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Seminário dos ratos (livro), de Lygia Fagundes Telles


Publicado em 1977, Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles, prova por que sua autora é uma das grandes damas da prosa brasileira (as outras são Clarice Lispector (obviamente) e Nélida Piñon), principalmente no conto.

Seus livros costumam enfocar a classe média paulista, flagrando sempre o seu cotidiano, o que dá a seus textos um tom entre detalhista e realista. No entanto, vai além das caracterizações desses dois rótulos.

Seu tom minucioso faz com que sempre se mergulhe na mente de suas personagens, sondando-lhes sonhos, desejos, devaneios, medos, incertezas, angústias, mas de uma forma que não se aproxima do quase hermetismo de Clarice Lispector, por exemplo. Não é necessário um gigantesco esforço de adaptação e concentração para acompanhar o que está sendo narrado. Portanto, pode também se rotulado como literatura intimista.

Fica também a coincidência entre as duas damas na medida em que há a predominância pelas personagens mulheres (mesmo quando o protagonista é masculino, como em "Sauna", pode-se perceber que tal personagem só existe para que se possa avaliar os efeitos de suas atitudes diante das mulheres) e as dificuldades do seu existir, o que faria críticos apressados classificarem uma e outra como literatura feminina. Deve-se adiantar que essa rotulação seria por demais limitante, tal o alcance que suas obras têm no questionamento tanto existencial quanto social.

Mas não se deve perder de vista que os contos de Lygia Fagundes Telles são carregados de simbologia, o que seria esperado, graças à concisão que caracteriza essa forma narrativa. Porém, no caso de Seminário dos Ratos, tal procedimento empurra o texto tanto para o fantástico quanto para o mágico. Neste conto e em "As formigas" a autora rompe com a realidade e com a lógica racional.

Cabem aqui definições. Entende-se por fantástica a narrativa que apresenta elementos que fogem à lógica com que entendemos o mundo, provocando estranhamento tanto no leitor quanto nas personagens. É o que ocorre no primeiro conto, "As Formigas". No entanto, quando esse estranhamento não se processa entre as personagens, que acabam instaurando uma nova lógica de mundo, passa-se então a ter o mágico, também chamado realismo mágico. É o que, de certa forma, ocorre no terceiro conto, "Tigrela".

Estrutura e Enredos

É constituído por quatorze contos, alguns dos quais são publicados mais tarde em Mistérios. É uma das obras mais importantes da escritora, com alguns novos e outros anteriormente publicados. O conjunto é harmonioso, continua o aprofundamento da vertente intimista e, em alguns deles, sobressaem-se aspectos de crítica social, como o conto título, de um fantástico alegórico de fecundo resultado.

As Formigas – Primeiro conto de Seminário dos ratos, "As formigas" tem seu foco narrativo na história de duas garotas - primas e estudantes - que se mudam para uma pensão. Leia mais....

Senhor Diretor – Trata-se de narrativa de uma mulher... Maria Emília, virgem..., no peso de seus sessenta e um anos de idade, reprimidos, solitários e deslocados da atualidade.

Diz-se paulista e professora aposentada. Uma vida dedicada às alunas em tantas classes..., imagem que ela associa, por mais de uma vez no conto, como a um grande e contínuo rio.

A narrativa é compatível com o pensar e agir de uma senhora “sessentona” sem o controle do tempo e dos fatos passados e presentes.

Temos, então, uma espécie de narrativa híbrida, ora expressada em forma de memórias e lembranças, ora como se fosse um ensaio de uma redação a uma carta dirigida a um certo Senhor Diretor (incógnita personagem que representa a autoridade a quem Maria Emília reclama e presta satisfações), ou ainda quer como um simples resmungo, rabugice ou comentário oral de alguém idoso, que se sente fora deste mundo com seus valores diferentes e ultrapassados.

A narrativa ora é conduzida pela própria protagonista, em 1ª Pessoa – Imagine se papai estivesse vivo e soubesse do que aconteceu no Municipal, um moço subindo no palco e fazendo a necessidade, ali em cima dos dourados, sob a vista de Carlos Gomes, de Verdi (...) eu já não sabia onde enfiar a cabeça quando ela falou que faziam uma incisão no clitóris da mulher... – bem como por uma outra voz, oculta em 3ª Pessoa que acompanha nossa protagonista nos momentos de devaneio e deslocamento pelo espaço urbano que tanto a assusta e a confronta - Lançou um último olhar para a banca de jornais (...) Na tela, um barbudo de cabelos esgrouvinhados espiava por entre a folhagem uma loura que tinha ido nadar nua na lagoa....

Dentre as digressões que a narradora acaba fazendo ao longo do conto (digressões que ela mesma, ao final, reconhece), encontram-se as mais diversas situações e pensamentos. Entre outras, reclama muito da atual liberalidade da mulher; da questão sexual sendo encarada abertamente (aborto e partes íntimas discutidos e veiculados com naturalidades); da prostituta que reivindica o reconhecimento da profissionalização de seu secular ofício. Sua memória e comportamento senil referenciam a todo momento seu estado virginal, reprimida sexualmente que, apesar de escandalizar-se, acaba relatando, sensivelmente, lembranças pessoais com seu sexo na adolescência: a primeira exposição das partes ao médico; o medo pelo sexo que, confessa, herdou da mãe; e a condição atual de seu sexo envelhecido e seco.

Além do sexo, comenta sobre o poder, negativo, da mídia e da propaganda, citando o produto Coca-Cola e a imposição do mercado ao seu consumo. Fala constantemente de suas amigas sessentonas, em especial uma tal Mariana, que apesar de ser um pouco mais velha que ela, comporta-se mais jovialmente sendo motivo de crítica (fofoca) e admiração ao mesmo tempo. Noutra feita, cita o parnasiano poeta Olavo Bilac como sendo o seu preferido. O modernismo para ela ainda não chegou.

Ao final, a velha tonta, emocionada no escuro de um cinema cujo filme pouco importasse, revela consciência de seu estado físico e mental num lamento, sensível, disfarçado Acabei falando em outras pessoas, em mim, espera, vamos começar de novo, sim a carta. Senhor Diretor: antes e acima de tudo (...).

Tigrela – Uma mulher oculta narra em 1ª Pessoa e em discurso indireto, a conversa que teve com a amiga Romana que encontra por acaso num bar. A narradora nos traça breve biografia de Romana deixando a imagem de uma mulher já com alguma história de vida. Hoje, alguém inquieta e nervosa, solitária e carente passando por uma depressão após seus cinco casamentos e... talvez, naquele momento, a perda de alguém que lhe é muito querido.

Conta que de seu último namorado ganhara um filhote de tigre, Tigrela, a quem se apega criando desde a mamadeira até as jóias e presentes dados como se o bicho fosse uma mulher e amante, com quem, durante esses últimos anos, convive numa cobertura com todo o conforto possível.

Num jogo ambíguo, a narrativa vai gradativamente humanizando as ações e o relacionamento de Tigrela com Romana. Da mulher com o animal, para a mulher com a mulher. Após algum tempo de paixão Gostava de uísque, essa Tigrela, mas sabia beber, era contida (...) E Romana sorriu quando se lembrou do bicho dando cambalhota rolando pelos móveis (...) e aí dançamos um tango juntas, foi atroz.

Romana confessa que a relação está desgastada e insuportável, sugerindo que ambas se desejam mortas. Olhares carregados, vinganças e mais recente uma violenta crise de ciúmes quando Romana reata com um “ex” seu No fim quis se atirar do parapeito ao terraço, que nem gente, igual. Igual, (...) Estranhei, Yasbeck tinha ficado de telefonar e não telefonou, mandou bilhete (...) fui ver e então encontrei o fio completamente moído, as marcas dos dentes em toda a extensão do plástico. Não disse mas senti que ela me observava (...) ficamos desconfiadas mais ainda assim, está me entendendo? (...).

Muito nervosa, Romana deixa transparecer por mais de uma vez, a vontade de saber a Tigrela morta em suicídio pulando do terraço. Ultimamente isso já era uma esperança. E naquela noite em especial Romana parecia ter uma certeza maior de que finalmente receberia a notícia da morte de Tigrela quando chegasse em casa Volto tremendo para o apartamento porque nunca sei se o porteiro vem ou não vem me avisar que de algum terraço se atirou uma jovem nua, com um colar de âmbar enrolado no pescoço.

A autora consegue uma ambigüidade fantástica nesse conto já a partir do título com o nome: Tigrela, que pode ser a união do anima tigre mais o pronome feminino ela, além da capacidade de escolher as palavras adequadamente a comporem as imagens cinematográficas da narrativa.

O conto pode ser visto sob o viés da literatura fantástica, bem como da simples metáfora de um caso de amor.

Herbarium – Em sensível narrativa, esse conto nos traz uma pequena história contada, em 1ª Pessoa, por uma menina, criança à beira da adolescência, que descobre a paixão num primo doente e mais velho que vem ficar alguns dias em sua casa.

Não se sabe a causa da doença do primo. Sabe-se que ele é estudioso das plantas e está frequentemente apanhando folhas para seu herbanário Todas as manhãs eu pegava o cesto e me embrenhava no bosque, tremendo inteira de paixão quando descobria alguma folha rara (...) ele tinha em casa um herbanário com quase duas mil espécies de plantas (...).

A menina narradora, desconcertada e apaixonada pelo primo, passa a coletar várias amostras e faz de tudo para impressioná-lo. Deixa de roer as unhas e passa, infantilmente, a ocupar-se somente da presença do primo, mudando algumas atitudes e comportamentos que até então não importavam. A convite do próprio primo aceita ser uma espécie de assistente dando asas à sua paixão e imaginação, até que vem a notícia da partida do rapaz O chamado era urgente, teriam que voltar nessa tarde. Sentia muito perder tão devota ajudante, mas um dia quem sabe? (...).

Triste e sem graça, a menina tenta encobrir seus sentimentos que, a cada passo desengonçado, ficam mais evidentes. Chateada com a notícia da partida e mais a chegada de uma moça que veio buscar o primo, nossa narradora acha uma rara folha que pensa em ocultar do primo só por birra Estendi-lhe o cesto, mas ao invés de segurar o cesto, segurou meu pulso: eu estava escondendo alguma coisa, não estava? (...) Enfiei a mão no bolso e apertei a folha, intacta a umidade pegajosa da ponta aguda, onde se concentravam as nódoas vermelhas. Ele esperava. Eu quis então arrancar a toalha de crochê da mesinha, cobrir com ela a cabeça e fazer micagem, hi hi! hu hu! Até vê-lo rir pelos buracos da malha, quis pular da escada e sair correndo em ziguezague até o córrego, me vi atirando a foice na água, que sumisse na correnteza! Fui levantando a cabeça. Ele continuava esperando, e então? No fundo da sala, a moça também esperava numa névoa de ouro, tinha rompido o sol. Encarei-o pela última vez, sem remorso, quer mesmo? Entreguei-lhe a folha.

A Sauna – Desta vez a voz, o ambiente e o comportamento masculino estarão presentes conduzindo e revelando as memórias e pensamentos do narrador enquanto freqüenta uma sauna tradicional para homens.

Em 1ª pessoa, a narrativa flui ao sabor desse homem maduro, um pintor que se diz com certo reconhecimento como artista, que ao longo do conto relembra seus amores, dentro e fora dos dois casamentos. Suas conseqüências e dores.

Em forma de conversa com Marina, sua atual esposa, conta sua vida de carrasco e amante da sua primeira mulher, Rosa, a meiga.

Este é o mais extenso conto de Seminário dos Ratos e também o mais denso.

Acompanhamos os pensamentos de um pintor e seus flashbacks iniciados quando sente, na sauna em que vai entrar, o cheiro de eucalipto, o que faz o protagonista lembrar-se de Rosa, que gostava de aromas, inclusive esse.

De Rosa salta-se rapidamente para Marina, que tinha uma curiosidade inquietante sobre a outra mulher. Pelas lembranças que carrega das duas mulheres (e de tantas outras), acabamos delineando o caráter do artista. Unira-se a Rosa, que lhe dera praticamente tudo, a começar da inspiração para um quadro que lhe engatilhara o sucesso. A mulher largou o emprego para poder cuidar das molduras de seus quadros. Mandou seu tio mudo, única companhia, para um asilo, para que o pintor tivesse mais espaço para sua arte. Vendeu sua única casa para que ele pudesse viajar para a Europa e evoluir artisticamente. Abortou para que um filho não atrapalhasse os planos dele. No final, acaba abandonando-a, em parte porque não precisava mais dela, em parte porque havia criado um novo círculo de amizades, em parte porque ela havia engordado (na verdade, sua obesidade pode ser entendida como fruto de uma compulsão por comer, ou seja, uma compensação para a frustração amorosa que estava sentindo).

Em Paris, conhece Marina, com quem se casa, imaginando nadar na riqueza do pai dela. Descobre pouco depois que o homem era sovina e tão cedo não iria ver o dinheiro sonhado. Mas, rapidamente o sucesso (e não a qualidade artística, conforme o próprio protagonista percebe) o fez independente economicamente. No entanto, não alcança a felicidade no casamento, pois a traição que comete com Carla (que depois é cruelmente obrigada a abortar) e tantas outras acaba por apodrecer o relacionamento. Mas, diferente de Rosa, a esposa acaba emancipando-se, no mesmo momento em que se dedica ao movimento feminista.

A frieza e a ironia com que ela encara o comportamento do marido dão-lhe uma superioridade que lhe é incomodante. Chega a fulminar o artista com uma pergunta que fica torturando incessantemente a mente dele: já havia chegado a amar alguma vez na vida? Atordoado, vai a uma sauna (por conselho da esposa, provavelmente). A entrada nesse ambiente pode ser comparada à ida ao inferno, pois é lá que se manifestam todas essas lembranças e reflexões misturadas com um princípio de remorso, que não a se efetivar completamente, tal o caráter defeituoso do protagonista. O clímax ocorre na explosão de choro, em que suas lágrimas acabam-se misturando ao suor. Sente-se expurgado. Mas não há garantias de que seu caráter mudou.

Curioso nesse conto é o denso conjunto de elementos psicológicos que podem ser rastreados nele. Há algo de edípico no protagonista, pois possui um relacionamento problemático com o pai, não o enxergando com respeito. Já a ligação que estabelece com a mãe é fortemente afetiva, idealizando-a completamente. E o seu erro pode ser visto nas transferências que faz de elementos da progenitora nas amantes dele. Engravida Rosa no momento em que ela estava vestida de preto. Não se deve esquecer que sempre se lembrava da mãe e do vestido dela quando olhava para o céu estrelado. O comportamento firme de Marina, dominador, pode ser facilmente associado à superioridade materna. Além de tudo isso, para piorar a situação há algo que incestuoso na maneira sensual com que se refere à própria irmã, que no final acaba prostituta.

Pomba Enamorada ou Uma História de Amor – Outra narrativa que apresenta a figura masculina como grosseira. Numa narrativa em terceira pessoa, acompanhamos as desventuras do decorrer do tempo de uma mulher que se apaixona, ainda na adolescência, por uma figura ríspida, Antenor. É uma obsessão que vai até a velhice. No começo, perseguia-o insistentemente, seja ao telefone, seja indo até o local de trabalho dele. Não desiste nem mesmo quando fica sabendo do casamento do objeto amado. Tenta suicídio, frustrado. Recupera-se e diz ter amadurecido e nunca mais querer incomodá-lo. No entanto, faz questão de escrever uma carta para Antenor, para deixar tal resolução clara. O tempo passa e ela, sempre descobrindo o endereço dele, até a nova profissão (de mecânico passara a motorista de ônibus) manda cartas, falando do casamento dela, enviando notícias dos filhos dela. No final, já com filhos crescidos, um deles casado, vai à cartomante e esta lhe diz que um grande amor iria entregar-se a ela na rodoviária no domingo próximo. Sua ida ao terminal de ônibus engraçadamente indica que nada havia mudado no coração da sonhadora. Leia mais...

WM – Conto em 1ª pessoa que narra a história de Wlado, personagem problemática, graças à infância solitária a que fora jogado, pois sua mãe, famosa atriz, não tinha paciência, disposição e tempo para gastar com os filhos. Quando alcança a velhice, o abandono a que fora relegada a torna mais reclusa e amarga. A única companhia que encontra é a irmã, Wanda. Ela é que o alfabetiza Wlado. É daí que vem o título do conto.

Wlado tinha dificuldade em escrever seu nome por causa do "w"; ela ensina-o que bastava imaginar essa letra com um "m" de ponta cabeça, como se estivesse plantando bananeira. Ludicamente ele se encanta com a idéia e passa povoar tudo ao seu redor com as duas letras. Eis aqui a grande simbologia do conto. W e M parecem a mesma realidade, a mesma personalidade, mas invertidas ou mesmo enrustidas, disfarçadas. É o que se processou na mente de Wando. Por todos os lados, WM aparece. É Wanda marcando seu espaço. Tudo fica preocupante quando se torna uma obsessão. O casco da tartaruguinha é marcado com essas letras.

Mais para frente, em plena passagem da adolescência para a juventude, quando se apaixona por uma prostituta chinesa, Wing (sempre o "w"), as duas letras aparecem tatuadas nos seis dela. O protagonista sente que sua irmã está perturbada. Mas descobrimos que ele é que está perturbado, pois sua mãe avisa que Wanda havia morrido há muito tempo e que ele não devia pensar mais nela. Nota-se, pois, que, em meio a solidão, Wlado havia tornado Wanda sua amiga invisível, praticando suas ações e imaginando que tinha sido ela. É o que acontece quando Wing é assassinada. Na verdade, ele pensa que a tatuagem havia sido feita pela irmã e que Wing a queria proteger. Vai para o psiquiatra, Doutor Werebe (o "w"!), na certeza de que estará ajudando a tratar a irmã. Não percebe que é ele o tratado.

Lua Crescente em Amsterdã – Conduzida em 3ª pessoa por uma voz oculta, esse é outro conto que apresenta as agruras surgidas quando se acaba o amor. Temos a história de um casal vivendo provavelmente à moda ‘hippie’ (à margem da sociedade capitalista e consumista dos homens), em plena gelada rua de Amsterdã.

A mulher está com muita fome e tenta ganhar um pedaço de bolo de uma menininha que se aproxima e depois, assustada, sai correndo.

Dirige-se ao homem reclamando da situação em que se encontram. Este rebate as críticas e mantém-se calmo, dizendo que o problema é a falta de amor entre eles e que o amor acabou. Passa a sentir certa pena da mulher que está realmente muito magra e abatida.

Ela o culpa e lamenta ter acompanhado-o naquela aventura.

Ao final o elemento fantástico dá sensível finalização ao conto com os dois protagonistas transformando-se em passarinho (ele) e borboleta (ela): - Quando acaba o amor, sopra o vento e a gente vira outra coisa – respondeu ele. – Que coisa? – Sei lá. Não quero é voltar a ser gente, eu teria que conviver com as pessoas e as pessoas... – ele murmurou – queria ser um passarinho (...) – Nunca me teria como companheira, nunca. Gosto de mel, acho que quero ser borboleta. É fácil a vida de borboleta? – É curta. O vento soprou tão forte que a menina loura teve que parar porque o avental lhe tapou a cara (...). Procurou os forasteiros por entre as árvores, voltou até o banco e alongou o olhar meio desapontado (...). Guardou o bolo no bolso e agachou-se para ver melhor o passarinho de penas azuis bicando com disciplinada voracidade a borboleta que procurava se esconder debaixo do banco de pedra.

O X do Problema – Conto jocoso em 3ª pessoa que narra a atenção que uma família pobre que mora num barraco dá a um show televisivo que promete dar um milhão se o concorrente Aryosvaldo responder todas as perguntas sobre a Marquesa de Santos.

O ambiente, não fosse triste, é simples e muito miserável. A imagem da televisão é péssima mal dando para ver o programa. O pai, sr. César, tenta de tudo até jogar a antena no molhado. Chega a chamar o gato. Diz que quando este está deitado sobre o aparelho a imagem melhora. D. Clorinda diz que o gato hoje não apareceu e que provavelmente fora ‘jantado’ no vizinho ao lado pois lá ontem teve carne. Seria engraçado não fosse tétrico. Aliás, a torcida de seu César é muito fanática e espelha a sustentação que esse tipo de programa tem na classe mais humilde da sociedade. O filho Duda, com a mão sempre no fundo da braguilha, comenta que alguém disse que o programa é marmelada, o que irrita o pai César.

Com muita torcida e dificuldade em obter a imagem, fica-se sabendo que o candidato chega ao prêmio máximo com muita festa tanto nos estúdios quanto em casa de César e Clorinda, que está sempre preocupada com a próxima chuva.

Fecha o conto com César tentando ser feliz de qualquer maneira, mesmo que seja com a felicidade dos outros, enquanto Clorinda lamenta a enchente: — Um milhão. Se a Ponte Preta ganha amanhã, já pensou? – Tudo foi na enxurrada, até o coitadinho do Nando, mas esses ratos desgramados ficam. (...) – Diz que vai ter agora um cara falando do Pelé, mas quem quer Pelé? Pelé está velho, eu queria o Zico. (...) Ele abriu a porta. Enfiou as mãos nos bolsos, o queixo nítido de vencedor: - Um chuvisco de nada, não esquenta não, tudo bem, amanhã vai fazer um puta de um sol.

A mão no ombro - Como anuncia o título, o conto "A mão no ombro" expressa a anunciação da morte de um homem de quase cinqüenta anos, pelo toque de uma mão no ombro através de uma sonho. O conto constrói-se em torno dessa narrativa onírica do protagonista, oriunda da necessidade de refletir sobre sua vida antes de enfrentar a iminência da morte, abordando a passagem temporal. Leia mais...

A Presença – O velho, o idoso e o desgastado versus o novo, o jovem, a vitalidade em pessoa. Em "A presença", um narrador oculto, em 3ª pessoa, conta-nos com certo mistério o conflito de faixas etárias distintas quando um moço de 25 anos hospeda-se num hotel ocupado por pessoas idosas, burguesas e acabadas para o mundo lá fora. O porteiro, igualmente velho, à medida que faz o registro do novo hóspede, tenta de todas as formas também dissuadi-lo de não permanecer naquele lugar mofado e sem atrativos para um jovem. O rapaz entende e continua firme no propósito de ali se hospedar. O velho tenta novamente descrevendo o mal que a juventude do moço poderá causar aos velhinhos decadentes com seus feridos orgulhos já que muitos ali eram artistas. Fala de uma ex-atriz que mal sai do quarto. Diz também que os espelhos grandes que antigamente pipocavam pelo hotel, foram removidos Era evidente o alívio dos hóspedes livres daquelas testemunhas geladas, captando-os em todos os ângulos. (...)

Diz que antigamente aquele hotel fora agitado com inúmeras famílias passando o verão ali na bonita piscina. Danças até de madrugada. Jogos. Competições... o hotel dispunha de ótimos cavalos. Charretes. Mas aos poucos os hóspedes mais velhos foram dominando, à medida que os mais jovens começaram a rarear, não sabia explicar o motivo (...).

Ressalta que se lá fora não há espaço para eles, naquele hotel eles conquistaram esse direito. Formavam uma verdadeira comunidade uniram-se, e a antiga fragilidade, tão agredida além daqueles portões, foi se transformando numa força. Num sistema. E eram seres obstinados (...) se não eram felizes, pelo menos conseguiram isso, a segurança (...).

O jovem não considera a advertência dada pelo porteiro e instala-se no segundo andar. Antes do jantar exercita-se na piscina exibindo seu corpo jovem e observando as cabeças alvas que o espiam das janelas.

No jantar comeu com apetite de ‘jovem’ e aplaudiu muito os três velhos músicos que tocaram antigas peças que alguns hóspedes (poucos desceram para o jantar) ouviram imperturbáveis. Achou um certo amargor na goiabada com queijo.

Ao se deitar, depois de ter tomado o chá servido às vinte e uma horas, ele já não se sentia bem.

Noturno Amarelo – Família, cheiros, lembranças, calor, memórias, acerto de antigas contas: a oportunidade via o fantástico. Esses ingredientes de "Noturno amarelo", narrado ao sabor do intimismo de mais uma mulher, desta feita Laurinha que nessa noite junto ao amado Fernando encontra-se em plena estrada com o carro sem gasolina e que em breve irá rever velhos conhecidos.

Enquanto espera Fernando providenciar o combustível, não sem antes aludir que a relação amorosa não vai nada bem, chega até ela o cheiro estonteante da Dama-da-noite. Instintivamente segue o perfume e se vê no antigo cenário familiar de uma casa alta e branca fora do tempo, mas dentro do jardim. Luzes se acendem nas janelas. A sempre boa, Ifigênia, anos na cozinha da família, vem receber festivamente a narradora. Lá dentro estão todos e principalmente aqueles que ela precisava encontrar: - Que feio, Laura! A Chapeuzinho Vermelho atravessou um bosque cheio de lobos só pra levar o bolo pra Avozinha que estava com resfriado, não era um resfriado? (...) – Não veio buscar Ifigênia que queria cumprir promessa, não trouxe meu espelho, roubou a torre do Avô, roubou o noivo de Eduarda e não visitou a avó.

Assim, não se sabe por quanto tempo, esteve entre todos desculpando-se ou ao menos podendo conversar sobre suas culpas.

O título do conto fica por conta de sua avó que ao piano mostra uma composição de sua autoria: Noturno amarelo, para a neta visitante, que vê sua irmã caçula, Ducha dançar ao som da música.

De repente, rápido ou lento, Laura não sabe precisar, confunde-se na lembrança e só recorda-se que todos começam a ficar distantes saindo porta fora. Bastante emocionada, Laura consegue sair também e ao dar volta pela casa certifica-se do que suspeitava: nada havia ali atrás daquela porta, apenas um campo. Em seguida reencontra Fernando que nem percebera que ela tinha saído ou não do carro. Ou não terá saído? A viagem continua.

A Consulta – Num hospital, ou clínica, psiquiátrico cujo regime é de liberdade total, médicos, pacientes e funcionários convivem harmoniosamente sem distinção de uniformes e cargos. O narrador oculto, em 3ª pessoa, apresenta-nos o Dr. Ramazian, médico responsável pelo local e que está prestes a se ausentar algumas horas dali. Da janela de sua sala chama o paciente, Maximiliano, para que faça o favor de ficar no consultório a fim de atender e anotar recados telefônicos durante sua ausência, já que a secretaria, Dona Doris, não havia chegado ainda. Mas, contente com o convite, imediatamente pula a janela para dentro do consultório e se diz pronto para o favor. O medico sai e logo batem a porta. Max sentado na cadeira giratória e com o cachimbo na mão, assume a identidade do médico. Abrindo levemente a porta, apresenta-se um homem nos seus trinta e cinco anos, que diz ter consulta marcada às quatro horas com o Doutor, mas devido a sua grande ansiedade não agüentou esperar e pede para ser atendido imediatamente. O falso Dr. Então, pede que ele entre e conte seu problema. Acontece que o tal homem sofre de medo da morte, não podendo sequer pronunciar o nome, passar por cemitérios, enterros, enfim qualquer relação com a velha senhora que venha a ter, acaba passando muito mal. Há dias dorme e come mal. Fuma um cigarro atrás do outro e só com música consegue suavizar seu medo, pois do contrário a morte está em todos os lugares da vida moderna.

Nosso doutor, com seu cachimbo à mão, observa o paciente e lhe diz que para curar tal doença, melhor seria encarar de frente a morte em todos os seus alcances. Diz mas não é novidade que a única forma de se curar de um veneno é recorrer ao próprio veneno. Como é que se cura picada de cobra? Conta sobre um outro paciente seu que tinha medo de automóvel, e dentro da mesma filosofia, mandou que ele trabalhasse e tivesse relação com os carros o máximo possível. Como resultado o paciente acabou incorporando o automóvel em si. Saía pelas ruas buzinando uon! uon! uon! e fazendo brrrrrrrrrrrr!... brrrrrrrrrrr!... mas que acabou perdendo para uma jamanta que vinha em sentido contrário. Explica isso, diz então ao paciente que assuma o seu medo e encare a morte de frente. O falso médico pensa em algumas alternativas como trabalhar num hospital, fábrica de defuntos, mas resolve encurtar o tratamento e repentinamente pede que o homem saia e se mate imediatamente. O homem, apavorado, tenta argumentar. O doutor, resolvido, despede-se e manda que cumpra as ordens saia e se mate em seguida. Uma boa morte para o senhor.

Sem sabermos o desfecho daquele interessante caso psiquiátrico, o falso doutor recebe a chegada do verdadeiro doutor e relata apenas dois telefonemas que aconteceram durante a sua ausência, omitindo o caso do paciente com medo da morte.

No diálogo final, a loucura comprovada de Max, passa a aparente:

— Ótimo. Nada mais? Alguém me procurou?

- Um momento, deixa eu ver – disse Maximiliano franzindo a testa. Encarou o médico: - Não, ninguém. Ninguém. Posso ir?

- Sim, sem dúvida – disse o médico passando o olhar distraído na folha de bloco com as anotações. – Ótimo, Max. Você vai indo muito bem, o progresso se fez. Estou muito satisfeito.

- Eu também.

- Falta apenas o último passo, você sabe, assumir sem possibilidades de retrocesso. Então estará curado. Maximiliano sorriu. A voz saiu mansa, num quase sussurro, ‘curado e fodido’.

- O que foi? Você disse alguma coisa?

- Não, Doutor, nada. O sr. tem razão. (...)

Interessante é notar neste conto a divisa tênue que fica entre loucura e sanidade, já que Max, nada equilibrado, usa todo um raciocínio sutil e bem arquitetado. Sem contar as citações e observações sábias que faz.

Seminário dos ratos - Conto em terceira pessoa que apresenta uma alegoria de nossas estruturas político-burocráticas. Trata-se de ratos, pequenos e temerosos roedores, numa treva dura de músculos, guinchos e centenas de olhos luzindo negríssimos, que invadem e destróem uma casa recém restaurada localizada longe da cidade. Leia mais...

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