O sertão vai virar mar, de Moacyr Scliar

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Em O sertão vai virar mar, o autor, Moacyr Scliar, faz uma releitura e revisão de um dos fatos mais marcantes de nossa história contemporânea: a saga de Antônio Conselheiro e os trágicos acontecimentos de Canudos. O autor, com muita propriedade e técnica literária, desenvolve um enredo, usando adolescentes de uma escola para mostrar, de uma forma bem mais simples do que a usada por Euclides da Cunha em Os Sertões, a grande tragédia ocorrida no sertão baiano.

Para esta releitura, Scliar narra a história de um grupo de alunos que vai promover o julgamento de Antônio Conselheiro na semana cultural da escola e recebe o auxílio do professor de História, que lhe apresenta o livro de Euclides da Cunha. Encantados pela maneira como o povo do sertão é descrito, os estudantes “devoram” o livro.

O Sertão Vai Virar Mar é agitado por dois eventos que dão suspense à trama. Primeiro, os jovens conhecem Zé, um menino misterioso que sabe tudo sobre Os Sertões. Em seguida, toda a cidade é abalada com a chegada de Jesuíno Pregador, que arrebanha milhares de fiéis em uma favela. O fato logo chama a atenção dos poderosos da cidade, que pressionam a polícia a reprimir o pregador.

Enquanto Euclides da Cunha, com seu português clássico, bem acima da média popular, faz uma descrição jornalística rica em detalhes e pormenores, mostrando perfeitamente como é o sertanejo e seu habitat, Moacyr Scliar, de uma maneira mais acessível ao público juvenil, narra os mesmos fatos, dando maior ênfase à mensagem a se extrair da história, e menor destaque aos detalhes dos acontecimentos. Estas duas obras escritas em épocas tão diferentes tratam da mesma trama de maneiras bem diversas, mas a adaptação mantém a essência da original, conta a mesma história, só que contextualizada na realidade das personagens de O sertão vai virar mar. Nesta, o autor recria um beato com as mesmas características religiosas do beato de Euclides da Cunha, inserido na época em que se passa a trama da história adaptada. Scliar ainda coloca no enredo um filho adolescente do religioso, fazendo parte do grupo de estudantes que estudará e discutirá Os Sertões durante o desenrolar da história.

Scliar, quando em O sertão vai virar mar, faz a releitura de Os Sertões, o faz com uma linguagem e vocabulário bem simples, o que permite um entendimento claro do que foi este fato histórico, tão relevante de nossa história. Scliar, em seu livro, de uma maneira bastante clara, criou um enredo ficcionista que se assemelha ao de Os sertões e, no desenrolar da trama, conta a história de Canudos e seu beato. As diferenças no vocabulário e na linguagem dos dois livros são enormes e podemos comprová-las em passagens como:

"Decorre isto de sua situação topográfica. A sublevação de rochas primitivas que se alteiam aos lados, para norte e para leste, levanta-se como anteparo aos ventos regulares, que até lá progridem e torna-se condensador admirável dos escassos vapores que ainda o impregnam..." Cunha (2002, p. 229)

"No lugar chamado Buraco – uma enorme vila popular que tem mais de trinta anos, as casinhas até hoje são humildes, as condições de vida, muito duras. Em outras cidades, bairros assim são o reduto de traficantes, de criminosos. Não em Sertãozinho de Baixo..." Scliar (2003, p. 11)

Estes dois pequenos trechos têm em comum, o fato de serem, nas duas obras as primeiras descrições do local onde habitava o beato. Em Os sertões é uma descrição rebuscada e detalhada do Monte Santo ou Canudos e seu posicionamento geográfico; já em O sertão vai virar mar é um relato claro e simples do lugar chamado “Buraco”, bairro da cidade de Sertãozinho de Baixo, onde mora o beato da história contemporânea. Neste aspecto e em muitos outros, as duas obras são radicalmente diferentes. Época, costumes, estilo de vida; numa campestre, noutra urbano e outras divergências são contrapostos no livro de Scliar e assimilados primeiro por suas personagens e depois pelos leitores infanto-juvenis que estão na mesma faixa etária dos protagonistas do livro.

Se é certo que as duas obras têm suas diferenças, também é verdade que elas possuem pontos importantíssimos em comum. As fortes denúncias de injustiças sociais são marcantes nos dois livros. Euclides da Cunha foi ímpar ao retratar toda a trama de Antônio Conselheiro, desde seus infortúnios no Ceará, onde fora um pacato professor de escola primária, até o apogeu de seu ministério no sertão da Bahia. Os sertões mostrou como o misticismo e o político se emparelham e se misturam em passagens como:

Pregava contra a República, é certo. O antagonismo era inevitável. Era um derivativo à exacerbação mística; uma variante forçada ao delírio religioso” Cunha (2002, p. 190).

Quando o autor de Os sertões se embrenhou no interior, sua missão era fazer um trabalho de cobertura jornalística sobre os conflitos em Canudos, mas acabou retratando a vida do sertanejo, suas crenças, dificuldades, seu sofrimento, suas carências físicas e morais. Poucos retrataram o sertão nordestino e seu povo como Euclides da Cunha. Moacyr Scliar, relembrando as denúncias do grande jornalista, também fez as suas: foram novas denúncias, mas sobre os mesmos problemas delatados em Os sertões. Mudou-se o cenário, a época mas os problemas são os mesmos: injustiça social, desigualdade na distribuição de renda, descaso do poder público com relação às dificuldades do povo e muitos outros aspectos que vão aflorando da trama de Moacyr Scliar, como fizeram anteriormente na de Euclides da Cunha. O adaptador nos mostra “... O que me deixou indignado foi a maneira com que os responsáveis pela obra nos trataram, a mim e aos outros. Nós éramos simplesmente obstáculos que tinham que ser removidos. Mas aquelas terras, gente, eram a minha vida, a nossa vida.” Esta denúncia, como tantas outras são comuns tanto na original, como na obra adaptada.

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