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Os pecados da tribo, de José J. Veiga


O romance Os pecados da tribo, de José J. Veiga, foi publicado em 1976 e enquadra-se na categoria "o romance da sátira política surrealista".

Os pecados da tribo cria uma comunidade fantasiosa interpretada correntemente como uma alegoria do regime militar sob o qual foi gerido. O enredo cai na descrição de um regime totalitário e a reação de um homem em busca de sua humanidade, o indivíduo contra a ditadura instaurada.

A construção de uma realidade alegórica atinge maior porporção nesse romance, cuja ação se passa totalmente em comunidades imaginárias. A Tribo, localizada em nosso futuro próximo, é uma espécie de comunidade pós-apocalíptica (embora não haja menção a nenhuma hecatombe, guerra ou desastre), bastante primitiva, onde indícios de nossa civilização fazem-se notar através de relíquias antigas e prédios submersos na densa vegetação.

O narrador de Os pecados da tribo é um rapaz não nomeado, cujo irmão, Rudêncio, é corrompido pelo poder, e conta a história de sua comunidade em forma de um diário (embora não datado). Como não tem acesso aos eventos que se passam no palácio, principalmente com o golpe de estado do Uiua, um animal que fala e demonstra inteligência e liderança, o leitor cúmplice não tem acesso à verdadeira natureza dos eventos que presencia. Deste modo, sem acesso a uma possível causalidade regente do comportamento de toda a cidade, somos postos diante de ações sem nenhum sentido, como no capítulo "Fazemos o que nos mandam", quando o narrador e um grupo de pessoas cavam, sob pressão, e sem nenhuma finalidade, um imenso buraco no chão. É o exercício do poder pelo poder.

A sociedade de Os pecados da tribo vive em um futuro indeterminado de nosso mundo, do que há indícios constantes, como os restos do que fora um aeroporto, para o narrador um "tabuleiro" onde pousavam "naus celestes" nos "tempos antigos". Na Tribo, as escavações revelam objetos dos “antigos”, verdadeiros enigmas a serem decifrados.

Trecho escolhido

Fazemos o que nos mandam

Dizemos que aqui não acontece nada, mas às vezes acontecem coisas incompreensíveis. Como ontem, por exemplo. Ainda não tínhamos acabado de comer a papa da manhã, chegaram uns homens no descampado aí em frente, tocaram o berrante e todo mundo atendeu correndo. Os homens nos puseram em forma na beira da estrada e explicaram o motivo da convocação. Era para abrirmos um buraco circular na dimensão já marcada com umas estacas. Olhando por alto, calculei o diâmetro numas cinco braças.
Procuramos fazer corpo mole, imagine abrir um buraco tão espaçoso assim de uma hora para outra, com o sol já começando a queimar forte. Edualdo Obelardo for o primeiro a falar. Disse que não contassem com ele porque já tinha o dia todo tomado por outro trabalho importante no sítio. Eu aproveitei a deixa e disse que não contassem comigo também, eu tinha ficado de ver o meu irmão num assunto importante que ia me ocupar o dia inteiro.
Um senhor que plantava mangarito num terreno perto do nosso começou a dizer que ele também não ia ter tempo, e antes de explicar o motivo o chefe dos homens do berrante mandou-o calar e disse enérgico:
- Não viemos perguntar se podem ou não. Esse buraco tem que ser aberto hoje. Antes do pôr do sol ele tem que estar furado e desentulhado. É ordem de cima, entenderam? As ferramentas estão naquelas duas carroças. Quando eu der um apito, todo mundo corre para as carroças. Quando eu der dois apitos, quero ver todo mundo cavando.
Não é costume discutir ordens aqui em nosso território, e muito menos agora. Enquanto o novo Umahla não se acostumar no cargo, temos que ter muito cuidado. Pensei em perguntar qual a fundura do buraco, olhei para o chefe e achei melhor não abrir a boca. Os outros devem ter sentido a mesma coisa porque ninguém fez a pergunta.
0 chefe deu um prazo para nos prepararmos, quem estava fumando jogou o cigarro fora, quem estava suando nas mãos tratou de secá-las com um punhado de terra, e quando ouvimos o primeiro apito corremos para as carroças, com certo atropelo porque muitos não sabiam qual carroça escolher e ficaram hesitando entre uma e outra, atrapalhando o trânsito; mas no fim cada um se equipou com uma pá ou uma picareta conforme calhou pegar primeiro, a pressa não deixava escolher. Ao segundo apito já estivamos quebrando o chão com afinco, ninguém queria ser anotado como sabotador ou coisa parecida, se isso acontecesse aí sim, começaríamos a ver estrelas.
Enquanto uns furavam com picaretas e outros retiravam com as pás a terra já solta, os homens do berrante andavam em volta da marcação fiscalizando, criticando, dando palpites, como se entendessem muito do assunto.
Por azar ataquei uma parte onde o chão parecia mais duro, cada golpe de picareta que eu dava encontrava forte resistência, e a força aplicada voltava em forma de vibração que me abalava os músculos e os ossos, e quando a picareta conseguia penetrar ficava presa no chão duro e só saia com muito esforço meu.
Tentei mudar para um lugar mais fofo, um dos homens do berrante percebeu a manobra e me ameaçou com o chicote de birro de boi, que todos eles boleavam para nos amedrontar, aquilo quando pega o lombo de raspão chega a arrancar pedaço, e quando, pega em cheio levanta imediatamente no lugar uma corda da grossura de um dedo grande. 0 jeito era fazer das tripas coração e continuar cavando o meu mau pedaço.
Comparada com o que dizem do tempo antigo, a vida aqui não é ruim, mas tem os seus momentos bem duros principalmente depois que evaporaram o velho Umahla. Antes a gente ainda tinha certas pequenas regalias, quando havia abusos dos de cima uma queixa na Casa do Couro às vezes, dava resultado; agora não há a quem se queixar.
Enquanto a picareta subia, descia, emperrava, subia de novo, pensei no convite de Rudêncio para me alistar na brigada que ele estava formando, e achei que talvez devesse aceitar. Nessa tal brigada de elite pelo menos eu não teria de manejar picareta. Mas manejaria o quê? Não. Enquanto Rudêncio não me dissesse qual seria a função da tal brigada, melhor era ficar de fora. Fugir da caldeira para cair na fogueira não é solução. Aqui pelo menos ainda sou um pouco senhor de mim e sei que não vou fazer coisas que me tirem o sono. Antes o cansaço do que o remorso.
Vendo que o meu setor não estava progredindo, um dos homens se agachou, na beira do buraco para fiscalizar o meu trabalho. Fiz de conta que não estava sendo observado e continuei a luta com o terreno duro. Depois de algum tempo ele me tocou com o chicote dobrado e perguntou por que eu estava atrasado. Expliquei que o terreno ali era muito duro e ainda grudava na picareta, como ele podia ver.
Duro, é? Pois vai ficar mole num instante. Vou fumar um cigarro na sombra daquela árvore. Se quando eu voltar você não tiver igualado com os outros, vai levar umas lambadas disto aqui disse ele, e esfregou o chicote dobrado no meu nariz.
Não encontro explicação para o que aconteceu. Eu não estava fazendo corpo mole, o terreno era duro mesmo; mas quando o homem voltou para verificar o resultado da ameaça a minha parte já estava rente com a dos outros, se é que não estava um pouquinho mais funda. Mesmo assim o homem boleou o chicote e mandou uma lambada que só não me pegou em cheio no ombro porque recuei em tempo, já adivinhando a maldade. Mas a ponta do chicote me acertou o braço esquerdo de raspão, e o lugar ainda está inchado e dolorido. Marquei bem a cara do homem; se eu resolver entrar para a brigada de Rudêncio, vou ajustar essa conta.
Trabalhamos sem descanso até o meio do dia, quando, nos foi servida uma cuia de papa dentro do buraco mesmo, enquanto os homens do berrante comiam frango assado sentados debaixo das árvores. De lá mesmo eles nos mandaram pôr as cuias na beira do buraco e retomar o trabalho. Só quando começou a faltar luz dentro do buraco, que já tinha a fundura de um homem em pé, apitaram o sinal de parar.
Saímos do buraco subindo nas costas uns dos outros, e os que saíram primeiro deram as mãos aos últimos. Um dos homens do berrante deitou na beira do buraco, mediu a fundura com um metro de carpinteiro e gritou para o lado:
- Anote aí. Um metro e oitenta.
Depois eles nos mandaram recolher as ferramentas nas carroças, acomodaram se em cima como puderam e foram embora cantando, uma música marcial. Nós ficamos ali com as mãos inchadas e cheias de bolhas, o corpo doendo, e aquele buraco enorme quase na nossa porta.
Hoje muitos aqui acham que tudo não passou de um divertimento de segundos escalões desocupados, e que se tivéssemos resistido eles teriam ido embora desapontados. Mas quem ia resistir? Mandaram, cavamos.

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