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Os rios turvos, de Luzilá Gonçalves


Em Os rios turvos, Luzilá Gonçalves conta a vida de Bento Teixeira, cristão-novo, autor de Prosopopéia, poema que marcou o início do Barroco na literatura nacional, e de sua mulher. Um caso que terminou em tragédia.

O romance é uma biografia que se mistura à ficção. Narrado em terceira pessoa, lembra a função documental que teve a arte.

O tema da obra é a trajetória amorosa do português Bento Teixeira com a brasileira natural do Espírito Santo, Filipa Raposa, a grande paixão de sua vida e a responsável por seu destino trágico: a própria mulher o denunciou ao Tribunal do Santo Ofício acusando-o de judeu e mau cristão e ainda instigou outras pessoas a fazê-lo. Traiu o marido por várias vezes, obrigando-o a morar em lugares diferentes de Paranambuco (Pernambuco) do início da colonização.

Na obra Os Rios Turvos os intertextos enfatizam, como já citado, sobretudo a temática do amor: Ovídio aparece tantas vezes como epígrafes dos capítulos, o Ovídio degustado por Bento e Filipa em seus serões; Camões de Sôbolos Rios, o Camões dos breves enganos: “Do amor não vi senão breves enganos”; o intertexto bíblico, na história dos judeus, na comparação de Bento a Jonas "a caminho de Nínive, o grande mar", nas citações latinas; nos poemas encomiásticos (escritos por Bento) onde confessava o mistério de um Pai, um Filho e um Espírito Santo, e por fim, na Prosopopéia, aquele longo poema que escreveu em Paranambuco, e os versos à maneira de Camões que lhe vinham sempre à mente:

Cantem, poetas, o Poder Romano
Submetendo Nações ao jogo duro...
(p. 209)

Filipa Raposa, cristã-velha e Bento Teixeira, cristão-novo, dois seres tão diferentes, unidos pelas águas dos "rios turvos" do amor, um amor que nem eles conseguiram perceber na sua inteireza ou até mesmo nas suas contradições.

Destaca-se ainda nas brigas de Filipa com o marido (quando ela ao ler os textos dele percebia versos inteiros de outros poetas) uma preocupação com o fazer literário, os caminhos complicados da criação poética percebidos pelos protagonistas. Bento chegou a discutir sobre a habilidade de Gil Vicente para compor os versos de Auto da Alma:

Alma humana, formada / de nenhuma cousa feita. (p. 23)
“Eu e tu, Filipa para dizermos estas cousas, utilizamos todas estas frases (...) Gil Vicente o diz em sete vocábulos. (p. 23)

Um relato dramático para falar da vida, do amor, do desejo, da inveja, das contradições, do poder da igreja, da morte, enfim, coisas da vida de um cristão-novo do século XVI, no Brasil, e sua mulher uma cristã-velha. Uma recriação que não esconde o aspecto social do primeiro século da formação do nosso país.

Resumo

O apetite sexual da esposa de Bento Teixeira era sabido de todos. Desde adolescente tinha uma malícia natural: seduzia, com seus olhos belos e verdes, até os padres nos confessionários. Bento via-se obrigado a constantes mudanças: Olinda, Igarassu, nas terras de João Paes no Cabo, freguesia de Santo Antônio. Neste último lugar, havia pouquíssimos homens, mas Filipa conseguiu trair o marido com o frei Duarte Pereira, vigário da freguesia de Santo Agostinho e único homem do lugar.

Ao chegar ao engenho de João Paes no Cabo, pensou que ia controlar a mulher, mas esta era mais esperta e havia dormido com o padre Duarte muitas vezes (mesmo já mãe de dois filhos) sem que o marido desconfiasse.

Uma das situações mais humilhantes para Bento foi quando a esposa o traiu com um mulato, crime repugnante na época.

Bento Teixeira era filho de pais humildes e cristãos-novos. Seria, portanto, um dos filhos desgarrados de David, cuja família abandonou Portugal por conta da perseguição a judeus. Apesar da pobreza dos pais, Bento ao chegar ao Brasil, na Vila de Salvador na Bahia, foi ajudado pelo bispo Dom Antônio Barreiras que lhe ensinou latim e o iniciou nas artes. Leu os gregos tais como Ovídio, Aristóteles. Conseguiu estudar no colégio da Companhia de Jesus e fazer algumas amizades que lhe foram úteis mais tarde como testemunhas contra as pressões da Santa Inquisição.

Sem pensar que era um gesto herético, Bento traduziu, a pedido do sobrinho Antônio Teixeira, do latim para o português o livro Deuteronômio, "livro da Torá, que Javeh ditara a Moisés", conforme afirmava sua mãe cristã-nova. Porém esta missão caberia apenas à Igreja. Leu livros que figuravam no Index e acabou, pelos colegas, sendo denunciado ao visitador, mas não foi logo preso. Tornou-se alvo predileto da Inquisição e de alguns padres por ele criticados.

Bento esteve um período no mosteiro de São Bento, para onde chegou com carta de recomendação.

Ensinou latim, aritmética e poesia para sobreviver. Revelou-se fiel aos princípios da igreja para livrar-se da Inquisição, mas não deixou de criticá-la: “(...) almeja escravos para a lavoura”, este seria o propósito da Igreja, pensava Bento.

Embora não fosse exímio escritor, às vezes criticado pela própria Filipa, Bento fazia sonetos e trovas. Escreveu um poema épico, Prosopopéia, à semelhança de Camões homenageando o governador da capitania de Pernambuco, Jerônimo de Albuquerque. Seus escritos, no entanto, não tinham a espontaneidade dos versos de Filipa.

A esposa gostava de ler à noite. Ficava com o marido. Liam Gil Vicente, Salomão, Camões, Ovídio, Catulo. Para a esposa, Bento mostrara seus escritos e a ela dizia de sua dificuldade para escrever, fato que não ocorria com Filipa. Às vezes a dificuldade de Bento era usada por Filipa para xingá-lo, outras vezes ela o ajudava.

Apesar de tudo que fizera Filipa Raposa (as traições constantes que levou Bento a assassiná-la), Bento após a morte da esposa, sentia falta dela, afinal “era uma parte dele que morria". Ele que não soubera o que era amor. Não amou o pai, homem rude, austero, exigente; a mãe que o obrigou a ser judeu; nem mesmo aos dois filhos, cópias de Filipa, “a raposa atenuada em felinos”. Tudo seria diferente se ele não fosse um Pinto, um cristão-novo e ela não fosse uma Raposa, uma cristã-velha? Quem saberia dizer?

Quando matou Filipa, Bento confiou seus filhos a João Paes, dono das terras onde morou em Santo Agostinho. Escreveu-lhe explicando sobre tudo que fizera por causa da esposa. Fugiu para Olinda, para o mosteiro de São Bento, onde ficou escondido até que a Inquisição o pegou.

Antes de morrer, ainda agonizando ao receber o golpe de faca de Bento, Filipa pediu que o marido pegasse em uma gaveta do quarto um maço de cartas, poemas que ela escrevera (ou os amantes escreveram para ela?). Durante a fuga para Olinda, Bento os perdeu. Leu apenas alguns poemas, quase nada.

No mosteiro de São Bento, o poeta ganhou a inimizade de Frei Damião por desafiar o religioso nos seus argumentos espirituais e por denunciá-lo aos outros padres dizendo que o referido frei freqüentava a casa de mulheres casadas como Isabel Raposa e Ana Lins. Por tal feito comprou um inimigo declarado.

Em 12 de agosto de 1595, recebeu ordem de prisão. Começaram os julgamentos e Bento preparou documentos para sua defesa.

Em 22 de outubro de 1595, é mandado a Lisboa como acusado do Santo Ofício por praticar heresias, ter o sangue daqueles que mataram a Cristo.

Ao redigir os documentos para se defender das acusações, exibiu seu conhecimento. Usou citações eruditas, textos latinos. Quando interrogado pelos inquisidores, sempre se disse inocente, mas acabou cedendo às imposições do tribunal: reconheceu sua culpa. Renegou e abjurou de suas ações e crenças visando à liberdade que não veio e Lisboa tornou-se seu grande cárcere. Em julho de 1600 morreu e um ano depois a Santa Inquisição concedeu licença para que se publicasse, em Lisboa, a primeira edição de Prosopopéia.

Bento morreu pensando na sua Filipa de olhos verdes e cabelo de fogo. A Filipa adolescente que lia com ele Ovídio, Gil Vicente, os poemas de amor de Salomão:

Beije-me ele com os beijos de sua boca porque é melhor o seu amor do que a própria vida. Vive sem amor! se um deus me falasse assim, eu recusaria, tanto é doce o mal que nos causa uma mulher.

Razão da sua vida e da sua morte. E morreu sorrindo como um pequeno judeu após ter feito sua oração. Morreu pensando no que poderia ter sido e não foi.

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