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Os mortos de sobrecasaca (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade


Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.

Neste poema Drummond enaltece o “soluço de vida” que destila um simples retrato.

O passado configurado no álbum de fotografias dos antepassados. Embora, inicialmente, as pessoas do presente zombem dos mortos, nos últimos versos a ironia dá lugar ao intenso sentimento. Esse poema é uma antecipação da poesia que vai falar da família e da memória. Não há como se desfazer do passado, da memória, mesmo que as fotos se acabem um dia. As lembranças boas e belas que nos acontecem ficam.

O poema "Os mortos de sobrecasaca" estabelece uma tensão entre o estado de fixidez inerente à natureza do objeto fotografado e o movimento sugestivo e peculiar fornecido pela figura do verme que desliza sua concretude formal sobre a imagem química desbotada pelo tempo. O tom de sépia descrito pelo espectador no poema, metáfora recorrente para representar os estragos do tempo no papel "perecível" que registra a "eternidade" do estado de fixidez, sublinha a idéia de que a fotografia, neste caso conseqüência do rito familiar, fornece a possibilidade de realização de experiências óticas. Ou seja, o envelhecimento progressivo do papel de registro (primeira sugestão de movimento através do tempo) se rebela contra o estado já envelhecido e estático dos personagens da fotografia (natural e já registrado / congelado no momento do ato).

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