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Os da minha rua, de Ondjaki


Nesta obra, Os da minha rua, o escritor angolano Ondjaki mostra-se um prosador de grande sensibilidade, capaz de envolver o leitor ao mesmo tempo em que revela traços marcantes de seu espaço social, sem esquecer o diálogo com a já rica tradição literária de seu país.

Esta coletânia de contos foi publicada em 2007 e nela Ondjaki celebra a infância feliz. Oscilando entre a crônica e o diário, os 22 contos curtos de Os da minha rua apresentam o universo aberto da globalização, acontecimentos dos quais Angola também participa como o restante do mundo, o contato com a cultura brasileira pela teledramaturgia ou pela música, bem como pela música norte-americana. A infância é responsável pela visão lúdica das personagens, não importa onde esteja seu presente, se em meio à paz ou ao desamparo da guerra, nos descompassos gerados pela modernidade.

É uma obra que fala das músicas, lugares, cheiros e lembranças do escritor. Neste livro, o autor passeia pela infância, vivida em Luanda nas décadas de 1980 e 1990. Os limites entre biografia e ficção são continuamente desafiados: basta observar o tom intimista a mesclar-se continuamente a uma perspectiva histórica. Dessa forma Ondjaki amplia os horizontes de sua literatura, conduzindo os leitores a cenas de caráter intimista que levam ao registro de uma época em Angola.
Com um discurso muito afeita à oralidade, o narrador lembra amigos, família, festas na casa dos tios, paixões, professores cubanos, a parada de 1º de Maio, a piscina de Coca-Cola e a novela brasileira “Roque Santeiro”.

São contos em que desfilam personagens com lastro na vida real, que, entretanto, ganham outras vidas na cifra da imaginação com que o narrador, sempre em primeira pessoa, busca recordar os velhos tempos, o antigamente. Um maneira muito adequada, pois entra no tom que remarca o conjunto de flashes com que são capturados os daquela rua e adjacências. Essa idéia do antigamente também nos remete às estórias caluandas de outro escritor angolano cuja obra repercute no trabalho do Ondjaki. Refirimo-nos a Luandino Vieira e às infâncias reinventadas, como na obra No antigamente, na vida.

São estórias, que em seu conjunto costuram uma idéia de unidade e dão conta de um espaço e de um tempo. Na rua onde crescem e vivem os seus personagens, temos as marcas da transitoriedade. Os sinais de uma época que antecede o impacto das despedidas inscrevem-se numa escrita ágil que também procura mostrar outros lados da vida. A Luanda que ali se entrevê não é o palco dos combates nem a imagem da devastação que tanto impressiona aos que chegamos de fora. O espaço é tingido com as cores da transição, para o menino que vive as últimas aventuras da infância, para os habitantes que talvez começassem a viver a experiência da perda.

Todo esse universo faria menos sentido se não fosse o empenho na forma de dizer o que pede para ser narrado. E, tal como se dava em Bom dia, camaradas, o autor vai buscar exprimir a memória com as cores de um lirismo que não se espalha nas evidências. Antes procura a contenção e a naturalidade, uma naturalidade que é fruto da elaboração de um escritor preocupado com a estrutura e a linguagem, bases de um exercício literário que investe na maturidade. Sob esse aspecto é preciso atentar para o trabalho com a língua. Não temos um texto povoado pelos virtuosismos com que alguns escritores procuram espelhar a diferença, mas vamos encontrar um texto em que o ritmo da oralidade busca, a um só tempo, exprimir a sintaxe e léxico da língua portuguesa falada em Angola e a registrar os fios da memória que organizam esse universo em que os cheiros da despedida prenunciam a melancolia dos tempos em que o também o país entrou na vida adulta.

Ao adotar em todas estas estórias a perspectiva infantil, sutilmente Ondjaki nos revela os problemas e as contradições de uma Angola pós-independência (a independência oficial data de 1975). A prosa coloquial, marcada por um lirismo que em si mesmo busca reconstituir o universo da infância, nos faz acompanhar tanto as vicissitudes de uma experiência individual quanto os conflitos que configuram a experiência coletiva. Se por um lado o narrador-menino nos fala livremente dos companheiros de brinquedo, da vida escolar com os professores cubanos, da vida familiar; por outro lado, também nos fala dos problemas de abastecimento ligados ao desempenho do regime econômico adotado, da destruição da guerra, da presença de uma indústria cultural, especialmente a brasileira, que marca indelevelmente a experiência. Podemos dizer que a adoção da perspectiva infantil desvela o mundo, afastando-se de qualquer ranço ideológico.

Em Ondjaki, os habitantes mirins, com suas peripécias e aventuras, consagram a infância como tempo de fantasia e travessuras, aproximando as histórias de Os da minha rua a apontamentos e/ou crônicas do cotidiano.

O cruzamento de temporalidades, obtido graças aos processos de memória que combinam a lembrança e o presente da experiência vivida na infância, dá-se de modo diverso em Os da minha rua. Nesta obra o tempo tende a estabilizar-se, e o uso constante dos verbos nas formas do pretérito cria uma narrativa mais linear. A permanência do tempo no passado mantém o universo encantado da infância, pleno de poesia com em “Manga verde e o sal também”:

Uma pessoa quando é criança parece que tem a boca preparada para sabores bem diferentes sem serem muito picantes de arder na língua. São misturas que inventam uma poesia mastigada tipo segredos de fim da tarde. Era assim, antigamente, na casa da minha avó. No tempo da Madalena Kamussekelle (ONDJAKI, 2007: p.79)

(...)

Trouxeram sal nas mãos bonitas em concha com cheiro assim duma praia secreta. O Paulinho tinha um canivete e cortou as mangas aos bocadinhos. Cada um pegava um pedacito de manga verde, misturava com o sal e comia devagar. Entre gargalhadas pequeninas, íamos dividindo o momento e a tarde, os olhares e os arrepios, os sons gulosos e as sujidades das mãos que pingavam esquebras de suco para as formigas beberem. (ONDJAKI, 2007: p.81)

O mundo dos meninos na rua ou nas suas aventuras domésticas é raramente desestabilizado em Os da minha rua, como, por exemplo, quando o narrador, em “Nós chorámos pelo cão tinhoso”, conta a leitura na escola de “Nós matámos o Cão Tinhoso”, do moçambicano Luís Bernardo Honwana, cuja perspectiva narrativa é de uma criança, o que amplia a violência de que trata o romance ao levar os meninos à compreensão da história: “eu estava mais crescido na maneira de ler o texto, porque comecei a pensar que aquele grupo que lhes mandaram matar o cão tinhoso com tiros de pressão de ar era como o grupo que tinha escolhido para ler o texto’(ONDJAKI, 2007: p.133).

Percebe-se que as histórias não possuem um peso existencial. A infância em Ondjaki é irreverente, quase irresponsável. Tem-se a impressão que em Ondjaki não se analisa, se descreve e se narra o mundo, numa memória que guarda a infância pelo olhar da criança. Sua literatura não é reflexiva, é alegria de recordar e brincar com as palavras como se brinca com o mundo da fabulação assegurado pela proximidade entre o diário e a crônica como registros de memória.

O autor-personagem revela as descobertas da adolescência somada às despedidas de tudo o que remete à infância. Fazem parte do universo deste garoto assuntos e imagens tão diversas como o primeiro beijo, a parada de 1º de maio, uma piscina de coca-cola e a novela brasileira Roque Santeiro. "Penso sempre que a infância tem essa vantagem (literária) de já vir cheia de carga emotiva", afirma o escritor.

Em Os da minha rua o autor reedifica os da sua casa: da memória, do afeto, da identidade. Com escrita depurada casada com a oralidade, reconstrói-se o universo da infância e o correr da vida em Luanda: a escola e os professores cubanos, brincadeiras e descobertas, festas em casa dos amigos e dos amigos dos familiares. Atesta-se dessa maneira o convívio social de uma terra que se queria unida.

Se Ondjaki tatua a sua biografia nas 22 pequenas histórias, também homenageia a infância de cada um de nós projetando-nos nesse pedaço longínquo de um tempo que não conhecia os dias: "A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais-velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (…). Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.

Com essas "crianças" constroem-se quadros narrativos belíssimos, emotivos, sinestésicos, mas também críticos sociológica e politicamente: deles emerge Angola com os resquícios da guerra e a psicologia da esperança, uma jovem nação que está aprendendo a viver como as crianças que a contam. Esta estratégia narrativa é uma originalidade literária que Ondjaki desenvolve soberanamente.

Destacaremos aqui o conto “A televisão mais bonita do mundo”, escolha absolutamente arbitrária, que se prende a dois objetivos: ilustrar o que foi dito acima e, com essa ilustração, realizar o mais sincero convite à leitura deste e dos outros contos do livro.

Neste conto, o narrador-menino e personagem principal em todos os contos, acompanha tio Chico à casa do amigo Lima, onde o menino fará uma grande descoberta: Lima acabara de receber uma televisão nova e com imagem colorida. Grande foi o seu espanto, só não tão grande quanto a sua inveja dos filhos do Lima, “que todos os dias iam ver cores naquela televisão a cores”. E encantados acompanhariam a novela brasileira O Bem amado ou a Pantera-cor-de-rosa, e, quem sabe ainda, embalados por Roberto Carlos. São constantes as referências à cultura para as massas nesses contos de Ondjaki; boa parte, oferta brasileira.

No percurso para a casa do Lima, o narrador informa que é preciso cuidado para não pisar nas poças de água nem na dibinga (fezes) dos cães, pois a rua era bem escura. O menino diz para tia Rosa tomar cuidado com as “minas” e, depois, nos informa de que “minas era o código para o cocó quando estava assim na rua pronto a ser pisado”.

Esta linguagem da criança nos faz vislumbrar um contexto em que a guerra tornou-se já um fato do cotidiano, contaminando, inclusive, a linguagem mais corriqueira.

Outro dado interessante é o alto valor conferido à aquisição de um objeto novo em uma casa. Como diz o menino: “Nessa altura, em Luanda, não apareciam muitos brinquedos nem coisas assim novas. Então nós, as crianças, tínhamos sempre o radar ligado para qualquer coisa nova”. Neste trecho, vemos de modo claro, a presença de um tempo histórico feito de limitações no que tange à oferta de produtos industrializados, marcas da opção pela economia planejada e
controlada pelo Estado.

Assim, a exemplo deste, os contos de Os da minha rua revelam traços da sociedade angolana, numa prosa apenas aparentemente inocente. A opção pelo retrato da infância revela, em Ondjaki, o intenso diálogo do autor com a tradição literária de seu país.

Ondjaki, na leveza do poeta falante, apresenta-se nesta obra mais como um exímio contador de histórias, anunciando a poesia do cotidiano pelo flask de uma memória relâmpago que ele assenta em detalhes sobre o papel, consciente daqueles que escreveram antes de si. Ao final, como que saindo do mundo fabuloso, o narrador volta a absorver a realidade do presente:

Deixei os braços pousarem na madeira inchada e húmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá em baixo, na varanda os passos da avó Agnette que ia se sentar na cadeira da varanda a apanhar fresco, senti que despedir-me da minha rua era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua. (ONDJAKI, 2007: p.145)

Créditos: Alexandre Gomes Neves, Mestre em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, Universidade de São Paulo (USP) | Tereza Sá Couto, Editora Língua Geral | Profª. Drª. Vera Maquêa, Professora de Literatura na UNEMAT. Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP. Pesquisadora do CNPq com o projeto “Literatura e Cultura nas relações África-Brasil” | Rita Chaves, professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora associada do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, na Universidade Cândido Mendes (RJ).

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