Poemas negros, de Jorge de Lima

  • Data de publicação

Poemas negros, de 1947, rene dezesseis poemas do autor Jorge de Lima, j editados em livros anteriores e 23 novos poemas, estes apresentando, atravs de deuses africanos, uma espcie de histria do negro no Brasil.

Nesses poemas encontramos a segunda fase ortodoxamente modernista de Jorge de Lima.

O tema da obra a realidade africana do Brasil. De fato, bem cedo Jorge de Lima manifestou a conscincia da discriminao racial. Ele ultrapassa o registro pitoresco e folclrico, assimila o cerne da cultura afro-nordestina e demonstra que a barreira racial nada perante a universalidade da poesia.

Jorge de Lima prope tambm a reflexo sobre a importncia do sangue africano na composio de um novo ser. Em Poemas Negros, o questionamento refrisado nos versos de "Foi mudando, mudando", em que a voz potica deixa sem resposta a pergunta "Foi negro, foi ndio ou foi cristo?", enquanto nomeia os pilares tnicos do povo brasileiro. Esse livro encerra com o poema Ol, Negro que fala sobre a influncia do escravo na cultura brasileira, desenhando, em traos ntidos, a crueldade do tratamento que imposto ao subalterno.

O poema inicia, referindo-se sucessividade das geraes, cujos indivduos empenham-se em rejeitar o sangue e a cor que lhes matiza a pele. E profeticamente sentencia: [eles] no apagaro de sua alma, a tua alma, negro! A repetio do substantivo abstrato, com a variao do possessivo de terceira e segunda pessoa, ressalta uma das marcas da sensibilidade brasileira. No escravo, a componente afetiva inclui a apetncia artstica que se realiza na msica dos blues, jazzes, songs, lundus, e se extravasa na alegria. Para sublinhar a diversidade dos universos, o poeta avisa: a raa que te enforca, enforca-se de tdio, negro. Os dados objetivos, contudo, enumeram o lucro material (algodo e acar) e a trajetria de sofrimento do negro (tronco, colar de ferro, canga de todos os senhores do mundo) para calcular, na hiprbole, o tempo necessrio para humanizar o homem:

Quantas vezes as carapinhas ho de embranquecer
Para que os canaviais possam dar mais doura alma Humana?

No jogo da interrogao retrica, as figuras de estilo unem o fluir (longo!) do tempo, a explorao econmica e o amadurecimento do indivduo. De temporalidade impondervel, o cabelo do negro reage mudana da cor, assim como o homem tarda, pela cobia, a adquirir uma alma. O condimento culinrio baliza de (des)humanidade. A metfora, em ironia, alude a um captulo da histria da maldade no Brasil.

Tangida pela emoo, a conscincia potica v:

Apanhavas com vontade de cantar
choravas com vontade de sorrir
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e o negro dormir!

A resistncia ao sofrimento transmite-se na alternncia antittica de sofrer-cantar-chorar-sorrir, sugerindo uma disposio que se quer refazer. A prtica mgico-ritual (mandinga) evocada como recurso de atenuao da dor, que, afinal, o homem atinge com a noite e com o sono. No entanto, o tempo recompe-se, e a esperana desponta com o novo amanhecer:

Ol, Negro! O dia est nascendo!
O dia est nascendo ou ser a tua gargalhada que vem vindo?
Ol, Negro!
Ol, Negro!

Concluindo o poema, expressa-se a vocao do negro para a alegria. A imagem potica mescla cosmos e sentimento, ao confundir luz e som, no brilho da manh e no contentamento do escravo. Então, fecha-se o livro Poemas Negros, no ressoar da voz de confiana na humanidade.

Poema escolhido

MARIA DIAMBA

Para no apanhar mais
Falou que sabia fazer bolos
Virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
no falou mais.
Viram que sabia fazer tudo,
At mulecas para a Casa-Grande.

Depois falou s,
S diante da ventania
Que ainda vem do Sudo;
Falou que queria fugir
Dos senhores e das judiarias deste mundo
Para o sumidouro.

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