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Os sobreviventes (Conto), de Caio Fernando Abreu


Os sobreviventes, que no encadeamento geral dos contos do livro é um dos principais contos do livro Morangos Mofados, representa toda uma geração que saiu do desbunde lisérgico da contracultura com aquele gosto amargo, angustiantemente azedo, dos morangos de "Strawberry Fields" (música dos Beatles) na garganta, agora já esverdeados de podres, e que não conseguiam cuspi-los, nem os engolir de forma alguma. Morangos Mofados, nesse sentido, se caracteriza por ser ao mesmo tempo um balanço desse percurso e um rompimento com elementos que nele se fizeram presentes. O sujeito se depara com emoções, realidades e ilusões já conhecidas e que necessitam ser superadas. Ele se esforça pra ser um sobrevivente ao esgotamento de uma realidade na qual as utopias não se concretizaram, se revelaram sonhos e morreram antes de frutificar.

Neste conto pode-se observar um reflexo das perturbações e angústias da juventude revolucionária, inconformada e transgressora da década de 70. Entremeada ao espaço ideológico, há, também, uma instância de revelação do ser humano, das descobertas da sexualidade e da individualidade, de modo que o texto se adensa na matéria existencial ao mostrar indivíduos solitários, suas sensações, inseguranças, fobias, instabilidades, bem como suas frustrações ideológicas. No conto Os sobreviventes, tais indivíduos são representados por dois personagens amigos desde a juventude, ou seja, amigos que partilharam dos mesmos processos de construção ideológica e identitária. Estes personagens travam, ao longo do texto, um diálogo permeado por uma linguagem descontraída e informal que revelará, por um lado, o desolamento, a desesperança e o desgaste causados pela falência do ideal de reformulação social e, por outro, os anseios de realizações e conquistas que se firmam no contínuo da existência, ou da resistência.

Este conto não é uma simples resposta aos estímulos de repressão, violência e censura do sistema ditatorial brasileiro. O texto ampara-se no contexto histórico,
trabalhando-o esteticamente e apresentando um resultado válido, já que, além de sublinhar uma atitude crítica em relação ao passado recente, cria uma experimentação estética, um modo singular de narrar a história, deixando evidente uma preocupação em encontrar uma forma narrativa capaz de explorar o social e o histórico, afastando-se de uma literatura de cunho jornalístico ou descritivo.

A repressão política e moral é o tema do conto Os sobreviventes, texto incluído na primeira parte de Morangos Mofados, "O mofo", a qual contém narrativas mais sombrias e de caráter crítico elevado. Com uma alternância entre vozes masculina e feminina que se confundem em primeira e terceira pessoa, o conto é um diálogo entre dois idealistas do período ditatorial que têm sua subjetividade atingida devido à experiência de repressão e não concretização de ideais. Ao longo de toda a narrativa, a crise dos sujeitos e a sensação de fracasso diante das ilusões perdidas marcam uma visão de mundo desesperançada, pois, afinal, os personagens são sobreviventes (e, nesse sentido, vale ressaltar a pertinência do título do conto) de uma geração que lutou contra o sistema sócio-político e cuja resistência foi enfraquecendo com o tempo.

Durante uma fase problemática decorrente da repressão, em que os companheiros debatem sobre suas angústias e seus ideais, o personagem masculino tenta
uma reanimação para a companheira diante do desespero em que ela se encontrava, como se percebe na sua fala:

[...] eu te olhava entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solitário & positivo, apertava meu ombro com a sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá, bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, voltei a isso que dizem que é o normal, e cadê a causa, meu, cadê a luta, cadê o po-ten-cial criativo? (1995, p. 18).

A referência ao processo ditatorial é feita indiretamente, há uma elaboração literária que torna possível a identificação do tema e do contexto sócio-político a que
alude o texto. São expressões ligadas aos termos usados por militantes da época, recursos lingüísticos e relatos de experiências os procedimentos que nos direcionam à leitura do conto através do contexto e são também eles que fazem da narrativa uma criação artística, literatura. Por ser arte, e não simplesmente documento, é que o exame de suas estratégias narrativas se faz importante, pois, afinal, o sentido do texto deve ser alcançado com uma análise que contemple forma e conteúdo.

O conto de Caio possui uma particularidade no que diz respeito ao foco narrativo. Este aparece na voz de um eu e de um você – os personagens masculino e
feminino - que estabelecem um diálogo desenfreado e também na voz de uns outros, cuja fala é introduzida nos próprios discursos dos personagens. O foco narrativo, assim constituído, direciona-nos a observar três posicionamentos (o do personagem masculino, o do feminino e o dos outros) que, na verdade, são entrecruzados para causar um efeito estético, o que, aliado aos outros recursos do conto, contribui para sua valorização. É nesse sentido que as reflexões de Adorno sobre a posição do narrador podem ser associadas ao conto, já que a narrativa é construída com personagens que contam sua história através de seus próprios diálogos. O trabalho de um narrador, no sentido tradicional, fica ausente no conto. Isso também aponta para a suspensão do caráter objetivo da narrativa, que se mostra voltada para a subjetividade e interessada pela participação do leitor.

Fonte: Luana Teixeira Porto, Departamento de Letras, UFRS

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