O sentimento dum ocidental, de Cesário Verde

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Ao fazer a leitura de O sentimento dum ocidental, de Cesário Verde, vemos em destaque as manifestações da consciência nele presentes, seguimos a via de considerar que o texto dispõe de todos os ingredientes poético-narrativos necessários para contar uma história.

Mas trata-se de uma história que, à primeira vista, quase não é história: é a história do poeta que não cabe em casa, nem cabe em si, e sai de casa e de si, deparando-se, fora, com um cenário humano preocupante e desolador, causa principal do mal-estar que o aflige e de que ele vai tomando (e revelando) consciência passo a passo.

Esse cenário humano geral, com que o poeta se depara, potencia o aparecimento de muitos outros cenários. E isso porque a história que ele conta não é sequencial nem linear, mas encerra em si muitas outras histórias, carregadas de vivências pessoais do poeta, embora literariamente transformadas.

As motivações para a escrita do poema

O sentimento dum ocidental insere-se em O Livro de Cesário Verde (1887). Este livro, o único (e póstumo) do autor, foi dedicado a Guerra Junqueiro e teve colaboração de Silva Pinto, cuja participação levantou (continua a levantar) fortes dúvidas sobre o que é verdadeiramente de Cesário e o que será porventura seu.

O sempre renovado "complexo edipiano" cultural, sentido ao longo dos tempos: tal como com Sócrates e Platão, Tycho Brahe e Johannes Kepler, Mozart e Salieri, Kafka e Max Brod, Husserl e Heidegger…, a trabalhar por dentro, e o incêndio que destruiu a casa de Cesário (1919), em Linda-a-Pastora, onde ficara depositado o seu espólio literário, a trabalhar por fora, vieram complicar ainda mais as coisas, tornando o problema talvez irresolúvel para sempre.

O sentimento dum ocidental pretendeu homenagear Camões na passagem do terceiro aniversário do seu falecimento. Tendo sido originalmente publicado no Porto (1880), o texto passou despercebido à crítica, tendo-se o poeta lamentado disso, numa das suas cartas (Carta de 29.08.1880, a Antônio de Macedo Papança, Conde de Monsaraz), onde escreve que "uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação! Ninguém escreveu, ninguém falou, nem um noticiário, nem uma conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal." (C. Verde, 1999, pp.210).

Cesário diz que o poema foi escrito com essa intenção de celebrar Camões, a que os republicanos (Cesário era-o, de fato, se não, ao que sabemos, por qualquer adesão política formal, pelo menos por opção ideológica profunda, que revela nos seus textos), nesse tempo, deram um relevo especial.

Se é ele quem diz que foi essa a sua intenção, não temos o direito de duvidar. Mas, sendo-o, foi-o de modo original, desconcertado em relação às posições oficiais do tempo, e talvez tenha vindo daí, a par do desinteresse que suscitava o trabalho literário empenhado e a originalidade de Cesário, outra das razões do "esquecimento" da crítica.

É que o poeta, nessa mesma carta, também acrescenta que "apenas um crítico espanhol chamava às chatezas dos seus patrícios e dos meus colegas – pérolas – e afirmava… que os meus versos "hacen malisima figura en aquellas páginas impregnadas de noble espíritu nacional." (C. Verde, 1999, p.210).

Na verdade, o modo como Cesário Verde celebra o 3º centenário da morte de Camões exprime "uma representação objetivada da… decadência histórica" em que tinham encalhado Portugal e os portugueses. À exaltação formal a que oficialmente se aderiu, Cesário Verde contrapõe a denúncia da triste realidade em que o país se encontrava. O ambiente que se desenvolve no poema, acerca da "triste cidade", é simbolicamente depreciativo (a realidade é triste, Lisboa é triste, o país é triste, os portugueses são tristes…). A referência às "crônicas navais" e às "soberbas naus" é uma evocação da pureza dos Descobrimentos, o que não corresponde à realidade vivida, de um couraçado inglês ancorado junto a Lisboa, com toda a humilhação nacional que isso exprimia. Camões salva "outra vez", a
nado, o seu livro, mas agora não luta apenas contra a voracidade das águas. A vida relacionada com o mar está transformada em comércio e em desgraça. A figura de Camões, o "épico de outrora", aparece transmutada em "estátua" fria, entre banais bancos de namoro e pimenteiras. Os militares perderam o orgulho de outrora e servem a mediocridade instituída. As frotas desejadas não são localizadas no presente, mas pertencem… aos avós, os "nômades ardentes", que não se
sabe de onde virão, porque são sonhados apenas.

É clara a oposição entre aquilo que Cesário pretende que a realidade seja e o que ele sente que ela é, e não consegue disfarçar, por mais que quisesse celebrar corretamente a efeméride do épico. O tempo em que Portugal não passava de "um obscuro desembarcadouro de cruzadores britânicos", sem vontade nem sonho, com todo o abandono e desordem em que se encontrava tudo, não o deixa indiferente. E a isso também não foi "indiferente" a elite cultural alinhada, do seu tempo, que em parte não o compreendeu, mas que também o ignorou propositadamente. O poder instituído sempre teve disto, em Portugal.

A grande motivação para a escrita do poema foi a necessidade de denúncia sentida pelo autor, perante a realidade da Lisboa do seu tempo, povoada de uma maioria de gente submissa e desgraçada, a contrastar com uma minoria abastada e "feliz", com quem ele se diz "aborrecido" e com "raiva como a um marreco" (Carta a Mariano Pina, de 16.07.1879 – C. Verde, 1988, pp.225-228). Uma Lisboa marcada pelas transformações e contradições do fontismo, ainda hoje visíveis, que ele apresenta "refratada nas percepções e sentimentos" que experimenta, e o despertam, enjoam, inspiram, incomodam…, aos mais diversos níveis: físico, social, moral… humano. Uma Lisboa que representava, desgraçadamente, e para o pior, a realidade amorfa, decadente, aviltada, do país.

Os dualismos

Os dualismos presentes na obra de Cesário Verde, em geral, não têm (não merecem, no nosso entender), a relevância que se lhes tem querido atribuir, em termos didácticos, prestando-se até, com tal sobrevaloração, um mau serviço ao estudo da obra do poeta (um estudo formal, dirigido à memória), pela passividade que isso provoca nos alunos, desviando-os da inovação, do despertar da consciência e do desempenho crítico.

Estudar Cesário, como estudar literatura, deve ser um ato pessoal e criativo, que se não coaduna com emolduramentos definitivos de quaisquer partes de uma obra.

Mas com isto não se pretende negar as dicotomias, que estão realmente presentes na poesia de Cesário Verde. Eis algumas dessas dicotomias, que importa levar os alunos a descobrirem: oposição entre cidade e campo, favorecidos e desfavorecidos, pobres e ricos, altruístas e orgulhosos, produção industrial e atividade comercial e vida do campo, consumismo e miséria, proprietários e operários, trabalhadores e ociosos, quotidiano urbano e rural, crescimento urbano e abandono rural, saúde e doença (tuberculose, epidemias), meios de transporte tradicionais e modernos (linha férrea, transportes colectivos), isolamento e falta de informação e meios de comunicação social (jornal, telégrafo), domínio do conhecimento e poder e vigência da ignorância e subordinação, operariado (indústria naval, construção civil, transportes, minas, pescas, tabaco…) e poder econômico, real histórico representado e real poético produzido, restos do real e visões do real, sinceridade poética e artificialidade, sentimento e objetividade, imaginário e realidade, emoção e racionalidade, vida e morte, amor e morte, revolução e tradição, espírito burguês e espírito inovador.

Mais especificamente, em O sentimento dum ocidental, repartidos pelas quatro partes que constituem o poema, fazem-se notar os seguintes dualismos:

Parte I - A realidade do mundo exterior e da consciência do poeta. A infelicidade dos que ficam e a felicidade dos que vão. Os trabalhadores e os ociosos. Os pobres e os ricos. Os favorecidos e os desgraçados. A realidade e a evasão. Os inocentes e os orgulhosos. A felicidade da inconsciência e a infelicidade da consciência.

Parte II - Os tristes e os afortunados. A inocência e a crueldade. A realidade abominada da cidade e a cidade idealizada. Clericalismo e laicidade. Os seres murados e os seres livres. O tempo vulgar de hoje (recinto público, bancos de namoro, exíguas pimenteiras) e o tempo simbólico e grandioso de Camões (brônzeo, monumental, de proporções guerreiras, levantado num pilar). A paz e a guerra (os soldados). Os palácios e os casebres. Tempo de hoje e Idade Média. As elegantes e os desfavorecidos. A verdade e a falsidade.

Parte III - O exterior (a rua) e o interiores. O dia e a noite (pesa, esmaga). As mulheres de bem e as impuras. As lojas para os que têm posses e a miséria para os desgraçados.

Parte IV - Finitude e eternidade. O presente negativo e o futuro promissor. Hipocrisia e sinceridade.

Uma dicotomia, das mais valorizadas, em O sentimento dum ocidental, é o dualismo cidade-campo. A cidade exprime a mundividência dos bons (os fracos e abandonados) e dos maus (as personagens negativas habitando os seus espaços, o mundo burguês, a que Cesário pertencia, mas que repudiava). O campo representa a vida ligada à natureza (expressão da afetividade), à liberdade, aos valores tradicionais, ao equilíbrio, à memória, a tudo aquilo que se coaduna com os ideais e os sonhos de futuro, de Cesário. O campo representa, sobretudo, a evasão, a compensação do mal-estar provocado pela cidade – que representa a fixidez, a passividade, o palco onde todos os males se representam.

As frustrações de vida do poeta

Cesário concluiu a instrução primária, aos dez anos, recebendo, após isso, formação, na própria loja do pai, para a atividade do comércio. Foi preparado, pela família, para dar continuidade ao negócio de ferragens, na loja que tinha em Lisboa e que geria com determinação.

Igualmente, a família tomou por herança, em 1869, uma quinta, em Linda-a-Pastora. E assim Cesário se tornou comerciante de ferragens e gestor agrícola da propriedade familiar. A sua educação foi toda ela orientada nesse sentido.

Apesar de ter o sustento e a posição social garantidos, Cesário dedica-se intensamente aos negócios, mas considerando as funções que exercia um "peso", sobretudo pelo tempo que lhe tiraram, contrapondo a isso o sonho de ser escritor.

Em cartas a João de Sousa Araújo, ele queixa-se da vacuidade da vida que leva, dos "muitos afazeres" que tem (carta de 20.07.1871 – C. Verde, 1999, p.177), da sua "vida muito estúpida" (carta de 14.11.1871 – C. Verde, 1999, p.178), sem razão de ser (carta de ??.11.1871 – C. Verde, 1999, p.179).

Em cartas ao "irmão" Silva Pinto, denuncia que vive "cheio de trabalho comercial" (carta de 1875 – C. Verde, 1999, p.182) e considera não se conformar por ter de se dedicar ao comércio (carta de 1875 – C. Verde, 1999, p.185). Reconhece que, mesmo "ao serviço da casa" (carta de 1875 – C. Verde, 1999, p.189), anda sempre ocupado com a escrita, a sua e a dos outros.

Diz não se sentir bem "em parte nenhuma", "cheio de ansiedades de coisas" que não pode nem sabe realizar (carta de 1877 – C. Verde, 1999, p.191). Denuncia que está preso à loja, preso ao comércio (carta de 1875 – C. Verde, 1999, p.192), perdido "no meio dos pomares burgueses e produtivos", afastado da literatura mas "amando-a ainda muitíssimo" (carta de 1879 – C. Verde, 1999, p.194). Essa foi uma das suas frustrações.

Aos 18 anos, Cesário matriculou-se no Curso Superior de Letras, a que não deu conclusão. Essa foi outra das suas frustrações. Mesmo assim, a frequência do curso serviu-lhe para estabelecer contatos (sobretudo com Silva Pinto) que lhe viriam a ser essenciais.

Uma outra frustração que marcou Cesário teve a ver com os conflitos mantidos em jornais e com autores consagrados do tempo, tendo sido mal compreendido por quase todos. Isso levou-o a lamentar, numa carta (C. Verde, 1988, pp.219-221), que, "literariamente, parece que Cesário Verde não existe". Foi grande a dificuldade que teve em encontrar espaços onde publicar a sua poesia, e de algumas vezes que o fez foi criticado por escritores como Ramalho Ortigão, Fialho
de Almeida, Teófilo Braga, Gomes Leal, Eduardo Coelho, Guimarães Fonseca… e em meios de comunicação social como o Diário Ilustrado, passando, após isso, a publicar em jornais e revistas de circulação mais restrita.

As contrariedades por que Cesário se viu envolvido fizeram dele um isolado e um inconformista. Isso notou-se a nível das ideias (o projeto de vida que desenvolveu), mas também no seu modo de escrita, na sua criatividade e expressão estética.

Doença e morte

A doença e a morte afetaram, continuamente, a vida e a obra de Cesário Verde. Na sua vida pessoal, marcou-o a morte da irmã, em 1872, com 19 anos. A referência que Cesário faz a "uma paixão defunta", em O sentimento dum ocidental, aplica-se à sua pessoa. O mesmo aconteceu com a morte do irmão, Joaquim Tomás, em 1882, com 24 anos.

Cesário faz várias referências à morte, uma vicissitude que sentia iminente, nas cartas que escreve. Na poesia, várias das suas personagens são doentes. Outras estão à espera de morrer. Frustra-o a impotência perante a dor, a doença, as epidemias, o egoísmo, a falta de desenvolvimento da ciência que não permitia responder aos anseios mais elementares do homem.

O próprio Cesário, sobretudo a partir de 1887, começa a queixar-se de falta de saúde, falando de "escrófulas que se alastram, que se multiplicam depressa", não sabendo se era "resultado sifilítico", ou "outra coisa qualquer". Sabemos que era tuberculose, a mesma doença que lhe havia roubado os irmãos e que, de cura projetada no futuro, por que ele ansiava, não tinha ainda cura no seu tempo, acabando por vitimá-lo também.

A literatura a serviço de um projeto ideológico-social

O sentimento dum ocidental encerra o projeto ideológico-social assumido por Cesário, que não surge completamente formado no poema, mas se vai formando, ao seu decorrer, através de um processo de construção.

O ponto de partida é a realidade focalizada por um poeta/narrador de ambulante, que destaca a realidade do povo, encarado globalmente ou através de manifestações personalizadas, emoldurado na cidade onde existe e a que dá existência. De umas primeiras manifestações imprecisas acerca da realidade, são a pouco e pouco postos em destaque, e de modo cada vez mais visível, as desigualdades, as injustiças e as misérias que afetam as pessoas, as contradições que as marcam, as vicissitudes do sistema que as diminui. Todas as outras manifestações, nomeadamente da realidade burguesa, se destinam a fazer sobressair o seu modo de consciência.

Para formar consciência acerca dessa realidade, o poeta desenvolve um esforço de seleção (pensar é selecionar) e de síntese (a consciência é escolha), através das cogitações contínuas que vai fazendo. Desse modo, e porque a personalidade resulta da síntese dos fenômenos psíquicos selecionados pela consciência, numa sequência de fenômenos a serem continuamente ligados a outros fenômenos anteriores, a personalidade do poeta vai-se enriquecendo, revelando-se cada vez mais nítida a representação que ele faz do mundo.

Mas a formação da sua nova consciência não surge por acaso e a seleção e a síntese verificadas não se operam de modo inocente. Houve fatores na vida do poeta que as marcaram – as vivências do que o rodeia, feitas de misérias e desgraças materiais e espirituais, a formação recebida no ambiente familiar, a conturbação ideológica do seu tempo. Numa lógica de determinismo naturalista, a nada disto o poeta ficou indiferente e tudo isto contribuiu para o desenvolvimento da preocupação social que ele mostra.

No ponto de chegada, a parte final do poema (embora já com algumas marcas anteriores), o poeta/narrador mostra-se possuído, se não de uma nova consciência, pelo menos de uma consciência mais organizada, através da qual toma posição crítica perante a realidade.

Dessa posição, a que adere, faz parte um profundo compromisso social, mostrando-se solidário com os desfavorecidos, os frágeis e os desgraçados, assumindo a sua defesa, valorizando as situações de força popular e destacando as manifestações da dor humana que encontra omnipresentes no ambiente da cidade.

Deste modo, Cesário apresenta uma clara posição política. Fazendo assentar o seu texto na ideologia que perfilha (a que não são estranhos os ideais republicanos e socialistas fortemente divulgados no seu tempo), ele mostra-se um escritor comprometido, para quem a atividade poética é entendida como meio de realizar um projeto de vida. Cesário focaliza a ideologia e a mundividência burguesas para as denunciar, mostrando-se "ressentido" com elas e com todas as suas manifestações e consequências.

Um uso especial da linguagem

Apesar de a linguagem de Cesário Verde ser destituída de marcas eruditas, que escasseiam na sua obra, cuja cultura é sobretudo tributária de informação jornalística ou de tertúlias, ele não deixou de merecer o apodo de "engenheiro da poesia", pelo modo meticuloso e geométrico como se exprime.

O estilo digressivo e impressionista de Cesário merece uma referência à parte. Ele está relacionado com o modo como ele exprime a mobilidade da consciência, assente no número diverso das realidades existentes, cada uma com o seu estilo específico (os sub-universos, para James: o mundo dos sentidos ou das coisas físicas, tal como são experimentadas pelo senso comum, o mundo da ciência, o mundo das relações ideais, o mundo dos ídolos da tribo, os mundos sobrenaturais como o céu e o inferno cristãos, os mundos da opinião individual, os mundos da alegre loucura).

Perante a multiplicidade dos fenômenos com que depara e o modo polifônico a que recorre para os apreender, e com o que vai enriquecendo a sua personalidade (a consciência da realidade, revelada no final de O sentimento dum ocidental, apresenta uma segurança que não existe no seu início, e que foi sendo construída através das vivências essenciais que se foram acrescentando), Cesário privilegia os estados substantivos, os pontos fortes da consciência, em detrimento dos estados transitivos (em que o pensamento pouco se detém). O estilo digressivo que usa deve-se a ele valorizar, sobretudo, os primeiros em relação aos segundos.

Importante destacar o vocabulário inovador, usado em sentido ativo, a expressividade da adjetivação e dos verbos, as imagens inusitadas (ligadas às suas vivências, sonhos, convições sobre a vida, determinações de ação, energias obscuras), o aproveitamento do prosaico para produzir efeitos poéticos, a atenção ao pormenor, a liberdade imagística reveladora de uma nova consciência estética, o recurso a símbolos capazes de traduzir todo um amplo, e ao mesmo tempo concreto, universo lírico, os elementos retórico-estilísticos (comparações e metáforas, sinédoques e metonímias, sinestesias…), a variedade e rigor de estrofes e métrica, o contínuo jogo musical, envolvendo formas e cores, alternando estrofes ou versos de silêncio e quietude com outros de movimento e estridência.

É na parte final do poema que Cesário Verde coloca os principais ingredientes da sua mensagem. Ele considera ser possível construir uma realidade diferente com os meios que define e, a partir daí, contribuir para a transformação do mundo – a ser procurada por ele e por quantos, com ele, quiserem encetar o esforço da construção da nova casa humana: de uma sociedade organizada e desenvolvida, sem exploradores nem explorados, sem opressores nem oprimidos, sem injustiças nem excluídos. A sociedade da utopia, da possibilidade, da vontade, do empenhamento, mas também da dúvida e do muito limitado otimismo.

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Em O sentimento dum ocidental, há tempo, espaço e personagens, como há narrador e ação. O tempo, o espaço e as personagens estão claramente presentes. O narrador é o próprio sujeito poético, como acontece em muitos outros textos de Cesário Verde, que se desdobra nos relatos que insinua e na interioridade que explora.

Alguma dificuldade surge com a narração/ação, sendo necessário o contributo empenhado do leitor para a constituir e organizar e dar sentido às suas partes.

Na obra está o retrato de Cesário Verde, e é como que uma súmula da substância poética de sua obra, somente transfigurada transitoriamente no bucolismo da última fase, o que lhe arrefeceu o tédio, amenizou-lhe o estro, sem, todavia, anular as qualidades que fizeram dele um renovador da poesia portuguesa do século XIX. Na verdade, situa-se no Realismo e antecipa mesmo de muitos anos e em muitos aspectos Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, pela temática da inspiração e dos processos poéticos. É, por isso, o precursor do Modernismo em Portugal.

Na leitura que se faz de O sentimento dum ocidental, destacando as manifestações da consciência nele presentes, segue-se a via de considerar que o texto dispõe de todos os ingredientes poético-narrativos necessários para contar uma história. Mas trata-se de uma história que, à primeira vista, quase não é história: é a história do poeta que não cabe em casa, nem cabe em si, e sai de casa e de si, deparando, fora, com um cenário humano preocupante e desolador, causa principal do mal estar que o aflige e de que ele vai tomando (e revelando) consciência passo a passo.

Esse cenário humano geral, com que o poeta depara, potencia o aparecimento de muitos outros cenários. E isso porque a história que ele conta não é sequencial nem linear, mas encerra em si muitas outras histórias, carregadas de vivências pessoais do poeta, embora literariamente transformadas.

Em O sentimento dum ocidental, há tempo, espaço e personagens, como há narrador e ação. O tempo, o espaço e as personagens estão claramente presentes. O narrador é o próprio sujeito poético, como acontece em muitos outros textos de Cesário Verde, que se desdobra nos relatos que insinua e na interioridade
que explora.

Alguma dificuldade surge com a narração/ação, sendo necessário o contributo empenhado do leitor para a constituir e organizar e dar sentido às suas partes.

No texto de Cesário, deparamos com quatro cenários – Ave-Marias, Noite Fechada, Ao Gás, e Horas Mortas, a que correspondem, respectivamente, o Cair da Tarde, o Acender das Luzes, a Fixação da Noite, a Noite Segura.

Considerando cada um destes conjuntos, e procedendo a um levantamento direto do texto, vejamos como, em O sentimento dum ocidental, as manifestações da consciência (reveladas através dos estados de alma do sujeito poético / narrador) aparecem ligadas, de modo interativo, aos elementos poético-narrativos referenciados (tempo, espaço, personagens).

Cenário I: Ave-Marias (Ao Cair da Tarde)

TEMPO ESPAÇO PERSONAGENS ESTADOS DE ALMA DO POETA
Ao anoitecer.
Sombras.
As ruas de Lisboa.
Bulício, Tejo, maresia. Infere-se: muita gente nas ruas. Soturnidade e melancolia. Desejo absurdo (injustificado) de sofrer.
Infere-se: o aproximar da noite (iluminação, edifícios onde se prepara o jantar, pessoas a caminho de casa).
Céu baixo e de neblina. Gás extravasado, cheiro a gás.
Edifícios e chaminés. Cor monótona e londrina.

Turba.
Enjoo pelo gás extravasado.
Infere-se a tristeza do poeta, provocada pela cor monótona e londrina.
  Ao fundo, carros de aluguel, em direção ao comboio.   A felicidade dos que partem, em oposição à infelicidade dos que ficam, entre os quais o poeta.
O poeta manifesta desejo de evasão para capitais europeias onde é possível chegar de comboio. A felicidade está onde não se está.
Ao cair das badaladas (velha tradição, anunciando o fim do trabalho com o toque dos sinos). As casas de madeira parecem gaiolas. As casas são como viveiros, nelas se amontoam as pessoas. Infere-se a existência de pessoas no interior das casas. Os mestres carpinteiros saltam de viga em viga, como morcegos, abandonando o trabalho.  

Boqueirões, becos.
Cais a que se atracam botes.
Os calafates, aos magotes, de jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos, regressam a casa. O poeta, a cismar, por boqueirões, por becos.
O poeta erra pelos cais a que se atracam botes.
Tempo de evasão: recuo ao tempo dos Descobrimentos
Espaço de evasão: os Descobrimentos.
Personagens de evasão: mouros, heróis ressuscitados.
Camões a salvar Os Lusíadas a nado.
A realidade dura faz o poeta ter consciência da necessidade que sente de evasão.
Fim da tarde.
Hora de jantar.
No mar, vogam os escaleres de um couraçado inglês. Em terra serve-se o jantar nos hotéis da moda. Infere-se a presença dos ingleses, nos couraçados, os privilegiados da sorte a jantar nos hotéis da moda. O poeta declara-se incomodado com o fim de tarde.
  Um trem de praça (onde arengam dois dentistas). As varandas das casas. As lojas. Dois dentistas (arengam num trem de praça). Um trôpego arlequim (um desfavorecido da sorte) braceja numas andas.
Os querubins do lar (a criançada, à espera dos pais, aos saltinhos, nas varandas). Os comerciantes, em cabelo (descompostos), enfadam-se, à porta das lojas, por falta de clientes.
O poeta revela simpatia pelos desfavorecidos e hostilidade para com os bafejados pela sorte.
  Arsenais e oficinas.
O rio a reluzir, viscoso.
O operariado deixa o trabalho e regressa à casa. As obreiras, apressadas. As varinas, em grupo, hercúleas, galhofeiras. Infere-se: o poeta mostra ter consciência da vida miserável das varinas, mas também de que elas não têm consciência disso (a felicidade está na ordem inversa da consciência).
    As varinas, de troncos fortes como pilastras, agitam, ao andar, as ancas opulentas.
Os filhos das varinas (que elas embalam à cabeça), vão dentro das canastras.
O poeta comisera-se com a vida das varinas e antevê a desgraça dos seus filhos, que antevê a naufragarem nas tormentas.
O poeta, consciente, sofre pelas varinas, que não revelam ter consciência da realidade que as afeta.
    As varinas trabalharam, de manhã à noite, nas descargas de carvão, nas fragatas, vão descalças. As varinas moram num bairro sem condições (aí miam gatas, o peixe podre gera focos de infeção).  

Cenário II: Noite Fechada (Acender das Luzes)

TEMPO ESPAÇO PERSONAGENS ESTADOS DE ALMA DO POETA
  As cadeias, onde se toca às grades (pede-se comida, é hora de dormir).
O Aljube, onde se recolhem velhinhas e crianças.
Velhinhas e crianças (recolhem-se ao Aljube). A mulher de "dom", com bens (mulheres dessa condição raramente caem num Aljube).
Personagens inferidas: os presos e os guardas.
O poeta sente-se mortificado e com loucuras mansas, ao ouvir tocar às grades, nas cadeias. O poeta tece o comentário de que, no aljube, raramente se encontra uma mulher de "dom". O poeta lamenta que velhinhas e crianças tenham de se recolher ao Aljube.
Ao acender das luzes. As prisões, a velha Sé, as Cruzes. Infere-se: as pessoas desprotegidas que estão nas prisões, entram na velha Sé, passam pelas Cruzes. O poeta desconfia que sofre de um aneurisma, de tão mórbido que fica com o que vê. O coração do poeta é sensível ao deparar com as prisões, a velha Sé, as Cruzes.
O poeta sente chorar o coração.
A hora de acender as luzes. Os andares que se iluminam. As tascas, os cafés, as tendas, os estancos acendem as luzes com reflexos brancos. A lua lembra o circo e os jogos malabares. Infere-se: as pessoas chegam a casa e acendem as luzes. .Infere-se: os frequentadores de tascas, cafés, tendas, estancos.
  Duas igrejas, que ficam num saudoso (antigo) largo. Espaço de evasão (negativo): espaço da cidade onde tiveram lugar práticas repressivas da Igreja (a Inquisição). Padres que abandonam as igrejas. As vítimas (recriadas) da repressão da Igreja. O poeta revela pouca simpatia por igrejas e clero. O poeta, perante a vista das duas igrejas, esfuma (recria) as antigas práticas repressivas da Igreja (a Inquisição).
O poeta comisera-se por todos quantos sofreram com práticas religiosas repressivas do passado (a Inquisição).
O poeta quer compensar a realidade negativa com incursões através da história (embora nem todos os motivos sejam felizes).

Construções retas, iguais, crescidas, resultantes das reedificações após o terramoto.
Íngremes subidas. Toque dos sinos.
  O poeta sente-se murado, emparedado, ao visitar a parte reconstruída da cidade, após o terramoto (afinal, a reconstrução não foi o que se esperava…). Sente-se afrontado com as íngremes subidas, com o ambiente religioso suscitado pelo toque (monástico e devoto) dos sinos.
  O largo onde foi levantada a estátua de Camões, recinto público e vulgar, com bancos de namoro e exíguas pimenteiras. A estátua de Camões, épico de outrora, feita de bronze, monumental, de proporções guerreiras, apoiada num pilar.
  O poeta destaca a importância da figura de Camões (a resposta aos problemas do presente seria dada com soluções do passado), ao mesmo tempo que pretende homenageá-lo (O Sentimento dum Ocidental é publicado em 1880).
  Espaço da rua.
Quartel militar.
Um palácio diante de um casebre.
O Cólera, a Febre (personificados).
Pessoas de corpos enfezados, que se acumulam nas ruas.
Os soldados, sombrios e espectrais, que recolhem ao Quartel.
O poeta revela-se sensível ao sofrimento das pessoas, que, pelos corpos enfezados, ele supõe sofrerem de cólera e febre. Mostra pouca simpatia pelos soldados, devido à sua função belicista e de preservação da realidade instituída. Revela-se sensível às contradições sociais (um palácio diante de um casebre).
A temperatura
baixa.
Os Quartéis (de cavalaria), ocupando o espaço de antigos
conventos.
Espaço de evasão: a Idade Média, suscitada pelos conventos transformados em Quartel. A cidade, com cada vez menos gente.
Patrulhas a cavalo e a pé saem dos Quartéis, espalham-se (derramam-se) por toda a capital. O poeta revela nostalgia pela Idade Média, enquanto espaço e tempo de evasão (a solução para os problemas do presente procurada no passado).
  A triste cidade.
Os lampiões distantes.
As montras dos ourives.
Uma paixão defunta, do poeta (personagem da memória).
As elegantes, curvadas a sorrir diante das montras dos ourives.
O poeta comisera-se com a tristeza da cidade.
O poeta receia que a cidade lhe avive uma paixão defunta. O poeta sente-se enlutar ao deparar com os favorecidos da vida (as elegantes, diante das montras dos ourives).
  Os magazines. Costureiras e floristas descem dos magazines, onde trabalham.
Custa-lhes a elevar os pescoços altos. Muitas delas são comparsas ou coristas, trabalham no teatro.
O poeta é tomado de sobressaltos, perante costureiras e coristas de vida dupla (profissão humilde, durante o dia, profissão duvidosa, depois do anoitecer).
O poeta denuncia as influências estrangeiras na moda, ao designar as lojas por magazines.
  A brasserie, onde, às mesas de emigrados, ao riso e à crua luz, se joga o dominó. Emigrados, ao riso e à crua luz, jogam o dominó. O poeta apresenta-se de luneta de uma lente só, declarando-se, assim, atento e íntegro.
O poeta declara ter sempre assunto perante os "quadros revoltados", que abundam na cidade.

Cenário III: Ao Gás (Fixação da Noite)

TEMPO ESPAÇO PERSONAGENS ESTADOS DE ALMA DO POETA
A noite pesa, esmaga. Os passeios de lajedo. Os moles hospitais. As embocaduras, que libertam um sopro que arrepia os ombros quase nus, sugerindo
um ambiente de fantasmas que afeta os pobres mal vestidos e doentes.
As impuras que se arrastam nos passeios de lajedo. Os pobres andrajosos e doentes, que são afetados pelo sopro saído das embocaduras. O poeta sente desconforto com o ambiente (inconsciente) de riso e jogo.
O poeta é abatido pelo sentimento de peso e esmagamento provocado pela noite.
O poeta sensibiliza-se com o sofrimento no interior dos hospitais e com os pobres mal vestidos e doentes, expostos às correntes de ar.
  As lojas tépidas.
Espaço imaginado: visão de uma catedral de comprimento imenso, com círios laterais, filas de capelas com santos e fiéis, andores, ramos, velas, sugerido pela presença das lojas tépidas.
Personagens imaginadas: santos em capelas, com círios, andores, ramos, velas. Fiéis frequentadores da catedral de comprimento imenso, a que se assemelham as lojas tépidas. O poeta sente-se cercado (emparedado).
O poeta revela consciência de que as lojas tépidas que o "cercam" se assemelham a uma catedral de comprimento imenso.
Ou seja: uma das origens do cerco que o afeta vem do lado religioso, outra vem do lado do desequilíbrio social.
  O chorar dos pianos.
Espaço imaginado: o chão minado pelos canos.
As burguesinhas do catolicismo resvalam pelo chão minado pelos canos. São seres desprezíveis, insignificantes.
Personagens imaginadas: as freiras de antigamente, que os jejuns matavam de histerismo, a que se assemelham às burguesinhas do catolicismo.
O poeta sensibiliza-se com a sorte das burguesinhas do catolicismo, comparando a sua sujeição aos ditames do seu tempo (submissão à casa, devotas e beatas, educadas para o piano e as boas maneiras, sem vontade própria…) com a das freiras do antigamente (sujeitas aos jejuns e às crises de histerismo).
  Uma fábrica de cutelaria a funcionar. Uma padaria, a trabalhar, a fabricar pão, libertando um cheiro salutar e honesto.
Um forjador, de avental, ao torno, maneja um malho.
Inferese: os padeiros no fabrico do pão.
O poeta mostra apreciar as coisas autênticas e salutares da vida (o trabalho do forjador, o fabrico do pão).

Casas de confecções e modas, que resplandecem de luz e abastança. Infere-se: as modistas das casas de confecções e modas. O ratoneiro imberbe (uma criança delinquente) que olha pelas vitrines das casas de confecções e modas.
O poeta revela a sua intenção de intervir na sociedade: idealiza escrever um livro que exacerbe, que cause impacto.
O poeta exprime o seu conceito de poética: a literatura deve exprimir o real através da análise.
O poeta mostra pouca simpatia pelas casas de confecções e modas, devido à dissonância que elas representam no antro de contradições que é a cidade.
A palidez romântica e lunar que provoca reverberos (tonalidades) nas longas descidas.   As longas descidas da cidade, marcadas com reverberos de esguia difusão, de uma palidez romântica e lunar. O poeta acrescenta informação sobre o seu conceito de poética: escrever versos magistrais, salubres e sinceros e poder pintar com eles pormenores do espaço da cidade, tais como as subtilezas provocadas pela luz nas longas descidas.
  Loja de luxo, com balcões de mogno, onde se vendem xales com debuxo. Pessoa lúbrica, como grande cobra, espartilhada, magnética a atrair o luxo, escolhe uns xales com debuxo. O poeta revela aspereza perante os que, bafejados pela sorte, atraem ao luxo.
    A velha, de bandós, de vestido com traîne (acrescento farto e longo, a arrastar pelo chão), com barras verticais, a duas tintas, a imitar um leque antigo aberto.
Os mecklemburgueses (Mecklenburg, unidade política alemã, de regime latifundiário, aristocrático e autoritário), os indivíduos com o mesmo estatuto da velha de bandôs, que perto dela "escarvam" à vitória (ironia, para exprimir que eles, através dela, têm sucesso e usufruem de boa vida).
O poeta contrapõe a ostentação e o luxo à desgraça e à miséria (através da velha de bandós e dos mecklemburgueses que a acompanham).
  Lojas da moda, onde clientes e caixeiros interagem no ato comercial, desdobrando tecidos estrangeiros. Plantas ornamentais a secar nos mostradores da loja. Flocos de pós de arroz que pairam, sufocadores.
Clientes e caixeiros, nas lojas da moda. Os caixeiros requebram-se, desfazem-se em boas maneiras, em nuvens de cetins, para venderem os seus artigos.
O poeta mostra não concordar com o comportamento dos clientes das lojas da moda.
Passou tempo, é altura de fechar as lojas, tudo passa e cansa. Os candelabros, como estrelas, apagam-se, pouco a pouco. As frontarias dos prédios, de onde estão suspensos candelabros. As armações fulgentes, que brilhavam com a luz, tornam-se mausoléus quando ela se apaga. Um cauteleiro regouga, rouco, solitário. O poeta dá atenção aos mais fracos, neste caso ao cauteleiro, que regouga, rouco, solitário.
  As esquinas, onde pede esmola o velho professor de latim (símbolo do abandono a que chegaram os valores culturais do país). O homenzinho idoso, calvo, eterno, sem repouso, que exclama "Dó da miséria!... Compaixão de mim!...", e nas esquinas pede esmola, é o velho professor de latim do poeta. O poeta mostra compaixão pelos desfavorecidos, no caso concreto o seu velho professor de latim, e repúdio pelo desprezo a que, simbolicamente, foram deitados os valores culturais do país.

Cenário IV: Horas Mortas (Noite Segura)

TEMPO ESPAÇO PERSONAGENS ESTADOS DE ALMA DO POETA
É noite de céu limpo.
Os astros, com olheiras, libertam lágrimas de luz.
As ruas estreitas, ladeadas por prédios com trapeiras, são longos corredores, que têm por tecto fundo o oxigénio, o ar (o céu).
As trapeiras, separadas pelas ruas estreitas. Os astros, com olheiras, libertam lágrimas de luz.
Personagens imaginadas: os astros, solidários com os homens conscientes, chorando lágrimas de luz. O poeta, em face da realidade, deixa-se dominar pelo desejo de evasão. Ele diz-se enlevado pela quimera azul de transmigrar, de passar a outro espaço-tempo positivo, que não o magoe como aquele em que vive.
A cidade às escuras.   Portões e arruamentos particulares, lajes onde se ouve cair um parafuso, taipais que se colocam, fechaduras a rangerem, uma caleche de luzes acesas. O poeta mostra-se impressionado com os portões e os arruamentos das propriedades particulares abastadas.
Consciência dos desequilíbrios sociais.
O poeta, de tão marcado pela realidade, torna-se assustadiço, a pontos de se deixar espantar pelos "olhos sangrentos", as luzes de uma caleche.
Tempo de silêncio. As fachadas das casas que parecem linhas de uma pauta.
As notas pastoris de uma longínqua flauta sobem, no silêncio, infaustas e trinadas.
Personagem inferida: nota-se a presença de um tocador de flauta. O poeta revela consciência de ínfimos pormenores da cidade, como a dupla correnteza augusta das fachadas e as notas pastoris, tristes, de uma longínqua flauta.
O poeta mostra ânsia e saudade pelo ambiente pastoril.
  Espaço visionado: um mundo perfeito, castíssimas esposas, mansões de vidro transparente. Personagens visionadas: castíssimas esposas, em mansões de vidro transparente. O poeta aspira à imortalidade ("Se eu não morresse, nunca!").
O poeta dá mais informação sobre o seu conceito de poética: procurar e alcançar, eternamente, a perfeição das coisas.
O poeta perde-se a sonhar com um mundo perfeito (evasão da realidade, já que deseja imortalidade e perfeição, mas sabe que é mortal e imperfeito), com castíssimas esposas dispostas em mansões de vidro transparente.
  Espaço visionado: família, filhos, mães e irmãs estremecidas, vivendo em habitações translúcidas e frágeis. Personagens visionadas pelo poeta: filhos, mães, irmãs estremecidas. O poeta sonha uma realidade completamente diferente da que o afeta, com família, filhos, esposas e irmãs estremecidas, vivendo em habitações translúcidas e frágeis (evasão pela via estética).
O poeta, porque tem consciência da realidade, mas nada pode fazer contra ela, contrapõe-lhe um mundo de contornos sonhados.
  Espaço imaginado: situado no futuro, quando as frotas dos avós e os nômades ardentes explorarem todos os continentes e seguirem pelas vastidões aquáticas.
Personagens imaginadas: a raça ruiva do porvir, os avós dirigindo as suas frotas, os nômades ardentes. O poeta sonha com a raça ruiva do porvir.
O poeta sonha explorar todos os continentes e seguir pelas vastidões aquáticas.
O poeta conta, para consumar os seus fins, com o contributo das frotas dos avós e de nômades ardentes (o dinamismo do passado português), cuja formação idealiza.
O poeta sonha explorar todos os continentes e seguir pelas vastidões aquáticas.
Tempo imaginado: a treva, onde há folhas das navalhas e gritos de socorro estrangulados (de que é símbolo a escuridão da noite real em que o ooeta se move). O vale escuro das muralhas, sem árvores, onde vivem os emparedados.
Espaço imaginado: treva, folhas de navalhas, gritos de socorro estrangulados.
Os emparedados (o poeta e todos os seres que adquirirem o grau de consciência dele), que vivem no vale escuro das muralhas, sem árvores, entre folhas de navalhas e gritos de socorro estrangulados, na treva. O poeta tem consciência de que os indivíduos conscientes, de Lisboa, do país, do mundo… que lutam contra a realidade triste e o meio humano deficitário e infeliz que é a realidade humana vigente, são os emparedados, que vivem no descampado escuro cercado de muralhas, e entre folhas das navalhas e gritos de socorro estrangulados, na treva.
Os nebulosos corredores, as ruas.
Os ventres das tabernas, a vida no seu interior.
Os tristes bebedores, de regresso a casa, que, aos bordos sobre as pernas, cantam com saudade, de braço dado uns nos outros. O poeta sente náuseas provocadas pelo que vê no interior das tabernas.
O poeta é sensível à presença dos tristes bebedores que regressam a casa a cantar, de braço dado uns nos outros.
    Os dúbios caminhantes afastam-se, ficam à distância. Os cães, sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, amareladamente (advérbio que afeta, negativamente, os cães e tudo à sua volta), parecem lobos. O poeta, apesar do ambiente inseguro, não receia ser roubado (não por coragem sua, mas porque, afinal, ele está irmanado, pelo menos em espírito, com o grupo dos desfavorecidos da sorte, seus potenciais ladrões).
  As escadas dos prédios, revistadas pelos guardas.
O andar superior dos prédios, onde as imorais, em roupão, tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
Os guardas revistam as escadas, caminham de lanterna, carregam imensas chaves.
As imorais, em roupões ligeiros, tossem, fumando sobre a pedra das sacadas, no andar superior dos prédios revistados pelos guardas, enquanto esperam quem as procure.
 
  Os prédios sepulcrais, numa massa irregular, com dimensões de montes.   O poeta revela a consciência de que a dor humana busca amplos horizontes (soluções), mas atravessa marés de fel, como um sinistro mar (a realidade).

Em síntese, podemos constatar que:

A) O tempo

Relativamente ao tempo, revela-se:

- Consciência da sua passagem, entre as Ave-Marias (ao cair da tarde), a Noite Fechada (o acender das luzes), o Ao Gás (fixação da noite) e as Horas Mortas (noite segura).

- Consciência de um tempo real, progressivamente negativo: o anoitecer, as sombras, a preparação da noite, o cair das badaladas, o fim da tarde, a hora de jantar, a hora de acender as luzes, a temperatura baixa, a noite que esmaga, a palidez romântica e lunar, a ocasião de fechar as lojas, a noite de céu limpo em que os astros libertam lágrimas de luz, a cidade às escuras, o tempo de silêncio.

- Consciência de que ao tempo real, negativo, se contrapõe um tempo de evasão (o tempo dos Descobrimentos) e um tempo imaginado de treva (folhas das navalhas e gritos de socorro estrangulados, na escuridão da noite real em que o poeta se move).

- Consciência de que o tempo real negativo diz respeito, simbolicamente, a um tempo, primeiro de decadência nacional, e depois de decadência civilizacional, correspondendo a evasão a uma necessidade de compensação da situação (ao mesmo tempo se aponta uma chave para a solução dos problemas), mas não se deixando antever grande margem para otimismo.

- Consciência da progressão e do adensar da noite: à medida que o tempo passa e o bulício diminui, aumenta o sentimento de dor, angústia e frustração.

- Consciência de que o pessimismo instalado não dá mostras de recuar.

B) O espaço

Predomina o ambiente físico real, revelando-se a consciência do poeta/narrador acerca de: ruas, Tejo e maresia, céu baixo e de neblina, gás extravasado, edifícios com chaminés, cor monótona e londrina, carros de aluguer, casas que parecem gaiolas, boqueirões, becos, cais a que se atracam botes, escaleres de um couraçado inglês, hotéis da moda, um trem de praça, as varandas das casas, as lojas, os arsenais e as oficinas, o rio que reluz viscoso, as cadeias, o aljube, as prisões, a velha Sé, as Cruzes, os andares iluminados, as tascas, os cafés, as tendas, os estancos iluminados, a lua, duas igrejas, um largo, as construções retas, as íngremes subidas, o toque dos sinos, o Largo com a estátua de Camões, o espaço da rua, o Quartel Militar, um palácio diante de um casebre, os Quartéis de Cavalaria, a cidade a esvaziar-se, os lampiões, as montras das ourivesarias, os magazines, a brasserie, os passeios de lajedo, os hospitais, as embocaduras, as lojas, sons de pianos, candelabros que se apagam, frontarias dos prédios, esquinas, ruas estreitas, prédios com trapeiras, astros que libertam lágrimas de luz, portões e arruamentos particulares, lajes onde se ouve cair um parafuso, taipais, uma caleche de luzes acesas, fachadas das casas, ruas como nebulosos corredores, tabernas, escadas dos prédios, o andar superior dos prédios, as sacadas de pedra.

Segue-se o ambiente humano real, com: bulício de gente, gente que parte de comboio, pessoas em viveiros (em casa), dois dentistas que arengam, os guardas das prisões, velhinhas e crianças recolhidos no aljube, os ourives, os emigrados às mesas da brasserie, os pobres mal vestidos e os doentes, um cutileiro, a fábrica de cutelaria a funcionar, a padaria a fabricar pão, as casas de confecções e moda, a loja de luxo com balcões de mogno, as lojas da moda, as plantas ornamentais nos mostradores das lojas, um velho professor de latim que pede esmola, os trabalhadores da noite, o som de uma flauta triste, a vida interior das tabernas, os guardas que revistam os prédios, as imorais em roupão que tossem e fumam.

Há ainda particularidades acerca do espaço físico de evasão (positiva: Descobrimentos, Idade Média; negativa: espaço da cidade, com práticas repressivas da Igreja da Inquisição),

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