Poemas rupestres, de Manoel de Barros

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Nesta obra, Poemas rupestres, Manoel de Barros recorre s lembranas de Mato Grosso, e de seus primeiros passos no Pantanal, para dar novos significados s palavras. O livro oferece uma oportunidade de apresentar aos leitores a vida de um dos mais importantes poetas contemporneos. Um autor que surpreende, ao mesmo tempo em que intriga e comove ao leitor, com o despojamento de seus versos, tirados de cho, rvore, bicho, gua e pedra.

Poemas Rupestres, como inscritos nas paredes das cavernas de todos ns, traz a voz sbia da infncia, de uma falsa inocncia estonteante cuja leitura escorre como riacho tantas vezes visitado por esta potica que nos torna meninos de novo que de to a custo a gente se segura pra no sair pra rua pra fazer travessuras com o olhar de passarinho. Mas de repente, num verso, vem aquele travo amargor com gosto de vida real e o encantamento resvala pra conscincia vira mundo e a poesia se transforma no road movie do poeta sbio que com sua experincia revela o que h pra ver por trs das palavras simples, das imagens claras.

O que essa potica tem a capacidade de ver e traduzir um essencial to ao avesso do colosso artificial da atual era do simulacro, fulcro de uma civilizao medida por tonelada consumida. Ao se jeito de audio, de estria contada, se faz tato para a alma, j que o tato mais que o ver / mais que o ouvir / mais que o cheirar e o xtase tctil, mas tambm auditivo e visual , que o menino Manoel de Barros nos transmite com as suas poesias rupestres, que ficam pintadas em nossas retinas e na nossa memria muito depois de termos lido este livro.

Em Poemas rupestres, ele retorna aos elementos que marcam seu trabalho desde a primeira publicao, em 1937: a paisagem do Pantanal, a infncia, a relao misteriosa que existe entre as coisas e os nomes que damos a elas.

Anlise dos poemas

Escritos na terra. A terra o elemento primordial.

Os mais elementares traos do homem querendo eternizar o tempo, o momento.

A infncia do homem, o seu retorno eterno na aprendizagem.

Escritos primitivos jogados na terra como elemento primordial e convivente com o homem.

Primeira relao reflexa mais elaborada. Sintomas da sada do nvel instintivo para o reflexivo.

Capacidade de retratar o elementar embutido no sentido valendo-se da fora da terra e da capacidade primitiva.

Fuga do controle do sistema lmbico para a grande passagem para o neo-crtex cerebral.

As atividades de sobrevivncia cavalgam para a memria para sobreviver no tempo.

As tcnicas elementares do homem primitivo como expresso da fora criadora.

As margens dos percursos criativos, imaginativos denotam o seu percurso criador ou as tcnicas disposio.

Rupestres indicam as paredes, as encostas, os painis que a natureza oferece sem concorrncia da elaborao humana. A oferta da natureza como possibilidade para o mundo imaginativo do homem das hordas.

Rupestres, de ambguas faces: dadas, impostas pela convivncia e duradouras por sua natureza constitutiva. Com muita fora porque imponente e difcil. Carter de difcil acesso, de fixao da relao, mas promissora quanto durao.

Rupestres, pois no denotam que duas vertentes de influncia: a natureza spera e gritante; a primevidade, vale dizer, sem a mo ou presena de qualquer outro que no seja aquele que conseguiu atingir aquele lugar e soube ter acesso de convivncia to intenso que a natureza aceitou a sua firma, o seu sinete, mesmo que impessoal. L est e estar enquanto outro artista no transfigurar a natureza primitiva.

Trata-se de um percurso longo s reaes e percepes ancestrais para surpreender o segredo do ldico, do primordial, do estado vital antes do primeiro reflexo.

Assim cabe mesmo registrar que o poeta percorreu e atingiu um processo, uma poca, um estgio que se mostrou inaugural, por sua origem e percurso.

"Rupestres" caracterizam um sonho do estado primordial quando nenhum gesto feito tinha sido fixado na memria, nos sentidos ou na reflexo do homem. Ento o poeta convive com os albores do dizer humano tornado arte. Viso primordial oferecida em poemas que surgiram dos beros primitivos, da rusticidade intuitiva com que o poeta tratou as palavras e a vida.

"Rupestres" porque sero lembrados como revelaes da ludicidade do poeta em estado de homem primitivo em completa sintonia e apreenso pela fora da natureza, em estado de grande ludicidade tambm.

Primera Parte

CANO DE VER

Cano aqui igual a um poema a ser proclamado ou cantado. Assim a cano canta o seu contedo, proclama a voz do ser que se expressa e se desdobra em cada verso; expressa tambm, a cano, sua harmonia nos sons das palavras e nas tonalidades suscitadas.

Cano, harmonia de um conjunto que se revela em tonalidades sonoras at e em cenrios. A cano se refere aos sons como tais e aos tons tonalidades que compem as frases da harmonia temtica. A cano concretiza tonalidades das emoes enquanto se refere ao corao, s paisagens descobertas se refere imaginao. Por fim, na combinao de vozes das palavras se se refere aos ouvidos como portadores do receptculo do corao.

O autor/poeta combina cano com outro sentido muito claro e definido: o olhar. Compe ele, canes para se ver. Admite e recria o sentido compondo-lhe canes que o educam e o tornam novo, capaz de harmonias pelas palavras vistas em si ou por imagens que os sons, os processos e as imagens constrem como cenrios. Esses cenrios para o poeta cantam canes para o olhar; oferece-se ao leitor como caminho e harmonia, como novidade e percurso que incluiu o leitor pelo olhar fantstico que a imaginao lhe oferece, integrando-o como um todo que participa e percorrido pelo poema a partir do olhar.

O olhar passa a ser a porta que recebe o mundo inaugurado pelo poeta rupestre. A ludicidade envolve o leitor que se deixar levar pelo percurso, j se ver outro, o poema o transformou.

O olhar envolveu-o todo em estado de revelao.

1.

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pssaro
Contraiu viso fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pssaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
gua no era ainda a palavra gua.
Pedra no era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramticas e
podiam ficar em qualquer posio.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar s pedras costumes de flor.

O menino e os pssaros vivem em igualdade de natureza por ter vivido muitos anos dentro do mato. Dessa nova modalidade de se viver, resultou uma maneira de ver contraiu viso fontana.

O que uma viso fontana? Por forma que ele enxergava as coisas por igual / como os pssaros enxergam. A primeira resposta que a viso de um pssaro uma viso Fontana, isto , de uma variabilidade muito grande quanto ao ponto de partida e de um foco especial que os pssaros usam para seus vos ou para sua sobrevivncia.

As coisas e os pssaros so inominados. Os elementos da natureza antes de serem nomeados pelo homem virgens da palavra / marca / identificao dada pelo homem. Assim antes gua' no era gua / pedra' no era pedra / e tal' = tudo era sem nome.

Ao lado dos elementos / coisas da natureza, as palavras estavam livres e soltas em relao s regras gramaticais e significados fixos. Palavras eram coisas / elementos inominados, Palavras sem designao.

O menino de posse do olhar dos pssaros, vendo tudo sem nome e sem nexos, tornava-se um Menino / Poeta, podia inaugurar. Segundo o autor, o poeta tem que se voltar ao estado ldico (infante) para se capacitar do mundo das coisas inominadas e ento, aps pertencer ao mundo da natureza em estado puro ou virgem em relao ao homem de posse dessas condies ele torna-se poeta e inaugura.

Dessa forma o autor expe o que ele entende ser um poeta e o que fazer poemas. Inaugurar sair da lgica e do sentido fixado, assim pedra = flor ou canto = sol.

O caminho para a reinaugurao introduzir-se na palavra em estado de coisa: abrir a palavra abelha e entrar dentro dela. Esse percurso para o poeta representa repristinar a infncia da lngua.

O poeta inaugura quando se volta par o estado coisal, para a linguagem livre e virgem das coisas e das palavras. Para isso necessrio voltar ao estgio ldico da infncia. Da mesma forma, prope o poeta, necessrio ento voltar-se para a Infncia da lngua. Inaugura enquanto infante.

Poesia a inaugurao da linguagem. No poema o autor prope o seguinte processo para se obter um poema:

a voltar natureza virgem coisal,
b voltar infncia, ao estado ldico,
c descobrir a infncia da lngua,
d saber que a infncia da lngua proclama que se deve ser livre das regras da gramtica,
e atinge-se a infncia da palavra quando se deixar entrar dentro dela abrir a palavra abelha e entrar dentro dela'.

Para o poeta necessrio:

1 atingir o mundo da natureza sem especificao para poder imaginar,
2 considerar que nesse estgio as coisas so inanimadas,
3 e que as palavras ainda no esto ligadas entre si, brincam soltas.

Portanto:
Poesia a inaugurao do universo das palavras. Para isso o poeta tem que adquirir uma viso fontana!

2.

A de muito que na Corruptela onde a gente
vivia
No passava ningum
Nem mascate muleiro
Nem anta batizada
Nem cachorro de bugre.
O dia demorava de uma lesma.
At uma lacraia ondeante atravessava o dia
por primeiro do que o sol.
E essa lacraia ainda fazia uma estao de
recreio no circo das crianas
a fim de pular corda.
Lembrava a tartaruga de Creonte
que quando chegava na outra margem do rio
as guas j tinham at criado cabelo.
Por isso a gente pensava sempre que o dia
de hoje ainda era ontem.
A gente se acostumou de enxergar antigamentes.

Poema existencial moda de Carlos Drummond em que se descreve o tempo parado e a vida preguiosa a ponto de as guas criarem cabelo'. Nesse lugar as coisas se repetem na mesmice de sempre. Tudo nem e tudo parado: o dia demorava de uma lesma'.

Neste poema, a pasmaceira ou o tempo so medidos pela unidade do ser das coisas demoradas e insignificantes, assim o tempo enorme comparado com a movimentao da lesma ou de uma lacraia. Exagerando a velocidade do dia, o poeta afirma: at a lacraia mais veloz que o sol. Dessa forma ele consegue obter uma densidade forte da morosidade do tempo.

Apesar da morosidade, o ldico aparece em comparaes envolvendo coisas e crianas, capazes de reinventar a vida.

Outras dicotomias na afirmao do poeta prolongam a percepo da morosidade: a tartaruga de Creonte... as guas teriam criado cabelo. Pensava que o hoje era ontem... antigamentes'; so expresses que conseguem conferir densidade e muita morosidade ao tempo relacionado vida das pessoas. Tempo relativo morosidade na qual se vive ou se constroem as relaes expressivas da vida.

Nessa perspectiva, a do poema, o tempo se volta para o mais fundo do passado, para a vida em um lugar sempre parado existencialmente parado e o momento somente portador de uma demora sem fim do passado.

3.

Por forma que o dia era parado de poste.
Os homens passavam as horas sentados na
porta da Venda
de Seo Man Quinhentos Ris
que tinha esse nome porque todas as coisas
que vendia
custavam o seu preo e mais quinhentos ris.
Seria qualquer coisa como a Caixa Dois dos
prefeitos.
O mato era atrs da Venda e servia tambm
para a gente desocupar.
Os cachorros no precisavam do mato para
desocupar
Nem as emas solteiras que despejavam correndo.
No arruado havia nove ranchos.
Araras cruzavam por cima dos ranchos
conversando em arars.
Ningum de ns sabia conversar em arars.
Os maridos que no ficavam de prosa na porta
da Venda
Iam plantar mandioca
Ou fazer filhos nas patroas.
A vida era bem largada.
Todo mundo se ocupava da tarefa de ver o dia
atravessar.
Pois afinal as coisas no eram iguais s cousas?
Por tudo isso, na Corruptela parecia nada
acontecer.

Neste poema est presente uma tentativa do poeta de, perante uma vida veloz e apressada dos dias de hoje, trazer a vivncia de um lugar onde a velocidade era medida pela coisas que perpetuavam a mesmice. A importncia ou funo de relevncia das coisas/acontecimentos referenciada a alguns acontecimentos que mostram a movimentao da vida neste lugar.

Assim as particularidades indicam as expresses para a vida e estas so medidas ou percebidas por estas particulares.

Dessa forma:

1 - o lugar de concentrao da vida acontece ao redor da venda do Seo Man Quinhentos Ris;
2 os homens sentados na porta da venda sem fazer nada do a dimenso do tempo e do parado da vida ali;
3 o mato atrs da venda se torna referncia para as necessidades dos homens e dos animais, menos para os cachorros e para as emas;
4 o povoado era de nove ranchos;
5 - o barulho das araras indica e prolonga a quietude;
6 as atividades dos trabalhadores concorrem para sublinhar a falta de novidade ou a mesmice da vida ali: plantar mandioca ou fazer filhos.

O poema quer mostrar a vida em um tempo espichado e parado em uma vila do interior A vida era bem largada!'

Existem palavras com significados prprios, como ocupar ou desocupar'. E uma tarefa muito difcil era ver o dia atravessar, pois tudo / nada acontecia.

4.

Por forma que a nossa tarefa principal
era a de aumentar
o que no acontecia.
(Ns era um rebanho de guris.)
A gente era bem-dotado para aquele servio
de aumentar o que no acontecia.
A gente operava a domiclio e pra fora.
E aquele colega que tinha ganho um olhar
de pssaro
Era o campeo de aumentar os desacontecimentos.
Uma tarde ele falou pra ns que enxergara um
lagarto espichado na areia
a beber um copo de sol.
Apareceu um homem que era adepto da razo
e disse:
Lagarto no bebe sol no copo!
Isso uma estultcia.
Ele falou de srio.
Ficamos instrudos.

Neste poema que segue expondo a temtica dos anteriores, o poeta tenta mostrar o olhar sobre o tempo ou ainda como o tempo vivido ou percebido pelas pessoas.

A afirmao do autor a principal tarefa era aumentar o que no acontecia' torna-se, de fato, sua tarefa principal enquanto, neste trabalho, polariza as interpretaes: olhar o tempo sob a perspectiva das coisas e olh-lo racionalmente.

Dessa forma:
1 Seleciona quem tem a aptido de aumentar o que no acontecia. Os guris e um colega que tinha olhar de pssaro eram os melhores em aumentar o que no acontecia. Atrs desta postura, todos os versos indicam uma vida desejada como pura expresso do ldico, do imprevisvel ou ainda uma vida independente de qualquer lgica ou seqncia lgica como so normalmente os acontecimentos.
2 O colega que tinha ganho um olhar de pssaro mostrou o modo ideal de aumentar o que no acontecia: um lagarto espichado na areia a beber um copo de sol. Assim o mundo reinventado a partir do olhar dos pssaros era uma grandeza incomum.
3 O homem adepto da razo com sua insistncia sobre a lgica de fcil demonstrao racional acabou com o encantamento da vida e eles ganharam a chancela negada pelo poeta: ficamos instrudos!' Esse rtulo marca a fora do racional sobre um mundo potico se o sujeito, o poeta ou outra pessoa somente movida pela ludicidade de repente perde tudo, pois instruo a deixar a vida ser organizada em termos de conhecimentos pela razo. Vale somente um conhecimento que se proclama racional. Ao passo que o poeta mostra outra maneira de entender e conhecer a vida e a realidade, poeticamente. Tudo deve ser reinventado a partir de outro olhar sobre o mundo, no caso, pelo olhar de um pssaro.
3 Assim o poema de profunda ironia entre a lgica da razo e a linguagem ou percepo potica da vida a lgica inaugura um mundo oposto ou de valores opostos ao da instruo racional; vale para o poeta ser desinstrudo racionalmente e sbio no que no acontecia'.
4 O mundo inaugurado pelo poeta a percepo do des(acontecer), aquilo que no susceptvel de entendimento racionalmente; todo esse conhecimento provm da imaginao, da fantasia e da sensibilidade. Bem como aponta outro caminho de conhecimento, a incorporao sensual e ldica.
5 Dessa forma, instrudos racionalmente estar aprisionado pela lgica e pelas seqncias em tudo na vida. Ao passo que instrudos pelo des(acontecer) indica que a pessoa goza de pura liberdade do inaugurar, do perceber e do sentir. Liberdade para criar outras relaes que encantam e do prazer pelo sensorial e pelo imaginrio.

5.

Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver at a cor das vogais
Como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejas de andorinhas.
E viu a gara pousada na solido de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
S para causar distrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele tambm
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.

Neste poema, atravs da criao potica, o autor continua sua linha de teorizao sobre a poesia e vai exemplificando em cada verso o conceito de teoria potica. Aprofunda sua teoria da arte potica pelo exerccio do fazer e acontecer potico.

Em cada verso se manifestam teoria e prtica poticas. O poeta, como o menino do poema, instaura um mundo potico, seus elementos e percepes novas de um mundo ao revs, por meio da reversibilidade dos sentidos. Os sentidos em estado de reinauguraes (vrias e mltiplas) permitem a expresso e o acesso aos horizontes novos continuamente inaugurados.

Em especial o olhar, assumido referencialmente como ponto de partida, assume a capacidade de todos os sentidos e d suporte para a lgica potica das inauguraes. O novo sentido aparece a cada momento, em cada afirmao potica que o olhar, sentido ampliado, lhe oferece inmeras possibilidades. Os atos inaugurais congregam um alto nvel de exuberncia vital, de expressividade do que j tinha sido dado, concedido, para a novidade da prxima expresso, da prxima inaugurao. Ao percorrer o encadeamento ldico das inauguraes, ou os versos portadores das novidades, o conjunto se manifesta como um roteiro de alegres surpresas, de percursos apelativos e atraentes concretizando o jogo das novidades que se oferecem com espontaneidade e graa, com leveza e forte atrao, de tal forma que ao final do percurso o leitor se v aberto, outro e criativo tambm.

A lgica do poema produz outros atos criativos e o primeiro a auto-percepo modificada do prprio leitor que se deixou inaugurar pelo ldico caminho inaugural do poema.

A inaugurao central Olhos furados de nascentes mostra que o sentido do olhar em seu estado de amplitude se recria e torna-se fonte de tantas percepes: furado de nascentes!' Normalmente, na lgica racional, furado para dentro, para se ver o de dentro; aqui o olhar se estende pelos jorros criativos que furam os olhos da lgica e oferecem outras percepes. Alm disso, na mitologia, dipo Rei fura os prprios olhos e descobre outros sentidos, outra viso da realidade v mais que a aparncia. Ento o poeta fura os olhos por jorros de nascentes que oferecem outras vises, outras dimenses do real. Aqui a metfora sugere outros sentidos alm da lgica racional. Com os olhos furados ver em profundidade de nascentes para criar, no s constatar ou perceber o poeta supera o mito grego que somente props compreenso e novas vises do real. Aqui o poeta jorra em nascentes criativas, em vises capazes de inaugurar os dizeres no ditos nem sugeridos que gritam por nascentes. O olhar do poeta se auto-define como olhar de diversas vertentes criativas para alm do que j se imaginou. Da sua arte ser original.

O poema prope sua teoria potica e a concretiza:

- O poeta / menino inaugura a cor das vogais. Viu a tarde latejar de andorinhas (pulsar de vida) Viu tambm a solido da gara.
- Viu o lagarto que lambia o lado azul do silncio (viu a cor das vogais).
- Achou na beira do rio uma pedra canora (viu, o olhar se ofereceu aos ouvidos).
- Atrelava palavras de rebanhos diferentes para ofender a lgica do idioma (contra a gramtica racionalizada).
- Brinca com a lgica racional: pedra canora causa!' Causa o qu? Som? Barulho? Tropeo? Alicerce? Afinal uma chance para o leitor criar tambm.
- O passarinho que se oferecia ao menino sonhava ( O menino j contaminara o pssaro que se tornara criador) Causa. Tornara-se capaz de tudo!
- E o menino incorpora-se ao mundo excluindo-se do domnio do racional: ignorava-se como uma pedra se ignora!'

Essa ltima metfora a expresso mxima do poeta que assume o ato criador, nele aconteceu a entrega total. No mais se v, somente se ignora para perder o uso da razo lgico-reflexiva, pois seu olhar dinamizado pelo liberdade e pela forte capacidade de imaginar suplantou a repetio somente se v em estado de novidade. o mesmo sempre se reinaugurando. A palavra pedra pode assim se desprender do que lhe atriburam ou lhe fixaram como significado para poder ser ela em um estado de outros significados.

O poeta/menino est no mximo de sua capacidade criativa, perde-se para ser sempre o outro, a reinaugurao constante de si mesmo. O percurso potico poder ser reinventado porque ele j perdeu a memria da fixao do sentido, poder criar continuamente, pois ter percepes de si e do mundo nunca repetidas, pois sua plataforma de olhar e sua plataforma de percepo sero sempre novas.

Esse o pice do poeta, no repetir, estar em estado de novidade, de percepo criativa constante, de si e do mundo. Arrebatado pelo dinamismo criador o poeta s , s se percebe na novidade, no ato criador.

No poderia haver poema que melhor exemplificasse o que potica e poema, alm de mostrar como um processo criador indicando o efeito em quem o assume: o poema inaugura o mundo, as coisas, as pessoas e o prprio poeta!

6.

Desde sempre parece que ele fora preposto a pssaro.
Mas no tinha preparatrios de uma rvore
Pra merecer no seu corpo ternuras de gorjeios.
Ningum de ns, na verdade, tinha fora de fonte.
Ningum era incio de nada.
A gente pintava nas pedras a voz.
E o que dava santidade s nossas palavras era
a cano do ver!
Trabalho nobre alis mas sem explicao
Tal como costurar sem agulha e sem pano.
Na verdade na verdade
Os passarinhos que botavam primavera nas palavras.

Continua a proposta, concretizada neste poema, da construo potica pela auto-entrega do poeta aos objetos, s coisas, s palavras, emprestando o seu ser ao ser das coisas para que elas possam expressar as suas vozes. Torna-se uma batalha para o poeta que caminha e se expes na abrangncia do caminho ou percurso proposto: o olhar.

Entregue, completamente, ao aprendizado da linguagem das coisas e dos pssaros, anela merecer em seu corpo ternuras de gorjeios, porm no passara pela instncia de ser rvore. Vale dizer, para adquirir no corpo as ternuras dos gorjeios, era necessrio ter adquirido a habilidade de se entregar completamente, a ponto de ser rvore. Uma dimenso inusitada e sem linguagem lgica para dizer que ser rvore perder-se, entregar-se ao processo para ser fonte criadora e inaugural. Dessa forma o poema teoriza o percurso da invenes, das inauguraes poticas. No basta ter o desejo sem se desprender, sem se libertar da prpria voz para ser apropriado pelas vozes e estados das coisas, e no caso, de ser rvore'.

Neste poema acontece a confisso do empobrecimento da criao potica: Ningum tinha fora de fonte, Ningum era incio de nada! Uma vez constatado o estado de indigncia do fluxo criador ou inaugural, o poeta parte para outra dimenso do processo potico assumido.

O que dava santidade s nossas palavras era a cano do ver!

O tema da santidade abre um horizonte amplo: S Deus santo! Existem pessoas santas por aproximao ou por imitao ou por semelhana, quando assumem em sua limitao uma parte ou participa do fluxo criador (Santidade) de Deus. Santos criam, inventam, inauguram estgios de entrega e amor; criam por generosidade horizontes de integridade interior e beleza, testemunham a entrega do amor criativo. Assim so os santos e Deus sempre inaugura tudo. Santidade a novidade da criao, do elo participativo do poder criador de Deus. Ele inaugura e o homem pode inaugurar tambm, dependendo de sua capacidade de entrega, de se deixar iluminar por um poder fontal que assumido torna o homem tambm fontal.

Aqui o processo de olhar e ver abre uma perspectiva de coerncia no processo do poema desde que a inaugurao tenha algo de pressuposto, de materialidade da palavra. Sendo vista, recebe outros sentidos inaugurais.

O poeta se entrega ao processo de cano do ver, mas no se entende titubeia entre a lucidez prpria e a entrega luz/processo criador da santidade. Confessa que no entende, no sabe explicar.

Ao constatar que a santidade inaugural a partir de um pressuposto a palavra salta e proclama-se indigente passando a fonte para os passarinhos.

Estes sim, botavam primavera nas palavras Estes levavam as palavras aos brotos, aos recomeos, aos rebentos de uma nova expresso, de um novo sentido. A fonte dos brotos, do renascer das palavras tinha origem nos pssaros. O poeta encolhera-se e no quis se entregar santidade da cano do olhar!'

Conclui-se que as coisas, os pssaros no amedrontam a capacidade de entrega do poeta, so cmplices. Quando se trata de um fluxo inaugural mais lmpido, sem substrato, o poeta recua e escolhe a fonte das coisas. Quando a oferta de uma entrega ao prprio jorro inaugurante a santidade lhe oferecido, ele procura a fonte cuja dinamicidade ele conhece. So escolhas processuais e poticas, ambas inauguram.

7.

A turma viu uma perna de formiga, desprezada,
dentro do mato. Era uma coisa para ns muito
importante. A perna se mexia ainda. Eu diria que
aquela perna, desprezada, e que ainda se mexia,
estava procurando a outra parte do seu corpo,
que deveria estar por perto. Acho que o resto da
formiga, naquela altura do sol, j estaria dentro
do formigueiro sendo velada. Ou talvez o resto
do corpo estaria a procurar aquela perna
desprezada. Ningum viu o que foi que produziu
aquela desunio do corpo com a perna desprezada.
Algumas pessoas passavam por ali, naquele trato
de terra, e ningum viu a perna desprezada. Todos
samos a procurar o pedao principal da formiga.
Porque pensando bem o resto da formiga era a
perna desprezada. Fomos beira do rio mas s
encontramos pedaos de folhas verdes carregados
por novas formigas. Achamos a seguir que as novas
formigas que carregavam as folhas nos ombros, elas
estavam indo para assistir, no formigueiro, ao
velrio da outra parte da formiga. Mas a gente
resolveu por antes tomar um banho de rio.

Poema em prosa potica?

Continua o mesmo argumento de o poeta atingir o ponto inaugural.

O centro do poema parte de uma coisa muito insignificante e difcil de ser individualizada em meio ao universo/cenrio apresentado: uma perna de formiga, desprezada, dentro do mato.

Tal achado foi julgado muito importante pela turma, pois ainda se mexia e de acordo com a ludicidade infantil pensavam que ela procurava o resto de seu corpo. Ou ainda este corpo estaria procurando a prpria perna.

As conjecturas ldicas tecem o corpo do poema e fazem tudo girar ao redor de uma coisa minscula mas julgada muito importante pela turma: a perna desprezada e sem corpo.

Para aumentar a importncia do desimportante, afirma que vrias pessoas passavam por ali e ningum percebia o achado da turma: a perna da formiga.

O desimportante move a turma a descobrir as outras formigas, mas com o jogo completo de pernas. Inauguravam suposies sobre as formigas: iam as formigas, para o velrio da formiga sem perna.?

Quando a turma percebeu que no iam resolver a questo da perna da formiga desprezada quando o mundo das formigas ia complicar e tornar-se importante para eles, tomaram uma deciso bem ldica: vamos tomar banho no rio!

Assim o desimportante teve seu foco, moveu o jogo e retornou a seu ritmo de desimportante; ao passo que a turma escolheu o trivial, outro desimportante, sem complicao: tomar banho no rio, onde tudo gratuito e nada se repete. Ali no banho, cada movimento ou posio na gua sensivelmente mutvel e inaugurvel.

8.

Fomos rever o poste.
O mesmo poste de quando a gente brincava de pique
e de esconder.
Agora ele estava to verdinho!
O corpo recoberto de limo e borboletas.
Eu quis filmar o abandono do poste.
O seu estar parado.
O seu no ter voz.
O seu no ter sequer mos para se pronunciar com
as mos.
Penso que a natureza o adotara em rvore.
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos de passarinhos
que um dia teriam cantado entre as suas folhas.
Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.
Mas o mato era mudo.
Agora o poste se inclina para o cho como algum
que procurasse o cho para repouso.
Tivemos saudades de ns.

Este poema apresenta a volta infncia como estado inaugural contnuo, ao jogo com expresso do fortuito e ldico. O jogo tira a pessoa do compromisso com o reflexivo, com a lgica racional.

A raiz do ldico, com referncia da entrega no jogo , no poema, o Poste, ao redor do qual os jogos aconteciam no tempo inaugural. Tudo, no jogo dos infantes, inaugural porque, em cada instante, ningum aprisiona o acontecimento. Qualquer posio ou caminho ser novo a cada passo.

O tempo reflexivo e a idade tornaram-no(o poste) precrio, em estado de abandono pela falta de vida inaugural ao seu redor.

Est, o poste, em estado de inanio = limo verde, borboletas... que somente se inauguram em seus vos enfeitados... ao redor do poste agora tudo est parado e sem vida.

O poeta se surpreende com o estado de inanio do poste: O seu estar parado / O seu no ter voz / no ter mais contato ou referncia das mos!. Alis as mos teriam sua voz e seu valor inaugural de deixar livre ou terminar o jogo mudando de condio: livre/preso.

O poeta inaugura o mundo possvel, futurvel que poderia ter tido: a voz das mos seria substituda pelos arrulhos dos pssaros pousados entre suas folhas. A ternura dos arrulhos sonhados / inaugurados tambm se constituem na fugacidade do imaginar. A mudez retomada do poste inaugura a sua verdade crua: o mato era mudo. Ento o poeta mostra-lhe a vocao atual: o poste se inclina para o cho como algum que procurasse o cho para repouso!

Tivemos saudades de ns inclui-se no fecho do poema a saudade do brilho do poste e da vida ao seu redor. O inaugural proporcionou um retorno infncia como tempo ideal para se viver no enlevo ldico, na sucesso do impensado e do no calculado. Vivia-se a entrega ao momento que tecia a alegria e a expanso inaugural de cada um na imprevisibilidade do inocente jogo de meninos. Estes se encantavam tendo como referncia o poste. Hoje o carcomido poste trouxe a beleza do tempo em que a entrega vida acontecia sem pejo. Em tal poca a vida resplandeceu... Agora sua memria a trouxe com sentimento de saudade.

9.

E agora
que fazer
com esta manh desabrochada a pssaros?

O poema celebra a vida em flor viva, de pssaros; estes so capazes de escrever aquilo que ainda no foi vivido e reinventar a vida a cada momento. Dessa forma a manh de per si j um florescimento e aqui se abre em flor de pssaros que embelezam o dia e o mundo. O encanto do poeta no tem resposta, fica meio perplexo e interroga-se com vontade de segurar o momento. Assim a pessoa se expe ao encanto, deixa-se enlevar e percebe que o momento se eterniza dentro dele, mas no o pode reter, ser sempre esta manh desabrochada a pssaros? Sempre perdurar a interrogao no anseio de a passar a todos que no a viram desabrochar. Somente o poema ser o registro desta beleza.

Segunda Parte

DESENHOS DE UMA VOZ

1.

SE ACHANTE
Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche no come goiaba.)
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idneo para
mangue.

O poema mostra as conjecturas do poeta sobre a honestidade de um caranguejo se achante'.

- a novidade a voz do poeta emprestada ao caranguejo mas sob o ponto de vista e perspectiva do poeta.

- Se achante o reverso do louvor do poeta majestade do caranguejo. Devido a essa majestade, o poeta desdobra-se em explicit-la.

No poema est clara a tentativa de o poeta solenizar o que desprezvel a majestade de um caranguejo.

Assim o caranguejo:

- idneo para flor
- andava sem olhar de lado
- montado num coche de princesa
- andava devagar/ Conforme o protocolo (solene para) receber aplausos
- Muito achante demais.
- Nem parou para comer goiaba.
- Ia como se fosse tomar posse de deputado.
- Acabou a fantasia O coche quebrou!

Aps emprestar ao caranguejo todos os trejeitos de pessoas solenes e dadas ao mundo das passarelas e aplausos, ao mundo das pessoas movidas a aplausos...

Conclui-se que: O caranguejo (devolvido a si mesmo) voltou a ser idneo para o mangue sua verdadeira glorificao!

Neste poema aparece a voz do poeta para proclamar a lealdade e idoneidade da beleza de cada coisa com a configurao do seu meio. Ser esplendorosa para quem souber ver e proclamar essa beleza de que todas as coisas, em seu meio, so portadoras. E o poeta diz a beleza de um caranguejo se achante pra valer.

2.

SONATA AO LUAR

Sombra Boa no tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoo do cachorro
e atiou:
Vai, Ramela passa!
Ramela alcanou a cozinha num timo
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

uma histria de amor em tempo de lua arta' Lua arta uma expresso da cultura.

O cachorro tornou-se um veculo' muito interessante ou correio.

Quanto o tempo se completou a sinfonia chegou ao auge E o amor se fez.

Sonata feita de quadros e tempos: tempos reais, tempos supostos e tempos intensos.

Estrutura da Sonata:

- Introduo: Sombra Boa no tinha e-mail. Escreveu um bilhete;
- Tema recorrente ou contedo: Maria me espera debaixo do ingazeiro/ quando a lua estiver arta.
- Variao do tema ou tempo de espera ou de suspiro ou um dueto: amarrou o bilhete no pescoo do cachorro/ e atiou: / Vai Ramela, passa!/ Ramela alcanou a cozinha num timo!
- Volta ao tema central/principal, com intensidade: Maria leu e sorriu.
- Intermezzo lrico addaggio choroso: Quando a lua ficou arta Maria estava.
- Volta ao tema central Vibrante e Fortssimo: E o amor se fez.
- Final suave e amoroso: Sob um luar sem defeito de abril.

Msica da vida: - a voz da engenhosidade
- a voz do amor
- a voz cmplice da natureza (luar) embelezando o amor.

3.

EMAS

Elas ficam flanando no ptio da fazenda.
A gente sabe que as emas comem garrafas
abotoaduras freios pedras alicates e tais.
Nossa me tinha medo que uma ema
Comesse nosso cobertor de dormir e os
vidros de arnica da v.
Eu tinha vontade de botar cabresto em uma
ema
E sair pelos campos montado na bicha a
correr.
A gente sabia que a ema quase voa no correr.
Que a ema racha o vento no correr.
Eu tinha era vontade de rachar o vento
no correr.

A voz das emas a voz do poeta ante o vento!

- Elas ficam flanando no ptio da fazenda.
- Mostra o que so as emas e suas proezas de digesto.
- A voz do poeta, ele quer flanar' numa ema. Apropria-se da voz da ema no vento.
- Velocidade da ema: ...a ema quase voa ao correr/ Que a ema racha o vento no correr.

Apropriao da voz da ema pelo poeta: Eu tinha vontade de rachar o vento no correr. Assim a ema torna-se o termo de comparao capaz de expressar o grande desejo do poeta, ou superar o vento como as emas fazem, racham o vento. O poeta quer correr, voar, ser mais veloz que o vento.

De fato as emas deram suporte imaginao do poeta, so fortes, flanam, poderosas na digesto, capazes e rachar o vento. Nelas se materializou a voz do sonho do poeta: ser muito veloz!

4.

VENTO

Se a gente jogar uma pedra no vento
Ele nem olha para trs.
Se a gente atacar o vento com enxada
Ele nem sai sangue da bunda.
Ele no di nada.
Vento no tem tripa.
Se a gente enfiar uma faca no vento
Ele nem faz ui.
A gente estudou no Colgio que vento
o ar em movimento.
E que o ar em movimento vento.
Eu quis uma vez implantar uma costela
no vento.
A costela no parava nem.
Hoje eu tasquei uma pedra no organismo
do vento.
Depois me ensinaram que vento no tem
organismo.
Fiquei estudado.

O poema mostra o confronto entre o ldico e o racional. Estrutura-se na luta entre as percepes e o raciocnio.

O infante retratado em aes concretas e prprias da percepo material ou coisal como do feitio do poeta. Esse encontro de opostos perceptivos poetizado justamente valendo-se de um elemento ambguo que se deixa perceber, mas no se v, somente se sente e constatado sensorialmente. Da mesma forma a definio racional do vento clara, mas no constatada, a no ser sensorialmente.

Nessa circunstncia, o infante tenta de vrias formas constatar a materialidade do vento; v todas as suas tentativas se frustrarem. Ao fim d-se por vencido e se proclama vencido pelo racional: Fiquei estudado!

A cada ao proposta pelo poeta, aguardava-se um resultado ou reao do vento. Nenhuma, conforme o poeta, se verificou. Nesse processo acontece uma conceituao potica do vento:

Ele existe mas no olha para trs quando atingido por uma pedra.
Atingido por uma enxadada no sai sangue.
No sente dor.
No tem tripa.
No tem corpo sensvel a facadas.
Ele ar em movimento.
Ele no aceita o suporte de uma costela.
Mesmo assim o poeta o apedrejou sem resultado.
Disseram-lhe que o vento no tem organismo.

Mas o vento existe e dele o poeta extraiu esse poema! No lhe escutou a voz porque no tem organismo. No pode falar por si mesmo somente quando em atrito com obstculos como as rvores ou salincias do terreno.

Confessa o poeta que a racionalidade acabou possuindo-o: Fiquei estudado!

5.

ANTNIO CARANCHO

Me chamam de Antnio Carancho:
Carancho por maneira que eu ando de p virado
Moda carancho mesmo.
Pra bobo eu no sou condicionado.
Sou mais garantido de cantor.
Porm meu canto fechado.
Lastreadamente sou Antnio Severo dos Santos.
Carancho de caoada.
Tenho vareios no olhar as coisas.
Chego de ver vaidade nas garas.
Eu ouo a fonte dos tontos.
Pedra tem inveja aos lrios.
Isso eu sei de espiar.
Eu combino melhor com rvores.
Totalmente ao senhor eu falo:
Quem ouve a fonte dos tontos no cabe mais
dentro dele.
Outra pessoa desabre.

A voz do poema define o poeta ou Antnio Carancho. Neste poema constitutivo, a teoria do poema explicita o seu autor.

Proclama-se: Antnio Carancho. Carancho por causa da ave de rapina de p virado' e jeito semelhante ao andar da ave.

Proclama-se cantor de um canto fechado, e tenho vareios no olhar as coisas. Por Vareios subentendem-se as diferenas, as modalidades e a capacidade de um olhar descomum que v outras realidades no normalmente percebidas pelos mortais comuns!

O poeta exemplifica os vareios no olhar as coisas:

- Chego de ver vaidade nas garas.
- Eu ouo a fonte dos tontos.
- Pedra tem inveja aos lrios.

So realidades transferidas s coisas, percebidas somente por um olhar especial que v alm das aparncias, que capta os revrberos das coisas em suas relaes coisais.

Tambm o poeta Antnio Carancho se revela em suas preferncias:

- Eu combino melhor com rvores.

E estabelece o limite ou parmetro ideal para a percepo do Belo: ouvir a fonte dos tontos!; quem a chegar no cabe mais dentro dele! Em outras palavras, a fonte dos tontos, segundo o poeta, tem propriedades engrandecedoras da realidade oculta no acessvel razo. Justamente afirma o poeta, na fonte dos tontos jorra outra gua. Pois os tontos tm a propriedade de inaugurar as coisas conforme a prpria fonte, a tontice. Esta julgada como bobeira pelo justo julgar racional. O poeta que acessou ou abeirou-se da fonte da Tontice, percebe o mundo, as coisas, um universo diversificado e ilgico, mas capaz de transbordar e engrandecer, pois afirma seu ser. Sua capacidade de inaugurar extrapola, pois cria ou v sempre as mesmas coisas em outra perspectiva e o mundo cresce at o poeta concluir: No (se) cabe mais dentro dele!

Essa perspectiva de abeirar-se fonte dos tontos um achado do poeta, sua grande descoberta na variabilidade de ir alm do real ou das aparncias racionais das coisas.

O mundo jorrante da fonte dos tontos tem a propriedade inaugural vertiginosa, vai alm de todos os seus limites e extravasa, expande o seu mundo e o seu eu'. Abeirar-se da fora da fonte dos tontos transforma o eu' do poeta, aumenta sua capacidade de percepo a ponto de ele no mais se perceber como era, outro. A fonte dos tontos o transforma em seu olhar e ele construdo para estar em estado de expanso para a beleza ldica do universo e das coisas a partir de seu percurso potico.

E ele, no se identificando mais consigo mesmo, afirma que outro e que o poema o construiu; tornou-se outro ao percorrer o universo inaugurado pela gua da fonte dos tontos.

Assim concluiu sua inaugurao fechando o poema: OUTRA PESSOA DESABRE!

O poema contm a teoria em seu caminho inaugural. A proposta do acesso Fonte dos Tontos criou o autor, o eu' do poeta.

O que a FONTE DOS TONTOS no poema?

Vrios traos compem a resposta:

- Fonte dos Tontos o campo oposto ao racional e ao fotografvel;
- Fonte dos Tontos um campo no perceptvel narrativa linear, mas habitada pelo surpreendente, pelo inesperado e pelo ldico;
- Fonte dos Tontos o lado no manifesto da linearidade das palavras, das sintaxes.
- Fonte dos Tontos o desprezvel, o abjeto, tudo que a pessoa comum no aprecia.
- Fonte dos Tontos o universo das coisas, dos bichos, das rvores, dos vermes insignificantes, dos insetos, dos moluscos nojentos...
- Fonte dos Tontos a expressividade dos pequenos, dos sem voz, das coisas j usadas e que foram jogadas fora.
- Fonte dos Tontos a falta de lgica para a racionalidade que no deixa sair dos trilhos, pois ela no tem trilhos.
- Fonte dos Tontos a oferta das coisas, dos pssaros, dos insetos ao homem desprezvel tambm, ao imbecil, ao fora do prumo, ao no apto ao fechamento das idias racionais; em compensao aberto s surpresas, s solenidades dos pequenos e desprezveis, aos escondidos das coisas, s sintaxes inaugurantes e s imagens de contra-mo.

Todo esse conjunto exige um eu capaz de ser acessado, de entrar na clareira do ser objeto na suspeita de sua reinveno. Quando opera o estado de viglia, o poeta atravessa para o outro universo e construdo pela sucesso inaugural desses objetos, situaes e percepes novas. Afinal outro homem, outra pessoa, pois Outra pessoa desabre!

Para isso ele venceu o percurso que o poema lhe oferece:

- Antnio Carancho
- no bobo
- tenho voz sou garantido de cantor/ Mas meu canto fechado!
- Tenho vareios no olhar as coisas e vejo: vaidade nas garas, ouo a Fonte dos Tontos, a inveja da pedra
- combino bem as rvores
- ouo a Fonte dos Tontos,

E ao final do percurso, est repleto pela Fonte dos Tontos e est construdo outra pessoa. Seu eu brotou no percurso apresentado pelo poema em etapas distintas e constitutivas.

Nota-se que o poema se estende com percurso que por sua vez tambm se apresenta no prprio desdobramento como oferta de cada parte que se coordena na dialtica e complementaridade da parte com o todo; sendo que o conjunto, o todo, atrai e congrega as partes, as etapas do percurso do poema de acordo com a dynamis' que traz e sustenta a fonte do sentido. Dessa forma, as partes, os conjuntos de versos se coadunam entre si pela fora que os conduz ao todo que sustenta e apresenta o sentido do poema.

O sentido do poema Antnio Carancho disposto nas partes para surgir com evidente estruturao depois de receber a contribuio das partes de forma a realar a concluso e o seu sentido mximo: a construo das percepes e constatao, mediante a entrega do poeta ao processo antecipa o desenlace bem disposto; ao fim o poeta foi construdo pelo percurso. Por outro lado, tambm a teoria potica se construiu na exclusividade do percurso suscitado pelo poema!

6.

NA GUERRA

Prefeito despachou estafeta a cavalo com
uma carta ao Imperador.
A carta anunciava a invaso da cidade por
tropas paraguaias
E pedia recursos.
Dois meses depois o estafeta entregava a
carta ao Imperador.
Quando os recursos chegaram os paraguaios
no estavam mais.
Levaram quinze moas lous e um pouco
de mantimentos
Para comer na viagem.
Acho que comeram tudo.
(Corumb uma cidade cuja populao
bem mesclada de paraguaios.)

Poema narrativa e piada. Jocosamente o poema constri, valendo-se da histria de uma narrativa com forte carga de ambigidade; centraliza-se o sentido no verbo comer - Tambm quer explicar a origem de tantos corumbaenses de ascendncia paraguaia.

A leveza do poema une as partes e sustenta a evidente concluso histrica!

7.

NO STIO

A gente morava no Stio, duas lguas da Capital.
Na estrada de terra que passava no Stio s tinha
trs vacas vadias, trs cabras vadias, um
bandarra velho e a gua Floripa.
Meu av queria passear na Capital.
Mandou encilhar Floripa. E saiu.
No meio da estrada o av desamontou para verter
gua. Verteu.
No intervalo Floripa virou a cara pro lado do
Stio. E parou.
Meu av amontou de novo e apertou a marcha.
Logo Floripa estacou em frente de nossa casa.
Meu av entrou e disse: Gostei de ver a Capital.
J tem at vaca na rua!
fruto de progresso.
Floripa estava parece que rindo na porta.

De forma semelhante ao poema anterior, o poeta constri o percurso deste a partir da ambigidade da expresso virar a cara e determinar o fecho do poema conforme s circunstncias da viagem do av que a tornaram meio histrinica.

Talvez outra expresso que alicera o sentido hlare do poema surge na afirmao do av:

-Gostei de ver a capital!. Essa circunstncia tem o seu valor correlacionado cultura rural do Pantanal em tempo de fundaes das fazendas. poca em que predominando uma cultura rural, ver a capital! serviria para confrontar e suscitar intercmbio de perspectivas. O poema conota essas perspectivas culturais.

8.

OS DOIS

Eu sou dois seres.
O primeiro fruto do amor de Joo e Alice.
O segundo letral:
E fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valry.
O primeiro est aqui de unha, roupa, chapu
e vaidades.
O segundo est aqui em letras, slabas, vaidades
Frases.
E aceitamos que voc empregue o seu amor em ns.

Este poema, em tom jocoso, descreve ou apresenta como o autor se v.

No confronto consigo mesmo, ser poeta aponta duas vertentes e tenta explicitar a constituio de cada uma. Apresenta suas origens paternas e suas origens poticas interligadas indistintamente em seu ser, em sua pessoa. Pai e me lhe deram a vida humana; talvez Paul Valry lhe tenha dado o rumo da construo de seu ser poeta: uma natureza que pensa por imagens.

O filho de Joo e de Alice se v como pessoa qualquer. De roupa e chapu e vaidades. Ao passo que descendente de Paul Valry ou das imagens, se v cheio de letras e palavras. Ambos tm em comum uma propriedade que no se v mas confere qualidade e postura, ambos esto cheios de vaidades.

Esse elo entre os dois segmentos do poeta traz-lhe consistncia e fortalece-lhe o desejo de ser forte em ambos: ser um homem vaidoso e um poeta vaidoso. A vaidade sua consistncia.

Ele o confessa com leveza e muita ironia. Neste ato v-se tambm com complacncia e agrado; no hesita e reitera a fora da vaidade humana e potica que o anima: Aceitamos que voc empregue o seu amor em ns!

Neste poema existe uma confisso velada da vaidade que anima o poeta em especial a vaidade surge, alimenta-se do reconhecimento obtido e do esperado.

Tanto o homem como o poeta confessam-se vaidosos. Assume a vaidade de modo ambguo e universal; declara-se tambm vaidoso, mas com uma pitada de auto-ironia!

9.

TEOLOGIA DO TRASTE

As coisas jogadas fora por motivo de traste
so alvo da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas so pessoas lxicas pobres porm concretas.
Se voc jogar na terra uma lata por motivo de
traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idias.
Porque as idias, sendo objetos concebidos pelo
esprito, elas so abstratas.
E, se voc jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ningum quer pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pelas ruas moda um caminho de areia.
E as idias, por ser um objeto abstrato concebido
pelo esprito, no d para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.

Idias so a luz do esprito a gente sabe. H idias luminosas a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atmica, a bomba
atmica, a bomba atm.................................
........................................................... Agora
eu queria que os vermes iluminassem.
Que os trastes iluminassem.

No ttulo estampam-se os horizontes que o poeta quer para o poema: a matria mais nfima e a transcendncia. Se o traste recebe esta denominao oriunda do cenrio das atividades do homem quando se posiciona perante si, perante a natureza e perante os outros homens, com algo que no mais vai lhe servir. Assim o homem capaz de se construir como tal, referencia-se tambm com algo que est alm dele e a que atribui todo o poder que o transcende. Dessa forma esse horizonte que transcende tomado e integrado ao traste, a tudo aquilo que o homem j desprezou. Assim se compreende o ttulo TEOLOGIA DO TRASTE Deus e o traste. Para o homem racional que constri as idias e os mundos a partir do abstrato, ele, poeta, contrape at o transcendente como imanente ao Traste. Aquilo que desprezvel ao homem cujo padro principal seja a medida da utilidade, ele contrape o desprezvel tomado pelo transcendente. Teologia do Traste aproxima os opostos e dignifica o traste conferindo-lhe sublimidade sua concretude desprezvel; para o poeta acontece assim a reversibilidade dos opostos: o que desprezvel torna-se sublime e consagrado como tal pelo poder de Deus que, principalmente e ali, est presente conferindo a sublimidade das mudanas e transformaes visveis no racionais. Para o poeta acontece a reversibilidade dos padres: o racional pode ser poderoso mas no consegue ter a fora do traste em contnua mutao visvel.

Tudo o que traste objeto da estima do poeta que confessa sua fraqueza pelas latas em estado de deteriorao. Define-as ironicamente a partir dos conceitos racionais: Latas so pessoas lxicas pobres porm concretas! Aqui a palavra que segura o sentido Pessoas lxicas como sendo pessoas capazes de estabelecer relaes e capazes de criar sentidos ou significados a partir da razo, ao se referirem s latas, se empobrecem, uma vez que no sabem tirar metforas do concreto.

As pessoas que gostam de latas so os amigos do poeta por serem simples: mendigos, cozinheiras ou poetas. Esse o horizonte de valor proposto pelo poeta. Proclama outra capacidade inerente s latas: elas so muito suficientes! ou mais suficientes que as idias. Seguindo o poeta o seu raciocnio, demonstra que os objetos concebidos pelo esprito no podem ser pegos pelos mendigos ou cozinheiras, ao passo que as latas so melhores que as idias porque A gente pega uma lata, enche de areia e sai puxando pelas ruas moda um caminho de areia. Ao passo que as idias no podem ser tomadas e serem transformadas como uma lata que pode virar ou se transformar em um caminho de areia. O abstrato das idias uma vez estabelecido no se muda ou se transforma, ao passo que uma lata pode se transformar naquilo que um inventor como o poeta a quiser transformar. Assim declara o poeta: Por isso eu acho a lata mais suficiente... pode-se fazer com ela um mundo ldico e de felicidade. Ao passo que as idias utilitrias podem ser o bero de uma bomba atmica, o que muito desastroso.

Por outro lado, afirma que Idias so a luz do esprito e imediatamente contrape sua posio quanto luz do esprito: Eu queria que os vermes iluminassem./ Que os trastes iluminassem. Pois estes no construiriam, mesmo iluminados, a bomba atmica. Os vermes sabem oferecem um mundo mais transformador e iluminado. Inaugurado em muita luz na simplicidade que um traste capaz de anunciar.

O poeta aqui retoma o seu tema predileto em livros anteriores: tudo o que for desprezvel bom para a poesia. Assim as pequenas coisas, o traste e os objetos desprezveis so timos para um sentido muito amplo da vida, servem para se contemplar a criao, a inveno potica.

10.

GARA

A palavra gara em meu perceber bela.
No seja s pela elegncia da ave.
H tambm a beleza letral.
O corpo snico da palavra
E o corpo nveo da ave
Se comungam.
No sei se passo por tant dizendo isso.
Olhando a gara-ave e a palavra gara
Sofro uma espcie de encantamento potico.

O poema "GARA" exemplifica a relao do poeta com as palavras. Usa a natureza, a prpria ave como ponto referencial da palavra; a elegncia da ave se consubstancia na beleza letral' da palavra. Para o poeta as belezas se comungam e transferem a arte, a beleza ou leveza do ser para o ser do poema com a elegncia e altivez de uma ave/gara.

Ao descobrir a integrao do belo no verbo e na ave o poeta confessa seu estado de gozo esttico ou encantamento. Tanto uma como a outra so portadoras de uma configurao com que preenchem as exigncias da verdade de suas belezas ou de uma nica beleza simbitico-verbal.

Para que esse encantamento acontecesse alguns traos se intercalam e compem o cenrio integrado expressivo do belo. Se por um lado a gara/ave se lana ao olhar com altivez, postura e leveza, por outro apresenta presteza, ateno, elegncia e certa ferocidade com que, atravs do bico longo e pontiagudo, ataca a presa com rapidez, preciso e elegncia. A gara permanece em sua postura de distino, de solenidade e de traos muito bem precisos, no se inserindo no cenrio com simulaes, ao contrrio, com sua silhueta muito clara e talhada, escultural.

Da mesma forma a palavra GARA tem uma base bem clara e definida os sons de suas duas vogais elementares e abertas; esses as' do suporte palavra em termos de extenso e abertura. A pronncia da palavra sustm a boca em estado de abertura e a imaginao em ngulo que abarque o universo ou o horizonte. Da mesma forma o g' minsculo combina com a esbelteza e altura anatmica da ave; o som do ' pode indicar um apoio e suavidade, ao passo que o r' pode indicar a sua qualidade de rapina. O r' combina com capacidade de matar para sobreviver, associa-se qualidade de rapina e integra o

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