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Soneto de devoção, de Vinícius de Moraes


Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica em meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez... - mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

1ª estrofe - Repetição sistemática do fonema consonantal “b”- aliteração.

Não houve preocupação em obedecer às regras tradicionais de pontuação.

Versos decassílabos com esquema de rima ABAB, ABB CCD, DCD

Assim como Castro Alves, Vinicius canta o amor físico, o amor livre.

O termo "cadela", bastante forte, pois normalmente funciona como palavrão, como ofensa, dirigida vulgarmente a mulher que “não se respeita”, que se entrega a qualquer um, tem aqui uma força e um gosto especial.

Ao designar a mulher de cadela, dentro do contexto desses versos e da personalidade de seu criador, veste a palavra com novas roupas e novas cores.

O que se sente ao ler o poema é que ali esta uma mulher que ama o amor, uma mulher que se entrega a relação sexual com força animal, sem os recatos afrescalhados de uma formação burguesa, cristã, repressora

Perante a admiração e devoção do eu lírico, tal condição transforma-se em valor, em qualidade, conferindo a musa uma aura de beleza.

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