Ode Marítima (poema), de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa)

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O poema Ode Marítima, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), resulta da aplicao de regras de composio e produz um sentido preciso, metafisicamente para alm das palavras que o suportam. Funda-se em processos de composio estruturados e pictricos. Ode Martima tem um relao absolutamente nova com a mímesis, com o modo de usar o mimtico na criao artstica, como tinha sido praticado at a. Por isso consuma uma total rotura conceitual com a produo literria dos autores que antecederam Pessoa, como o caso de Cesrio Verde, para citar apenas um, evocado na prpria "Ode".

Na Ode Marítima, solitário entre a multidão da grande cidade, o poeta chega ao cais e vê “pequeno, negro e claro, um paquete vem entrando”. A partir dessa visão, o poeta viaja no tempo e no espaço, recupera fugazmente a própria infância.

O poeta empreende uma exaltada viagem imaginária que supera tempo e espaço e o transpõe a um mundo, onde os limites parecem ser a piedade por aqueles a quem o poeta sonha causar dor, a infância perdida que invade o poema reclamando seu latifúndio de fantasia e o tédio, esse eterno companheiro de quem substitui a vida pelo pensamento sobre a vida. "Todo esse tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo”, confessa ele. “Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio”, declara; “E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia”, conclui o poeta para quem a vida é uma margem inalcançável, quiçá inexistente.

Para alm da literatura, este poema um texto intencionalmente estruturado, claro e dinmico. Mais do que um poema, um ensaio sobre esttica, uma esttica da inteligncia e da voz naquilo em que a voz a palavra inteligvel da inteligncia-em-corpo; uma lgica de composio "modernista", desenvolvida disciplinada, metdica e aplicadamente. H aqui, de forma clara e iniludvel, uma teoria da composio potica independente e autônoma, que determina os elementos formais do poema. Em toda a composio da "Ode", esses processos de composio estruturados antecipam uma lgica de montagem flmica, ou musical, que extrapola extraordinariamente a prpria retrica da construo potica, numa formulao esttica que rompe o "processualismo" formal da escrita.

O poema tem uma esttica implcita, precisa, quase geomtrica, intensa, reveladora. O poema masteriza a relao entre idia e expresso. A escolha de cada palavra, as seqüncias, os ritmos, as sonoridades - ou os resultados snicos de tudo isso, que so o que realmente existe, o que realmente chega ao espectador, ou ouvinte, ou o-outro-que-assiste, a testemunha.

É de partida que se fala na Ode Marítima e o afastamento do navio que deixa o cais desperta no poeta uma profunda angústia metafísica. O poema d imagens de morte antegozada, aniquilao, conscincia, e sem controle. Morte Mar. No existe a totalidade restaurada, no h posio do cosmos, a partir de um caos inicial ou inicitico. Para lvaro de Campos, a gua sempre dissolvente e s confirma o vazio, a total falta de sentido da existncia.

O simbolismo geral da gua como elemento negativo uma constante na obra do poeta. A gua para ele o reflexo de um vazio.

Aqui, Álvaro de Campos assume um drama íntimo que representa para Fernando Pessoa uma catarsis através do heterônimo:

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol,
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

Em Ode marítima, Campos confecciona um eu-lírico que sente a sensação da vida em um cais, cuja consciência vai fazendo um elo analógico entre a vida marítima e a vida interior:

Toda a vida marítima ! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
(...)
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, um mar para bater.

Ponto importante de ressaltar é que o olhar, a imaginação, ou seja, a sensação é analogicamente um "volante" que vai direcionando a percepção dessa vida marítima:

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Neste poema, à proporção que o "volante" interior do eu-lírico vai mudando o seu olhar, o ritmo se altera; o ritmo se amplifica gerando um enunciado agressivo. No início do poema observa um paquete, signo do mundo moderno, no mar, o indefinido. A pontuação, a priori, é de calmaria iconizando a manhã.

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Olho por outro lado da barra, olho por indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno ver, negro e claro, um paquete entrando.

Mais adiante, porém, a linguagem mostra a vertigem da sensação do "eu" em um mundo passado das grandes navegações, representado, sobretudo pela figura dos veleiros:

Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro,
Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira,
De não saber doutra vida marítimaque antiga vida dos mares!
Porque os mares antigos são a Distância Absoluta,
O Puro longe, liberto do peso do Atual...
E, ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor,
Esses mares, maiores, porque se navega mais devagar,
Esses mares, misteriosos, porque se sabia menos deles.

Com uma sintaxe coordenada, o eu-lírico condensa na imagem dos veleiros e barcos de madeira um mundo mais devagar, longe da rotina veloz do atual, cuja condensação se dá na imagem dos navios carvoeiros e dos paquetes. A explosão da sensação do passado no "eu" é sentida mais a frente, onde ocorre uma explosão sígnica, pois o ritmo dos versos aumenta: a pontuação sente a vertigem da emoção, o uso da exclamação é mais constante. Com isso, o "eu" abre as cortinas do passado no seu interior, dialoga com a "Distância Absoluta" e aumenta "giro vivo do volante".

E com um ruído cego de arruaça acentua-se
O giro vivo do volante.

Nesse momento, o "eu" quebra-se na sensação da fúria do mar mitológico do passado, deixa se levar pelo vento inconsciente longe da realidade cruel e individual; mostra-se impaciente diante da vida. Envereda-se para a "Distância Absoluta", para o encontro com o mistério longe do século das definições e mecanizado, no qual não há mais espaço grandioso a ser percorrido; o que sobra é a viagem pelo inconsciente e pela memória.

Ah, seja como for, seja por onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar,
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, p'los ventos, pelos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!

Percebe-se que o ritmo aumenta, os versos sem pontos finais conferem uma maior velocidade rítmica junto à reiteração do verbo "ir" e das preposições, cuja função é abrir o leque de lugares que o "eu" quer ir. Dessa maneira, pode se dizer que o significado da explosão interior acha-se condensado nas figuras sonoras. Encontra-se também, nesses versos, a liberdade sintática que rompe com qualquer tipo de lógica, a parataxe: vestígio da sensação interior do eu-lírico.

A experimentação é outro ponto digno de nota nessa composição de louvor ao mar. Veja isso na materialização da emoção da vida marítima do passado.

H-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!

a última parte o "volante" da sensação pára e volta à atualidade, a imagem do navio a vapor e do cais moderno surge aos olhos singulares do eu-lírico. Ergue-se no eu a melancolia do mundo. Isso se materializa em mais uma figura sonora:

Com um ligeiro estremecimento,
(T-t—t---t-----t...)
O volante dentro de mim pára.

Na Ode Marítima, nota-se ainda um viés trágico de Ser-vos as vítimas, apesar da tentativa de distanciamento, o delírio é complacente:

Ah, não sei que, não sei quanto queria eu ser de vós!
Não era só ser-vos a fêmea, ser-vos as fêmeas, ser-vos as vítimas,
Ser-vos as vítimas – homens, mulheres, crianças, navios - ,
Não era só ser a hora e os barcos e as ondas.,
Para poder encher toda a medida da minha fúria imaginativa.
Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade
Com a calda, e o tudo, e o mais- que tudo das vossas vitórias.

Ler Álvaro de Campos é deliciar-se nas sensações transmutadas nos signos. É observar que a linguagem pode ser rompida com a tradição, que a vê tal qual um todo regular. Esse heterônimo de Fernando Pessoa fez experimentações com as palavras, engendrando um corpo lingüístico dissonante propício às irregularidades do ser, pois o cerne dos procedimentos é materializar o significado dentro dos próprios signos.

Leia o poema:

ODE MARTIMA

Sozinho, no cais deserto, a esta manh de Vero,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, ntido, clssico sua maneira.
Deixa no ar distante atrs de si a orla v do seu fumo.
Vem entrando, e a manh entra com ele, e no rio,
Aqui, acol, acorda a vida martima,
Erguem-se velas, avanam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trs dos navios que esto no porto.
H uma vaga brisa.
Mas a minh'alma est com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est com a Distncia, com a Manh,
Com o sentido martimo desta Hora,
Com a doura dolorosa que sobe em mim como uma nusea,
Como um comear a enjoar, mas no esprito.
Olho de longe o paquete, com uma grande independncia de alma,
E dentro de mim um volante comea a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistrio alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memrias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simblico, terrivelmente
Ameaador de significaes metafsicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Ah, todo o cais uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espao
Entre o cais e o navio,
Vem-me, no sei porqu, uma angstia recente,
Uma nvoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angstias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordao duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se no parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se no deixei, navio ao sol
Oblquo da madrugada,
Uma outra espcie de porto?
Quem sabe se no deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopltica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espao e do Tempo?

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material,
Real, visvel como cais, cais realmente,
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado
Insensivelmente evocado,
Ns os homens construmos
Os nossos cais de pedra atual sobre gua verdadeira,
Que depois de construdos se anunciam de repente
Coisas-Reais, Espritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas,
A certos momentos nossos de sentimento-raiz
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta
E, sem que nada se altere,
Tudo se revela diverso.

Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Naes!
O Grande Cais Anterior, eterno e divino!
De que porto? Em que guas? E porque penso eu isto?
Grandes Cais como os outros cais, mas o nico.
Cheio como eles de silncios rumorosos nas antemanhs,
E desabrochando com as manhs num rudo de guindastes
E chegadas de comboios de mercadorias,
E sob a nuvem negra e ocasional e leve
Do fundo das chamins das fbricas prximas
Que lhe sombreia o cho preto de carvo pequenino que brilha,
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre gua sombria.

Ah, que essencialidade de mistrio e sentido parados
Em divino xtase revelador
s horas cor de silncios e angstias
No ponte entre qualquer cais e O Cais!

Cais negramente refletido nas guas paradas,
Bulcio a bordo dos navios,
alma errante e instvel da gente que anda embarcada,
Da gente simblica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
H sempre qualquer alterao a bordo!

fugas contnuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegaes!
Cascos refletidos devagar nas guas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre guas eternas.
Acordar para dias mais diretos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solido do mar,
Virar cabos longnquos para sbitas vastas paisagens
Por inumerveis encostas atnitas...

Ah, as praias longnquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias prximas, os cais vistos de perto.
O mistrio de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossvel universo
A cada hora martima mais na prpria pele sentido!
O soluo absurdo que as nossas almas derramaram
Sobre as extenses de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longnquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer ntido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhs em que se chega,
E a palidez das manhs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensao parecida com um medo
- O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral Chegada e ao Novo -
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicvel vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa,
Uma perturbao de afeies a que vaga ptria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em ns o pensamento,
E s fica um grande vcuo dentro de ns,
Uma oca saciedade de minutos martimos,
E uma ansiedade vaga que seria tdio ou dor
Se soubesse como s-lo...

A manh de Vero est, ainda assim, um pouco fresca.
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dvida,
E no porque eu o veja mover-se na sua distncia excessiva.

Na minha imaginao ele est j perto e visvel
Em toda a extenso das linhas das suas vigias.
E treme em mim tudo, toda a carne e toda a pele,
Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco
E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado oblquo.
Os navios que entram a barra,
Os navios que saem dos portos,
Os navios que passam ao longe
(Suponho-me vendo-os duma praia deserta) -
Todos estes navios abstratos quase na sua ida,
Todos estes navios assim comovem-me como se fossem outra coisa
E no apenas navios, navios indo e vindo.

E os navios vistos de perto, mesmo que se no v embarcar neles,
Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas,
Vistos dentro, atravs das cmaras, das salas, das despensas,
Olhando de perto os mastros, afilando-se l pr alto,
Roando pelas cordas, descendo as escadas incmodas,
Cheirando a untada mistura metlica e martima de tudo aquilo -
Os navios vistos de perto so outra coisa e a mesma coisa,
Do a mesma saudade e a mesma nsia doutra maneira.

Toda a vida martima! tudo na vida martima!
Insinua-se no meu sangue toda essa seduo fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solides martimas, como certos momentos no Pacfico
Em que no sei por que sugesto aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o fato de que aquele o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de ns!
A extenso mais humana, mais salpicada, do Atlntico!
O indico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrneo, doce, sem mistrio nenhum, clssico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins prximos por esttuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baas, todos os golfos,
Queria apert-los ao peito, senti-los bem e morrer!

E vs, coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,
Chamins de vapores, hlices, gveas, flmulas,
Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, vlvulas;
Ca por mim dentro em monto, em monte,
Como o contedo confuso de uma gaveta despejada no cho!
Sede vs o tesouro da minha avareza febril,
Sede vs os frutos da rvore da minha imaginao,
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligncia,
Vosso seja o lao que me une ao exterior pela esttica,
Fornecei-me metforas imagens, literatura,
Porque em real verdade, a srio, literalmente,
Minhas sensaes so um barco de quilha pro ar,
Minha imaginao uma ancora meio submersa,
Minha nsia um remo partido,
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!

Soa no acaso do rio um apito, s um.
Treme j todo o cho do meu psiquismo.
Acelera-se cada vez mais o volante dentro de mim.

Ah, os paquetes, as viagens, o no-se-saber-o-paradeiro
De Fulano-de-tal, martimo, nosso conhecido!
Ah, a glria de se saber que um homem que andava conosco
Morreu afogado ao p duma ilha do Pacfico!
Ns que andamos com ele vamos falar nisso a todos,
Com um orgulho legtimo, com uma confiana invisvel
Em que tudo isso tenha um sentido mais belo e mais vasto
Que apenas o ter-se perdido o barco onde ele ia
E ele ter ido ao fundo por lhe ter entrado gua pros pulmes!

Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!
Vo rareando - ai de mim! - os navios de vela nos mares!
E eu, que amo a civilizao moderna, eu que beijo com a alma as mquinas,
Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro,
Gostaria de ter outra vez ao p da minha vista s veleiros e barcos de madeira,
De no saber doutra vida martima que a antiga vida dos mares!
Porque os mares antigos so a Distncia Absoluta,
O Puro Longe, liberto do peso do Atual...
E ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor,
Esses mares, maiores, porque se navegava mais devagar.
Esses mares, misteriosos, porque se sabia menos deles.

Todo o vapor ao longe um barco de vela perto.
Todo o navio distante visto agora um navio no passado visto prximo.
Todos os marinheiros invisveis a bordo dos navios no horizonte
So os marinheiros visveis do tempo dos velhos navios,
Da poca lenta e veleira das navegaes perigosas,
Da poca de madeira e lona das viagens que duravam meses.

Toma-me pouco a pouco o delrio das coisas martimas,
Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera,
O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos,
E comeo a sonhar, comeo a envolver-me do sonho das guas,
Comeam a pegar bem as correias-de-transmisso na minh'alma
E a acelerao do volante sacode-me nitidamente.

Chamam por mim as guas,
Chamam por mim os mares,
Chamam por mim, levantando uma voz corprea, os longes,
As pocas martimas todas sentidas no passado, a chamar.

Tu, marinheiro ingls, Jim Barns meu amigo, foste tu
Que me ensinaste esse grito antiqussimo, ingls,
Que to venenosamente resume
Para as almas complexas como a minha
O chamamento confuso das guas,
A voz indita e implcita de todas as coisas do mar,
Dos naufrgios, das viagens longnquas, das travessias perigosas.
Esse teu grito ingls, tornado universal no meu sangue,
Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz,
Esse grito tremendo que parece soar
De dentro duma caverna cuja abbada o cu
E parece narrar todas as sinistras coisas
Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite...
(Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas,
E dizias assim, pondo uma mo de cada lado da boca,
Fazendo porta-voz das grandes mos curtidas e escuras:

Ah---------- - yyy...
Schooner ah------------o -yyy...)

Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer coisa.
Estremece o vento. Sobe a manh. O calor abre.
Sinto corarem-me as faces.
Meus olhos conscientes dilatam-se.
O xtase em mim levanta-se, cresce, avana,
E com um rudo cego de arruaa acentua-se
O giro vivo do volante.

clamoroso chamamento
A cujo calor, a cuja fria fervem em mim
Numa unidade explosiva todas as minhas nsias,
Meus prprios tdios tornados dinmicos, todos!...
Apelo lanado ao meu sangue
Dum amor passado, no sei onde, que volve
E ainda tem fora para me atrair e puxar,

Que ainda tem fora para me fazer odiar esta vida
Que passo entre a impenetrabilidade fsica e psquica
Da gente real com que vivo!

Ah seja como for, seja por onde for, partir!
Largar por a fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar.
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distncia Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!

Todo o meu sangue raiva por asas!
Todo o meu corpo atira-se pra frente!
Galgo pla minha imaginao fora em torrentes!
Atropelo-me, rujo, precipito-me
Estoiram em espuma as minhas nsias
E a minha carne uma onda dando de encontro a rochedos!

Pensando nisto - raiva! pensando nisto - fria!
Pensando nesta estreiteza da minha vida cheia de nsias,
Subitamente, tremulamente extraorbitadamente,
Com uma oscilao viciosa, vasta, violenta,
Do volante vivo da minha imaginao.
Rompe, por mim, assobiando, silvando, vertiginando,
O cio sombrio e sdico da estrdula vida martima.

Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capites de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co'a Morte por travesseiro!
Homens que tm tombadilhos, que tm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fagueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos pores!
Homens que enrolam cabos no convs!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das mquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de bon de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de ncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Homens que vistes a Patagnia!
Homens que passasses pela Austrlia!
Que enchesses o vosso olhar de costas que nunca verei!
Que fostes a terra em terras onde nunca descerei!
Que comprastes artigos toscos em colnias proa de sertes!
E fizestes tudo isso como se no fosse nada,
Como se isso fosse natural,
Como se a vida fosse isso,
Como nem sequer cumprindo um destino!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Homens do mar atual! homens do mar passado!
Comissrios de bordo! escravos das gals! combatentes de Lepanto!
Piratas do tempo de Roma! Navegadores da Grcia!
Fencios! Cartagineses! Portugueses atirados de Sagres
Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Impossvel!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Homens que erguestes padres, que destes nomes a cabos!
Homens que negociastes pela primeira vez com pretos!
Que primeiro vendesses escravos de novas terras!
Que destes o primeiro espasmo europeu s negras atnitas
Que trouxesses ouro, mianga, madeiras cheirosas, setas,
De encostas explodindo em verde vegetao!
Homens que saqueasses tranqilas povoaes africanas
Que fizestes fugir com o rudo de canhes essas raas
Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes
Os prmios de Novidade de quem, de cabea baixa
Arremete contra o mistrio de novos mares! Eh-eh-eh eh-eh!
A vs todos num, a vs todos em vs todos como um,
A vs todos misturados, entrecruzados.
A vs todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados,
Eu vos sado, eu vos sado, eu vos sado!
Eh-eh-eh-eh eh! Eh eh-eh-eh eh! Eh-eh-eh eh-eh-eh eh!
Eh lah-lah laHO-lah----!

Quero ir convosco, quero ir convosco,
Ao mesmo tempo com vs todos
Pra toda a parte pr'onde fostes!
Quero encontrar vossos perigos frente a frente,
Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossa
Cuspir dos lbios o sal dos mares que beijaram os vossos
Ter braos na vossa faina, partilhar das vossas tormentas
Chegar como vs, enfim, a extraordinrios portos!
Fugir convosco civilizao!
Perder convosco a noo da moral!
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade!
Beber convosco em mares do Sul
Novas selvajarias, novas balbrdias da alma,
Novos fogos centrais no meu vulcnico esprito!
Ir convosco, despir de mim - ah! pe-te daqui pra fora! -
O meu traje de civilizado, a minha brandura de aes,
Meu medo inato das cadeias,
Minha pacfica vida,
A minha vida sentada, esttica, regrada e revista!

No mar, no mar, no mar, no mar,
Eh! pr no mar, ao vento, s vagas,
A minha vida!
Salgar de espuma arremessada pelos ventos
Meu paladar das grandes viagens.
Fustigar de gua chicoteante as carnes da minha aventura,
Repassar de frios ocenicos os ossos da minha existncia,
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sis,
Meu ser ciclnico e atlntico,
Meus nervos postos como enxrcias,
Lira nas mos dos ventos!

Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navegaes
E as minhas espduas gozaro a minha cruz!
Atai-me s viagens como a postes
E a sensao dos postes entrar pela minha espinha
E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo!
Fazei o que quiserdes de mim, logo que seja nos mares,
Sobre conveses, ao som de vagas,
Que me rasgueis, mateis, fira-os!
O que quero levar pra Morte
Uma alma a transbordar de Mar,
bria a cair das coisas martimas,
Tanto dos marujos como das ncoras, dos cabos,
Tanto das costas longnquas como do rudo dos ventos,
Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufrgios
Como dos tranqilos comrcios,
Tanto dos mastros como das vagas,
Levar pra Morte com dor, voluptuosamente,
Um copo cheio de sanguessugas, a sugar, a sugar,
De estranhas verdes absurdas sanguessugas martimas!

Faam enxrcias das minhas veias!
Amarras dos meus msculos!
Atranquem-me a pele, preguem-na s quilhas.
E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir!
Faam do meu corao uma flmula de almirante
Na hora de guerra aos velhos navios!
Calquem aos ps nos conveses meus olhos arrancados!
Quebrem-me os ossos de encontro s amuradas!
Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me!
A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes
Derramem meu sangue sobre as guas arremessadas
Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado,
Nas vascas bravas das tormentas!

Ter a audcia ao vento dos panos das velas!
Ser, como as gveas altas, o assobio dos ventos!
A velha guitarra do Fado dos mares cheios de perigos,
Cano para os navegadores ouvirem e no repetirem!

Os marinheiros que se sublevaram
Enforcaram o capito numa verga.
Desembarcaram um outro numa ilha deserta.
Morooned!
O sol dos trpicos ps a febre da pirataria antiga
Nas minhas veias intensivas.
Os ventos da Patagnia tatuaram a minha imaginao
De imagens trgicas e obscenas.
Fogo, fogo, fogo, dentro de mim!
Sangue! sangue! sangue! sangue!
Explode todo o meu crebro!
Parte-se-me o mundo em vermelho!
Estoiram-me com o som de amarras as veias!
E estala em mim, feroz, voraz,
A cano do Grande Pirata,
A morte berrada do Grande Pirata a cantar
At meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo.
L da r a morrer, e a berrar, a cantar:

             Fifteen men on the Dead Man's Chest.
             Yo-ho ho and a bottle of rum I

E depois a gritar, numa voz j irreal, a estoirar no ar:

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw!
Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw-aw-aw!
Fetch a-a-aft th ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby,

Eia,, que vida essa! essa era a vida, eia!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-lah-lah-laFIO-Iah----!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares
Conveses cheios de sangue, fragmentos de corpos!
Dedos decepados sobre amuradas!
Cabeas de crianas, aqui, acol!
Gente de olhos fora, a gritar, a uivar!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio!
Roo-me por tudo isto como uma gata com cio por um muro!
Rujo como um leo faminto para tudo isto!
Arremeto como um toiro louco sobre tudo isto!
Cravo unhas, parto garras, sangro dos dentes sobre isto!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

De repente estala-me sobre os ouvidos
Como um clarim a meu lado,
O velho grito, mas agora irado, metlico,
Chamando a presa que se avista,
A escuna que vai ser tomada:

Ah---------- - yyyy..
Schooner ah------------ - yyyy...

O mundo inteiro no existe para mim! Ardo vermelho!
Rujo na fria da abordagem!
Pirata-mr! Csar-Pirata!
Pilho, mato, esfacelo, rasgo!
S sinto o mar, a presa, o saque!
S sinto em mim bater, baterem-me
As veias das minhas fontes!
Escorre sangue quente a minha sensao dos meus olhos!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

Ah piratas, piratas, piratas!
Piratas, amai-me e odiai-me!
Misturai-me convosco, piratas!

Vossa fria, vossa crueldade corno falam ao sangue
Dum corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive!

Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos,
Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas
Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatro nos conveses,
Trincasse velas, remos, cordame e poleame,
Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes!

E h uma sinfonia de sensaes incompatveis e anlogas,
H uma orquestraro no meu sangue de balbrdias de crimes,
De estrpitos espasmados de orgias de sangue nos mares,
Furlbundamente, como um vendaval de calor pelo esprito,
Nuvem de poeira quente anuviando a minha lucidez
E fazendo-me ver e sonhar isto tudo s com a pele e as veias!

Os piratas, a pirataria, os barcos, a hora,
Aquela hora martima em que as presas so assaltadas,
E o terror dos apresados foge pra loucura - essa hora,
No seu total de crimes, terror, barcos, gente, mar, cu, nuvens,
Brisa, latitude, longitude, vozearia,
Queria eu que fosse em seu Todo meu corpo em seu Todo, sofrendo,
Que fosse meu corpo e meu sangue, compusesse meu ser em vermelho,
Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma!

Ah, ser tudo nos crimes! ser todos os elementos componentes
Dos assaltos aos barcos e das chacinas e das violaes!
Ser quanto foi no lugar dos saques!
Ser quanto viveu ou jazeu no local das tragdias de sangue!
Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge,
E a vtima-sntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo!
Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres
Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!
Ser no meu ser subjugado a fmea que tem de ser deles
E sentir tudo isso - todas estas coisas duma s vez - pela espinha!

meus peludos e rudes heris da aventura e do crime!
Minhas martimas feras, maridos da minha imaginao!
Amantes casuais da obliqidade das minhas sensaes!
Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos,
A vs, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos!
Porque ela teria convosco, mas s em esprito, raivado
Sobre os cadveres nus das vtimas que fazeis no mar!
Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia ocenica
Seu esprito de bruxa danaria invisvel em volta dos gestos
Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas mos estranguladores!
E ela em terra, esperando-vos, quando visseis, se acaso visseis,
Iria beber nos rugidos do vosso amor todo o vasto,
Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vitrias,
E atravs dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo!

A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo!
Agora, no auge conciso de sonhar o que vs fazeis,
Perco-me todo de mim, j no vos perteno, sou vs,
A minha feminilidade que vos acompanha ser as vossas almas!
Estar por dentro de toda a vossa ferocidade, quando a praticveis!
Sugar por dentro a vossa conscincia das vossas sensaes
Quando tingeis de sangue os mares altos,
Quando de vez em quando atirveis aos tubares
Os corpos vivos ainda dos feridos, a carne rosada das crianas
E levveis as mes s amuradas para verem o que lhes acontecia!

Estar convosco na carnagem, na pilhagem!
Estar orquestrado convosco na sinfonia dos saques!
Ah, no sei qu, no sei quanto queria eu ser de vs!
No era s ser-vos a fmea, ser-vos as fmeas, ser-vos as vtimas,
Ser-vos as vtimas - homens, mulheres, crianas, navios -,
No era s ser a hora e os barcos e as ondas,
No era s ser vossas almas, vossos corpos, vossa fria, vossa posse,
No era s ser concretamente vosso ato abstrato de orgia,
No era s isto que eu queria ser - era mais que isto o Deus-isto!
Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contrrio,
Um Deus monstruoso e satnico, um Deus dum pantesmo de sangue,
Para poder encher toda a medida da minha fria imaginativa,
Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade
Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vitrias!

Ah, torturai-me para me curardes!
Minha carne - fazei dela o ar que os vossos cutelos atravessam
Antes de carem sobre as cabeas e os ombros!
Minhas veias sejam os fatos que as facas trespassam!
Minha imaginao o corpo das mulheres que violais!
Minha inteligncia o convs onde estais de p matando!
Minha vida toda, no seu conjunto nervoso, histrico, absurdo,
O grande organismo de que cada ato de pirataria que se cometeu
Fosse uma clula consciente - e todo eu turbilhonasse
Como uma imensa podrido ondeando, e fosse aquilo tudo!

Com tal velocidade desmedida, pavorosa,
A mquina de febre das minhas vises transbordantes
Gira agora que a minha conscincia, volante,
E apenas um nevoento crculo assobiando no ar.

             Fifteen men on tbe Dead Man's Chest.
             Yo-ho-ho and a bottle of rum!

Eh-lah-lah-laHO - lah-- - ...

Ah! a selvajaria desta selvajaria! Merda
Pra toda a vida como a nossa, que no nada disto!
Eu pr'qui engenheiro, pratico fora, sensvel a tudo,
Pr'qui parado, em relao a vs, mesmo quando ando;
Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, dbil;
Esttico, quebrado, dissidente cobarde da vossa Glria,
Da vossa grande dinmica estridente, quente e sangrenta!

Arre! por no poder agir de acordo com o meu delrio!
Arre! por andar sempre agarrado s saias da civilizao!
Por andar com a douceur des moeurs s costas, como um fardo de rendas!
Moos de esquina - todos ns o somos - do humanitarismo moderno!
Estupores de tsicos, de neurastnicos, de linfticos,
Sem coragem para ser gente com violncia e audcia,
Com a alma como uma galinha presa por uma perna!

Ah, os piratas! os piratas!.
A nsia do ilegal unido ao feroz,
A nsia das coisas absolutamente cruis e abominveis,
Que ri como um cio abstrato os nossos corpos franzimos,
Os nossos nervos femininos e delicados,
E pe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!

Obrigai-me a ajoelhar diante de vs!
Humilhai-me e batei-me!
Fazei de mim o vosso escravo e a vossa coisa!
E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone,
meus senhores! meus senhores!

Tomar sempre gloriosamente a parte submissa
Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas!
Desabai sobre mim, como grandes muros pesados,
brbaros do antigo mar!
Rasgai-me e feri-me!
De leste a oeste do meu corpo
Riscai de sangue a minha carne!
Beijai com cutelos de bordo e aoites e raiva
O meu alegre terror carnal de vos pertencer.
A minha nsia masoquista em me dar vossa fria,
Em ser objeto inerte e sentiente da vossa omnvora crueldade,
Dominadores, senhores, imperadores, corcis!
Ah, torturai-me,
Rasgai-me e abri-me!
Desfeito em pedaos conscientes
Entornai-me sobre os conveses,
Espalhal-me nos mares, deixai-me
Nas praias vidas das ilhas!

Cevai sobre mim todo o meu misticismo de vs!
Cinzelai a sangue a minh'alma
Cortai, riscai!
tatuadores da minha imaginao corprea!
Esfoladores amados da minha cama submisso!
Submetei-me como quem mata um co a pontaps!
Fazei de mim o poo para o vosso desprezo de domnio!

Fazei de mim as vossas vtimas todas!
Como Cristo sofreu por todos os homens, quero sofrer
Por todas as vossas vtimas s vossas mos,
s vossas mos calosas, sangrentas e de dedos decepados
Nos assaltos bruscos de amuradas!

Fazei de mim qualquer, cousa como se eu fosse
Arrastado - prazer, o beijada dor! -
Arrastado cauda de cavalos chicoteados por vs...

Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no MA-A-A-AR!
Eh-eh-eh-eh-eh! Eh--.h-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EHEH-EH-EH-EH! No MA-A-A-A-AR!

Yeh eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eheh-eh-eh-eh-eh'
Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos,
Mars, gveas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar!
Eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar!

             FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST.
             YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!

Eh-eh eh-eh -eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eheh-eh! Eh eheh eh-eh-eh-eh!
Eh-lah-lah-laHO-O-O--lah- - !

AH-- - - yyyj...
SCHOONER AH-------o-o-o - yyyy! ...

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw!
DA.RBY M'GRAW-AW AW-AW-AW-AW-AW!
FETCH A-A-AFT THE RU-U-U-U-U-UM, DARBY!

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh!
EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH!
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EFI-EH-EH-EH-EHI
EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!

Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti demais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se-me a alma, ficou s um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante.
Tiram-me um pouco as mos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim h um s vcuo, um deserto, um mar noturno.
E logo que sinto que h um mar noturno dentro de mim,
Sabe dos longes dele, nasce do seu silncio,
Outra vez, outra vez o vasto grito antiqussimo.
De repente, como um relmpago de som, que no faz barulho mas ternura,

Subitamente abrangendo todo o horizonte martimo
mido e sombrio marulho humano noturno,
Voz de sereia longnqua chorando, chamando,
Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos,
E tona dele, como algas, biam meus sonhos desfeitos...

Ah---------- - yy...
Schooner a Ah---------- - yy...

Ah, o orvalho sobre a minha excitao!
O frescor noturno no meu oceano interior!
Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar
Cheia de enorme mistrio humanssimo das ondas noturnas
A lua sobe no horizonte
E a minha infncia feliz acorda, como uma lgrima, em mim.
O meu passado ressurge, como se esse grito martimo
Fosse um aroma, uma voz, o eco duma cano
Que fosse chamar ao meu passado
Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.

Era na velha casa sossegada ao p do rio

(As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar tambm, Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio prximo,
Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo
Se eu agora chegasse s mesmas janelas no chegava s mesmas janelas.
Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto...)

Unia inexplicvel ternura,
Um remorso comovido e lacrimoso,
Por todas aquelas vtimas - principalmente as crianas -
Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo,
Emoo comovida, porque elas foram minhas vtimas;
Terna e suave, porque no o foram realmente;
Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada,
Canta velhas canes na minha pobre alma dolorida.

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?
Que longe estou do que fui h uns momentos!
Histeria das sensaes - ora estas, ora as opostas!
Na loura manh que se ergue, como o meu ouvido s escolhe
As cousas de acordo com esta emoo - o marulho das guas.
O marulho leve das guas do rio de encontro ao cais....
A vela passando perto do outro lado do rio,
Os montes longnquos, dum azul japons,
As casas de Almada,
E o que h de suavidade e de infncia na hora matutina!...

Uma gaivota que passa,
E a minha ternura maior.

Mas todo este tempo no estive a reparar para nada.
Tudo isto foi uma impresso s da pele, com uma carcia
Todo este tempo no tirei os olhos do meu sonho longnquo,
Da minha casa ao p do rio,
Da minha infncia ao p do rio,
Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,
E a paz do luar esparso nas guas!...

Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu...,
Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me
(Se bem que eu fosse j crescido demais para isso)...
Lembro-me e as lgrimas caem sobre o meu corao e lavam-no da vida,
E ergue-me uma leve brisa martima dentro de mim.
As vezes ela cantava a "Nau Catrineta":

             L vai a Nau Catrineta
             Por sobre as guas do mar...

E outras vezes, numa melodia muito saudosa e to medieval,
Era a "Bela Infanta"... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim
E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto!
Como fui ingrato para ela - e afinal que fiz eu da vida?
Era a "Bela Infanta"... Eu fechava os olhos, e ela cantava:

             Estando a Bela Infanta
             No seu Jardim assentada...

Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar
E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz.

             Estando a Bela Infanta
             No seu jardim assentada,
             Seu pente de ouro na mo,
             Seus cabelos penteava

meu passado de infncia, boneco que me partiram!
No poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeio,
E ficar l sempre, sempre criana e sempre contente!

Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha.
Pensar isto faz frio, faz fome duma cousa que se no pode obter.
D-me no sei que remorso absurdo pensar nisto.
Oh turbilho lento de sensaes desencontradas!
Vertigem tnue de confusas coisas na alma!
Frias partidas, ternuras como carrinhos de linha com que as crianas brincam,
Grandes desabamentos de imaginao sobre os olhos dos sentidos,
Lgrimas, lgrimas inteis,
Leves brisas de contradio roando pela face a alma...

Evoco, por um esforo voluntrio, para sair desta emoo,
Evoco, com um esforo desesperado, seco, nulo,
A cano do Grande Pirata, quando estava a morrer:

             Fifteen men on the Dead Man's Chest.
             Yo-ho-ho and a bottle of rum!

Mas a cano uma linha reta mal traada dentro de mim...
Esforo-me e consigo chamar outra vez ante os meus olhos na alma,
Outra vez, mas atravs duma imaginao quase literria,
A fria da pirataria, da chacina, o apetite, quase do paladar, do saque,
Da chacina intil de mulheres e de crianas,
Da tortura ftil, e s para nos distrairmos, dos passageiros pobres
E a sensualidade de escangalhar e partir as coisas mais queridas dos outros,
Mas sonho isto tudo com um medo de qualquer coisa a respirar-me sobre a nuca.

Lembro-me de que seria interessante
Enforcar os filhos vista das mes
(Mas sinto-me sem querer as mes deles),
Enterrar vivas nas ilhas desertas as crianas de quatro anos
Levando os pais em barcos at l para verem
(Mas estremeo, lembrando-me dum filho que no tenho
e est dormindo tranqilo em casa).

Aguilho uma nsia fria dos crimes martimos,
Duma inquisio sem a desculpa da F,
Crimes nem sequer com razo de ser de maldade e de fria,
Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal,
Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo,
Como quem faz pacincias a uma mesa de jantar de provncia com a toalha
Atirada pra o outro lado da mesa depois de jantar,
S pelo suave gosto de cometer crimes abominveis e no os achar grande coisa,
De ver sofrer at ao ponto da loucura e da morte-pela-dor mas nunca deixar chegar l...
Mas a minha imaginao recusa-se a acompanhar-me.
Um calafrio arrepia-me.
E de repente, mais de repente do que da outra vez, de mais longe, de mais fundo,
De repente - oh pavor por todas as minhas veias! -,
Oh frio repentino da porta para o Mistrio
que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar!
Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente
A velha voz do marinheiro ingls Jim Barris com quem eu falava,
Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim,
das pequenas coisas de regao de me e de fita de cabelo de irm,
Mas estupendamente vinda de alm da aparncia das coisas,
A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca,
Vinda de sobre e de dentro da solido noturna dos mares,
Chama por mim, chama por mim, chama por mim...

Vem surdamente, como se fosse suprimida e se ouvisse,
Longinquamente, como se estivesse soando noutro lugar e aqui no se pudesse ouvir,
Como um soluo abafado, uma luz que se apaga, um hlito silencioso.
De nenhum lado do espao, de nenhum local no tempo,
O grito eterno e noturno, o sopro fundo e confuso:

Ah----------- - yyy......
Ah-------------- - yyy......
Schooner ah-------------- - - yy.....

Tremo com frio da alma repassando-me o corpo
E abro de repente os olhos, que no tinha fechado.
Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez!
Eis outra vez o mundo real, to bondoso para os nervos!
Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo.

J no me importa o paquete que entrava. Ainda est longe.
S o que est perto agora me lava a alma.
A minha imaginao higinica, forte, pratica,
Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e teis,
Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros,
Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras.
Abranda o seu giro dentro de mim o volante.

Maravilhosa vida martima moderna,
Toda limpeza, mquinas e sade!
Tudo to bem arranjado, to espontaneamente ajustado,
Todas as peas das mquinas, todos os navios pelos mares,
Todos os elementos da atividade comercial de exportao e importao
To maravilhosamente combinando-se
Que corre tudo como se fosse por leis naturais,
Nenhuma coisa esbarrando com outra!

Nada perdeu a poesia. E agora h a mais as mquinas
Com a sua poesia tambm, e todo o novo gnero de vida
Comercial, mundana, intelectual, sentimental,
Que a era das mquinas veio trazer para as almas.
As viagens agora so to belas como eram dantes
E um navio ser sempre belo, s porque um navio.
Viajar ainda viajar e o longe est sempre onde esteve
Em parte nenhuma, graas a Deus!

Os portos cheios de vapores de muitas espcies!
Pequenos, grandes, de vrias cores, com vrias disposies de vigias,
De to deliciosamente tantas companhias de navegao!
Vapores nos portos, to individuais na separao destacada dos ancoramentos!
To prazenteiro o seu garbo quieto de cousas comerciais que andam no mar,
No velho mar sempre o homrico, Ulisses!

O olhar humanitrio dos faris na distncia da noite,
Ou o sbito farol prximo na noite muito escura
("Que perto da terra que estvamos passando!"
E o som da gua canta-nos ao ouvido)!...

Tudo isto hoje como sempre foi, mas h o comrcio;
E o destino comercial dos grandes vapores
Envaidece-me da minha poca!
A mistura de gente a bordo dos navios de passageiros
D-me o orgulho moderno de viver numa poca onde to fcil
Misturarem-se as raas, transporem-se os espaos, ver com facilidade todas as coisas,
E gozar a vida realizando um grande nmero de sonhos.

Limpos, regulares, modernos como um escritrio com guichets em redes de arame amarelo!
Meus sentimentos agora, naturais e comedidos como , gentlemen,
So prticos, longe de desvairamentos, enchem de ar martimo os pulmes,
Como gente perfeitamente consciente de como higinico respirar o ar do mar.

O dia perfeitamente j de horas de trabalho.
Comea tudo a movimentar-se, a regularizar-se.

Com um grande prazer natural e direto percorro a alma
Todas as operaes comerciais necessrias a um embarque de mercadorias.
A minha poca o carimbo que levam todas as faturas
E sinto que todas as cartas de todos os escritrios
Deviam ser endereadas a mim.

Um conhecimento de bordo tem tanta individualidade,
E uma assinatura de comandante de navio to bela e moderna!
Rigor comercial do princpio e do fim das cartas:
Dear Sirs - Messieurs - Amigos e Srs.,
Yours faithfully - ...nos salutations empresses...
Tudo isto no s humano e limpo, mas tambm belo,
E tem ao fim um destino martimo, um vapor onde embarquem
As mercadorias de que as cartas e as faturas tratam.

Complexidade da vida! As faturas so feitas por gente
Que tem amores, dios, paixes polticas, s vezes crimes -
E so to bem escritas, to alinhadas, to independentes de tudo isso!
H quem olhe para uma fatura e no sinta isto.
Com certeza que tu, Cesrio Verde, o sentias.
Eu at s lgrimas que o sinto humanissimamente.
Venham dizer-me que no h poesia no comrcio, nos escritrios!
Ora, ela entra por todos os poros... Neste ar martimo respiro-a,
Por tudo isto vem a propsito dos vapores, da navegao moderna,
Porque as faturas e as cartas comerciais so o princpio da histria
E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno so o fim.

Ah, e as viagens, as viagens de recreio, e as outras,
As viagens por mar, onde todos somos companheiros dos outros
Duma maneira especial, como se um mistrio martimo
Nos aproximasse as almas e nos tornasse um momento
Patriotas transitrios duma mesma ptria incerta,
Eternamente deslocando-se sobre a imensidade das gua,
Grandes hotis do Infinito, oh transatlnticos meus!
Com o cosmopolitismo perfeito e total de nunca pararem num ponto
E conterem todas as espcies de trajes, de caras, de raas!

As viagens, os viajantes - tantas espcies deles!
Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profisso! tanta gente!
Tanto destino diverso que se pode dar vida,
vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!
Tantas caras curiosas! Todas as caras so curiosas
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente.
A fraternidade afinal no uma idia revolucionria.
uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo,
E passa a achar graa ao que tem que tolerar,
E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!

Ah, tudo isto belo, tudo isto humano e anda ligado
Aos sentimentos humanos, to conviventes e burgueses.
To complicadamente simples, to metafisicamente tristes!
A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano.
Pobre gente! pobre gente toda a gente!

Despeo-me desta hora no corpo deste outro navio
Que vai agora saindo. um tramp-steamer ingls,
Muito sujo, como se fosse um navio francs,
Com um ar simptico de proletrio dos mares,
E sem dvida anunciado ontem na ltima pgina das gazetas.

Enternece-me o pobre vapor, to humilde vai ele e to natural.
Parece ter um certo escrpulo no sei em qu, ser pessoa honesta,
Curnpridora duma qualquer espcie de deveres.
L vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou.
L vai ele tranqilamente, passando por onde as naus estiveram
Outrora, outrora...
Para Cardiff? Para Liverpool? Para Londres? No tem importncia. Ele faz o seu dever. Assim faamos ns o nosso. Bela vida!
Boa viagem! Boa viagem!
Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor
De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,
E restituir-me vida para olhar para ti e te ver passar.
Boa viagem! Boa viagem! A vida isto...

Que aprumo to natural, to inevitavelmente matutino
Na tua sada do porto de Lisboa, hoje!
Tenho-te uma afeio curiosa e grata por isso...
Por isso qu? Sei l o que !... Vai... Passa...
Com um ligeiro estremecimento,
(T-t--t --- r ---- t----- r ...)
O volante dentro de mim pra.

Passa, lento vapor, passa e no fiques...
Passa de mim, passa da minha vista,
Vai-te de dentro do meu corao,
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,
Luzem os telhados dos edifcios do cais,
Todo o lado de c da cidade brilha...
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e ntido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto
Depois ponto vago no horizonte ( minha angstia!),

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    Tsunami significa "onda gigante", em japonês. Os tsunamis são um tipo especial de onda oceânica, gerada por distúrbios sísmicos.
 

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