O tambores de São Luís, de Josué Montello

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Os tambores de So Lus a obra-prima romanesca de Josu Montello. a crnica de uma poca, sem deixar de ser obra de fico; um relato de ordem histrica, onde tambm avultam os sobrades de azulejos, os portais de pedra, os mirantes, os balces sobre a calada de cantaria, as sacadas de ferro, o velho casario, as ruas, as praas, os becos da cidade.

A obra cuja narrativa em terceira pessoa transcorre durante uma noite e algumas horas da manh seguinte, conta, em tom pico, uma histria de trs sculos de lutas e insurreies. E embora sua ao romanesca componha uma jornada que se inicia s 22 horas de uma noite de 1915 para fechar-se s 9 horas da manh seguinte, o relato retrocede aos vrios ciclos da histria maranhense, misturando presente e passado, com mais de 400 personagens, entre bispos, padres, governadores, bomios, raparigas, estudantes, professores, oradores populares, negros de ganho, artistas, tipos de rua, tentando reconstituir toda a complexa vida de uma cidade.

Publicado em 1975, este livro um romance em duas marchas. Numa delas, a acelerada, o escritor Josu Montello tenta retratar as várias fases da Histria do Maranho. Na outra marcha, a mais lenta, que transcorre o texto em si: uma histria que conta a saga do negro, desde a sua origem africana, sua viagem nos navios negreiros, at a chegada em nossa terra, e mostra tambm o seu martrio sob a escravido no Brasil. Josu Montello procurou com este romance, fixar sobretudo o problema do negro, suas lutas, suas tragdias. Do negro e de sua vagarosa ascenso social.

um romance humano, ao estilo de uma impressionante novela de mistrio, que comea com um episdio imprevisto o encontro de um negro assassinado dentro de um bar, numa noite de 1915.

A partir da, a narrativa avana como um vasto mural onde Josu Montello dispe seu glorioso bando de filhos do povo. Damio, Benigna, Baro, o Padre Tracaj, Santinha, Genoveva Pia, Mestre Ambrsio, dona Calu, dona Bembm, a Comadre Ludovina, o Maneco Ourives seres vivos da famlia literria de Montello, juntamente com as quatro centenas de personagens, nos quais o romancista procurou insuflar o alento da vida, como seres reais.

Montello retrata ainda o cenrio, o ambiente cultural, o sistema poltico-econmico, o dia-a-dia das fazendas, as tenses e os enfrentamentos que marcaram as relaes entre senhores e escravos. O romance evoca imagens dos tempos do cativeiro reconstitudas de maneira formidvel pela imaginao do romancista.

Do ponto de vista tcnico, no plano meramente narrativo, o autor cruzou duas linhas bsicas. Uma delas representada pelo romance objetivo que se resume, como j citado, no espao de uma nica noite, tendo como episdio central a caminhada de um negro de 80 anos. quando surge Damio atravessando a cidade a p (por no ter encontrado um carro que o levasse ao outro lado de So Lus), para conhecer o trineto que acabara de nascer. Essa caminhada feita com o acompanhamento simblico do bater dos tambores rituais, na Casa das Minas.

o momento histrico da escravido na segunda metade do sculo XIX, momento em que, por definio, o sistema iniciava o seu processo de declnio, e, sendo romance histrico, tambm romance de costumes da sociedade escravocrata, no Maranho e no Brasil. E, sendo romance de costumes , tambm, necessariamente, romance psicolgico, tanto dos personagens especificamente considerados, quanto das diversas coletividades a que pertenciam proprietrios e escravos, comerciantes e homens do mar, profissionais liberais e eclesisticos, polticos e libertos, todos condicionados pela mentalidade da poca ao mesmo tempo em que a condicionavam.

Na vertente ativa estava o poder pblico, deputados e senadores, conservadores e liberais, por uma vez unidos na causa comum de manter a escravido, procurando imobilizar a histria a pretexto de disciplin-la; no queriam aboli-la, queriam, ao contrrio, perpetu-la, na esperana de que se extinguisse por exausto 50 anos depois, quando eles prprios tivessem desaparecido. Ignoraram sistematicamente os numerosos projetos que se multiplicaram entre os tratadistas desde o sculo 18 e, nomeadamente, o de Jos Bonifcio, propondo a abolio gradativa que prevenisse o trauma mais que previsvel de 1888.

Conhece-se a astuta relutncia com que as classes polticas dos 1800 acabaram por aceitar a proibio do trfico, assim como as duas leis supostamente humanitrias (como tal ensinadas nas escolas): a do Ventre Livre e a dos Sexagenrios, destinadas, no a extinguir, mas a perpetuar a escravido pelo maior tempo possvel. Embustes desde logo percebidos pelos escravos personagens deste romance. No eram apenas embustes: eram embustes carregados de crueldade.

Tudo isso se passava no mundo social em que a escravido pertencia ordem natural das coisas, monstruosidade, dizia Joaquim Nabuco, de que os brasileiros tinham tanta conscincia quanto da lei da gravidade. Acrescentem-se as prticas desumanas do dia-a-dia a que correspondem, no outro extremo, os fatos que hoje podem parecer pitorescos. o lado do romance de costumes neste romance histrico: Mesmo as questes de nonada, que se resolveriam com um breve dilogo, serviram de pretexto aos velhos prelados para trocas de desaforos, prises, excomunhes, queixas ao rei e ao papa, intrigas, desfeitas pblicas, e at agresses e emboscadas. Um bispo e um governador envolveram-se em grave crise poltica porque ambos tinham interesses no comrcio de escravos. Outro bispo conheceu dificuldades por haver denunciado o mau costume, corrente entre os maiorais da terra, de terem estes as suas concubinas. Crise poltica ainda mais sria ocorreu quando um capito-general entendeu que tinha direito a trs ductos de incenso nas cerimnias religiosas, enquanto o bispo, com quem se desentendera, ordenou ao coroinha que o destingisse com apenas dois...

Esse o painel em que podemos ler Os tambores de So Lus como romance histrico, partindo do geral para o particular, panorama de uma poca estruturada em crculos concntricos dos quais os mais largos continham sucessivamente os de menor dimetro, envolvendo a matria real pela imaginativa, tudo sem sacrificar a homogeneidade entre a verdade e a verossimilhana. Josu Montello utiliza-se da realidade histrica para conferir veracidade verossimilhana romanesca. A histria o que realmente ocorreu, e a verossimilhana o que poderia ter ocorrido.

Montello inverte, de certa forma, o ngulo de observao: seus personagens tirados da vida real tornam-se verossmeis como se fossem inventados, e estes ltimos tornam-se reais na trama do romance. Mencione-se, entre tantos outros, Donana Jansen, perfeita encarnao do sadismo desumano (no que no se distinguia dos demais proprietrios): ela s nos aparece verossmil por ter sido real. tambm a figura da aristocrata Ana Rosa Ribeiro, denunciada por crimes de morte pelo jovem promotor Celso Magalhes, prematuramente falecido, precursor de Slvio Romero nas pesquisas folclricas. H tambm a causa clebre do desembargador Pontes Vergueiro, retrato gravado em gua-forte pelo romancista, sem esquecer a tragdia pessoal de Gonalves Dias e seus amores desgraados.

Tudo isso nos induz a ver Os tambores de So Lus como romance psicolgico, partindo do particular para o geral, caso em que a narrativa se desenvolve em espiral, tendo no negro Damio o centro dinmico de convergncia e irradiao. Damio a figura emblemtica da condio humana num determinado momento histrico, simbolizado, aos olhos do Eterno, pelos tambores da Casa-Grande das Minas, vibrando como memria da raa atravs do romance inteiro. Eles marcam a sucesso dos episdios na sua vida, acompanhando-lhe as metamorfoses existenciais. So o relgio csmico que, comeando a ouvir logo sua chegada a So Lus, continuar a marcar-lhe todas as horas, pelos anos afora, at noite cheia de pressgios em que o romance comea e termina. J velho, caminhando na madrugada ao som dos tambores, dominado pela expectativa do trineto que vai nascer, ele os ouve como mensagem enigmtica do destino, conforme s vir a saber na ltima pgina do romance: Tinha sido escravo, era um homem livre... viera de muito baixo, e ali se achava, com a sua casa, o seu nome e a sua famlia. Lutara pela liberdade de sua raa (...) deixando em nossa memria a figura de um grande entre os grandes do romance universal.

O romance é dividido em 58 captulos. Em cenas capitais da narrativa aparecem o famoso crime da Baronesa de Graja, de tanta repercusso na sociedade maranhense do tempo do Imprio; a paixo doentia do desembargador Pontes Visgueiro por sua amante Mariquinhas; os conflitos entre senhores e escravos; os rompantes de Donana Jansen, os voduns, as noviches e as nochs Me Hosana, Me Maria Quirina e Me Andresa da Casa das Minas, e Dom Cosme Bento das Chagas, tutor e imperador das liberdades bem-te-vis.

O escritor Dunshee de Abranches, autor de O cativeiro, livro inteiramente consagrado escravido maranhense, tambm entra como personagem do romance: o Joo Moura (como ele se assinava), que aparece ao lado de Damio, nos comcios populares em favor da abolio.

Pouco antes da ltima pgina do romance, o ltimo captulo do livro se volta para o adeus ao poeta Joaquim de Sousa Andrade, em cujo enterro avulta o atade envolto na bandeira do Estado, idealizada pelo prprio Sousndrade, com as listas branca, vermelha e negra, simbolizando a fuso das raas na formao do povo brasileiro, e mais a estrela branca sobre campo azul, representativa da unidade autnoma do Maranho.

Trecho da obra

At ali os Tambores da Casa-Grande das Minas tinham seguido seus passos, e ele via ainda os trs tamboreiros, no canto esquerdo da varanda, rufando forte os seus instrumentos rituais, com o acompanhamento dos ogs e das cabaas, enquanto a noch Andreza Maria deixava cair o xale para os antebraos, recebendo Toi-Zamadone, o dono do lugar.

Por vezes, no seu passo firme pela calada deserta, deixava de ouvir o tantant dos tambores, calados de repente no silncio da noite, com o vento que amainava ou mudava de direo. Da a pouco Damio tornava a ouvi-los, trazidos por uma rajada mais fresca, e outra vez a imagem da noch, cercada pelas noviches vestidas de branco, lhe reflua conscincia, magra, direita, porte de rainha, a cabea comeando a branquear.

Fora ela que viera busc-lo, entrada do querebet. A inteno dele era apenas ouvir um pouco os tambores e olhar as danas, sentado no comprido banco da varanda, de rosto voltado para o terreiro pontilhado de velas. J o banco estava repleto. Muitas pessoas tinham sentado no cho de terra batida, com as mos entrelaadas em redor dos joelhos; outras permaneciam de p, recostadas contra a parede. Mas a noch, que o trouxera pela mo, fez sair do banco um dos assistentes, e ele ali se acomodou, em posio realmente privilegiada, podendo ver de perto os tambores tocando e as noviches danando, por entre o tinir de ferro dos ogs e o chocalhar das cabaas.

Vez por outra sentia necessidade de ir ali, levado por invencvel ansiedade nostlgica, que ele prprio, com toda a agudeza de sua inteligncia superior, no saberia definir ou explicar. O certo que, ouvindo bater os tambores rituais, como que se reintegrava no mundo mgico de sua prognie africana, enquanto se lhe alastrava pela conscincia uma sensao nova de paz, que mergulhava na mais profunda essncia de seu ser. Dali saa misteriosamente apaziguado, e era mais leve o seu corpo e mais suave o seu dia, qual se voltasse a lhe ser propcio o vodum que acompanha na Terra os passos de cada negro.

Embora s houvesse no cu uma fatia de lua nova, por cima da igreja de So Pantaleo, uma tnue claridade violcea descia sobre a cidade adormecida, com a multido de estrelas que faiscavam na noite de estio. Em cada esquina, a sentinela de um lampio, com seu bico de gs chiante. Todas as casas fechadas. Perto, para os lados da Rua da Inveja, o apressado rolar de um carro, com o rudo do cavalo a galope nas pedras do calamento. E sempre o baticum dos tambores, ora fugindo, ora voltando, sem perder a cadncia frentica, muito mais ligeira que o retinir das ferraduras.No canto da Rua do Passeio com a Rua do Mocambo, antes de passar para a calada fronteira, Damio parou um momento, batido em cheio pela claridade do gs.

Resguardado do sereno pelo chapu de feltro ingls, presente do Governador Lus Domingues no ltimo Natal, parecia mais comprido, a espinha dorsal direita, o corpo seco e rijo, os ombros altos. Aos oitenta anos, dava a impresso de ter sessenta, ou talvez menos, com muita luz nos olhos, o passo seguro, a cabea levantada. At o comeo do sculo, no dispensava a bengala de casto de prata com que entrou pela primeira vez no sobrado do Foro, sobraando a sua pasta de solicitador, para defender outro negro. Agora, trajava com simplicidade, muito limpo, a barba escanhoada, o palet abotoado acima do peito, um alfinete de ouro junto ao lao da gravata.

- Faa favor...

Damio assustou-se com a voz rouca que lhe vinha por trs do ombro direito, do lado da Rua do Mocambo. No tinha sentido rumor de passos. E deu de frente com o Stiro Cardoso, pequenino, enxuto, metido na sua sovada casaca de mgico, o colarinho alto, o rosto encovado, bigode, nos negros olhos uma fasca de loucura, e que logo lhe disse, com um pedao de papel impresso na ponta dos dedos:

- o convite para o meu prximo espetculo.

- Outra vez A queda da Bandeira?

- . O pessoal pede sempre. E o pblico quem manda.

Damio quis ainda saber por que o velho mgico preferia aquela hora da noite, com as casas fechadas, para distribuir os seus convites.

- De dia - redargiu ele, dando-lhe outro convite - os moleques vm atrs de mim, me chamando de Trora. Chegam a atiar cachorros para me morder. De noite mais calmo: os moleques esto dormindo.

E l se foi, Rua do Mocambo abaixo, a enfiar o papelucho por baixo das portas, sem rudo, apenas roando o cho da calada com seu passo macio.

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