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Os gestos (Livro de contos), de Osman Lins


A obra Os gestos, de Osman Lins, reúne contos do autor, escritos na década de 50. Em treze contos, o autor nos fala da angústia e da impotência do ser humano. Numa linguagem sóbria e expressiva, quase sem diálogos, desenvolve temas como a perda, o conflito de gerações, a falta de afeto, a passagem do tempo, a passagem da infância para a adolescência, a busca da liberdade.

Esses temas transmitem toda a insatisfação, o inconformismo e a ansiedade da juventude, de um jeito tão vivo, com palavras tão exatas, que sempre atingem e impressionam. A atualidade das histórias e dos conflitos surpreende. Como acontece com a própria juventude, os contos aqui apresentados nos passam um clima
de revolta não-explicada, o sentimento de personagens que desejam o mundo mas ainda não conseguiram sair do quarto. O difícil instante da adolescência.

Neste livro encontra-se o rigor formal característico deste autor - artesão da palavra -, além de entrar em contato com os personagens preferidos de Osman: crianças, velhos, pobres, doentes, mulheres flagradas em ações cotidianas, todos inseridos num ambiente doméstico opressor. Nos contos de Os Gestos, o silêncio representa a impotência das personagens

Nestes contos, o autor apresenta um aspecto inusitado ao formato usual das narrativas: uma abordagem predominantemente lírica da condição humana, observável na forma como expõe os sentimentos, os relacionamentos afetivos, e as limitações e incapacidades do ser humano perante a vida. Para isso, Osman Lins utiliza-se largamente da análise do pensamento das personagens, de seus fluxos de consciência mais íntimos, e da análise de seus pequenos gestos, simples e singelos, mas carregados de significado e sentimento, nunca fugindo do contexto da impotência do ser humano frente às situações da vida, tema que marca toda essa coletânea de contos. Aspectos que usualmente fogem às narrativas, talvez por não possuírem uma suficiente carga dramática, ou seja, ações e diálogos. Em Os gestos, Osman já fugia de temas que podiam o acorrentar ao rótulo regionalista (em Osman, a ação costuma ocorrer de dentro para fora).

Em resumo, são contos extremamente líricos que abordam detalhes da interioridade humana. Detalhes que em geral escapam da percepção comum, mas que foram captadas pela sensibilidade deste autor. Veja a seguir, uma breve explanação de alguns dos contos inseridos nesta obra de Osman Lins.

O conto que dá título à obra, Os gestos, mostra que incomunicabilidade das personagens está presente em muitos textos de Osman. O protagonista deste conto, por exemplo, o velho André, está fisicamente enclausurado, vivenciando a impossibilidade das palavras e a ambigüidade dos gestos incompreendidos. Passa a viver numa cama, cuidado pela mulher e pelas duas filhas, para o ambiente externo, como se voltasse a ser uma criança (“— Papai agora virou menino.” p. 15), mas sua mente está lúcida, ele só encontra-se incapaz de expressar-se verbalmente. E precisa adaptar-se apenas a traduzir tudo que lhe vai pelo mundo interior através “só (d)os gestos, pobres gestos” p.5. Leia uma análise deste conto.

O conto "Reencontro", como aponta o título, trata-se do relato de um reencontro entre uma mulher, Zilda, e seu antigo amigo de infância, cujo nome não é revelado. Zilda vai casar-se. Ambos não se vêem, ela e o amigo, há muitos anos. Neste encontro, relembram, cada um a seu modo e atribuindo valores bem diversos a cada memória, as vivências partilhadas de infância. “O tesouro que eu supunha comum, é unicamente meu – verifico. Apesar de havermos vivido durante muito tempo as mesmas aventuras, cada um recolheu o que elas continham de si próprio. Evocá-las, jamais repetirá o milagre de fazer com que sejam um elo entre nós – se é que mesmo naquele tempo estivemos unidos algum dia.” (p. 31) Transparecem as divergências de sentimento, as expectativas diversas, pois o homem do relato alimentou diferente forma de afeto, não correspondida, nem revelada). É insinuado, também, o momento da ruptura da amizade pueril, no início da adolescência.

No conto "A partida", um neto, na véspera de sua partida do interior para a capital, na casa da avó, por quem foi criado com extremo amor e zelo, ao ponto quase de sufocá-lo de cuidados (“...a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.” p. 49), silenciosamente se despede. Entre o sofrimento de ter que abandonar a avó e o desejo de uma vida melhor na cidade, estão a ansiedade para partir e a saudade antecipada, que deixam um clima tenso e angustiante no ar. São os últimos momentos, os últimos olhares e os últimos gestos que antecederam sua partida. Uma clara motivação autobiográfica pode ser denotada neste conto: Osman, cuja mãe morreu no parto, foi criado pela avó, e deixou-a, na cidade de Buíque, quando partiu para Recife, em busca de uma vida melhor. Este conto virou um curta-metragem, pelas mãos da cineasta pernambucana Sandra Ribeiro. Leia uma análise deste conto.

Em "Cadeira de balanço", a personagem Júlia Mariana está grávida. É uma gestação sob riscos, que requer muitas restrições alimentícias e muito repouso; mas ela precisa cumprir os afazeres domésticos, cuidar do marido, Augusto, que dela já se afasta, talvez, pelo estado alterado do corpo da esposa, inchada, indisposta, com as veias aparentes... Júlia Mariana só se consola quando está na cadeira de balanço do marido, onde pode descansar o corpo pesado e sofrido de uma gravidez complicada. Uma tarde, não consegue cumprir seus afazeres e pensa (todo o conto é o pensamento da personagem) que, quando morrer, Augusto sentirá o valor dela; depois, se arrepende, porque são muitas as mulheres disponíveis e outra ocupará seu lugar. É assim, perdida nos pensamentos e sem concluir suas tarefas domésticas, que o marido a encontra, no “ritual de chegada” (p. 93), quando volta do trabalho, e, sem uma palavra, apenas com o gesto de tocá-la no ombro, faz com que ela saia da cadeira de balanço para que ele sente e leia o jornal.

Em O Vitral, Matilde, a protagonista, de certo modo, cultua as fotografias, como algo que retém um pouco das alegrias sentidas em certos momentos, como um júbilo. Antônio, o marido, já pensa de modo bem diverso. É calado e mais ensimesmado; para ele: “Não é possível guardar a mínima alegria (...). Em coisa alguma. Nenhum vitral retém a claridade.” (p. 152). São já um casal mais velho e sem filhos. Matilde mantém os rituais de comemorações de datas e de registros fotográficos, mesmo após compreender: “Compreendera que tudo aquilo era inapreensível: enganara-se ou subestimara o instante ao julgar que poderia guardá-lo. ‘Que este momento me possua, me ilumine e desapareça – pensava. Eu o vivi. Eu o estou vivendo.’" (p. 152) E o conto se conclui com Matilde sentindo-se trespassada pela luz solar, como acontece com um vitral.

O conto "Elegíada" fala da perda de autonomia. A solidão e a dor “cansada, vasta e desalentada” (p. 164) de um homem que, já velho, fica viúvo. No último momento, com o corpo da esposa morta, ele pensa a saudade, tem a última conversa “em silêncio” com a mulher e relembra que, agora, todos os fatos e gestos vividos terão a mesma dimensão de profunda importância (desde as datas festivas, os eventos como o casamento, o nascimento dos filhos, até os gestos mais triviais). A saudade do silêncio partilhado, a compreensão um do outro pelos gestos, a profunda solidão de ver-se sem a companheira.

Em "Os olhos", há a confissão de um crime, mas não a sua descrição.

Em "Conto enigmático", talvez possa também ter havido um crime.

A obra Os Gestos segue uma linha de tom realista, com cenas vazadas por fortes doses de lirismo que em alguns momentos tende ao expressionismo. Doentes, crianças, um discurso feito em face de um morto, o triste reencontro de dois amigos de infância: são cenas fechadas, que se passam na intimidade dos personagens e registram a impossibilidade do amor e questões ditadas pela morte. A melancolia e o pessimismo são marcas desses contos.

Nessa obra vemos alguns recursos de que Lins vai se valer depois, como experiências com discurso indireto livre e com as combinações possíveis de um enredo.

Em todas as histórias deste livro, imperam o silêncio e a força dos gestos. São personagens em momentos de ruptura, ou em que a aparente banalidade esconde o quanto de profundidade e lirismo há naquelas vidas relatadas.

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