Tiburciano aproveitou o ensejo para cobrar do conde o bispado no Carmo. Nova preleção se estendeu, desta vez partindo do próprio Conde de Assumar. Dizia ele que “os frades não querem também que os povos destas Minas tenham superiores”. Reclamou que os religiosos se sentiam desabrigados a contribuir com as taxas – que ele chamava de obrigações – para a Coroa. Frei Tiburciano terminou a conversa, levantando uma questão polêmica: a troca de favores entre o governo e a Igreja.

Os festejos continuaram, com danças e conversas. Instigada pelos presentes, Violante cantou trovas e xácaras, acompanhada pelo Alferes. Boaventura havia se prontificado a acompanhá-la na viola, mas ela ignorou a presteza do rapaz. Após sua apresentação, Fernão tomou da viola e anunciou que ia cantar. Cantou as primeiras estrofes da cantiga da Menina fermosa, cujos versos reclamavam do temperamento intempestuoso de uma dama tão formosa. Lançou um olhar para Violante e continuou a cantiga, que nos versos era a resposta da moça fermosa, mas que tomava o significado de uma resposta da própria Violante.

O governador interrompeu oportunamente a cantoria e anunciou uma próxima festa para o ano, recepcionada por um rico minerador. Fernão aproveitou o sussurro geral e disse à Violante: “Adoro-a, Violante...” A revelação deixou a moça ruborizada e lhe trouxe lembrança que não conseguiu definir. Veio à sua cabeça a cena do insulto a seu pai, e a sua indecisão em posicionar-se do lado do pai ou do rapaz. Gostaria de odiar Fernão, mas seu coração não consentia nisso. Chamava-lhe a atenção o olhar altaneiro e decidido do rapaz. Agradava-lhe a fisionomia do jovem, seu porte, sua pele morena. Recordou todas as atitudes do rapaz para com ela, com certo prazer. Lembrou-se de que aguardava ansiosamente cada domingo, até que o pai não mais a levasse à missa do Carmo.

Na saída da festa, Fernão arranjou um jeito de segurar demoradamente a mão que Violante lhe estendeu. Mais adiante, trocaram um olhar que queria dizer muitas coisas ao seu coração.

Fernão não ficava um só instante sem maquinar algum modo de falar com a moça. Era cada vez mais impossível saber de Violante, a moça não saía para nada, ninguém tinha notícias dela. Fernão ficava circulando o casarão dos Vilarinho, em vão. Teve então uma idéia. Pediu a Eliezer que reatasse com Andresa, para que a moça pudesse interceder por ele com Violante. Em troca, Fernão prometeu a alforria do escravo. Eliezer, apesar do medo que sentia ao lembrar-se do castigo que sofrera, acabou por concordar. Antes, porém, consultou o Manuel Oxalá, que depois de muito ritual e trabalhos de candomblé, disse que Eliezer podia ficar tranqüilo que tudo iria correr bem. Assim foi. Andresa passou a cumprir sua função de recadeira muito direitinho. Dizia à Violante o quanto Boaventura gostava dela e nem ligava às ameaças da moça de ir contar ao pai aquela travessura. Aos poucos, o rapaz Fernão era o assunto constante das duas.

Todos os dias, Fernão Boaventura passava com seu cavalo nas imediações do casario. Parava um pouco em frente à janela de Violante, que o espreitava por trás das cortinas, para não ser vista por ele. Inteirado disso, todas as vezes Fernão tirava o chapéu em cumprimento e ia-se embora, muito satisfeito. Violante era reservada, achava aquilo de gostar do mameluco uma loucura. Mas, como resistir à conquista daquele rapaz ousado?

D. Maria Joaquina, a madrasta, desconfiava do comportamento da enteada. Tratou de conspirar um plano para casar Violante com algum rapaz digno da família. Veio-lhe à cabeça o rapaz Suzarte. Contou suas dúvidas sobre os sentimentos da moça para o Trasmontano, que ficou muito espantado.

Diante da argumentação de D. Maria Joaquina, que sugeriu o Suzarte como saída para o possível relacionamento de Violante e Fernão, o Trasmontano voltou a se acalmar. Afinal, “o alferes não é de todo mau.(…) Dizem que não é lá de muitos bons constumes…” Combinaram convidar o alferes para uma visita. O alferes logo percebeu o arranjo dos Vilarinho e gostou da idéia. Violante é que se mostrava distante; não escondia o desamor que tinha por Suzarte. Vilarinho resolveu que era preciso fazer aquele casamento o quanto antes.

No dia 16 de julho realizavam-se no Carmo grandes festas religiosas e profanas, em homenagem à padroeira da Vila. Havia missa, procissões e, em seguida, o melhor da festança: as cavalhadas, cujo enredo recriava os torneios entre Cristãos e Mouros, com o sabor das histórias de Carlos Magno e os doze pares de França, e se recompunha o rapto da Princesa Floripes.

Como era de se esperar, a princesa foi representada por Violante. Fernão usou as cores dos cavaleiros cristãos – em que fazia boa figura – e Suzarte as cores do bando mouro. Também era esperado que o jovem Boaventura aprontasse alguma com o alferes. De fato, o mameluco arranjou um jeito de emparelhar-se com o outro e fê-lo ir ao chão. A platéia vibrou como a façanha. Um dos rituais da cavalhada é um cavalheiro tirar a argolinha pendente de um arco e oferecê-la a alguém da platéia. Num arroubo, Fernão realizou a façanha e entregou, publicamente, o objeto da proeza à Violante. A moça ficou atônita, ruborizada, com receio do pai, mas colocou seu lencinho na ponta da lança que lhe trouxe a oferenda. Fernão deixou o picadeiro radiante de orgulho e felicidade.

Outra tarefa do evento era o rapto da donzela. É claro que Boaventura realizou o feito, para infelicidade do Trasmontano. Tudo foi tão rápido que ele nada pôde evitar. Novamente o público delirou.

Algum tempo depois da festa, Fernão foi ter uma conversa com o padrinho, o Frei Tiburciano. Abriu seu coração, contando de sua paixão pela filha do Vilarinho. O frei espantou-se muito da coragem e audácia do rapaz; logo se confortou, comentando que a moça estava de casamento marcado com o alferes. Fernão não escondeu sua surpresa. Os dois conversaram sobre o comportamento do Suzarte, que não era nada exemplar. Entre outros malfeitos, o alferes gostava de se envolver com uma outra escrava, o que aos olhos do frei e, certamente, de toda a gente branca do lugar, era considerado uma libertinagem, um ato vergonhoso. Desgostoso com a notícia do casamento e certo de que isso era contra os desejos de Violante, Boaventura afirmou que a moça seria dele, ou de mais ninguém.

Arma, então, um novo plano.

Aproveitando que o Vilarinho estava ausente, deu ordens para que fosse, dizer no casario que o Trasmontano fora atacado e estava em perigo. Diante do fato, os empregados do velho saíram em seu socorro, deixando Violante, a madrasta e Andresa sozinhas. Boaventura, então, pôde se aproximar da jovem Violante e, em presença de D. Maria Joaquina e da jovem assustada, disse a que vinha.

Violante deu dois passos à frente. A força irresistível daquele homem a arrebatara de vez. Diante da indignação da madrasta, Violante seguiu o homem que amava.

O jovem casal principiou sua jornada, acompanhados do grupo e Boaventura e da dedicada Andresa. Fernão decidiu que Violante só seria sua diante da bênção de Deus. No caminho, encontraram um grupo de caçadores de ouro. Estavam esmorecidos da luta infértil da cata do ouro. A estação não estava boa para aquele grupo. Um de seus negros já tinha fugido, outro morreu de febre, outro foi comido por uma onça. Boaventura disse a eles sobre a fartura de ouro em Cuiabá, e o grupo de animou. Pediram liçensa para acompanhar o bando de Fernão. Iriam até Pitangui, comprariam alguns escravos para engrossar o grupo e seguiriam para Cuiabá.

O velho Trasmontano, desesperado com o acontecido, jurou matar Boaventura. Queria mesmo que o mestiço tivesse mil vidas para acabar com todas elas, tamanha sua raiva. Organizou um bando de homens valentes e foi atrás do roubador da filha. Uma chuva repentina flagrou-os em meio à jornada, o que atrasou em um dia a busca do Trasmontano. Chegando a Pitangui, o velho pai ficou sabendo que a filha estava hospedada em casa de uma família paulista, amiga de Fernão. Ficou sabendo, também, que semanas atrás, houve um motim na vila por causa de um juiz que tinha vedado o comércio de aguardente. O povo de lá havia expulsado o tal juiz, sob ameaça de morte, caso quisesse continuar na vila. O conde de Assumar, ciente do caso, enviou para a vila o ouvidor e uma pequena tropa de dragões. Ao saberem das proporções do incidente, resolveram buscar reforços no Carmo. O chefe do motim contra o juiz, um truculento caudilho paulista, temendo um ataque, resolveu amotinar-se com seus sequazes duas léguas adiante da vila, local de fácil defesa.

Assim que soube do paradeiro da filha, Vilarinho foi até a tal casa. O dono da casa assegurou que Violante estava segura lá, mas o Trasmontano insistia em que a moça fosse embora com ele. Nesse entremeio, Boaventura adentrou a casa e disse que nem o diabo impediria que a moça ficasse com ele. O fazendeiro se interpôs na discussão e o Vilarinho saiu esbravejando. Que podia fazer ele? Pedir reforços à justiça? Àquela justiça que estava ameaçada?

Enquanto isso, o Conde de Assumar acertou com o comandante da tropa de dragões o que deveria ser feito contra os amotinados de Pitangui. Fazia parte do colóquio, o alferes Suzarte, a chamado do governador. D. Pedro levantou reforços em Sabará e no Caeté, mais de cem homens dispostos a seguir com os dragões. Ouviu-se que havia mais de mil homens amotinados em Pitangui, vindos de fazendas dos arredores. Segundo Suzarte, os paulistas eram valentes, mas não entendiam da arte de se fazer guerra. O alferes Suzarte via nisso um bom pretexto para tirar a limpo o rapto de sua noiva.

O que sucedeu, então, foi que Boaventura e seu grupo uniram-se aos amotinados. Com os reforços encomendados pelo governador, foi fácil travar a batalha. Os revoltosos foram acuados e os que sobraram trataram de fugir para as terras de Cuiabá. Essas notícias chegavam até Violante, que estava adoentada em casa do fazendeiro Capitão Juca. Em sua convalescência, a jovem Violante via-se corroída pelo remorso.

A notícia de que o ouvidor acabara de tomar conta da vila e que iria abrir uma devassa para punir os cabeças revoltosos deixou Violante atônita. Sem notícias de Fernão, sua dor era infinita. Nisso, ouviu-se o galope de cavalo. Boaventura chegava, foragido, para despedir-se da amada. Ele contou que, estando ele e seus homens próximos à vila, perceberam uma patrulha em sua direção. Fernão mandara que metade de seus homens seguissem na frente e ele e o resto do grupo ficaram escondidos, acoitando a patrulha, que caiu na cilada. No combate, Fernão matou o alferes Suzarte. Os patrulheiros, no entanto, eram em maior número e acabaram vencendo o embate. Muitos homens de Boaventura tombaram, entre eles seu fiel guarda-costas, Chicão. Agora estava se despedindo, impossibilitando de levar adiante sua vida naquele lugar. Instantes depois da fuga, a patrulha invadiu a casa em busca do mameluco. Era tarde! Violante não resistiu a tanta agrura. Morreu na flor de seus vintes anos, do mais puro amor.

Escapando de Pitangui, Fernão juntou-se ao acampamento dos insurretos paulistas, ao sul do Rio Pará. Notícias da vila chegavam a qualquer momento. Primeiro, o governador queria punir severamente o chefe paulista; segundo, a força de dragões fora acrescida e enviada para prender os amotinados; depois, a morte de Violante.

Desorientado, Boaventura decidiu não acompanhar o grupo. Retornou à Vila-Rica e pediu pousada na casa da boa Querubina. Ela lhe contou que o frade suro, aquele que foi vingado por Fernão no lugar do outro que roubara a escrava do velho Boaventura, havia fugido com a Nicota, a escrava que ajudava Querubina no serviço da cozinha.

Boaventura estava tão desgastado, que adoeceu. A febre era forte. Querubina mandou chamar um curandeiro. A febre não cessava. Foi chamado um barbeiro-cirurgião, que também não obteve resultado. Chamaram, então, Frei Tiburciano para que tomasse as últimas providências que um frei pode tomar: encomendar a alma de seu afilhado. Mas Fernão se recuperou. Querubina atribuiu o milagre ao frade. Pediu-lhe a bênção e não deixou de renovar o raminho de alecrim aos pés de Nossa Senhora das Mercês, a quem recorrera em favor em Boaventura.

Fernão recuperou-se, graças aos remédios caseiros do frei e dos carinhos de Querubina. A fragilidade a que esteve exposto serviu para abrir-lhe a mente e o corpo para um novo momento em sua vida. “Sentia que o germe de um anseio religioso lhe entrava na alma.”

A partir daí, Fernão e seu padrinho entabularam um aprendizado sobre a “ordem de Deus” e os pecados do homem. “O homem é uma dissonância na harmonia universal e parece destinado a desconjuntar o plano da Providência”, dizia o frei. Era eloqüente e impressionava, cada vez mais, o Boaventura. E o arrependimento, a tônica forte do discurso, sensibilizou plenamente o rapaz. Frei Tiburciano, que viu despontar no sofrido afilhado uma nova pessoa, não deixou de contemplá-lo com a mais fina filosofia sobre a força da natureza. A analogia que faz entre Criador e criatura, referindo-se ao trabalho das formigas, era de grande esmero. Com isso, iniciou Fernão na vida religiosa que o rapaz optou por seguir.

Fonte: Profª Carla Fagundes

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