Restos do Carnaval (Conto da obra Felicidade clandestina), de Clarice Lispector

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Em Restos do Carnaval o procedimento narrativo o mesmo que em "Felicidade Clandestina": a escritora adulta rememora um episdio da sua infncia passada nas ruas e praas de Recife, que encontravam sua razo de ser no Carnaval. O episdio tem uma carga emocional muito forte, porque expressa o conflito vivido pela menina pequena, cercada pela alegria da festa alheia, a festa de rua, a festa de todos, a festa em si mesma, e o peso de um drama familiar, nota destoante de uma tragdia ntima, ameaadora e terrvel para qualquer criana: a doena da me, que piora nesta data, e que depois viria a falecer. O contraste gritante, e aparece at no ttulo: restos. Restos de um carnaval que, por qualquer motivo, a escritora relembra como as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaavam despojos de serpentina e confete, e que vem a se tornar alegoria de outras situaes semelhantes na vida, quando a prpria vida em festa parece rir, cruelmente, do seu luto pessoal.

A histria, porm, no ocorre numa quarta-feira. O carnaval est apenas comeando. A ateno da famlia se concentrava na doena da me; por isso, se permitia pouca participao da menina na folia: ficava at onze horas da noite, ao p da escada do sobrado onde morava, olhando os outros se divertirem. Passava o carnaval inteiro economizando o lana-perfume e o saco de confetes que ganhava. Ela no se fantasiava; porm, cheia de felicidade, se assustava com os mascarados e at conversava com alguns deles.

Aos oito anos, houve um carnaval diferente. A me de uma amiguinha fantasiou a filha de rosa, usando papel crepom; com as sobras, fez a mesma fantasia para ela. Os cabelos ficariam enrolados e lhe passariam baton e rouge.

Desde cedo, ela viveu a expectativa do momento de vestir a fantasia; a euforia era tanta que at superou o orgulho ferido de ganhar um presente porque sobrou papel.

Toda a dor que a autora adulta revela pela conscincia do contraste irnico da situao, para ela imperdovel (Muitas coisas que me aconteceram to piores que esta, eu j perdoei. No entanto esta no posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino irracional? impiedoso), inexiste na atitude da criana descrita. Completamente alheia, ou alheando-se inconscientemente do seu drama pessoal, a menina no pensa na me a sofrer. No pensa na morte que se aproxima, e a agitao da famlia em torno da me doente ignorada em funo da fantasia. A fantasia real, a roupa de papel crepom cor-de-rosa, que pretendia imitar as ptalas de uma flor; e a fantasia abstrata, a realizao de um sonho: pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que no eu mesma, que revela o desejo de fuga daquela situao angustiante demais para ser apreendida pela criana, e talvez da prpria vida real, sentida em seu limite e estreiteza.

O clmax do conto acontece em meio agitao da menina que, preparada para a festa, enviada depressa farmcia para comprar remdio para a me, que sofre uma sbita piora.

Ela vai, correndo, mas acompanhada de muda revolta e indignao pela coincidncia da tragdia que se atravessa no caminho da sua alegria, sentimentos que perduram para alm da infncia, sobrevivendo no esprito da mulher adulta que relembra o fato. Nenhuma palavra de simpatia, preocupao ou dor proferida com relao me, nem mesmo pela adulta que a rememora. Clarice menciona apenas a lembrana de algum remorso da menina pela sua fome de xtase, que ameaava voltar em meio festa da qual se sentia impedida de participar. De maneira algo egosta, o que di a quebra da magia da criana, que comeava a se acreditar uma Rosa, satisfazendo seu sonho intenso de ser uma moa. O que di a sbita deserotizao da menina, que finalmente teria realizado o seu sonho de transformao em mulher, com a inesperada roupa que completaria a pintura forte nos lbios, o ruge nas faces e os cabelos frisados pela irm, a seu pedido, nos outros Carnavais. O que di, e o que a faz relembrar este episdio, o desencanto vivido: no era mais uma Rosa, era um palhao pensativo de lbios encarnados.

Mais tarde, acalmada a crise da me, ela saiu com a fantasia completa, contudo o encantamento j no existia mais. Como poderia ela se divertir, se a me estava mal?

O final feliz surge como um anti-clmax, a colocado para impedir, talvez, que a condenao da me doente pela criana frustrada em seus desejos aparea como o nico desfecho cruel dessa histria. Da a meno ao menino de doze anos, que cobre de confete os cabelos j lisos da menina, fazendo-a sentir-se, por um instante neste dia horrvel, uma mulherzinha de oito anos: uma Rosa.

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