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O Santo Inquérito, de Dias Gomes


O Santo Inquérito, peça em dois atos, escrita por Dias Gomes em 1966, é outra das grandes peças brasileiras, modernas, por suas intenções artísticas e por suas preocupações sociais. Baseando-se num episódio histórico - ou lendário - como o de Branca Dias, Dias Gomes afasta, de imediato as fáceis, espetaculares e vistosas pompas que um escritor romântico traria para o palco. O que lhe importa é o conflito entre a pureza da personagem, a sua boa fé, a sua sinceridade, e aqueles que lhe deturpam essa forma de comportamento nela vendo intentos perigosos à ordem estabelecida e oposição a conceitos que são fundamentais para que nunca sofram abalo instituições ou sistemas de idéias muito confortáveis para quem precisa preservá-las.

Dias Gomes mostra também na obra O Santo Inquérito que a capacidade de comunicação dos homens é muito relativa e que a linguagem, em vez de ser o elo entre as pessoas, pode se transformar em uma terrível fonte de mal entendidos e de destruição.

O Santo Inquérito confere maior densidade humana à personagem acusada de judaísmo, Branca Dias. Na peça, o distanciamento brechtiano incorpora melhor as propostas de um teatro pedagógico a partir das técnicas do distanciamento. Dias Gomes retoma a motivação histórica da Inquisição, no sentido de iluminar um tempo presente, de modo que o espectador possa interagir no espetáculo, refletindo sobre a sua própria realidade, para poder transformá-la, uma vez que a personagem Branca Dias poderia evocar outros heróis nacionais mortos e torturados, não apenas pela ditadura militar, deflagrada em 1964.

A personagem que inspirou Dias Gomes pode ser considerada a Joana D’Arc nordestina que acabou entrando para o folclore nacional como mulher de excepcional beleza e hábitos não convencionais, acusada de judaísmo e de práticas imorais, acabando por ser condenada à fogueira da Inquisição.

Trecho da obra

Primeiro ato - O palco contém vários praticáveis, em diferentes planos. Não constituem propriamente um cenário, mas um dispositivo para a representação, que é completado por uma rotunda. É total a escuridão no palco e na platéia. Ouve-se o ruído de soldados marchando. A princípio, dois ou três, depois quatro, cinco, um pelotão. Soa uma sirene de viatura policial, cujo volume vai aumentando, juntamente com a marcha, até chegar ao máximo. Ouvem-se vozes de comando confusas, que também crescem com os outros ruídos até chegarem a um ponto máximo saturação, quando cessa tudo, de súbito, e acendem-se as luzes. As personagens estão todas em cena: Branca, o Padre Bernardo, Augusto Coutinho, Simão Dias, o Visitador, o Notário e os guardas.

Padre Bernardo: Aqui estamos, senhores, para dar início ao processo. Os que invocam os direitos do homem acabam por negar os direitos da fé e os direitos de Deus, esquecendo-se de que aqueles que trazem em si a verdade têm o dever sagrado de estendê-la a todos, eliminando os que querem subvertê-la, pois quem tem o direito de mandar tem também o direito de punir. É muito fácil apresentar esta moça como um anjo de candura e a nós como bestas sanguinárias. Nós que tudo fizemos para salvá-la, para arrancar o Demônio de seu corpo. E se não conseguimos, se ela não quis separar-se dele, de Satanás, temos ou não o direito de castigá-la? Devemos deixar que continue a propagar heresias, perturbando a ordem pública e semeando os germes da anarquia, minando os alicerces da civilização que construímos, a civilização cristã? Não vamos esquecer que, se as heresias triunfassem, seríamos todos varridos! Todos! Eles não teriam conosco a piedade que reclamam de nós! E é a piedade que nos move a abrir este inquérito contra ela e a indiciá-la. Apresentaremos inúmeras provas que temos contra a acusada. Mas uma é evidente, está à vista de todos: ela está nua!

Branca: (Desce até o primeiro plano.) Não é verdade!

Padre Bernardo: Desavergonhadamente nua!

Branca: Vejam, senhores, vejam que não é verdade! Trago as minhas roupas, como todo mundo. Ele é que não as enxerga!

Padre sai, horrorizado.

Branca: Meu Deus, que hei de fazer para que vejam que estou vestida? É verdade que uma vez - numa noite de muito calor - eu fui banhar-me no rio.. e estava nua. Mas foi uma vez. Uma vez somente e ninguém viu, nem mesmo as guriatãs que dormiam no alto dos jeribás! Será por isso que eles dizem que eu ofendi gravemente a Deus? Ora, o senhor Deus e os senhores santos têm mais o que fazer que espiar moças tomando banho altas horas da noite. Não, não é só por isso que eles me perseguem e me torturam. Eu não entendo... Eles não dizem... só acusam, acusam! E fazem perguntas, tantas perguntas!

Visitador: Come carne em dias de preceito?

Branca: Não...

Visitador: Mata galinhas com o cutelo?

Branca: Não, torcendo o pescoço.

Visitador: Come toicinho, lebre, coelho, polvo, arraia, aves afogadas?

Branca: Como...

Visitador: Toma banho às sextas-feiras?

Branca: Todos os dias...

Visitador: E se enfeita?

Branca: Também...

Visitador: Quando tempo leva enfeitando-se?

Notário: Quanto tempo?

Todos: Quanto tempo? Quanto tempo?

Saem todos, exceto Branca.

Branca: Não sei, não sei... Oh, a minha cabeça... Por que me fazem todas essas perguntas, por que me torturam? Eu sou uma boa moça, cristã, temente a Deus. Meu pai me ensinou a doutrina e eu procuro segui-la. Mas acho que isso não é o mais importante. O mais importante é que eu sinto a presença de Deus em todas as coisas que me dão prazer. No vento que me fustiga os cabelos, quando ando a cavalo. Na água do rio, que me acaricia o corpo, quando vou me banhar. No corpo de Augusto, quando roça no meu, como sem querer. Ou num bom prato de carne-seca, bem apimentado, com muita farofa, desses que fazem a gente chorar de gosto. Pois Deus está em tudo isso. E amar a Deus é amar as coisas que Ele fez para o nosso prazer. É verdade que Deus também fez coisas para o nosso sofrimento. Mas foi para que também o temêssemos e aprendêssemos a dar valor às coisas boas. Deus deve passar muito mais tempo na minha roça, entre as minhas cabras e o canavial batido pelo sol e pelo vento, do que nos corredores sombrios do Colégio dos Jesuítas. Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver. Tudo isso que estou lhes dizendo, é na esperança de que vocês entendam... Porque eles, eles não entendem... Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo Demônio. E isso não é verdade! Não acreditem! Se o Demônio estivesse em meu corpo, não teria deixado que eu me atirasse ao rio para salvar Padre Bernardo, quando a canoa virou com ele!...

Padre Bernardo: (Fora de cena, gritando.) Socorro! Aqui del rei!

Branca sai correndo. Volta, amparando Padre Bernardo, que caminha com dificuldade, quase desfalecido. Ela o traz até o primeiro plano e aí o deita, de costas. Debruça-se sobre ele e põe-se a fazer exercícios, movimentando seus braços e pernas, como se costuma fazer com os afogados. Vendo que ele não se reanima, cola os lábios na sua boca, aspirando e expirando, para levar o ar aos seus pulmões.

Padre Bernardo: (De olhos ainda cerrados, balbucia.) Jesus... Jesus, Maria, José...

Ele vai se reanimando aos poucos. Abre os olhos e vê Branca, de joelhos, a seu lado.

Padre Bernardo: Obrigado, Senhor, obrigado por terdes atendido ao meu apelo desesperado... Não sou merecedor de tanta misericórdia. (Ele beija repetidas vezes um crucifixo que traz na mão.) Alma de Cristo, santificai-me; Corpo de Cristo, salvai-me; Sangue de Cristo, inebriai-me...

Branca: Achava melhor o senhor deixar pra rezar depois. Agora era bom que virasse de bruços e baixasse a cabeça pra deixar sair toda essa água que engoliu.

Ajudado por ela, ele vira de bruços e baixa a cabeça. Ela pressiona sua nuca, para fazer sair a água.

Branca: Se eu não chego a tempo, o senhor bebia todo o rio Paraíba...

Padre Bernardo: (Senta-se, meio atordoado ainda.) A minha canoa?...

Branca: A canoa? Seguiu emborcada, rio abaixo. Tinha alguma coisa de valor?

Padre Bernardo: Tinha, o cofre com as esmolas...

Branca: Muito dinheiro?

Padre Bernardo: Bastante.

Branca: Agora deve estar no fundo do rio.

Padre Bernardo: Só consegui agarrar o crucifixo; tinha de escolher, uma coisa ou outra...

Branca: Foi uma pena. Com o dinheiro, o senhor talvez comprasse dois crucifixos. E quem sabe ainda sobrava.

Padre Bernardo: Não diga isso, filha!

Branca: Por quê?

Padre Bernardo: Porque é o Cristo... Não é coisa que se compre. Tivesse eu escolhido o cofre e certamente a esta hora estaria no fundo do rio com ele. Foi Jesus quem me salvou.

Branca: (Timidamente.) Eu ajudei um pouco...

Padre Bernardo: Eu sei. Você foi o instrumento. Não estou sendo ingrato. Sei que arriscou a vida para me salvar.

Branca: Não foi tanto assim. O rio aqui não é muito fundo e a correnteza não é lá tão forte. Quando a gente está acostumada...

Padre Bernardo: Acostumada?...

Branca: Venho banhar-me aqui todos os dias. Sei nadar e salvar alguém que está se afogando. É só puxar pelos cabelos. Com o senhor foi um pouco difícil por causa da tonsura. Tive de puxar pela batina. Me cansei um pouco, mas estou contente comigo mesma. Hoje vai ser um dia muito feliz para mim.

Padre Bernardo: Deus lhe conserve essa alegria e lhe faça todos os dias praticar uma boa ação, como a de hoje.

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