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Os objetos (conto da obra Antes do baile verde), de Lygia Fagundes Telles


Este conto está inserido na obra Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles.

Em Os Objetos, conto escrito em 1969 e inédito até a publicação de Antes do baile verde, a autora mais uma vez apresenta ao leitor uma cena do cotidiano de um casal em desarmonia, Lorena e Miguel, que tiveram um passado feliz mas que, no “presente” (no momento da ação), enfrentam problemas, principalmente pelo desequilíbrio mental de Miguel. São abordados temas como a solidão, a loucura, o fim do amor.

O conto é estruturado na forma de diálogo entre duas personagens, por meio do qual o leitor vai recebendo as informações e, conseqüentemente, tendo acesso ao conflito que existe entre elas. O narrador heterodiegético emprega a focalização externa para caracterizar as personagens – por meio da descrição de gestos e atitudes comportamentais – mas não são dadas informações a respeito da aparência física das personagens.

Enquanto a mulher confecciona um colar, enfiando contas em um fio de linha preso à agulha, o marido, Miguel, faz perguntas, a respeito de alguns objetos presentes na sala do apartamento em que moram. Por meio de uma analepse, Miguel compara o globo de vidro às bolhas de sabão que fazia quando era criança – “O melhor canudo era o de mamoeiro. Você também não brincava com bolhas? Hein, Lorena?” (p. 3). Este mesmo recurso será novamente empregado em outros pontos da narrativa, com a função de trazer à tona recordações da infância da personagem, como quando ele pergunta à esposa sobre uma história infantil (p. 3), comenta sobre o hábito de comer pasta de dente (p. 5) e sobre a irmãzinha de dois anos que comia terra (p. 5). Os trechos citados ajudam a compor o clima da narrativa, estabelecendo uma analogia com a situação vivida pelas personagens no presente, na qual Lorena trata Miguel como se ele fosse uma criança e Miguel, muitas vezes, assume um comportamento infantil. Assim – como muitas vezes as mães fazem com os filhos – Lorena responde às perguntas de Miguel sem parar a tarefa que está fazendo e sem dedicar-lhe muita atenção. A mulher emprega um tom maternal nas falas que dirige ao marido: “– Cuidado, querido, você vai quebrar os dentes!” (p. 3); “É o que nos distingue desse peso de papel que você vai fazer o favor de deixar em cima da mesa antes que quebre, sim?” (p. 5 – grifos nossos); “Por que você não ficou comportadinho?” (p. 6). Enquanto dirige a Lorena uma série de perguntas – o que também é típico das crianças –, Miguel tenta morder a bola de vidro (p. 3), leva o globo ao ouvido (p. 5), senta-se com o globo nos joelhos e bafeja sobre ele (p. 5) e, em tom infantil, pede um chá “com biscoitos, quero biscoitos” (p. 7). Miguel discorre sobre a utilidade dos objetos – quer saber para que serve um globo de vidro, um anjo dourado, um cinzeiro. Segundo ele, as coisas só têm sentido se cumprem 92 a função a que se destinam. “Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começ ???"?am a viver como nós, muito mais importantes do que nós, porque continuam.” (p. 4). A vida das pessoas é efêmera, a existência dos objetos é muito mais duradoura. Isso é o que pensa Miguel. Entretanto, a atitude da esposa, Lorena, contradiz esse pensamento do marido. “Ela deixou cair na caixa a conta obstruída e escolheu outra” (p. 4) – o movimento da mulher traduz para o leitor a idéia que se um objeto não tem utilidade deve-se colocar outro no lugar, como ela faz com a conta obstruída que não serve para o colar que está fazendo. Os objetos podem ser substituídos. Além disso, as mesmas coisas que são importantes para Miguel são conceituadas por Lorena como “bugigangas” (p. 5). Miguel se sobressalta com a afirmação, afinal, os objetos podem escutar e se sentir ofendidos. O homem dá tanta importância às peças que chega a lhes conferir características humanas – Miguel personifica os objetos. Essa diferença de comportamento das personagens em relação aos objetos também serve para mostrar ao leitor a falta de sintonia entre os dois. São momentos de vida diferentes, sentimentos, atitudes e perspectivas de futuro distintos para ambos – o que eles sentem em relação aos objetos serve como uma metáfora do que sentem um em relação ao outro. O clima da narrativa é ameno até o momento em que Miguel afirma que a esposa não o ama mais. Nesse ponto da história, surge a tensão e o conflito que envolve as personagens começa a ser exposto. Lorena fica “imóvel, olhando” (p. 4) mas, logo a seguir, retoma a confecção do colar, demonstrando um certo cansaço ao responder “– Adianta dizer que não é verdade?” (p. 4).

(...) E apertou os olhos molhados de lágrimas, de costas para ela e inclinado para o abajur. – Veja, Lorena, veja... Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito? (...) (Telles, 1982, p. 4)

O diálogo entre Tomás e Lorena vai se desenvolvendo, enquanto a mulher continua seu trabalho. O leitor fica sabendo, pelas falas das personagens, que o casal teve um passado feliz, que viajaram juntos, quando ainda se amavam, quando Lorena ainda achava graça em Miguel. Os sentimentos dos dois em relação ao passado também é divergente e é representado, na narrativa, por meio dos comentários que fazem em relação à ida ao antiquário – onde foram comprados a bola de vidro, a adaga e o anjo. Enquanto Miguel dá grande importância a esses objetos, Lorena se arrepende de não haver comprado uma bandeja – “(...) acho que nunca mais vou gostar de uma coisa assim...” (p. 4). Entretanto, Lorena sabe que não pode voltar ao passado, não pode voltar atrás para realizar coisas que deixou de fazer. Ela deixou passar a oportunidade e isso, agora, não tem solução. Lorena vive o presente, a realidade. Miguel vive de lembranças do passado, em um mundo de fantasia e recordações – representadas pelos objetos que ele tanto preza. O narrador emprega algumas figuras de linguagem como a antítese – “Ele riu também, mas logo ficou sério” (p. 5) – para demonstrar a alteração de comportamento repentina de Miguel. Também emprega uma metáfora, explicitada desnecessariamente pela fala da personagem:

Voltada para a luz, ela enfiava uma agulha. Umedeceu a ponta da linha, ergueu a agulha na altura dos olhos estrábicos na concentração e fez a primeira tentativa. Falhou. Mordiscou de novo a linha e com um gesto delicado e incisivo foi aproximando a linha da agulha. A ponta endurecida do fio varou a agulha sem obstáculo.
– A cópula.
(Telles, 1982, p. 5)

No trecho escolhido, também pode-se entender como metáfora – desta vez não explícita – o fato de Lorena estar “voltada para a luz” (p. 5). Ela é uma pessoa normal, com os pés na realidade. Lorena “tem salvação” e, por isso, está voltada para a luz; já para Miguel, “não há esperança” (p. 6).

Lorena tem uma atitude paciente com Miguel, mas não lhe dá atenção verdadeira. A mulher está cansada com a situação que está vivendo. Emprega um tom maternal ao dirigir-se a Miguel – parece que a relação mulher/marido transformou-se em uma relação mãe/filho. Lorena cuida de Miguel, como quando se levanta para providenciar o chá com biscoitos que ele quer, mas evita o contato físico com o marido. Assim, quando ele segura a cabeça da esposa entre as mãos, ela desvencilha-se rápida. A mudança de comportamento da esposa não passa despercebida para Miguel e o homem se queixa disso.

O narrador utiliza uma prolepse para esclarecer definitivamente a situação das personagens. Assim, Miguel vê no globo de vidro – transformado em uma bola de cristal, o futuro do casal. Lorena conversa com o pai, que está aflito, segundo Miguel, “porque ele quer que você me interne e você está resistindo, mas tão sem convicção. Você está cansada, Lorena querida, você está quase chorando e diz que estou melhor, que estou melhor...” (p. 6). Miguel sabe que a separação é uma questão de tempo. Ele não está melhor, e sabe disso.

Durante a prolepse, o narrador emprega um tom de humor para aliviar um pouco a tensão da revelação da enfermidade de Miguel e da iminente separação do casal. Isso ocorre quando Miguel relata que entra na sala “de cabeça para baixo” (p. 6), plantando bananeira. Logo a seguir, o narrador apresenta uma fala de Lorena: “– Fico sempre com medo que você desabe e quebre o vaso, os copos. E, depois, cai tudo dos seus bolsos, uma desordem.” (p. 6). O advérbio empregado deixa claro, para surpresa do leitor, que a cena engraçada que Miguel viu na bola de cristal é real, acontece com freqüência no cotidiano das personagens.

Também é possível estabelecer uma analogia entre a situação vivida pelas personagens e a gravura vista por Miguel no antiquário, que “tinha um nome pomposo, Os Funerais do Amor (...) (p. 6-7). A descrição da gravura tem a função de prolepse: “(...) estavam todos tristes, os amantes separados e chorosos atrás do amor morto, (...) Um fauno menino consolava a amante tão pálida, tão dolorida...” (p. 7).

O leitor percebe a tristeza que Miguel sente por haver perdido tantas coisas: o amor da esposa, o tipo de vida que teve no passado, a esperança no futuro, a sanidade mental.

Lorena não quer que os objetos se quebrem – o globo de vidro, o vaso, os copos, mas, Miguel tem consciência de que o mais importante já se quebrou. O amor que havia entre os dois, a possibilidade de um futuro feliz, estão irreparavelmente perdidos. Após um breve momento em que Miguel fica “(...) imóvel, os olhos cerrados, as pálpebras crispadas.” (p. 70), o adjetivo empregado demonstrando a tensão da personagem, ele pede um lanche à mulher, para distraí-la.

Miguel tomou uma decisão. Em um gesto que pode ser interpretado como de despedida, ele tira um lenço de dentro da bolsa de Lorena e aspira-lhe o perfume.

Significativamente, ao entrar no elevador, “evitou o espelho” (p. 8) – talvez por medo, talvez por não querer encarar a verdade. Miguel sai para a rua, carregando a adaga. E a narrativa termina, com um final em aberto, com uma elipse a ser completada por cada leitor.

Fonte: Biblioteca Digital da UNESP

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