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Solombra, de Cecília Meireles


Solombra, publicado em 1963, foi o último livro publicado em vida, por Cecília Meireles. É ele uma “parte” que contém o “todo” de seu universo poético. Apresenta, evidentes, os mesmos questionamentos universais, as mesmas inquietações presentes em toda a obra da poeta. Nele não há limitação geográfica ou temporal, "tudo é no espaço - desprendido de lugares" e "tudo é no tempo - separado de ponteiros".

Falar contigo.
(...)
Dizer com claridade o que existe em segredo.
Ir falando contigo e não ver mundo ou gente.
E nem sequer te ver, mas ver eterno o instante
No mar da vida ser coral de pensamento.

Aí se entremostra, metaforicamente, a problemática filosófico-existencial que está na gênese de sua criação poética:

– “Falar contigo” (anseio de se sentir participante do absoluto ou Mistério divino/cósmico);
– “ver eterno o instante” (ânsia de descobrir o verdadeiro espaço ocupado pela efêmera vida humana, dentro da eternidade cósmica que a abarca) e
– “No mar da vida ser coral de pensamento.” (aceitação de seu destino de poeta, cuja tarefa maior seria captar, nomear ou instaurar em palavra, a verdade/beleza/eternidade ocultas nos seres e coisas fugazes, para comunicá-las aos homens e perpetuá-las no tempo.

O símbolo noturno rege Solombra, palavra que Cecília Meireles recuperou do português antigo e que evoluiu para a forma "sombra". Esse nome, que já traz em si a idéia de noite, de mistério, constitui-se o símbolo diretor do livro, cujos vinte e oito poemas têm entre si um elo de continuidade que "narra" novamente a progressiva imersão do eu-lírico na noite. Trata-se de um exercício místico de aceitação da morte - vista como inserção na dimensão noturna e compreendida como transformação em outro modo de ser, motivo por que o eu-lírico a ela se entrega, acolhendo a lição do vento que lhe recorda um saber anterior:

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus,sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada,mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas (p. 794)

Assim, nas viagens a instâncias metafísicas, o "mar" e a "noite" são, na poesia ceciliana, símbolos eleitos para expressão e nomeação do incognoscível, da sobre-humana vida que o sujeito lírico intui, eufemizando o absurdo da morte e concebendo esse destino inevitável como uma transmutação em outra forma de ser, própria da condição supra-sensorial. No desenvolvimento do tema da viagem a dimensões transcendentes, o símbolo revela-se mediador do significado diante da "impossibilidade do signo exprimir" indagações e respostas sobre o sentido da vida "face à inelutável instância da temporalidade e da morte".

Cecília Meireles é uma voz precisa, adjetivos bem colocados gerando significação. Não são adornos, têm um destino substantivo. Nestes versos de Solombra, livro composto por um único texto, ela conceitua e diferencia pela intensidade sentimentos que são vistos como sinônimos angústia e agonia. Há mensagem, só a agonia é perfeita (para os poucos sobreviventes), e redondeza sonora. Contenção que permite pensar, longe do habitual derramamento. O sofrimento encontra uma plasticidade exata. Elegância para falar das sombras.

Em Solombra é constante a temática da ausência (metáfora da sombra) enquanto afirmação de uma presença que se foi.

Créditos: Nelly Novaes Coelho, Universidade de São Paulo | Ana Maria Lisboa de Mello, Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Fabrício Carpinejar, Revista Bravo

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