O último voo do flamingo, de Mia Couto

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Em O ltimo voo do Flamingo, romance de Mia Couto, a editora optou por manter, inclusive no ttulo, a ortografia vigente em Moambique. uma obra em que pulsa uma grande fora humanista: depois da guerra de Independncia e dos anos de guerrilha, Moambique vive um momento de reestruturao social e poltica.

A obra abordagem sobre o perodo ps-guerra civil no pas, uma fico sobre os tempos em que estiveram em Moambique soldados da ONU integrados na misso de manuteno de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginria, Tizangara, ao sul do pas.

O livro comea com um fato inslito: um pnis encontrado no meio da rua de Tizangara. Mais um soldado das Naes Unidas havia explodido e aquilo era a nica coisa que restara dele.

A vila est cercada por um mistrio: corpos de soldados estrangeiros que comeam, subitamente, a explodir. Um oficial das Naes Unidas, o italiano Massimo Risi, destacado para investigar o caso. Tudo contado pelo tradutor destacado pelos poderes oficiais da vila para acompanhar o italiano. Bem, quase tudo. medida que os fatos se sucedem, outras vozes ganham espao no texto, deslocando-se o foco narrativo para outros personagens: Massimo Risi, Estvo Jonas - o administrador da vila -, a velha-moa Temporina, a prostituta Ana Deusqueira, o feiticeiro Zeca Andorinho e o velho Sulplcio, o pai do narrador. Eles apresentam suas verses dos fatos, ou contam sonhos ou lembranas essenciais para a compreenso dos fatos vos sobre o tempo dos acontecimentos e o tempo da memria.

O mistrio adensa-se. Os soldados da paz morreram ou foram mortos? Os outros personagens, dona Ermelinda (a administratriz), Chupanga (o adjunto do administrador) e padre Muhando completam a atmosfera de Tizungara, envolta em verdade e fico, realidade e magia, natureza e sobrenatural, o mundo dos vivos e o mundo dos mortos; e um presente que balana entre a fora dos antepassados e a ausncia de futuro.

Com toda a sabedoria da velha frica, Mia Couto revela-nos, uma vez mais - na ironia, no sentido de humor, no esprito crtico, na palavra custica e no comentrio acerado, no recurso metfora e na carga cheia de simbolismo da frase -, o seu absoluto domnio da escrita e da lngua portuguesas, o conhecimento e o amor profundos que tem e dedica a esse belssimo e atormentado continente, neste novo romance, O ltimo Voo do Flamingo.

O autor sabe como ningum manejar seu discurso literrio ora fantstico, ora potico, ora divertido e irnico:

"H aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito. Explico: no meu parto no me extraram todo, por inteiro. Parte de mim ficou l, grudada nas entranhas de minha me. Tanto isso aconteceu que ela no me alcanava ver: olhava e no me enxergava. Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua viso. Ela no se conformava:
- Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
A vida assim: peixe vivo, mas s vive no correr da gua. Quem quer prender esse peixe tem que o matar. S assim o possui em mo. Falo de tempo, falo de gua. Os filhos se parecem com gua andante, o irrecupervel curso do tempo. Um rio tem data de nascimento?"

Para falar de uma vila onde acontecimento era coisa que nunca sucedia, e que s os factos so sobrenaturais, Mia Couto parece tomado por um encantamento pela linguagem. Ele mistura num as culturas tradicionais africanas e a cultura ocidental, o portugus colonizador com as variantes dialetais da populao moambicana h um glossrio no final do livro.

Outros ingredientes so o uso de aforismos, desconstruo de provrbios e ditos populares (contra os factos tudo so argumentos). Mia Couto "desarranja" a linguagem, em muitos momentos a aproximar-se de Guimares Rosa ("o motor nhenhenhou-se") ou, mesmo, da sintaxe do poeta Manoel de Barros, j na parte final do romance ("as sujidades se definitivam"), e da qual emerge a relao profunda entre o homem e a terra.

A tangncia das margens do realismo fantstico latino-americano ou, como sugere Mia Couto, o "realismo animista", na expresso do angolano Pepetela. H Temporina, com o rosto de velha e corpo de moa (mas que, em "flagrante de amor, juvenescia"); uma tia que, aps morta, se transforma em louva-a-deus; um personagem que, quando toca em mulher, suas mos aquecem at ficarem como carvo aceso; outro que, ao dormir, pendura os prprios ossos fora do corpo; determinados feitios que faziam com que os enfeitiados emagrecessem at ficarem do tamanho de formiga. Diante desses acontecimentos, resta ao italiano Massimo Risi, entre uma perplexidade e outra, temer pela veracidade do relatrio que ter de entregar a seus superiores ("na capital, a sede da misso da ONU espera por notcias concretas, explicaes plausveis. E o que tinha ele esclarecido? Uma meia dzia de estrias delirantes").

s vezes, na obra, predomina o sarcasmo, s vezes o esprito crtico, outras vezes ambos. Quando, por exemplo, um pnis decepado achado, chamam a prostituta Ana Deusqueira para identificar o todo pela parte. Ou, em outra cena, o administrador relata: Na vspera de cada visita, ns todos, administradores, recebamos a urgncia: era preciso esconder os habitantes, varrer toda aquela pobreza. Mais ironia: contratado para traduzir, o prprio tradutor desnecessrio. Quando ele se apresenta ao italiano, este comenta: Eu posso falar e entender. Problema no a lngua. O que eu no entendo esse mundo daqui.

A narrativa potica, carregada de lirismo. Entre vrias seqncias, percebemos aquela em que Massimo Risi passa por um terreno minado como Jesus se deslocou sobre as guas. Podemos tambm acompanhar a me do tradutor desfiando a estria dos flamingos que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo.

Enfim, a obra redimensiona o olhar sobre Moambique, um dos pases mais pobres do mundo, recm-sado de trs dcadas de guerra civil fratricida, que matou ao menos 16 milhes de pessoas nesse perodo (em 2000, quando o livro foi publicado, comemorava-se os 25 anos de independncia de Moambique).

Mia Couto soube criar o suspense para que passemos toda a narrativa tentando descobrir a causa da exploso dos soldados.

Trecho do livro

Captulo dcimo stimo

O PASSARINHO NA BOCA DO CROCODILO
No me basta ter um sonho.
Eu quero ser um sonho.
(Palavras de Ana Deusqueira)

Entrei no quarto de Massimo e uma multido de papeladas estava espalhada em todos os mveis.
- No me diga que desbotaram as letras outra vez?!
- No.
Me assaltou ento um frio. O italiano empacotava suas coisas. Se retirava. Uma inesperada tristeza me sombreou. Eu j me afectuava ao estrangeiro?
- Vai partir?
O homem confirmou, apenas com um aceno de cabea. Eu o espicacei: ia desistir, baixar as mos da obra? Abandonava a sua ambio de promoo assim, no meio do caminho?
- Que caminho?
Eu no sabia responder. Ele tinha razo. Havia, quando muito, um labirinto. Mais tempo ali, mais ele ficaria perdido. Assim, arrumando suas roupas na mala, o estrangeiro parecia dobrar a sua prpria alma. Num certo momento, parou, com um sorriso estranho. Por que se ria?
- Voc no diz que eu devia era contar estrias? Pois me lembro agora de uma.
- Finalmente uma estria! Conte, Massimo.
- No uma estria, uma lembrana. Recordei-me do que faziam com meu av, quando ele envelheceu l na Itlia.
- O que faziam?
noite levavam o velho prostituta. Chamavam a meretriz parte e lhe pediam para ela lhe dar ternura. Simples carinho sem anexos nem sexo. Afinal, o prazo do velho j passara. A meretriz que simplesmente cantasse para o adormecer. Assim combinavam com ela, sem que o velho se apercebesse. E pagavam ainda mais para que ela, no dia seguinte, corroborasse com a mentira do sucesso dele. Tanto vigor nem os mais jovens! Familiares e prostituta gabavam a frescura do velho, participando na farsa. O que sucedeu, com os anos, que a moa se converteu e se dedicou, em exclusividade, ao idoso av. Nunca mais nenhum homem lhe foi conhecido. At que, um dia, a prostituta apareceu grvida. Ningum levantava dvida: a criana seria do av.
E voc, Massimo, se lembra disto porqu?
- Essa criana sou eu.
Preferi nada dizer. Nem me parecia verdade, aquela confisso dele. Porqu me entregava a mim aquele segredo dele? Mas o italiano prosseguia: que havia um destino, sim. Esse destino o tinha conduzido at ali, o tinha atirado para aqueles confins e lhe entregara, inclusive, uma prostituta que guardava segredos.
- A mo de um bom santo me protegeu.
S agora avaliava essa proteco. Noites seguidas, ele no dormira com medo de estourar como os outros. No sabia eu porqu ele tinha sido poupado? Se ele ficara inexplodvel era porque beneficiara de uma bondosa proteco. Sobrevivera graas a um amor.
- E acredita nisso, Massimo? Acredita nessas nossas coisas?
O importante no era a verdade do assunto. Contava era ter havido algum que intercedera por ele. Essa era a nica verdade que lhe interessava.
- E quem voc acha que foi?
Acreditava ter sido Temporina. Seu corao lhe dizia isso. Eu sabia que a moa-velha no podia encomendar um feitio. Nenhuma mulher pode chamar servio de curandeiro sem chegar a ser me.
- No foi Temporina. Foi outra.
Ele sorriu, certo que tinha sido Temporina. Continuou arrumando seus haveres. No momento, uma cassete lhe parecia sobrar. Lembrou-se: era um depoimento de Ana. Tinha ali uma gravao que ele sozinho registara. Numa tarde em que eu fora administrao o italiano visitara a prostituta.
- Afinal, voc anda por a sem mim? Sem o seu tradutor oficial?
O europeu se envergonhou. Comeou a justificar-se, mas eu o dispensei da culpa. Massimo ainda hesitou. Porm, acabou ligando o gravador e os dois nos calmos a escutar a voz de Ana Deusqueira:
O senhor se cuide, Massimo Risi: a boca grande e os olhos so pequenos. Ou como se diz aqui: o burro come espinhos com a sua lngua suave. que isto aqui mais perigoso que o senhor pensa. Perigoso porqu? O senhor vai descobrir como o pato. Sim, como pato que descobre a dureza das coisas s depois de partir o bico.
que no meio de tudo h sangue, monos a quem no cobriram o rosto. Esses mortos dormiram no relento, impurificaram a noite. Para o senhor, com certeza, isso no traz gravidade. Aqui no a morte, mas os mortos que importam. Entende? Ainda vai morrer mais gente, lhe asseguro. No faa essa cara. Eu espero que a desgraa lhe passe nas suas costas, a si que me parece um homem bom.
Fui mandada para aqui pela Operao Produo. Quem se lembra disso? Atafulharam camies com putas, ladres, gente honesta mistura e mandaram para o mais longe possvel. Tudo de uma noite para o dia, sem aviso, sem despedida. Quando se quer limpar uma nao s se produzem sujidades.
Em Tizangara at me receberam bem. Esta gente se afastava, como no querendo ser contaminada. Contudo, no me maltrataram. No incio eu me sentia como numa priso, sem grades, mas cercada por todo o lado. Eu estava como o prisioneiro que encontra no carcereiro o nico ser com quem trocar as humanidades. E pergunto: por que nos ensinaram essa merda de sermos humanos? Seria melhor sermos bichos, tudo instinto. Podermos violar, morder, matar. Sem culpa, sem juzo, sem perdo. A desgraa esta: s uns poucos aprenderam a lio da humanidade.
Certa vez, fugi. Meti-me pelos matos at l onde a floresta se despenteia mesmo sem nenhum vento. Fiquei tombada como mona, junto a uma ponte no leito seco do rio. Senti que chegava algum, me levantava em seus braos. Eu estava leve como entranha de morcego. Fui levada para uma casa linda, nem meus olhos haviam sido ensinados a contemplar tais belezas. Nunca identifiquei quem me tratava: eu estava exausta, tudo me chegava entre nvoas e tonturas. Depois me deixaram na igreja quando eu j podia comigo. Hoje, creio que foi tudo sonho. Essa casa nunca houve. E, se houve uma tal casa, ela ruiu, desabada em poeira sem lembrana. que todas as mulheres do mundo dormem ao relento. Como se todas fossem vivas e se sujeitassem aos rituais da purificao. Como se todas as casas tivessem adoecido. E o luto se estendesse por todo o mundo. s vezes, em breves momentos de alegria, ns fazemos de conta que repousamos sobre esse tecto perdido. s vezes me parece reencontrar essa voz que me salvou, essa casa que me abrigou.
Estes poderosos de Tizangara tm medo de suas prprias pequenidades. Esto cercados, em seu desejo de serem ricos. Porque o povo no lhes perdoa o facto de eles no repartirem riquezas. A moral aqui assim: enriquece, sim, mas nunca sozinho. So perseguidos pelos pobres de dentro, desrespeitados pelos ricos de fora. Tenho pena deles, coitados, sempre moleques.
Assim, aprendi minhas sabedorias: passo como penumbra no poente. Sou pessoa muito cabida. Como aqueles passaritos que comem na boca do crocodilo. Lhe aparo sujidades nos dentes e ele me aceita. Me protejo fazendo morada no centro do perigo. Minha vida um acerto de favores, um negcio entre dentes e maxilas dos matadores.
Aprenda isto, amigo. Sabe por que gostei de si? Foi quando lhe vi atravessar a estrada, o modo como andava. Um homem se pode medir pelo jeito como anda. Voc caminhava, timiudinho, faz conta um menino que sempre se dirige para a lio. Foi isso que apreciei. O senhor um homem bom, eu vi des-de-desde. Lembra que falei consigo no primeiro dia da sua chegada? L de onde o senhor vem tambm h os bons. E isso me basta para eu ter esperana. Nem que seja s um. Unzinho que seja, me basta.
Ao v-lo, logo no primeiro dia eu disse para mim: este vai-se salvar. Porque aqui voc precisa de calar a sua sabedoria para sobreviver. Conhece a diferena entre o sbio branco e o sbio preto? A sabedoria do branco mede-se pela pressa com que responde. Entre ns o mais sbio aquele que mais demora a responder. Alguns so to sbios que nunca respondem.
Faz bem, Massimo: no aspire ser centro de nada. A importncia aqui muito mortal. Veja, por exemplo, essas avezitas que pousam no dorso dos hipoptamos. Sua grandeza o seu tamanho mnimo. essa a nossa arte, nossa maneira de nos fazermos maiores: catando nas costas dos poderosos.
Desculpa, tenho que interromper essa minha declarao, mas voc me est atrapalhar. Est-me olhar assim, porqu? Me est desejar, no Massimo? Mas no pode ser. Com voc no pode ser. Se me tocar voc vai morrer.
- Eu sei me prevenir, trouxe o preservativo.
- No isso. Esta outra doena.
- Ento morro como?
- As mulheres aqui foram tratadas...
- Tratadas como?
- Deixe isso, Massimo. Deixe, depois algum lhe h-de explicar tudo.
Quem sabe, mais tarde, nos encontraremos, longe de tudo isto? Agora, vou s lhe contar como sucedeu naquela noite com o zambiano. Nunca contei isto a ningum, voc o primeiro a saber o que aconteceu. Pois, esse soldado me visitou sem nenhumas maneiras. O homem nem perdeu tempo com beijo. Voc sabe como a minha gente. Me subiu assim, sem preparo, mais salivoso que cachorro. E ali se serviu, todo por cima de mim, completamente nu, excepto a boina na cabea. Transpirado, aguando-se pela pele, ia gemendo, arfalhudo. Suspiros e gemidos iam crescendo, cada mais frequentes, eu j aliviada por ver a coisa a terminar. Foi nesse instante: em vez de se vir, o tipo rebentou-se, todo estampifado. Me assustei, quase de morrer. Fechei os olhos. Eu j tinha ouvido falar disso, dos estrangeiros explodirem quando montam nas meninas. Porm, nunca tinha acontecido comigo, nunca. Eu no queria nem abrir os olhos, ver a sangraria toda espalhada, tripas dependuradas nos candeeiros. Mas, afinal, no tive que limpar nada. O homem explodira como um balo. Aquele vivente se tinha espatifurado sem vestgio.
E agora se v. Vire costas e no volte para trs. Nem me espreite. Pois voc me veria lhe deitando olho desejoso. V, que um outro tempo nos h-de visitar.

(Continua...)

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