Saudação a Walt Withman (poema), de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa)

  • Data de publicação

Saudao a Walt Withman, poema do heternimo de Fernando Pessoa, lvaro de Campos, uma espcie de manifesto a Walt Whitman, escritor norte-americano. Alm de se referir ao conhecido homossexualismo de Whitman, de que parece comungar, revela uma das mais fortes influncias sobre o seu estilo:

Os poemas de lvaro de Campos so marcados pela oralidade e pela prolixidade que se espalha em versos longos, prximos da prosa. Despreza a rima ou mtrica regular. Despeja seus versos em torrentes de incontrolvel desabafo.

Enveredado pelo futurismo, da fase Sensacionsita, o poema foi escrito em primeira pessoa. O poeta fala de si mesmo, est na obra como ator. um elemento do mundo expresso pela obra, que irradia esse mundo, mas tambm pertence a ele: o poeta est inserido no poema e no na sua base, segundo M. Dufrenne, em O Potico no Poeta (Dufrenne, 1969).

No entanto, mesmo quando o poema est escrito na primeira pessoa, h sempre algum na sua base: o verdadeiro poeta. Esse poeta arca com o peso da obra, expressando muito mais do que suas emoes: o que ele expressa transcendental. Ele expressa um mundo, sendo o correlato desse mundo; no simplesmente aquele que o povoa, mas aquele que o vive e com o qual se harmoniza.

No poema de lvaro de Campos, o poeta transmite a sensao de um nervosismo que beira a histeria e afirma ter dvidas quanto utilidade da prpria existncia. Diz explicitamente que lamenta no ter tido a "calma superior" do poeta americano.

O verso livre e o recurso potico chamado "paralelismo" est neste poema. Pode-se dizer que o princpio do paralelismo domina a estrutura da poesia.

Na Saudao a Walt Whitman, trs versos do conta da natureza futurista de que era feito lvaro de Campos. Assim ele classifica o poeta americano:

Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir mquina,
Shakespeare da sensao que comea a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura
.

Cada um dos autores citados, de algum modo luminares do mundo das idias, se resume num Whitman que prenuncia a democracia e suas conquistas tcnicas. O futurismo de lvaro de Campos no do tipo que empresta s banalidades da vida moderna o estatuto de poesia ou que tenta consolidar novos cnones em detrimento de outros fundadores do pensamento que lhe contemporneo. lvaro de Campos extrai do moderno o perene, atualiza a idia e o conceito na matria viva, revela o eterno no aparentemente transitrio. O poeta americano e seu pansexualismo sexualizado pelas pedras, pelas rvores, pelas pessoas, pelas profisses se afiguram uma revelao feliz e bem resolvida de uma certa palpitao ertica insatisfeita, sofrida, impotente que se percebe em todos os poemas de lvaro de Campos. Em seu caso, no entanto, o desejo, sem definio de gnero, como o de Whitman, parece jamais ter encontrado um lugar, um objeto em que se fixar, um corpo em que se exercer.

Leia o poema:

SAUDAO A WALT WITHMAN

Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze...
H-l------!
De aqui de Portugal, todas as pocas no meu crebro,
Sado-te, Walt, sado-te, meu irmo em Universo,
Eu, de monculo e casaco exageradamente cintado,
No sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
No sou indigno de ti, basta saudar-te para o no ser...
Eu to contguo inrcia, to facilmente cheio de tdio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te no conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste tambm, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que no a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e c estamos de mos dadas,
De mos dadas, Walt, de mos dadas, danando o universo na alma.
sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roando-te contra a adversidade das coisas,
Sexualizado pelas pedras, pelas rvores, pelas pessoas, pelas profisses,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observaes,
Meu entusiasta pelo contedo de tudo,
Meu grande heri entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidrmico, contgio a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as aes, bacanal de todos os propsitos,
Irmo gmeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir mquinas,
Homero do insaisissable de flutuante carnal,
Shakespeare da sensao que comea a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura! incubo de todos os gestos
Espasmo pra dentro de todos os objetos-fora,
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares...
Quantas vezes eu beijo o teu retrato!
L onde ests agora (no sei onde mas Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos so mais quentes (em gente)
E tu assim que os queres, meu velho, e agradeces de l ,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu esprito
Uma ereo abstrata e indireta no fundo da minha alma.
Nada do engageant em ti, mas ciclpico e musculoso,
Mas perante o Universo a tua atitude era de mulher,
E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo.
Meu velho Walt, meu grande Camarada, evoh!
Perteno tua orgia bquica de sensaes-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensao dos meus ps at nusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de a desde Deus vs-me ao contrrio:
De dentro para fora... Meu corpo o que adivinhas, vs a minha alma
Essa vs tu propriamente e atravs dos olhos dela o meu corpo
Olha pra mim: tu sabes que eu, lvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
No sou teu discpulo, no sou teu amigo, no sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e ests contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... H ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multido aos encontres a mim,
E cheira-me a suor, a leos, a atividade humana e mecnica.
Nos teus ver sos, a certa altura no sei se leio ou se vivo,
No sei se o meu lugar real no mundo ou nos teus versos,
No sei se estou aqui, de p sobre a terra natural,
Ou de cabea pra baixo, pendurado numa espcie de estabelecimento,
No teto natural da tua inspirao de tropel,
No centro do teto da tua intensidade inacessvel.
Abram-me todas as portas!
Por fora que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas no dou senha nenhuma...
Passo sem explicaes...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento no sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que h de passar por fora, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoes!
Daqui pra fora, polticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polcia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso a letra que mata, no o esprito que d a vida.
O esprito que d a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho pelo infinito fora at chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou no, no contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o prprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ningum tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner s rodas dos veculos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser a cadela de todos os ces e eles no bastam,
De ser o volante de todas as mquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
Dana comigo, Walt, l do outro mundo, esta fria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem foras no cho,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstrata do corpo fazendo maelstroms na alma...
Arre! Vamos l pra frente!
Se o prprio Deus impede, vamos l pra frente No faz diferena
Vamos l pra frente sem ser para parte nenhuma
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?
(Deixa-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho.
No se pode ter muita energia com a civilizao roda do pescoo...)
Agora, sim, partamos, v l pra frente.
Numa grande marche aux flabeux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indstria, o comrcio e cio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinos!
Por isso a ti que endereo
Meus versos saltos, meus versos pulos, meus versos espasmos
Os meus versos-ataques-histricos,
Os meus versos que arrastam o carro dos meus nervos.
Aos trambolhes me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me de p me exalto,
E os meus versos so eu no poder estoirar de viver.
Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que j est longe de mim!
No quero fechos nas portas!
No quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me faam pertena doda de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vo buscar a casa com fins obscenos,
S para no estar sempre aqui sentado e quieto,
S para no estar simplesmente escrevendo estes versos!
No quero intervalos no mundo!
Quero a contigidade penetrada e material dos objetos!
Quero que os corpos fsicos sejam uns dos outros como as almas,
No s dinamicamente, mas estaticamente tambm!
Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a... Ser levado at...
Abstrato auge no fim cie mim e de tudo!

Clmax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidrulica desancorando-me as entranhas sentidas!

Ponham-me grilhetas s para eu as partir!
S para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem
Gozo masoquista, espasmdico a sangue, da vida!

Os marinheiros levaram-me preso,
As mos apertaram-me no escuro,
Morri temporariamente de senti-lo,
Seguiu-se a minh'alma a lamber o cho do crcere privado,
E a cega-rega das impossibilidades contornando o meu acinte.
Pula, salta, toma o freio nos dentes,
Pgaso-ferro-em-brasa das minhas nsias inquietas,
Paradeiro indeciso do meu destino a motores!
He calls Walt:
Porta pra tudo!
Ponte pra tudo!
Estrada pra tudo!
Tua alma omnvora,
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde esto dois,
Tua alma o um que so dois quando dois so um,
Tua alma seta, raio, espao,
Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York,
Brooklyn Ferry tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Sculo vinte ao longe!
PUM! pum! pum! pum! pum!
PUM!
Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objeto, o ativo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Crculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco milirio de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objetos que se imaginem e s tu!
Tu Hora,
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertao, ida, desfraldamento,
Tu intercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereos,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo...
Comboio de sensaes a alma-quilmetros hora,
hora, ao minuto, ao segundo, PUM!
Agora que estou quase na morte e vejo tudo j claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.
Sem dvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando para trs, s uma nsia me fica
No ter tido a tua calma superior a ti-prprio,
A tua libertao constelada de Noite Infinita.
No tive talvez misso alguma na terra.
Heia que eu vou chamar
Ao privilgio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoes
Todos os feitios de todos os pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os mbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim at ti estardalhaam
Com uma algaravia metafisica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo.
Ave, salve, viva, grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graas,
Funicular do Olimpo at ns e de ns ao Olimpo.

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