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Os dous (dois) ou O inglês maquinista, de Martins pena


Os dous ou o inglês maquinista, peça teatral (comédia de um ato) de Martins pena, datada de 1845, e reúne em um espaço único, uma sala da casa de uma família rica, as duas pontas extremas da sociedade brasileira: o senhor e o escravo. Martins Pena não teria escrito esta peça se não existisse então no Brasil o problema dos meias-caras, isto é, dos africanos introduzidos ilegalmente no país pelos barcos dos traficantes, que conseguiam furar o cerco dos navios de guerra ingleses, que policiavam as rotas marítimas do sul do Atlântico. Na peça ele explora a rivalidade existente entre os ingleses e os que se beneficiavam com o trabalho de escravos. O problema era velho vinha de onze anos, quando foi composta a comédia.

Essa comédia adquire uma perspectiva globalizante e crítica que vai além dos simples costumes e dos indivíduos, e atinge a própria forma de organização da sociedade e, inlcusive, o Estado imperial. Adquire uma dimensão política, no sentido de levar o espectador a refletir também sobre as regras do seu mundo social e as formas de suas relações com o Estado.

O inglês Gainer, personagem da obra, logo de saída se revela um refinado finório, buscando conseguir do governo imperial privilégios para a realização de empreendimentos mirabolantes: produzir açúcar a partir de ossos e construir uma máquina de beneficiar bovinos. Procura ainda, ao mesmo tempo, obter da família que o recepciona, a mão de Mariquinha, a brasileira virtuosa, ocultando suas verdadeiras intenções a respeito da jovem. É Felício, o rapaz brasileiro bom caráter e de fato sinceramente apaixonado pela moça, que percebe seu intento de, desposando-a, apossar-se do dote da família.

Os propósitos nada nobres do estrangeiro, e sua pouca consideração pelos brasileiros, são também expressos de modo direto, por ele próprio. Como quando confessa, no seu português estropiado que acaba por acentuar seu alheamento em relação ao universo brasileiro – e que o torna ridículo aos olhos dos espectadores e leitores –, que “Destes tolas eu quero muito”.

O texto opera com base em uma partição simples, maniqueísta: de um lado estão os interesseiros, figurando aqui, junto a Gainer, Negreiros, um traficante de escravos também de olho no dote da menina. Do outro encontra-se Felício, cuja atuação vai no sentido de evitar o êxito dos primeiros. Conseguindo, ao final, o intento perseguido, sua intervenção lhe garante a mão de Mariquinha, que funciona como uma espécie de recompensa a sua fidelidade aos valores puros e castos, embora ingênuos, que organizaria a boa sociedade brasileira. Do ponto de vista do público, cuja cumplicidade é alimentada ao longo de toda a peça, fica desta forma preservado o resguardo das virtudes nacionais, encarnadas pelo jovem herói.

Entre suas 11 personagens, destacam-se, como já citado, Gainer, o comerciante inglês, e Negreiro, um traficante de escravos, ambos rivalizando pela mão da filha de uma rica viúva, este último dá margem a apresentar um painel desse comércio iníquo:

FELÍCIO – Sr. Negreiro, a quem pertence o brigue Veloz Espadarte, aprisionado ontem junto quase à fortaleza de Santa Cruz pelo cruzeiro inglês, por ter a seu bordo trezentos africanos?
NEGREIRO – A um pobre diabo que está quase maluco... Mas é bem feito, para não ser tolo. Quem é que neste tempo manda entrar pela barra um navio com semelhante carregação? Só um pedaço de asno. Há por aí além uma costa tão longa e algumas autoridades tão condescendentes!...

Se olharmos a produção de Martins Pena como um todo, percebe-se que a comédia que marca o ponto de inflexão da obra é Os dous ou O inglês maquinista, que esboça em vários momentos uma comédia de meios tons, refinada, que poderia ser um caminho desenvolvido por Martins Pena, se assim o desejasse. Observe-se a leveza do diálogo na cena 10, que funciona pelo que não diz, e que é absolutamente impensável no teatro da época:

Mariquinha — ... Primo?
Felício — Priminha?
Mariquinha — Aquilo?
Felício — Vai bem.
Cecília — O que é?
Mariquinha — Uma cousa.

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