Os ratos, de Dyonélio Machado

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Anlise da obra

Publicado em 1935, Os Ratos, do escritor gacho Dyonlio Machado, tornou-se uma das obras mais influentes da 2 gerao do Modernismo, alm de ter sido homenageada com o prmio Machado de Assis.

Sua narrativa apresentada numa linguagem simples, direta, rpida, com um tal domnio da expectativa do leitor que lembra o trabalho de Camilo Castelo Branco em Amor de Perdio. A preocupao com a boa linguagem no afasta o escritor da realidade urbana. Assim, os dilogos entre as personagens retratam a lngua coloquial, sem preocupao de formalidade. Cada um dos 28 captulos tem sua prpria clula de suspense, que ser resolvida no mximo no seguinte, em que obrigatoriamente surgir outra.

H na obra uma cruel crtica maneira como o dinheiro acabou se tornando a mola propulsora das relaes sociais, comandando a respeitabilidade, a tica, a dignidade e at injusta e facilmente, quando no arbitrria e despoticamente, degradando-as, detonando-as. Em suma, todos esses aspectos fazem de Os Ratos uma das obras mais nobres de nossa literatura.

O ttulo Os Ratos uma referncia ao drama psicolgico de Naziazeno Barbosa, protagonista da histria, depois de ter conseguido o dinheiro para saldar a dvida com o leiteiro. Naziazeno, meio dormindo, tem o seguinte pesadelo: os ratos esto roendo o dinheiro que ele deixara disposio do leiteiro sobre a mesa da cozinha.

Os ratos, ganhando a possibilidade de roerem dinheiro, simbolizam o consumismo da cidade grande, o cncer que aniquila os sonhos dos proletrios, a desvalorizao da solidariedade em funo de padres materiais que elevam o dinheiro condio meta principal a ser alcanada.

O desenrolar do drama do funcionrio pblico endividado e ainda com vergonha de olhar os credores que passam no cotidiano atravessa os captulos e nos traspassa de angstia. O dinheiro do leite, a doena do menino, a fome do protagonista... Enfim, um emprstimo. Percebemos, na vida de Naziazeno, que ter conseguido o dinheiro para quitar a conta do leite apenas o incio de uma nova dvida, a expectativa de mais um dia caminhando em busca de uma soluo.

O livro Os ratos inicia com a advertncia do leiteiro de que cortar o fornecimento de leite caso no receba o pagamento at o dia seguinte. Apenas vinte e quatro horas... Naziazeno sente o desespero da mulher, a vergonha diante dos olhares da vizinhana que presenciam o ultimato.

O leitor invadido pela espiral das angstias do fim do romance. O descanso de Naziazeno no verdadeiro e no convence. Sabemos que amanhecero novas inquietaes e dvidas para o funcionrio, novas cobranas para o chefe de famlia e novos olhares reprovadores.

A mediocridade do papel do protagonista no mundo se contrasta com a forma brilhante como Dyonlio Machado desenvolve a trama e nos envolve no drama do protagonista com diretas reflexes inseridas em nossas rotinas. A reviravolta na narrativa ocorre quando, ao anoitecer, pensamos que o caso est encerrado e percebemos que as vivncias ecoam e retornam em ousadas lembranas dos movimentos do dia sob novos olhares. Sentimos com fora a angstia de ser e de permanecer prximo do protagonista do escrito literrio.

Os Ratos se enquadram, dentro do movimento modernista brasileiro, no chamado Romance de 30: denominao dada a um conjunto de obras de fico produzidas no Brasil a partir de 1928, ano de publicao de A Bagaceira, de Jos Amrico de Almeida.

A obra um romance social por excelncia. O drama urbano da classe mdia baixa encontra prottipo perfeito em Naziazeno Barbosa, o heri fragilizado pela preocupao de cumprir um papel social no caos urbano em que vive.

Tempo

Tempo cronlogico - Em Os Ratos, as aes dos personagens acontecem no tempo cronolgico ou linear, marcado pela passagem das horas, durante um dia de peregrinao de Naziazeno. O passar das horas uma preocupao cruciante para o heri que no pode voltar para casa sem o dinheiro do leiteiro.

Tempo Psicolgico - O tempo psicolgico (interior, aquele que transcorre dentro dos personagens, marcado pela ao da memria, das reflexes) valorizado principalmente nos ltimos captulos do livro.

O romance de Dyonlio provoca logo a sensao, se colocado no seu contexto histrico, de excesso ou at, deslocando a observao, de insuficincia. Digamos que o autor, ao lanar mo tarefa compositiva, dispunha objetivamente de duas formas romanescas dominantes: por um lado, o romance documentrio, em pleno auge na poca de envolvimento intelectual com a realidade do Pas, e pelo outro o romance psicolgico, tributrio da reviso intuicionista da categoria temporal, descentrando o enfoque narrativo de fora para dentro do sujeito. O narrador dominante focaliza do externo os acontecimentos, fornecendo uma impresso de materialidade real, histrica dos fatos: seu discurso seco, objetivo, documentrio. Seu posicionamento o de um cronista das desventuras do modesto funcionrio e, como bom cronista, remete quase obsessivamente para a categoria do tempo, um tempo inexorvel cuja transposio discursiva gera e dilata o sentimento de ansiedade do personagem: O dia continuou... O dia no parou (OR8, p.65): a representao do dia de Naziazeno assim marcada por referncias diretas a inmeros relgios que fornecem indicaes temporais. importante notar sempre o jogo de contrastes: o protagonista no tem relgio (j o empenhou) e a partir dessas indicaes s vezes vagas - outras vezes empricas, como a passagem de um bonde etc. - ele depreende uma sua noo aproximativa de tempo. Desse recorte tambm se delineiam dois mundos a confronto, um dominado pelo tempo externo, convencional dos relgios que se impe definitivamente como emblema tcnico, do moderno e urbano a partir das ltimas dcadas do sculo XIX (e o de que o narrador d conta), outro que o tempo interno variabilidade dos estadospsicolgicos que uma projeo imperfeita (do ponto de vista do artifcio) e humana do primeiro (e o tempo vivencial de Naziazeno).

Cenrio

O cenrio de Os Ratos Porto Alegre.

Foco narrativo

O romance Os Ratos narrado na terceira pessoa (narrador onisciente). O narrador (o prprio autor) relata as aes de todas as personagens, concentrando suas observaes no ntimo do heri, revelando ao leitor as suas angstias interiores e psicolgicas.

Temtica

Luta por dinheiro - O tema principal de Os Ratos a luta desesperada de Naziazeno para conseguir, em um dia, dentro de uma cidade grande e insensvel, dinheiro para saldar uma dvida com o leiteiro. Mistura-se a essa luta a ansiedade, o desespero, a sensao de fragilidade e inutilidade do ser humano que no tem recursos sequer para garantir o sustento digno da famlia.

Lembrana do passado - O passado, principalmente a infncia, mistura-se ao presente de Naziazeno Barbosa. O enredo arquitetado numa superposio de planos: os pensamentos e reminiscncias do heri em confronto com a crueza da realidade citadina. Presente e passado alternam-se na composio da histria.

Drama

O drama principal do romance no se concentra no leiteiro, nem nos ratos ou no dinheiro: concentra-se na dificuldade para conseguir a quantia desejada, respeitando-se o limite de tempo e espao.

Personagens

As personagens criadas por Dyonlio Machado so esfricas, densas. No h preocupao com aspectos exteriores, aflorando o lado ntimo ou psicolgico.

Naziazeno um heri impotente diante de uma situao aparentemente simples: conseguir dinheiro para garantir o bem-estar da famlia (principalmente do filho pequeno). o homem comum rebaixado condio de miservel, exposto humilhao e ao anonimato que caracterizam o viver das aglomeraes urbanas.

Naziazeno Barbosa - Modesto funcionrio pblico, Naziazeno o heri da histria. Fragilizado pela condio de penria material, atormentado pela necessidade de saldar uma dvida com o leiteiro.

Adelaide - Dona de casa, esposa de Naziazeno. Convive, diariamente, com as dificuldades de um oramento familiar minguado, insuficiente para o sustento digno da famlia.

Mainho - Filho de Naziazeno e Adelaide.

Dr. Romeiro - Diretor da repartio pblica onde Naziazeno trabalha. H suspeitas de corrupo sobre ele. Certa vez, emprestou dinheiro a Naziazeno.

Otvio Conti - Advogado.

Dr. Mondina - Falso advogado; bajulado por conta do dinheiro de que dispe. Foi quem desembolsou o dinheiro para o grupo (Naziazeno, Alcides e Duque), permitindo ao heri voltar para casa com a quantia devida ao leiteiro.

Rocco - Agiota para quem Alcides j deve uma grana. Nega-se a fazer novo emprstimo.

Fernandes - Agiota que se nega a emprestar dinheiro (cem mil ris) a Duque.

Assuno - Agiota da Rua Nova. Nega-se a emprestar dinheiro.

Alcides - Amigo de Naziazeno, solidrio com ele na pobreza e nas dificuldades, fazendo tudo para ajud-lo.

Duque - Amigo de Naziazeno e de Alcides. Inspira confiana porque tem sempre uma soluo para os problemas que envolvem dinheiro.

Fraga - Vizinho de Naziazeno. Parece ter uma vida bem arrumada, no precisando passar pelos vexames financeiros por que passa o protagonista.

Costa Miranda - Amigo de Naziazeno; emprestou-lhe, na rua, cinco mil ris para o almoo.

Martinez - Dono da loja de penhores onde o anel de Alcides estava guardado. Mostrou boa vontade e foi, noite, abrir a loja para devolver a jia.

Dupasquier - Dono de uma joalheria. Examina o anel de Alcides e oferece trezentos e cinqenta mil ris. Quando descobre que a proposta de penhor, desiste do negcio.

Enredo

PARTE I

Captulos 1 e 2 - Atravs do dilogo entre Naziazeno Barbosa e sua esposa, Adelaide, o autor mostra a situao da famlia: por falta de pagamento, j suspenderam o fornecimento de manteiga e, agora, o leiteiro ameaa no trazer o leite das crianas. Enquanto a mulher argumenta que possvel viver sem gelo e sem manteiga, mas sem o leite das crianas, no, Naziazeno acha que a situao de considerar o leite como suprfluo.

Aparece o vizinho Fraga. Naziazeno tem a impresso de que ele possui uma vida bem arrumada. O leiteiro, o padeiro, depois de fazerem a distribuio dos seus produtos, ainda conversam um pouco com o Fraga. Ainda no meio do ms, ele j prope pagamento aos dois, como se no tivesse problemas financeiros.

Pensamentos e recordaes de Naziazeno enquanto perfaz o caminho para o trabalho, de bonde. A impresso que lhe causam os companheiros de viagem. A recordao de que a mulher, Adelaide, tem um ar de fragilidade, de fraqueza que mantm acesa a chama da voluptuosidade. Mas, na vida prtica, essa fragilidade atrapalha.

O segundo captulo encerra-se com o pensamento obsessivo de Naziazeno no leiteiro, na frase que o atormenta: "Lhe dou mais um dia".

Captulo 3 - Naziazeno, depois que desce do bonde, bola um plano para arranjar o dinheiro para o leiteiro. Vai pedi-lo emprestado ao diretor. J uma vez fez isso, quando da doena do filho, para pagar os remdios. O diretor emprestou. Mas muitos riram dessa ingenuidade. Ter coragem de emprestar dinheiro para o Naziazeno? S tinha uma explicao: era novato, no conhecia todo o pessoal. Naziazeno pagou o emprstimo, mas ainda faltaram alguns trocados que o diretor perdoou, no fez questo.

Enquanto espera, fica desanimado. Claro que o diretor no vai emprestar-lhe o dinheiro. Que histria vai-lhe contar? A verdadeira, a do leiteiro? Ou outra vez a histria da doena do filho?

Captulo 4 - Naziazeno cria coragem e expe o problema ao diretor. Ele lhe empresta o dinheiro: sessenta mil ris (deve apenas cinqenta e trs ao leiteiro). Volta para casa e entrega o dinheiro mulher, ocultando-lhe o modo como o conseguiu.

Tudo imaginao. O diretor sequer chegou repartio. Naziazeno no consegue trabalhar. Finalmente chegou o diretor. o momento de pedir-lhe o emprstimo.

Captulo 5 - A confiana de obter o emprstimo com o diretor comea a abalar-se. Enquanto o diretor demora-se na secretaria, Naziazeno vai at o centro da cidade. Vai procura do Duque - ele tem sempre uma soluo mgica para os problemas de dinheiro. Chega ao mercado e no encontra o Duque nos lugares habituais. Resolve esperar. Aparece o Alcides.

Captulo 6 - No Caf, ao lado de Alcides, enquanto espera o Duque, Naziazeno vai falando das impresses que tem das pessoas. Cansa-se de esperar o Duque no Caf. Relembra um caso antigo, da infncia, quando estivera doente, quase morte. A me fizera uma promessa: Naziazeno teria que andar um ano vestido de Santo Antnio. Foi um vexame.

Naziazeno desiste de esperar o Duque. Vai para a repartio. O Alcides sugere uma visita aos cafs do centro. Vem-lhe a idia de inutilidade, de falta de aptido para ganhar dinheiro. O Duque consegue cavar, fazer um "biscate", arranjar dinheiro. Ele no. Por qu?

Alcides arma um plano: jogar no bicho. Com que dinheiro? Naziazeno deve voltar repartio e "dar a facada" no diretor. Ele, Alcides, se encarregar do jogo.

Captulo 7 - Enquanto espera o diretor, Naziazeno perde-se em pensamentos e recordaes. Finalmente, o "homem" chega. A esperana ressurge. "O senhor pensa que eu tenho alguma fbrica de dinheiro? Quando o seu filho esteve doente, eu o ajudei como pude. No me pea mais nada. No me encarregue de pagar as suas contas: j tenho as minhas".

O diretor vai embora, os funcionrios debandam. Naziazeno tambm.

Depois de tudo, ficou-lhe aquela frase na cabea: "No lhe pago as dvidas". Como contar tudo aquilo ao Alcides? Este plano fracassou. Como idealizar outro? Tem uma preguia doentia. E o pior que o sol j vai virando para a tarde. Meio dia perdido. Urge pensar numa soluo. Como conseguir sessenta mil ris? Pensa em renunciar. Mas preciso entregar o dinheiro ao leiteiro.

Captulo 8 - Alcides prope que Naziazeno v atrs do Andrade, cobrar-lhe uma dvida. o resto de uma comisso. ali na rua Coronel Carvalho. Naziazeno topa. O calor infernal da tarde mantm o seu corpo suado. medida que se aproxima da casa, vai ficando gelado. Deve ser porque ainda no almoou. Ou seria a expectativa? O nmero da casa do Andrade est prximo. Melhor seria no o encontrar. A rua de gente rica. Claro que o Andrade tem cem mil ris. De repente, o nmero procurado. Mas o final da rua. A casinha em que Andrade mora humilde. A esperana de conseguir dinheiro ali diminui.

Captulo 9 - Naziazeno bate porta de Andrade. Ele abre. Explica tudo: no deve exatamente ao Alcides (que ele conhece como Knrad). H uma comisso, sim, duma transao de um automvel, mas a parte que Andrade lhe devia j pagou. Os outros cem mil ris, Alcides tem que receb-los de Mister Rees. Naziazeno compreende tudo. Despede-se.

Captulo 10 - Naziazeno, enquanto volta a p ao encontro de Alcides, vai pensando. Era mais ou menos uma hora da tarde. Se tivesse conseguido o dinheiro com o Andrade, a primeira providncia teria sido almoar. Agora, encontrar o Alcides e ir atrs do Mister Rees, um alto funcionrio bancrio.

Alcides no se encontra no caf. Naziazeno procura-o noutros cafs ali perto. Nada. Tem, ento, uma idia: o Banco ali perto. Por que no dar um pulinho at l? Com certeza, Alcides vai aprovar essa idia. Ao entrar no banco, fica em dvida. Teria mesmo direito de cobrar Mister Rees? E se fosse "armao" do Andrade?

Um alvio: Mister Rees est para o Rio de Janeiro. Agora, tentar almoar e partir para outro plano. Quem sabe o Duque esteja no Restaurante dos Operrios? O problema conseguir cinco mil ris para o almoo. Como? Talvez no escritrio do Dr. Conti.

Captulo 11 - Naziazeno, depois de tentar falar com o Dr. Otvio Conti (na verdade, nem chegou a encontr-lo), desiste. Voltando, encontra um seu conhecido, o Costa Miranda. Foi a salvao: Costa empresta-lhe cinco mil ris para o almoo.

Captulo 12 - Naziazeno, com os cinco mil ris no bolso, fica indeciso: vai almoar no Restaurante dos Operrios ou em frege do mercado? De repente, uma idia nova perturba-o: e se tentasse a sorte? Por que no? Est com o estmago oco, mas no pode perder essa oportunidade. Ele v o dinheiro multiplicando-se e, em funo disso, imagina a volta feliz para casa. Com este pensamento, dirige-se tabacaria, onde, nos fundos, h um salo de jogos. Entra, v o guich do "bicho" vazio, dirige-se para o salo de onde lhe chega aos ouvidos um rudo fininho de fichas.

Captulo 13 - Naziazeno, nervosamente, tira os cinco mil ris do bolso e deposita a cdula no nmero 28. E o milagre acontece, tudo resolvido assim num segundo: os cinco mil ris transformaram-se em cento e setenta e cinco. Agora, comprar mais fichas, fazer um jogo estudado. Os lances sucedem-se. Naziazeno ora ganha, ora perde. As fichas, pouco a pouco, vo sumindo das suas mos. Tem agora duas fichas. Toma uma resoluo sbita: aposta todas num nico nmero. E perde.

Captulo 14 - Naziazeno sai da tabacaria, ganha a rua, e dirige-se a uma grande casa atacadista. quela hora, o comrcio est fechando as portas. Um homem com cara de preocupao est fechando o armazm. Naziazeno, ento, dirige-lhe a palavra:

- Queria pedir-lhe mais um favor. S a grande necessidade me traz aqui na sua casa, antes de resgatar aquele vale. No tenho a quem recorrer e preciso com urgncia de sessenta mil ris.

- No me possvel.

- Assino-lhe um vale. Venho pagar no fim do ms.

- Impossvel.

Naziazeno insiste. Nada. Os dois seguem pela mesma rua, e Naziazeno vai-lhe falando de dificuldades, contando-lhe coisas, insistindo no emprstimo. O outro entra no bonde e vai embora.

PARTE II

Captulo 15 - Naziazeno caminha pela rua deserta. As casas esto todas fechadas. E assim, fechadas, crescem de importncia e de mistrio. Seu destino o mercado. Enquanto anda, vai observando a rua, as casas, a escassez de automveis, o silncio. E a silhueta do mercado ao longe, para onde se dirige, vai-se aproximando medida que caminha.

Captulo 16 - Naziazeno chega ao mercado. Num dos cafs, o Alcides chama-o. Conversam sobre o que se fez naquele dia. Naziazeno conta-lhe sobre o Andrade e sobre o jogo na tabacaria. O Duque, finalmente, est ali, em outra mesa, conversando com um indivduo velhusco.

Naziazeno fala da fome, do dia inteiro sem comer. Alcides paga-lhe um leite. Exposto o problema de Naziazeno, Duque sugere um emprstimo com um agiota - o mesmo para quem Alcides j deve uma grana. O prprio Alcides encarrega-se de ir atrs do Rocco. No relgio da Prefeitura, j so seis e vinte.

Captulo 17 - Os trs (Naziazeno, Duque e o cidado velhusco (o "doutor" Mondina) sentam-se num caf, espera de Alcides (que foi ao agiota). O Alcides volta. O agiota suspendeu temporariamente os emprstimos.

Duque deixa Alcides e Mondina no caf e sai com o Naziazeno. Seguem em silncio. Assim andando, ao lado do amigo, Naziazeno sente-se mais confiante. Vo casa de seu Fernandes - um agiota.

- Ns precisamos com urgncia de cem mil ris.

- Impossvel.

Duque arrasta o amigo a outro agiota. Eles vo agora rua Nova, ao agiota Assuno. Nova negativa. Retornam ao caf.

A idia abordar o prprio "dr." Mondina, o falso advogado. De incio, Mondina nega-se. Mas surge a idia de tirar um anel de Alcides (anel de bacharel) que est penhorado por um valor muito baixo. Mondina anima-se. Ser que ainda d tempo?

Captulo 18 - Os quatro (Naziazeno, Duque, Alcides e Mondina) vo casa de penhores. Ser que j est fechada?

Estava. E agora? Alcides prope: dar a cautela do penhor ao Mondina. No dia seguinte, ele voltar ali e recuperar o anel. Mas o dinheiro tem que ser dado agora. Mondina parece pressentir o "truque", o "golpe". Alcides tem cara de vigarista. Duque intervm: no pode ser assim. Vamos encontrar outra soluo. Alcides sugere: e se fssemos casa de Martinez, o dono da loja de penhores? Telefonam, e o seu Martinez diz que pode receb-los em sua casa. No percurso para a casa de Martinez, Naziazeno vai pensando. Ser que o homem reconhece Alcides? E o anel? Ser que se lembra do Anel? Chegam finalmente.

Captulo 19 - Martinez, depois de ouvir Alcides sobre a proposta de resgatar o anel penhorado, pergunta pela cautela:

- O senhor trouxe a cautela a?

Alcides anda sempre com os seus papis. Martinez examina o papel e, depois, devolve-o. Depois de algum tempo, talvez consultando a esposa, Martinez diz que sim, que possvel ir loja resgatar o anel.

A caminhada feita em silncio. Naziazeno conscientiza-se de que j noite, embora l em cima, no cu, ainda seja possvel ver uma arzinho do dia.

Chegam. Martinez abre a porta, acende a luz. Convida-os a entrar. Com a cautela na mo, o cofre aberto, faz a procurao. Pronto. Achou o anel. Mondina j havia passado o dinheiro da penhora ao Alcides, que o passa agora ao senhor Martinez. Ele confere. Entrega, finalmente, o anel. Alcides passa-o a Mondina, que se detm a examinar a jia.

Martinez toma o rumo da praa, de volta para casa. Despede-se ali de Alcides, de Mondina, de Duque e de Naziazeno.

Captulo 20 - Depois que Martinez vai embora, o grupo fica parado, sem saber o que fazer. quela hora, tudo est fechado. Duque sugere uma visita ao Dupasquier da joalheria. Por sorte, a vitrina est aberta. Entram. Dupasquier, meio desconfiado, ouve a proposta, analisa detidamente o anel, pergunta quanto Alcides quer por ele.

- Ele no deixa por menos de quinhentos mil ris - sugere Duque.

- No dou nem quatrocentos.

- Quatrocentos e cinqenta - solicita Duque.

- No. No dou mais do que trezentos e cinqenta mil ris.

Aceitaram. Mas quando falaram que era penhor, Dupasquier desistiu. O grupo no sabe o que fazer. Alcides sugere um dos agiotas, Assuno e Zeferino. Duque opina:

- Vamos combinar isso num caf.

A proposta do Duque a seguinte: entregar o anel ao "dr." Mondina como garantia de mais cento e vinte mil ris. Assim, o anel est empenhado por trezentos mil. No dia seguinte, ele e Alcides iro procurar Mondina, empenharo o anel por trezentos mil ris e, ento, devolvero o dinheiro.

Captulo 21 - Naziazeno chega a casa, entra. So nove horas da noite. Adelaide estava preocupada. Todo o dia o marido ficara ausente. Ele mostra os embrulhos. Trouxera-lhe o sapato que estava no conserto. Para surpresa de Adelaide, ele trouxera tambm manteiga, queijo e dois leezinhos de borracha para o filho, Mainho.

Enquanto esquenta a comida, Adelaide pergunta:

- Onde que arranjaste o dinheiro? Conseguiste "tudo"?

Ele diz que sim. Conseguiu por intermdio do Alcides e do Duque. Cinqenta e quatro mil e setecentos. Pe todo o dinheiro em cima da mesa. Est com sono. Separa os cinqenta e trs mil exatos do leiteiro. Guarda o resto no bolso do colete. Est com sono. So nove e meia da noite.

Captulo 22 - Naziazeno imagina a reao do leiteiro ao receber, na manh seguinte, o dinheiro. Vem tona, na conversa com Adelaide, a situao do Dr. Romeiro, diretor da repartio em que Naziazeno trabalha.

Ouve-se um baque l fora. Eles levantam a cabea, atentos. o portozinho. Naziazeno vai fech-lo. Quando volta, reclama do frio.

- Por que tu no vais deitar?

- No quero dormir com o estmago muito cheio.

Surge a preocupao de levantar cedo no outro dia para entregar, em mos, o dinheiro ao leiteiro.

- Porque no botava em cima da mesa da cozinha, junto com a panela do leite?

Naziazeno aprova a idia. E fica pensando na surpresa do leiteiro ao encontrar o dinheiro.

Captulo 23 - Adelaide acabara de pr a panela do leite na ponta da mesa. Ao lado da panela, Naziazeno pusera o dinheiro para o leiteiro. Est preocupado. Deveria por algum peso sobre as notas?

- Tu achas necessrio? No h vento aqui dentro.

- No, no preciso.

Naziazeno no consegue abandonar a cozinha.

interessante: passou-lhe o sono agora. capaz de ler um pouco... Mas muda de idia: no lhe apetece agora nenhuma leitura... de nenhuma daquelas coisas que poderia ler...

Naziazeno acabou indo deitar-se. A mulher dorme, mas ele fica a recordar a "maratona" por que teve de passar para conseguir o dinheiro. Est acordado. Entretanto queria dormir. "Tem necessidade de um sono longo, longo...

Fica a ouvir os barulhos da noite: o vento... o bonde passando... o bonde voltando... de novo o vento... Precisa dormir, descansar a cabea.

Sero onze horas? Meia-noite?

Uma pancada, longe, sonora, indica uma hora.

J lhe parece um sculo aquela noite e apenas uma hora!...

Precisa dormir, precisa descansar. Tem de aproveitar esse resto de noite. estranho: um cansao to grande, e no conseguir conciliar o sono...

Captulo 24 - A falta de sono perturba Naziazeno. A esposa dorme quieta. O filho, Mainho, tambm. O pensamento fica divagando por vrias coisas: a repartio, o seu trabalho, a luz que no o deixa dormir, o mdico de Mainho, o "dr." Mondina. Pensa em Alcides, no anel que o "desapertou". "Uma providncia, aquele anel". Vem-lhe, na insnia, uma superposio vaga de figuras: o Assuno... Fernandes... Martinez... Duque... Duque arrasta-o de uma lado para outro. Tem um sobressalto: um estalo para o lado da frente. O filho chega tambm a assustar-se. Adelaide, meio dormindo, nana-o.

"Naziazeno no quis deixar ver que estava acordado".

Captulo 25 - A insnia continua. Naziazeno pe-se a pensar em tudo: a chegada a casa... o jantar tranqilo, como ele sonhara... o dinheiro ali na mesa, acariciado pelo seu olhar... a idia de deix-lo ali, sobre a mesa, evitando o confronto direto com o leiteiro. Se houvesse o confronto, viria inimizade. Assim, continuariam amigos.

E o sono? "Ainda no dormiu! S ele! S ele sem dormir..."

Procura no pensar em nada, manter os olhos fechados, buscar tranqilidade.

Captulo 26 - A insnia persegue Naziazeno. Por estar embrulhado, o calor aumenta. "Sente que vai ficando esperto outra vez".

Pensa no bonde. A recordao passeia por cenas e pessoas relacionadas maratona do dia: Duque, Alcides, Mondina, o jornal... os "finalmente" da transao com o Mondina. Alcides est amuado. Hesita em passar o anel para o Duque. Finalmente Mondina tira o dinheiro do bolso. Precisa troc-lo em notas menores, primeiro no caf, depois no Bolo. Pronto: transao encerrada. Duque passa-lhe o dinheiro: sessenta e cinco mil ris.

Naziazeno toma o bonde para casa. Tem de passar no sapateiro para pegar o sapato de Adelaide. Pega. A chegada, enfim, a casa. Adelaide vem at ele.

Captulo 27 - "Outra vez um silncio sbito". Naziazeno fica em dvida: teria dormido? Passou toda a noite acordado? O ar tem um chiado... Fica muito tempo a ouvir esse chiado sonoro, metlico, fininho.

Agora, distingue nitidamente dois barulhos: o da respirao do filho e aquele chiado l fora.

De repente, um barulho no forro... Ratos... So ratos. Fica esperando o barulho dos ratos na cozinha. O barulho aumentou: em vrios pontos, no forro, o rufar... A casa est cheia de ratos!

"O chiado desapareceu. Agora, um silncio e os ratos..."

H um roer ali perto. O que estaro comendo? isto! "Os ratos vo roer - j roeram! - todo o dinheiro!..."

Tem um grande desespero. preciso levantar-se. Mas o barulho cessou. H s o silncio. Ser que ratos roem dinheiro? melhor perguntar mulher. Absurdo. Claro que ratos no roem dinheiro! "V os ninhos, os papis picados, miudinhos, picadinhos... uma poeira".

"Vai levantar". Mas onde achar foras? "Est com sono. Mas preciso reagir". Parece ouvir a voz da mulher: "Eles roem papel. Dinheiro um papel engraxado..."

O barulho sumiu. Cessou tambm o roer. Decerto os ratos j foram embora. Est amanhecendo.

Captulo 28 - Ao redor de Naziazeno, as coisas vo ficando mais apagadas. "Depois duma trgua, os ratos voltaram a roer". Com certeza esto roendo a madeira. Seria mesmo madeira? "Talvez depois de consumido o dinheiro, eles passem a roer, a roer a tbua da mesa..."

Agora os rudos confundem-se. "Est exausto". Precisa dormir, entregar-se.

"No sabe que horas so".

"Mas que isso?!... Um baque?"

"Um baque brusco do porto. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com fora, arrastando. Mas um breve silncio, como que uma suspenso... Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaado cortar-lhe o leite...) que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro forte, certamente vem de muito alto...) - Fecham furtivamente a porta... Escapam passos leves pelo ptio... Nem se ouve o porto bater...

E ele dorme."

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