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Porteira fechada (Trilogia Gaúcho a pé), de Cyro Martins

  • Data de publicação

A obra Porteira fechada, de Cyro Martins, faz parte da trilogia Gaúcho a pé, e configura a tirania econômica da classe dominante sobre a massa de trabalhadores rurais. O problema básico é o da distribuição, o da exploração das massas. A tirania econômica impõe um assalto à pequena estância; ocasiona a crise, que se traduz no êxodo contínuo às cidades do interior e à capital.

"Quero salientar que nunca quis contribuir com a ampliação da mentira do monarca das cochilas.
Nunca trarei o gaúcho como personagem em estilo ufanista. Pelo contrário, procurei ser realista, para poder ser útil de alguma forma"
(Cyro Martins).

A temática do Gaúcho a pé, cujo aspecto básico é a lenta expulsão dos peões da estância e sua inexorável pauperização nos cinturões da miséria das cidades da campanha, não foi apenas um achado casual. A temática surgiu a partir de um modo de viver os problemas, da sua circunstância social.

Como médico em São João Batista do Quaraí, cenário de todos os seus romances, conheceu de perto e muito cedo as diferenças sociais e a miséria instituída pelos latifúndios. Deste modo, na trilogia do Gaúcho a pé, composta de Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova, o autor faz uma operação dolorosa, um corte vertical e profundo nos problemas sócio-econômicos que afligem a campanha a partir das décadas de 1910 e 1920.

Apesar de ser um romance autônomo, que pode ser lido separadamente dos demais, continua a temática do gaúcho sem terra, iniciada em Sem rumo, e que vai terminar com Estrada nova.

Em Sem rumo o autor opõe de modo muito simples a idéia de um campo agradável e protetor, ainda que pobre, e de uma cidade desumana. Já em Porteira fechada, a crise econômica é causa direta dos desequilibrados, conflitos e traumas, da miséria de toda a família de João Guedes. Os personagens permanecem num total servilismo em relação ao sistema que lhes foi imposto.

Os temas de proporções épicas não correspondiam mais à realidade da desalentadora década de 1930/40. Os temas clássicos do regionalismo estavam gastos e estereotipados e Cyro Martins trouxe à tona a transição da estrutura econômica, política e social.

Poucos são os escritores que possuem uma visão tão clara de sua obra, dos limites e de suas potencialidades. Cyro Martins recriou um mundo, uma época de crise e de intensas transformações. Resgatou-a com empenho e talento e tornou-a viva para sempre. Além de perseverança e talento, Cyro Martins teve sorte: a vida deu-lhe cancha. E ele soube aproveitá-la.

Décio Freitas, na introdução que faz à Porteira fechada, comenta a consciência aguda de Cyro Martins em pintar com talento determinadas relações sociais de produção, uma das "mais belas tentativas de romance social já realizadas entre nós". Décio Freitas, neste mesmo prefácio, situa Cyro Martins entre os maiores romancistas rio-grandenses.

Contexto histórico da obra Porteira Fechada

O Rio Grande do Sul dos anos 30 vive uma época de intensa efervescência política, a Revolução de 30 coloca o estado no cenário político nacional com Getúlio Vargas, que após o golpe de 37, cria o Estado Novo, decretando uma Constituição fascista, fecha o Congresso, suspende as eleições, proíbe partidos e censura a imprensa.

No cenário econômico, o Rio Grande do Sul, ainda em expansão no setor agro-pastoril, perde força no mercado nacional, competindo com produtos do centro do país. Reduzida a renda familiar e atingida drasticamente a pequena propriedade, começa a aparecer o excedente populacional nas colônias. É o primeiro passo para o fluxo migratório e o surgimento dos sem-terra.

Fortalecidos, o latifúndio e a elite rural, dá-se início o Ciclo do gaúcho a Pé, um retirante das coxilhas que contribui com o cinturão de miséria na periferia dos centros urbanos. João Guedes é um típico representante do gaúcho marginalizado e submetido a uma degradação sócio-econômica e moral, que culmina com sua morte.

A obra de Cyro Martins mostra com fidelidade a sociedade injusta e desigual da época, alimentada pela política do coronelismo centralizador, colocando à margem do sistema uma leva de gaúchos empobrecidos e segregados sem perspectiva de sobrevivência.

É uma narrativa em terceira pessoa ambientada no município de Boa Ventura, região de fronteira do Rio Grande do Sul.

Resumo

O romance conta a história de João Guedes, um gaúcho pobre que vive com a família, numa pequena propriedade rural arrendada, no interior de Boa Ventura.
João Guedes e sua esposa Maria José, juntamente com seus cinco filhos, sobrevivem da precária renda de uma pequena propriedade rural, a qual repentinamente é vendida e incorporada a um latifúndio sob o domínio de um grande fazendeiro.

Inevitavelmente, João é forçado a sair em busca de um novo lugar para morar com a família. Muda-se para a periferia de Boa Ventura, lugar extremamente pobre e degradante, que acumula uma leva de miseráveis advindos da zona rural, vivendo em condições sub-humanas de degradação econômica e social. João Guedes, sem emprego e sem alternativa de sobrevivência, entrega-se ao vício do álcool, envolvendo-se no roubo de ovelhas, das quais comercializa os pelegos, para garantir a comida da família.

Com a conivência muda do desespero da esposa Maria José, João é levado pelas circunstâncias ao crime; até que é descoberto e denunciado por um grande fazendeiro, João é preso. Maria José busca socorro junto a uma prima rica, para tirar João da cadeia, esta tenta junto ao futuro genro que é advogado, mas este nega ajuda, por ser filho do fazendeiro denunciante de João Guedes e por que aguarda uma indicação de cargo político.

Dias depois João Guedes é julgado e condenado, mas ganha liberdade. Ao chegar em casa João encontra uma das filhas em fase final de tuberculose, dada às péssimas condições de vida da família. Sem condições de reagir, João se desfaz do cavalo e por fim da máquina de costura de Maria José. Sem saída para seus problemas e envergonhado pela degradação moral que se abateu em suas vidas, João Guedes é arrastado para a morte. Paralelamente o latifúndio e os grandes proprietários rurais prosperam com invernadas abarrotadas de gado, protegidos pelo poder dominante e pela política centralizadora e protetora das elites do campo.

Cyro Martins, com um toque irônico, conclui: "Que engorde dava aquela invernada! Para um fim de safra, então, já com caídas para o inverno, não havia campo que se igualasse. Seiscentos novilhos pastavam folgadamente entre as altas cercas de sete fios e madeirame de lei que a tapavam.

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