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Pomba Enamorada ou Uma história de amor (Conto), de Lygia Fagundes Telles


Este conto faz parte do livro Seminário de Ratos, e apresenta a figura masculina como grosseira. Numa narrativa em terceira pessoa, acompanhamos as desventuras do decorrer do tempo de uma mulher que se apaixona, ainda na adolescência, por uma figura ríspida, Antenor. É uma obsessão que vai até a velhice.

Nos contos de Lygia Fagundes Telles lêem-se as transformações que afetam a classe média brasileira a partir dos anos cinqüenta e, mais especificamente, no período da ditadura militar.

A qualidade literária desses contos, em imagens visuais, sugere que a literatura é também uma forma de incursão nas almas e, catarticamente, um lenitivo para os conflitos individuais.

É sobre desajustes e desencontros que Lygia constrói seu universo ficcional. Seus contos, porém, não se restringem a documentar as vidas privadas da burguesia urbana. Trabalhando as emoções com a força da palavra, ela sofisticou a forma para criar um mundo em que os limites entre o vivido e o imaginado se confundem e tocam as dimensões do onírico.

José Saramago (escritor) classifica o conto como "uma verdadeira obra-prima". Apresenta a trajetória de uma mulher desprezada pelo amado.

O uso do termo "história" no subtítulo do conto funciona, assim, como uma espécie de informação antecipada ao leitor da personalidade da protagonista, cuja existência se pauta por ficções romanescas.

As bases dessa personalidade profundamente ficcionalizada ou, melhor, “folhetinizada”, o leitor vai conhecendo no decorrer do conto: é assídua expectadora de telenovelas e leitora voraz de folhetins.

Curiosamente, porém, é no trato com os santos que aflora todo um inusitado empirismo da personagem. Na maior “sem-cerimônia”, como diria um atento observador do brasileiro, a protagonista de “Pomba enamorada”, tendo acendido treze velas na “Igreja dos Enforcados”, quando chegou em casa pegou o Santo Antônio de gesso, tirou o filhinho dele, escondeu-o na gaveta da cômoda e avisou que enquanto Antenor não a procurasse, não o soltava nem lhe devolvia o menino.

Entretanto, se nos pareceu tão pragmática a sua franqueza e sem-cerimônia diante do santo, por outro lado, percebemos tal postura não se estender para além do trato com as coisas supra-terrenas.

Nesse sentido, numa demonstração máxima do platonismo que lhe impregna a personalidade, nossa heroína chega a recusar mesmo o que seria o estágio mais concreto da relação amorosa – o erotismo; quando do envio de diversas cartas ao amado, que escrevera sob a picante influência de um amigo, resolve postar apenas as que lhe pareceram mais adequadas a uma moça virgem, rasgando as eróticas. Folhetinescamente romântica, importa-lhe mais o sentimento do que o objeto dele.

Como contraponto ao platonismo da heroína, temos o caráter eminentemente pragmático do objeto de seu amor. Caráter em cuja configuração entra novamente em jogo a maestria literária de Lygia Fagundes Telles: se não lhe é possível demorar o foco narrativo numa personagem secundária, dadas as limitações espaciais do conto, fornece então ao leitor subsídios para que esboce ele próprio um nítido retrato dela.

Ao contrário da volátil protagonista, de quem não temos nenhuma referência evocativa pautada na realidade concreta – não sabemos nem mesmo seu verdadeiro nome! -, seu amado tem nome (Antenor) e endereço onde possa ser encontrado – uma oficina na “Praça Marechal Deodoro”, uma “loja de acessórios na Guaianazes esquina com a General Osório”, quando empregado e, finalmente, em sua própria oficina, na “São João”.

Com isso, Telles vai fornecendo ao leitor subsídios para que, pela via da comparação, possa ele deparar-se com outro aspecto do sentimento amoroso: o desencontro entre as aspirações romanescas daqueles que o idealizam excessivamente e a impossibilidade de sua concretização nesses termos.

Desencontro que, no caso da história de “Pomba enamorada”, dá-se pela incapacidade da protagonista de desromantizar sua concepção de amor, único expediente que a tornaria capaz de compreender, definitivamente, que não existe para além de Antenor mais ou menos do que aquilo que nele se mostra; que a humanidade do amado é muito menos nobre e elevada do que o plano e estereotipado estofo das personagens do seu mundo de folhetins e; enfim, a partir da compreensão do outro, a perceber e valorizar a própria humanidade.

Tudo começou no baile em que fora coroada a princesa da primavera, “já que o namorado da rainha tinha comprado todos os votos”, onde conheceu Antenor, homem que não “esquentava o rabo em nenhum emprego”, que lhe confessou que ela “é que devia ser a rainha porque a rainha é uma bela bosta”. Apesar de ter sido um encontro fugaz, este marcara a personagem, que, a partir de então, nunca mais esqueceu o sujeito.

Visto que neste baile Antenor saíra com uma “escurinha de frente única”, a personagem acabou tendo que se desdobrar para encontrar o paradeiro de seu amado. Acabou descobrindo-o trabalhando numa oficina e, ao visitá-lo, foi tratada de forma extremamente rude por Antenor. Entretanto, ela parece não se incomodar, visto que, após ligar várias vezes para seu trabalho “somente para ouvir sua voz”, acende diversas velas na ânsia de conquistar seu amor. Vendo que Antenor não se manifestava, ela começou a escrever cartas de amor sob o pseudônimo de Pomba Enamorada, mas, ainda assim, Antenor não se rendeu.

Na sua louca busca, Pomba Enamorada acaba se humilhando: telefonou, mandou Rôni (seu amigo homossexual) dar recados a Antenor, esperou-o na saída de seu serviço, fez macumba; mas nada fazia com que Antenor mudasse de idéia. Mas o golpe quase fatal viria com a notícia de que seu amado estava de casamento marcado. Quando ocorreu o casamento, ao invés de chorar, Pomba Enamorada “foi ao crediário Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo (…) e quando chegou em casa bebeu soda (cáustica)”. Após sair do hospital, cinco quilos mais magra, escreveu-lhe mais um bilhete contando que quase tinha morrido mas se arrependia do gesto tresloucado que lhe causara uma queimadura no queixo e outra na perna, que ia se casar com Gilvan que tinha sido muito bom no tempo em que esteve internada e que a perdoasse por tudo o que aconteceu.

Os anos passaram, e, apesar de casar, Pomba Enamorada nunca esqueceu de Antenor, sua grande paixão. Por exemplo, “no noivado da sua caçula Maria Aparecida, só por brincadeira, pediu que uma cigana deitasse as cartas e lesse seu futuro.” A cigana disse que um homem cujo nome iniciava com A, com cabelos grisalhos, costeleta, motorista de ônibus chegaria à rodoviária e mudaria sua vida por completo. Apesar de dizer que tudo era passado, Pomba Enamorada sabia que Antenor era motorista de ônibus e, no dia marcado, se dirigiu para a rodoviária.

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