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Relatos de Sonhos e de Lutas, de Amílcar Neves


Relatos de Sonhos e de Lutas, de Amílcar Neves, reúne oito contos vigorosos e bem elaborados, nos quais o autor navega com fluidez entre a realidade e o sonho.

Amilcar Neves, com esta obra, amadurece sua textualidade e recompõe a literatura como um espesso mosaico que funde o onírico e o real, os espaços do aqui com o do acolá, os tempos imprecisos do antes, do durante e do vindouro. Não é difícil reconhecer as técnicas da fotografia, da cinematografia e da televisão por conta de cenas ora em close ora panorâmicas. É notável a clipagem face aos cortes entre o sonho e a realidade, mais a fragmentação de gestos, personagens e mesmo do tempo. E tudo conduzido por um narrador e leitor de si mesmo a monitorar o zap.

Amilcar não se prende a fórmulas, e testa os limites da narrativa em contos belos, sensuais e tensos. Este conjunto de relatos curtos revela a capacidade do catarinense do autor de extrair de situações cotidianas uma riqueza notável de significados e implicações morais, políticas e até metafísicas.

A prosa de Amilcar é meio perversa e bela, talvez a mais rica e densa da literatura catarinense contemporânea. São relatos diversificados nos temas, cujos tratamentos diferenciados oferecem aos leitores uma distração, uma emoção, uma inquietação a substituir qualquer outro motivo: seu livro instiga, satisfaz. Amilcar consegue fisgar o leitor, mesmo deixá-lo estonteado com muitos desfechos desses seus contos que resultam por vezes em autênticos revertérios à mente do leitor.

O consagrado autor Ignácio de Loyola Brandão ao prefaciar o livro Relatos de Sonhos e de Lutas comenta:

          “...Delírios, imaginação, sonhos. Realidade ou imaginação? O que idealizamos e desejamos e tornamos concreto em nossa mente, e que apenas nós vemos e sentimos, isto não é o real? O real não é aquilo que é tão verdadeiro que nos emociona e nos transforma, que nos faz amar e odiar, desejar e ter orgasmos? Se não é isso, então o que é o real?
          Na verdade, ninguém sabe o que é. E então, o jeito é viver, é flutuar entre o quotidiano e o onírico, misturar os dois para poder suportar a vida e sobretudo as lembranças. Assim é Relatos de Sonhos e de Lutas. Onde se vê o que a gente quer ver, onde se lê o que a gente quer ler. Contos de detalhes, às vezes sutis, onde a narrativa flui na intensidade e velocidade que só a mente agitada provoca, com uma cronologia própria, particular.
          Do que gosto neste livro? Da liberdade da narrativa. Cada conto tem a sua forma de expressão, esteja o personagem num bar, ou no túnel do tempo, que usando diferentes visões do narrador, aqui e lá, um olhando para o outro 'Não mais do que os vidros permitem'. O autor/narrador na pele do homem, da mulher, dos dois. E se de repente o tal realismo fantástico, não se importe, não é, é apenas o fantástico dentro do realismo, que na verdade é uma forma brasileira de viver, um modo de agüentar o que está aí. As orelhas fumas, sim senhor, mas súbito você mergulha numa falação sem fim, de alguém que parece drogado, embriagado, sonado, dormindo/acordado, alucinado, e verifica que tudo isto são as coisas que nos passam pela cabeça, a todo momento, todo instante. Veja em “Dez encantos” como se transformam em literatura os milhares de sensações e pensamentos que nos ocorrem durante todo um dia.
          Acima de tudo, Amilcar Neves dá uma lição simples do que é o conto: é tudo o que está aqui, coisas diferentes umas das outras, livres descontraídas, curtas e longas, feitas com rigor e na medida certa, no timing certo.”

O Livro é dividido em duas partes: "O Sonho" e "A Luta".

Na primeira parte surgem os contos “Steak au poivre”, "Fascínio", "Não mais do que os vidros permitem", "Ester. Já na segunda parte surgem: "Vôo", "Dez encantos", "Galera", "A Luta Vã".

O SONHO

1. Steak au Poivre

Como nos sonhos, tudo transcorre ao sabor de fragmentos. “Steak au poivre”, mais que um bife com pimenta do reino, é um conto volátil como uma dose de conhaque em chamas. A expressão ambígua -“pimenta do reino”- surpreende. A sugestão demanda um acorde político: quando reinará o Brasil sobre ingleses, franceses e aqueles estadounidenses que se dizem americanos?

O narrador, um homem solitário está, inicialmente, em um restaurante e pede um prato “steak au poivre” e faz considerações sobre a mistura entre a cultura inglesa – steak – e a cultura francesa – poivre -: “Um steak au poivre, pedi, mesmo sabendo que mistura inglês com francês, pois há dias que andava com vontade de comer.

O garçom pergunta se para berber é o “de sempre” e para desapontamento do mesmo o narrador solicita em vez de um conhaque Domecq, um Fundador, e que o mesmo fosse flambado.

A cena com forte carga sensual começa então a ser descrita: um piano a tocar "Tender is the Night" e descobre-se que o narrador está acompanhado (ou estará só imaginando?) por uma mulher: “A noite é só nossa, sussurrávamos desfalecidos em nossos ouvidos, os cabelos a nos adentrar pela boca e pelo nariz, a nos irritar os olhos num incômodo que não sentíamos e nos dava um prazer indescritível, as mãos trêmulas e úmidas de suor e de desejo mal contido, tuas coxas tão próximas e ardentes, teu aroma quente subindo o peito, de entre os seios amados e tão pouco entrevistos..”

O narrador insiste que a noite é deles (dos amantes) e ainda mais: “...enquanto minha mão discretamente conhecia teu seio túrgido viajando sobre a blusa fina que subia e descia numa ânsia lúbrica e insatisfeita, respiração miúda e acelerada de paixão intensa.

O garçom serve o conhaque com o ritual necessário: “...apanhou a taça bojuda, inclinou-se até chegar à posição horizontal, e, com cuidado, despejou o conhaque sem deixar que transbordasse. Atiçou fogo, com o isqueiro barato e descartável, no açúcar embebido em álcool...”

O narrador sorve a bebida com gosto, mas tem um constrangedor acesso de tosse.

Começa então a comentar sobre personagens do livro de Thomas Mann “Confissões do Impostor Felix Krull” e relata suas viagens com o Marquês de Venosta. Acontece, então, o que chamamos de intertextualidade, pois temos a “conversa” entre personagens de pelo menos dois textos: o de Amilcar Neves e o de Thomas Mann. Ainda acontece o processo parodístico, tão próprio da Pós-modernidade, pois observamos a interação entre personagens de textos diferentes.

Após, num jogo de ida e volta, de cortes entre a realidade e o sonho, relata-nos o narrador uma história que se passou com Donga Novais – o escritor Autran Dourado”.

Incia-se outra história: Lelena, musa inspirador a dos mais cálidos e envolventes pensamentos concebidos por muitos cavalheiros bem estabelecidos e do maior respeito, com seu ondular de potranca fértil sob a roupa que lhe revelava os contornos sonhados, seus negros cabelos que desabavam conveniências e prudências quando ela os soltava em cascatas sobre os ombros insinuantes, e sua instabilidade afetiva mesmo depois de casada, tornara-se objeto do olhar desejoso de Donga que quase morreu ao ver a moça que “mira-se ao espelho de um lado e de outro, avalia as curvas das coxas e das nádegas, segue com o dedo a tênue linha de pêlos macios que desce do umbigo até o sexo e por fim sopesa com ambas as mãos, demorada e embevecida, enleada na contemplação de seus próprios encantos, os dois seios duros e suspirados, de biquinhos roxos e atrevidos – nuazinha em pêlo, ali do outro ladinho da rua...”

Logo, o quase-sono vence o narrador e ele está em sua cama, assustado, pois sente que há alguém, um vulto, algo que ele não reconhece, mas ele pensa que é um golpe de seu inconsciente.

Mas, “ouço então o nítido ruído da chave girando na fechadura, e o clique da lingüeta se soltando. Desperto outra vez, lúcido e atento, do novo entorpecimento em que já mergulhara, sem entretanto ter pegado no sono.”

O narrador começa a imaginar quem poderia ser: talvez a faxineira, talvez uma das personagens de Félix Krull ou então Lelena, “despudorada e sempre provocante”. Em seguida, conversando diretamente com ela, talvez aquela do restaurante, “não pensei especialmente em ti, criatura de carne e osso, de sangue a pulsar forte e agitado nas veias, de pele lisa e macia...”

Mas quem está ali, na realidade, é alguém que veio para roubá-lo. “Berro feito um doido e a voz não me sai do peito, entalada, engasgada.” Consegue finalmente abrir os olhos. Seus olhos se cruzam com os da ladra, ela não é bela como sonhada, é feia e está entre os 35 e 40 anos. Ela sai correndo e o narrador vai em seu encalço. Enquanto ele a persegue, observa sua nuca e suas rugas e pensa em como ela ficará mais feia quando envelhecer.

“Antes de dobrar a primeira curva da escada, enquanto observo fascinado a boca chupada dos sem-dentes e a rala floresta de cabelos azulados de tão brancos que são, a mulherzinha desaparece sob as minhas vistas: antes de dobrar a primeira curva da escada. Um steak au poivre, pedi, com conhaque flambado. Para uma pessoa. E penso que fiz muito bem.”

2. Fascínio

A história da defesa da América colonizada é pungente e dolorosa como a estocada de uma lâmina antiga, marcada pelo tempo. Invasores e piratas que motivaram a construção de poderosas fortificações, cedem lugar aos novos piratas – moleques de rua, os delinqüentes do Novo Mundo. O “Fascínio” do narrador-turista começa pela lembrança das onze fortalezas que entornam a ilha de Santa Catarina, - trabalho de construção penosa nos meados do século XVIII, hoje paredes e madeirames ruinosos ao sabor do tempo e dos cupins.

“...onze fortalezas erguidas em uns poucos anos, onze bastiões de pedra, cal, madeira, barro e óleo de baleia levantados a partir de 1740... - Forte de São José da Ponta Grossa, Forte de Santo Antônio de Ratones, Forte de Santa Cruz de Anhatomirim, Forte de Sant'Ana, Forte de Santa Bárbara, Forte de Nossa Senhora da Conceição dos Naufragados e tantos outros.”

“Onze fantasmas. Onze fascinantes fantasmas.”

Na verdade, o narrador encontra-se no México, mais precisamente no “Fuerte de San Diego em Acapulco Guerrero” e volta seu fascínio “pelas coisas antigas construídas pelo homem sem as facilidades de hoje, as coisas sólidas que desafiam os tempos os vermes e os homens e não se perdem como um plástico que se dilacera com as mãos, comprovando a frágil inferioridade das coisas recentes.”

Ele está excitado com a possibilidade de conhecer uma fortaleza mais antiga (1616) que aquelas de Santa Catarina. “Munido de máquina fotográfica, lentes intercambiáveis e filmes, vestido com bermudas e camisa leve de algodão, começo a saborear pausadamente a aproximação” (com o forte).

Percebe que está quase sozinho no forte, não fosse a presença de um casal de namorados; ninguém, absolutamente ninguém mais perambula então pela ampla área do derradeiro terraço: tudo calmo e ensolarado como convém a uma tranqüila tarde de sábado.

Porém, a fascinação cede lugar ao pesadelo face à inversão nas relações entre invasores e invadidos, ou colonizadores e colonizados. Repentinamente o narrador ouve passos que imagina serem de crianças mas na verdade são de dois rapazes entre 16 e 18 anos com feições miseráveis e subnutridas.

Empunham dois porretes de madeira com mais ou menos 40 centímetros e um deles ainda carrega na outra mão uma longa lâmina de aço.

Depois de algumas considerações sobre as probabilidades do que estava para acontecer, o inevitável surge.

Inicia-se uma luta feroz, sem finesse, devido à falta de maior vivência do métier por parte dos piratas que me abordam.

“Amparo os primeiros golpes com o braço esquerdo, a mão detendo-os quase todos. Não me sinto paralisado, não entro em pânico: as pernas não tremem, a vista e o raciocínio não nublam, não me invade a mente o terror do inesperado e do perigo escancarado.”

De repente o narrador consegue ver a si mesmo naquela terrível luta, e discorre sobre as possibilidades de fuga. Entretanto, “só resta enfrentá-los, determina a todos os meus membros um cérebro extremamente concentrado nos fatos.”

Há uma dança louca e calculada. Uma lâmina na mãos vai e vem e começa a fustigar, a cortar nosso narrador. “Ao nível do chão, porém, acompanho fascinado a geometria daquela ponta de metal, seu caminho no espaço fronteiriço. Um fascínio, ah! O fascínio que se assemelha ao encanto mórbido das alturas que se abrem abruptamente à nossa frente convidandonos ao mergulho”.

Surgem então os vários fascínios: das águas profundas, de um fogo intenso, de uma iminente comunhão com o desconhecido.

“Distinguimos ainda, o do chão e o outro, banhado pelos derradeiros raios de sol, ao fundo, o portal majestoso do Fuerte de San Diego em Acapulco Guerrero, México”.

Toda a cena é fotografada com a ânsia de registrar os mínimos detalhes da seqüência alucinante do ataque-defesa. Teatro e cinema se fundem sob a diretriz ora da palavra escrita, ora da lente de uma câmera fotográfica. Ou, antes, a superposição dessas duas formas de dizer constróem as verdades deste conto: ironia e desgraça, relatos da latino-américa são.

3. Não mais do que os vidros permitem

I e II

Trânsito pelo reino do sonho a realidade cheia de sutilezas do universo feminino. Trata-se do conto “Não Mais do que os vidros permitem I e II”. Ágil como um voyeur, o autor-narrador descreve o que vê (espia) pelas vidraças: uma fêmea sôfrega conduzindo machos truculentos entre os entulhos de uma construção. Depois dois depoimentos de mulher – ele mesmo, o narrador - como dominante e dominada, sempre.

Neste texto escrito em junho de 1982 na cidade de Joinville, o narrador relata a presença de uma mulher logo que se iniciara a construção de uma casa. Ao início a mulher ficava dentro do automóvel, logo que a construção começa a tomar corpo ela torna-se mais presente. Descobre-se que o marido encarregara-a de administrar a construção da casa, verificar se entregavam o material correto, fiscalizar o trabalho dos homens da construção.

Ao que parece, seu marido era um baixinho, feio e careca, ocupadíssimo com seu emprego de funcionário do governo.

O tempo vai passando e a mulher agora ocupa-se “bastante” da obra: “e sempre um dos homens dispõe-se a auxiliá-la a contabilizar os tijolos usados, a fornecer-lhe detalhadas explicações sobre o andamento da construção. A partir de então, a não ser à noite, as janelas do barraco que dão para o lado da rua nunca mais se abriram”.

O narrador ainda insiste que se os homens da construção olharem para ela, de onde ela está, “verão apenas o que os vidros da janela permitem: um tórax altivo e impávido, um rosto sereno e distraído como quem não quer, com os olhos, atravessar paredes e calções".

Em seguida, Amilcar Neves apresenta dois curtíssimos desfechos dentro deste principal: (escolha o que preferir)

I
Porém meu corpo perfumoso de curvas decidida e macias treme inteiro enquanto esta estreita calcinha preta, por onde meus dedos sôfregos penetram ávidos enroscando-se nos pêlos encaracolados em busca da úmida palpitação, faria a doce loucura de qualquer homem.

Devo cuidar apenas de apanhar do chão a saia antes do meu marido abrir a porta.

II
Porém, minha experiência vale muito mais que a ingenuidade da maioria das mulheres, poucas sabem como induzir o homem aos prazeres do ato em si, abstraído do parceiro (ou parceira), mero veículo para o fim que realmente importa.
Não fosse mamãe morar comigo, e não fosse ela estar quase chegando das compras, minhas calças não estariam inutilmente arriadas.

4. Ester

“Ester” é o melancólico desejo da mulher à margem da estrada, da vida, do sonho. Repete-se a tragédia do abandono no encerramento da primeira parte do livro. Obediência, imobilidade, objeto de desejo, corpo de entrega, Ester apenas sairá da janela - sua fenda para a vida - para dar lugar a outra Ester, cujo destino repetirá o da mãe.

Para quem nos outros contos buscava o nome da personagem central e não encontrava, não haverá problemas tais neste. O nome da personagem deste conto é repetido mais de 30 vezes e a expressão "Ester na janela" surge como provocação ao sempre mundo de sonhos de Ester. - Ester na janela, absorta em nada, longe na lembrança a vila de São João do Itapocu, lugar mais distante em que esteve durante toda a vida.

Ester está sempre na janela, “...olhos assombrados, vendo passar carros, ônibus, caminhões, vagamente pressentindo pessoas alegres, felizes, preocupadas, apressadas, suadas, mal enxergando rostos bonitos, barbados, barbudos, crispados, duros, raivosos".

Ela é a típica sonhadora de cidade pequena, que tem sua vida relatada: Ester cara bonitinha – fica. Ester cara de mocinha – ri. Ester cara de safadinha – dá. Ester cara de mulher – sai. E depois o pior: Ester, colona enrugada, cara vincada e tostada pelo sol do sítio e da fonte, falando, Ester, olha o menorzinho!, vem cuidar dele senão conto pro teu pai que já volta da roça, Ester, avelhantada, dizendo pra mais velhinha, sai dessa janela, Ester, és muito menina ainda!, Ester cara de velha – diz.

A LUTA

5. Vôo 254

O conto tem um engenhoso jogo metonímico e revela, com melancolia, as artimanhas nas negociatas entre empresários e políticos. De um lado Orelhas (o narrador) que mira e reflete a miséria do discurso político brasileiro no tempo do maior movimento popular de nossa história, o das “Diretas Já!”. De outro, Olhos discentes aprendem as mazelas do professoral par de olhos experientes e profundas Olheiras a jactar-se de sua esperteza corruptível. Um curioso exercício em que palavras estabelecem o percurso entre olhos e orelhas, apenas partes, apenas fragmentos, referenciando um mundo em que as relações humanas perderam a noção do todo, do conjunto.

Então, é desse percurso que se cumpre o texto – em extraordinário “vôo”- que se completa no coração e na mente do leitor.

Neste conto, Amilcar Neves retrata portanto, um tema do Brasil da década de 80 que continua em voga: a corrupção. Em vez de apresentar o estereótipo do político sujo e corrupto, o autor de Relatos de Sonhos e de Lutas nos apresenta três personagens no mínimo inusitados: Um par de orelhas, Olhos e Olheiras, sentados na mesma fila de poltronas do Boeing 737- prefixo PP SMU - Vôo 254 da Ponte aérea Rio-São Paulo.

“Voava-se o vôo 254 na noite de 27 de maio de 1984. Exatamente um mês e dois dias antes, ou seja 25 de abril, travara-se a penúltima batalha entre Nação e Ditadura, ocasião que esta, uma vez mais – a última vez -, derrotara aquela, manobrando com suspeita habilidade no Congresso Nacional para que fosse rejeitada uma emenda à Constituição que restabelecia o voto direto dos cidadãos para a próxima escolha do Presidente da República”.

Entre divagações sobre a história recente do Brasil e de como os militares pareciam que não deixariam o poder nas mãos dos civis tão depressa quanto imaginava-se, o narrador descreve os ocupantes das poltronas ao lado do par de Orelhas que fumavam, que é o observador dos outros dois:

1. um par de atentos olhos discentes, que pouco diziam e muito aprendiam
2. um par de experientes e profundas olheiras, a falarem sempre em tom professoral e incisivos.

As Orelhas estavam à esquerda, os Olhos no cento e as Olheiras à direita, sentadas na poltrona do corredor. Percebe-se que as Olheiras ensinavam os Olhos todas as especificações, técnicas, finalidades e maravilhas da atividade. Trata-se, na verdade, de uma esquema de corrupção “negócios com a área governamental”, que como o negócio indicava, deveria vir com o importantes termos em inglês “overprice”, “prime rate”. O “over price” deveria ser aplicado da seguinte forma: 5% para a Seplan (Secretária de Planejamento da Presidência da República), 2% para o banqueiro de Toronto, 3% para eles mesmos e 5% para o Governo do Maranhão.

A viagem segue sem maiores anormalidades, os Olhos começam a ler a revista IstoÉ, enquanto as Olheiras folheiam a Gazeta Mercantil. Há um artigo que fala sobre a venda do jogador Sócrates. Visivelmente tristes, comentam os Olhos com as Olheiras que isto de vender jogadores para o exterior era o fim do futebol brasileiro. “O povo, sempre sofredor, não merecia mais este sacrifício adicional. E tudo por quê? Por um punhado de dólares, por dinheiro, sempre por dinheiro. O interesse das pessoas, daqueles que pagam impostos, parece que não vale mais nada mesmo neste país miserável. Uma vergonha, uma vergonha nacional. Caso de Polícia. Tem gente andando faceira por aí que merecia estar atrás das grades. Traidor é pouco para esse pessoal”.

Em seguida, um deles comenta que já tem um “negócio” entabulado com o governo do Pará. Os Passageiros descem do avião, seguem seus destinos...(pois nada se fez nem se há de fazer, concluem as Orelhas, com certa melancolia).

6. Dez Encantos

No claro jogo de palavras (desencantos) a descrição do melhor e do pior da Avenida Paulista. Um mundo de negociantes, estrangeiros, prostitutas, estacionamentos, prédios e bancos. Um mundo de modismos, de mídias de literaturas.

“As conversas de sempre, sempre. Enormes restos de propaganda eleitoral nos postes, nos muros, nos outdoors, nas calçadas, nas retinas de ódio e pavor ou talvez não tanto.”

“Dez Encantos” incorpora a vertigem da cidade grande, tema, aliás, característico da literatura da Geração 90 e 00. Intertextual, remete a Um Tal Lucas, marcante livro de contos de Julio Cortazar, tendo como um dos enfoques a luta do personagem contra a sociedade de consumo. São Paulo representa neste conto de Amilcar a voragem e a vertigem de toda cidade grande, com a exuberância e exagero dos recursos midiáticos. É exemplar a frase que faz lembrar cenas de Blade Runner a representar os enormes posters luminosos dos grandes centros. São Paulo igual Sodoma:

“Riqueza, poder e amor ilimitados, imenso Olimpo de deuses e semideuses contemporâneos. Zeus e Hera cada um de nós, todos nós. E Narciso e Onã, por que não? Ao fundo, talvez, quiçá brilhante, um poster de Sodoma em vista panorâmica. Com um pouco de sorte, em 3-D. ou, modernamente, uma vibrante holografia”. ( NEVES, 1991:73)

Forçoso é notar nesse painel de fragmentos e vibração, característicos dos recursos de novas tecnologias, uma certa dose combinada de ironia, melancolia e esperança face ao papel da literatura:

“Os modismos, sim. As mídias, de novo, atuantes e eficazes. E tua literatura, contudo, infeliz junção de letras e palavras vulgares, com tênues, porém obstinadas esperanças na posteridade”. (NEVES, 1991: 74)

E os encantos, onde? Ao fim e ao cabo o leitor descobre que o conto encerra (ou se abre!) para a sutileza de um som. “Dez Encantos”: desencantos.

GALERA

“Galera” traz doze quadros, doze telas, doze cenas todas voltadas para o tema mais forte da nação brasileira: o futebol. Mini contos de uma única página cada formam um todo por onde desfilam personagens sob um toque sagaz de ironia a respeito da condição da gente brasileira, marcada, acima de tudo, pela “ilusão idiota de ver o time ganhar para poder esquecer um pouco essa miséria toda.” (Galera Um)

Futebol é cachaça e adultério (Galera 6), mas futebol com política é censura na certa (Galera 4 e 5). O narrador assume ousada e ironicamente a pele negra, parda, mestiça do torcedor. Num contraponto entre o discurso hipócrita, resquício histórico de nossa colonização, e a ação superior do negro enquanto grupo face a uma partida de futebol, Galera 10 e Galera 11 foram escritos para causar desconforto.

O leitor cai na armadilha.

Vejamos brevemente cada um dos contos de "Galera":

7. Galera Um

Numa linguagem atualíssima e informal, o narrador reclama dos jogadores de futebol que reclamam das vais. Reclamar por quê? Torcedor pobre é quem tem o direito de reclamar do salário, da vida. Resolve isso com cachaça e futebol e especialmente vaiando jogador. Eles não treinam só pra isso? Então. Se trabalhador der bobeira no trabalho, demitido! Pontapé no rabo e foda-se! Tá sacando agora por quê eu joguei meu falante (radinho) de estimação no meio dos cornos daquele porco?

8. Galera dois

Um torcedor conta para o delegado o que se passou. Ele, Cremilda e o Touro eram amigos inseparáveis e não perdiam o jogo de domingo do Vasco no Maracanã. O Touro era Sentado: sempre calado, bonzinho, mas que não mexessem com ele. No dia do jogo, 2 goles no subúrbio só pra esquentar e depois umas cervejas geladas no anel do Maraca.

Um sufoco dos diabos o jogo. Gente suada e o Botafogo fazendo gols. Quando o Vasco marcou, o narrador pulou de contente e agarrou a Cremilda, a primeira que viu pela frente. O Touro não gostou e desferiu um soco que pegou o olho esquerdo de Cremilda.

9. Galera três

Texto curtíssimo. O narrador reclama do esquema tático da Seleção Brasileira que vai jogar sem pontas, numa época em que se usavam pontas. Observe o tom informal: "Tá legal, amizadinha, tá legal. Os home entendem. O resto é tudo burro de papel passado e recibo assinado”.

10. Galera quatro

Agora o narrador fala sobre um jogo entre Brasil e Chile em Curitiba. Conta-nos que como é de descendência Chilena quis protestar contra a ditadura que havia naquele tempo naquele país, já que o Brasil vivia um momento de abertura democrática. Fizeram um a faiza mas a polícia paranaense não permitiu que a usassem e bateram e cortaram e socaram os torcedores chilenos. “Senti-me em casa. E me assustei com o tamanho dos tentáculos do maldito general chileno”.

11. Galera cinco

Agora o narrador apresenta uma conversa com um policial sobre a tal faixa “Abaixo a Ditadura no Chile” que representa perigo pois tem um “Pau” que a segura.

“Se não vai por bem...” diz o policial. “Só queria esclarecer que minha faixa não tem pau, só pano que a gente segura pelas pontas”. “...vai por mal. Atenção, tropa: atacar!”

12. Galera seis

Futebol é cachaça e adultério.

A mulher reclama das idas ao estádio de futebol e diz que ele vai ficar em casa escutando pelo radinho. Impossível, pois futebol no estádio é como cachaça e ainda mais parece que ela também gosta pois pede um relatório detalhado de cada partida assistida pelo marido. “O diabo é sair do motel antes do apito final e ter que escutar com atenção devota todos os comentários possíveis sobre o jogo.”

13. Galera sete

A narradora confessa que odeia jogos com estádio vazio. Prefere as decisões e os clássicos. “Visto minha blusinha de musselina branca sobre o sutiã de renda vermelha, enfio uma minissaia bem justa e, de saltos altos, me espremo entre aqueles homens todos que nunca entendem direito o que está acontecendo”. E ela fica neste esfregaesfrega desejando que a partida se eterniza numa prorrogação.

14. Galera oito

A narradora nos relata que faz questão de ir ao estádio de futebol com o marido, mesmo que ele não goste da situação. Ela vai toda comportada como cabe a uma mulher honesta, mas fazer o quê se ela só consegue usar saltos altos, gosta de usar calças de brim que destacam seu traseiro, se ela sente muito calor e não usa sutiã e usa camisetas um pouco decotadas?

“À noite, quando deitamos, fico relembrando as bocas babando, os olhares perfurantes, os gestos atrevidos, as piadinhas, os olhares perfurantes, os gestos atrevidos, as piadinhas tímidas, os calções enfunados – e adoro ver o jeito dele, meio desconfiado, meio órfão.”

15. Galera nove

Um menino, vendedor de amendoins confessa que está cada vez mais difícil trabalhar no estádio pois há pessoas que querem cobrar comissão para se vender o produto nas arquibancadas onde o pessoal tem mais grana.

16.Galera dez

Texto irônico em que o narrador (negro?) relata o quão feliz fica ao ver negros em situações de destaque, indo a teatros, concertos e outros. O problema é que no estádio de futebol, segundo o narrador, os negros se reúnem e tornam-se atrevidos e prepotentes, mais parecendo um bando de símios. “Duro é ouvir, numa hora dessas, uma boca branca mandar-me para a África do Sul. É injusto, muito injusto.”

17. Galera onze

O narrador comenta sobre a importância dos negros no futebol: Pelé, Jairzinho, Júlio César. Afirma que negro foi feito para jogar futebol, mas dentro do campo, por que fora é uma praga. Ele não entende porquê um sujeito negro ficou furioso e quebrou-lhe o braço com ele, veja: “tinha que cagar na saída, perder um pênalti bem no finzinho da partida!” “Só porque falei aquilo. Dá para entender?"

18. Camisa doze

“Camisa 12” corre por fora. É o reserva do time: entra para retomar a bola que explode no travessão do primeiro mini-conto (Galera Um); pra dizer em grito de bom som que, em campo, os jogadores “precisam ser o sonho que a gente quer, fazer o que poucos conseguem.” Então vem o grito de guerra, como fosse o grande gol: “Por isso nós gritamos, pulamos, suamos e acreditamos finalmente viver. Só aí brigamos e nos impomos, protegidos pela massa que somos nós.”(NEVES,1991: 90)

Crítica às torcidas organizadas. Segundo o narrador, todas as frustrações dos torcedores são depositadas nos jogadores. “Não aceitamos que sejam medíocres, pobres, feios e incapazes”. “A gente quer ver sangue. Só isso.”

Trecho do conto:
Nós queremos ver sangue, esta é a verdade. Queremos que, como super-homens, ele façam lá dentro o que a gente sonha e gostaria de fazer. A gente diz, se fosse eu, não perdia aquele gol de jeito nenhum. Todo mundo então acredita que, qualquer um de nós, na mesma situação, não perdia mesmo o gol. Nós queremos ver o goleiro estourar a cabeça saltando no bico da chuteira do atacante adversário. Melhor: do atacante inimigo.

Sangue. Sangue vermelho para tingir uma vidinha se cor que vai levando a gente dia a dia. Não podemos admitir que eles sejam iguais a nós. Não aceitamos que sejam medíocres, pobres, feios e incapazes. Eles precisam ser o sonho que a gente quer, fazer o que só uns poucos conseguem. Por isso nós gritamos, pulamos, suamos e acreditamos finalmente viver. Só aí brigamos e nos impomos, protegidos pela massa que somos nós.

19. A luta vã

Fecha o livro um texto-relato, um texto-depoimento.

“A Luta Vã”, como todos os contos brotados nos anos oitenta para este volume, é datado de Setembro de 1982. Soma-se aos demais no que tange à expressão dos sentimentos de melancolia, frustração, desilusão, desesperança.

"Eu guerrilho. É esta minha vida, a história de meu presente e de meu futuro eterno".

Este conto apresenta um narrador que se apresenta como um legítimo guerrilheiro. Não se sabe ao certo o tempo deste relato, crê-se que sejam os óbvios anos da Ditadura Militar no Brasil. Será possível, durante a leitura do texto, além da questão histórica, perceber novamente, a possibilidade do intertexto na produção de Amilcar Neves, já que o narrador, além de contar sobre sua vida de guerrilheiro apresenta-nos também um breve relato de “Enriquillo”, o primeiro guerrilheiro das Américas.

O narrador se apresenta como um homem livre: "Sou livre: não tenho família, não me sujeito a empregos e horários, não devo satisfações burocráticas a que quer que seja e, especialmente, sou livre porque morro por um ideal, um objetivo puro e sagrado".

As comparações são inevitáveis: o guerrilheiro é o homem que decide seu destino enquanto os outros são marionetes do governo, e num tom quase agressivo nos diz “...vocês nunca tiveram o ideal”.

Afirma que o ideal de um guerrilheiro é a justiça: “simplesmente desejamos a justiça, almejamos a liberdade, sofremos pela paz, morremos pela verdade, e esta não é simplesmente a nossa verdade, mas a verdade que fará os homens dignos e honrados, felizes com suas vidas e realizados como seres humanos”.

O narrador relembra o que os militares faziam no tempo da ditadura com aqueles que eram contra o regime: “batem , torturam, mutilam, asfixiam, enforcam, escamam, as unhas e devastam os cabelos, castram e matam...”

Apesar de tudo que pode acontecer com o narrador e seus amigos guerrilheiros, ele continua: “Sabemos de tudo isso e ainda assim lutamos: nosso deus é a justiça, e em nome dela nos entregamos de carne e sangue. Lutamos por crermos que nosso exemplo é nosso maior testemunho. Seremos vencidos muitas e muitas vezes mas trunfaremos num dia sem sombra”.

Entretanto, o narrador presente a morte: “tive a precognição de que morreria hoje, ás nove e meia da noite, metralhado”.

Na verdade, ele teve um sonho que revelou sua morte. Durante o dia quem vem a sua cabeça é a figura de Enriquillo e sua estátua de bronze em tamanho natural no Museo del Hombre Dominicano em Santo Domingo – el primer guerrillero de todas las Américas! É nos relatado que Enriquillo, apesar de ter sido capturado e sua família massacrada ou escravizada, teve educação européia através dos franciscanos, o que acabou por formar um jovem que pensava por si só e que em pouco tempo organizou guerrilhas para expulsar franciscanos e espanhóis, mesmo que depois seu povo (os indígenas de Isla Hispaniola) fosse extinto. “Teria o jovem cacique lutado em vão?”

O narrador com mais dois companheiros é intimado a guiar uma patrulha de soldados pelos matos da região em busca de guerrilheiros. Comenta então que no momento existiam muitos focos de resistência por todo o Brasil e já era mais difícil ser descoberto um acampamento de rebeldes. Segue uma longa descrição do mato em que estão e da condição da guerrilha no Brasil, mas ao retornarem à base, o narrador percebe que ele e os 2 companheiros são levados a uma construção para que tomem a última refeição do dia e são colocados no terceiro andar da mesma.

“...às nove e meia menos dois minutos pressinto, vagamente desassossegado, que a ameaça se aproxima pelas minhas costas...Surge um avião rebelde decidido a abrir fogo sobre nós... Olho meu pulso esquerdo no exato instante em que as metralhadoras espocam seu martelar seco, breve e continuado: o relógio me avisa que são 21h30. Em ponto.”

Um tiro na perna faz o narrador sangrar, ele se arrasta mato a dentro em busca de refúgio, ”...uma sombra passeia diante de meu rosto...” é o grande Enriquillo. “Quero que ele me tome em seus poderosos braços e me conduza a um local seguro para que eu possa continuar a segui-lo.”

Finalmente o narrador compreende que quando ele dizia “eu guerrilho” ele estava dizendo “nós guerrilhamos”. “De um salto, ponho-me de pé e marcho decidido, dois passos atrás de Enriquillo.”

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Esse livro reflete como poucos a dureza e a ignomínia que representaram aos olhos do mundo os “anos de chumbo” da recente História do Brasil. Uma História da qual, como se fazia corriqueiro dizer até pouco antes do primeiro governo Lula, o povo era, ou pelo menos buscava ser o sujeito. Isso se acabou. Refletindo sobre a excrescência que toda ditadura representa, independente de qualquer que seja a época, Amilcar se põe ser narrante com o vigor e a delicadeza de quem sente o peso da condição humana.

Os anos 80 estão transcritos nas páginas de Relatos de Sonhos e Lutas como o tempo da grande derrota da nação que havia, como nunca dantes, criado o maior movimento da vontade popular brasileira: o das Diretas Já! Pois, então, o arranjo dos embusteiros com suas “olheiras profundas” adiou o sonho de todos e tornou a luta vã. O verbo “guerrilhar” que transfigura o eu do narrador em o nós narrante, traduz acima de tudo a impossível convivência entre um “mundo moldado por homens mesquinhos e corruptos” que “nunca tiveram o ideal” e aqueles cujo “ideal é imorredouro por ser inatingível” e por isso mesmo é que lutam, brigam e guerrilham. Entretanto - e aí reside a ironia da frustrante impossibilidade de ajustes - viver guerrilheiro mato adentro é viver sob leis. O indivíduo se anula em função de um chefe-capitão cujas palavras desesperançadas abatem guerrilheiros e põem em cheque a eficácia da guerrilha. Palavras sem ironia, sem tergiversações, pensadas e transmitidas a serviço da causa.

O narrador guerrilheiro tem premonição de sua morte. Na selva, às 21h30min. Delírio e História se misturam: crer em liberdade é viável? Então, o fantástico penetra na História: surge o fantasma de Enriquillo, o grande cacique guerreiro do Caribe (República Dominicana) que, no século XVI, se sublevara contra a ocupação espanhola numa luta perdida que duraria treze anos.

Fontes: Colégio Nova Era | Marco Antonio de Mello Castelli, Professor-orientador de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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