Os Miseráveis, de Victor Hugo

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Os Miserveis, do escritor francs Victor Hugo, foi escrito em 1862 e uma narrao de carter social em que o misticismo, a fantasia e a denncia das injustias formam uma trama complexa, onde descreve vividamente, ao tempo de condenao, a injustia social da Frana do sculo XIX.

Os Miserveis uma obra grandiosa no estilo narrativo e descritivo de Hugo, que esbanja a elegncia, a riqueza e o fausto do barroco. Mas o romntico autor transcende os floreios da linguagem recheando essa estrutura estilstica de um contedo rico e psicologicamente profundo: os movimentos dramticos da alma humana sacudida por um turbilho de anseios, sentimentos e emoes. tambm grandioso pelos personagens intensos e extremados, figuras humanas que como Jean Vayean e o prprio policial Javert, perseverante, obstinado e frio, vivem sob a gide inabalvel de princpios e ideais, a ponto de serem quase que sufocados pelas conseqncias emocionais de seus prprios atos. Os personagens so dotados de uma humanidade que resvala, por vezes para o belo mas tambm para o bizarro. Os cenrios são descritos com riqueza de detalhes que podemos visualiz-los e imaginar que estamos nas cidadelas da Frana do sculo XIX ou vivendo a Batalha de Waterloo.

O romance conta a triste histria de um homem (Jean Valjean), que, por ver os irmos passarem fome, rouba um pedaço de pão e condenado a 5 anos de priso. Devido s tentativas de fuga e mau comportamento na cadeia, acaba sofrendo outras condenaes, pagando 19 anos de recluso. O livro uma denncia contra as injustias do poder judicirio que vem se repetindo em todas as pocas. Para o autor, o mundo o terreno onde se defrontam os mitos, o bem e o mal, a bondade e a crueldade.

Jean Valjean - um homem que vive uma situao de miserabilidade no mesmo perodo em que Napoleo III (Imperador da Frana, de 1852 a 1871) aumentara seus gastos com a poltica externa francesa em busca de glria poltica. A vida miservel leva-o ao crime, mas se reabilita socialmente quando consegue uma ajuda caridosa. Em certo sentido, Jean a prpria mancha social que os projetos urbanos de Haussmann (Prefeito em Sena, de 1853 a 1870) pretendiam jogar para a periferia, mas que insistia em invadir o centro em horrios inoportunos, emergindo literalmente de dentro de si (metfora dos esgotos de Paris).

Na descrio que Victor Hugo faz da vida do personagem Jean Valjean, podemos observar que h o cuidado de evidenciar as circunstncias que o levaram ao crime e, portanto, mais do que uma questo de gosto ou preferncia pessoal por uma vida irregular, tratava-se de uma situao social que deveria ser encarada francamente pela sociedade em geral e pelas autoridades polticas em particular:

Jean Valjean, de humilde origem camponesa, ficara rfo de pai e me ainda pequeno e foi recolhido por uma irm mais velha, casada e com sete filhos. Enviuvando a irm, passou a arrimo da famlia, e assim consumiu a mocidade em trabalhos rudes e mal remunerados (...). Num inverno especialmente rigoroso, perdeu o emprego, e a fome bateu porta da miservel famlia. Desesperado, recorreu ao crime: quebrou a vitrina de uma padaria para roubar um po. (...) Levado aos tribunais por crime de roubo e arrombamento, foi condenado a cinco anos de gals. (...) Mesmo na sua ignorncia, tinha conscincia de que o castigo que lhe fora imposto era duro demais para a natureza de sua falta e que o po que roubara para matar a fome de uma famlia inteira no podia justificar os longos anos de priso a que tinha sido condenado.

Nota: O clssico Os miserveis foi chamado de "um dos maiores best-sellers de todos os tempos". Nas 24 horas seguintes publicao da primeira edio de Paris (1862), as 7 mil cpias foram todas vendidas. O livro foi publicado simultaneamente em Bruxelas, Budapeste, Leipzig (na Alemanha), Madri, Rio de Janeiro, Rotterdam e Varsvia. Depois, a obra foi traduzida para quase todas as lnguas do mundo. No sculo XX, Os miserveis se tornou filme e musical da Broadway.

Enredo

No incio do sculo XIX, na Frana, Jean Valjean rouba um pedao de po para os sobrinhos famintos e injustamente condenado a priso e a marginalidade. Aps cumprir 19 anos de priso com trabalhos forados, Jean Valjean acolhido por um gentil bispo, que lhe d comida e abrigo. Mas havia tanto rancor na sua alma que no meio da noite ele rouba a prataria e agride seu benfeitor, mas quando Valjean preso pela polcia com toda aquela prata ele levado at o bispo, que confirma a histria de lhe ter dado a prataria e ainda pergunta por qual motivo ele esqueceu os castiais, que devem valer pelo menos dois mil francos.

Este gesto extremamente nobre do religioso devolve a f que aquele homem amargurado tinha perdido.

Aps nove anos, com o nome de senhor Madeleine, ele se torna prefeito e principal empresrio em uma pequena cidade, mas sua paz acaba quando Javert, um guarda da priso que segue a lei inflexivelmente, tem praticamente certeza de que o prefeito o ex-prisioneiro que nunca se apresentou para cumprir as exigncias do livramento condicional. A penalidade para esta falta priso perptua, mas ele no consegue provar que o prefeito e Jean Valjean so a mesma pessoa. Neste meio tempo uma das empregadas de Valjean (que tem uma filha que cuidada por terceiros) despedida, se v obrigada a se prostituir e presa. Seu ex-patro descobre o que acontecera, usa sua autoridade para libert-la e a acolhe em sua casa, pois ela est muito doente. Sentindo que ela pode morrer ele promete cuidar da filha, Cosette, mas antes de pegar a criana sente-se obrigado a revelar sua identidade para evitar que um prisioneiro, que acreditavam ser ele, no fosse preso no seu lugar. Deste momento em diante Javert volta a persegui-lo, a me da menina morre mas sua filha resgatada por Valjean, que foge com a menina enquanto perseguido atravs dos anos pelo implacvel Javert.

O tempo passa e a menina Cosette se apaixona profundamente por Marius, um jovem e carismtico revolucionrio.

Em plena revoluo de 1832, a busca incansvel de Jean Valjean pela redeno alcana seu clmax quando ele escolhe sacrificar sua liberdade para salvar o grande amor de Cosette, at que um dia o confronto dos dois inimigos inevitvel, e s ento, atravs da grandeza de seu ato, Jean Valjean se sente verdadeiramente livre da perseguio impiedosa do policial Javert. Valjean teve de lutar muito para mostrar que era um homem de bem e conseguir viver em paz.

Fragmentos do livro

Jean Valjean foi conduzido diante dos tribunais daquele tempo por "roubo e arrombamento durante uma noite numa casa habitada".

Jean Valjean foi declarado culpado. Os termos do cdigo eram categricos. Nossa civilizao tem momentos terrveis: so os momentos em que uma sentena anuncia um naufrgio. Que minuto fnebre este em que a sociedade se afasta e relega ao mais completo abandono um ser que raciocina!

Comeou por julgar a si mesmo. Reconheceu no ser um inocente injustamente punido. Concordou que havia cometido uma ao desesperada e reprovvel, que, talvez, se tivesse pedido, no lhe haveriam de recusar o que roubara, que, em ltimo caso deveria confiar na caridade ou no prprio trabalho, que afinal, no era razo suficiente afirmar-se que no pode esperar quando se tem fome.

Era necessrio, portanto, ter pacincia... porque afinal era absurdo ele, infeliz e mesquinho como era, querer pegar toda uma sociedade pelo pescoo, e ter pensado que pelo roubo que se foge misria, pois impossvel sair-se da misria pela porta que leva infmia. Enfim, ele estava errado.

Depois deve ter perguntado a si mesmo:

Nessa histria toda, o erro era s dele? Era igualmente grave o fato de ele, operrio, no ter trabalho e no ter po. Depois de a falta ter sido cometida e confessada, por acaso o castigo no foi por demais feroz e excessivo? Onde haveria mais abuso: da parte da lei, na pena, ou da parte do culpado, no crime? No haveria excesso de peso em um dos pratos da balana, justamente naquele em que est a expiao? Por que o exagero da pena no apagava completamente o crime, quase que invertendo a situao, substituindo a falta do delinqente pela da Justia, fazendo do culpado a vtima, do devedor credor, pondo definitivamente o direito justamente do lado de quem cometeu o furto?

Pode a sociedade humana ter o direito de sacrificar seus membros, ora por sua incompreensvel imprevidncia, acorrentando indefinidamente um homem entre essa falta e esse excesso, falta de trabalho e excesso de castigo? No era, talvez, exagero a sociedade tratar desse modo precisamente os seus membros mais mal dotados na repartio dos bens de fortuna, e, conseqentemente, os mais dignos de ateno?

prprio das sentenas em que domina a impiedade, isto , a brutalidade, transformar pouco a pouco, por uma espcie de estpida transfigurao, um homem em animal, s vezes at em animal feroz. As sucessivas e obstinadas tentativas de evaso, bastariam para provar o estranho trabalho feito pela lei sobre a alma humana. Jean Valjean renovou as fugas, to inteis e loucas, toda vez que se apresentou ocasio propcia, sem pensar um pouquinho nas conseqncias, nem nas vs experincias j feitas. Escapava impiedosamente, como o lobo que encontra a jaula aberta. O instinto lhe dizia: "Salve-se". A razo lhe teria dito: "Fique"! Mas, diante de tentao to violenta, o raciocnio desaparecia, ficando somente o instinto. Era o animal que agia. Quando era novamente preso, os novos castigos que lhe infligiam s serviam para torn-lo mais sobressaltado.

A histria sempre a mesma. Essas pobres criaturas, carecendo de apoio, de guia, de abrigo, ficam ao lu, quem sabe at, indo cada uma para seu lado, mergulhando na fria bruma que absorve tantos destinos solitrios, mornas trevas onde, na sombria marcha do gnero humano desaparecem sucessivamente tantas cabeas desafortunadas.

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