Sorôco, sua mãe, sua filha (Conto de Primeiras estórias), de Guimarães Rosa

  • Data de publicação

Conto narrado em terceira pessoa, mas com a participao ambgua do narrador como personagem. Isto se dá pelo fato do narrador ser um observador dos fatos, mas tambm fazer parte do povo: "A gente se esfriou (...)" "A gente estava levando agora o Sorco (...)" Ou seja, "a gente ", no conto, pode ser a gente, o povo da estao, como tambm o marcador oral "a gente" enquanto ns.

O conto tem uma temtica triste, trabalha com o sentido circular de passar a angstia do personagem Sorco com sua solido e desespero ao ter que deixar ir para longe as nicas pessoas que tem no mundo, ficando mais solitrio ainda. Tudo gira em torno da separao, da perda, da ausncia e da distncia.

A grande temtica do conto a solidariedade. H a compaixo do povo para com Sorco e sua dor. O povo se solidariza com Sorco. A irracionalidade entoada na cantiga da me e da filha loucas realiza o elo de ligao entre as dores de todos os homens. uma cantiga compreendida s por aqueles que possuem sentimento, a razo de ser do humano. Esta cantiga metaforiza a unio entre os homens por meio da solidariedade.

possvel imaginar o sofrimento de Soroco, o vazio dolorido sentido e a profunda solido na alma. A solido s no absoluta, porque existe a solidariedade do povo acalentando seu corao.

Pode-se observar tambm as sugestes sonoras oferecidas pelo nome do personagem: Sorco - s louco; Sorco - socorro, como compreenso do forte sentido do contexto do texto. Por outro lado, interessante perceber a gradao do ttulo, sugerindo a unio da famlia como vages que se engatam no trem da existncia e se desengatam no destino. Cada vago carrega sua prpria solido e dor, mas forma o trem da solido e da dor coletivas, na metfora de uma cantiga.

Sorco comparado a J, personagem da Bblia, por causa de seu sofrimento. Passado e futuro, ele, no meio. Ele, a terceira margem. A eternidade. E as propores gigantescas dele lembram as personagens grotescas que so castigadas, eliminadas em outros contos. O padecimento a que foi submetido ao cuidar das duas, no entanto, redimiu-o.

Enredo

O conto inicia com a descrio de um vago diferente, gradeado, que seria levado pelo trem do serto. A populao sabia que ele levaria duas mulheres, para longe, para sempre: a me e a filha de Sorco. A me de Sorco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele s tinha aquela. Sorco era vivo. Homem simples e rude, vivia com sua me e sua filha:

A me de Sorco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele s tinha aquela. Sorco era vivo. Afora essas, no se conhecia dele o parente nenhum.

Me e filha eram loucas. Sorco tentou ficar com as duas ao seu lado, mas no foi possvel. Tomou a deciso mais difcil de sua existncia: intern-las. O governo mandaria o trem para lev-las para Barbacena, longe. "Para o pobre, os lugares so mais longe." Sorco deveria encaminh-las estao, pois "o trem do serto passava s 12h45m."

Sorco seguiu para a estao acompanhando as duas, uma de cada lado, parecia entrada em igreja, num casrio. O povo esperava, protegendo-se do sol. "As pessoas no queriam poder ficar se entristecendo, conversavam (...) Sempre chegava mais povo - o movimento." Algum avisa que Sorco aponta da Rua de Baixo, onde mora. Ele vestia a sua melhor roupa para a despedida, que a populao acompanhava com pesar Todos diziam a ele seus respeitos, de d. Diziam palavras que tentavam consol-lo e ele muito humilde respondia: - "Deus vos pague essa despesa..." Todos compreendiam a atitude de Sorco, pois no havia outro jeito.Porm todos pensavam que a partida delas seria bom para ele, visto no haver cura para a doena e tambm pelo fato de elas terem piorado nos ltimos 2 anos, a ponto de Sorco pedir ajuda mdica para elas.

Em frente ao trem, a filha de Sorco comea a cantar uma cantiga que ningum entende. A me de Sorco comea a cantar tambm a cantiga entoada pela moa, antes de serem alojadas dentro do trem. Principia o embarque das duas. E o canto ecoa longe. Sorco no espera o trem desaparecer de vez, nem olha, fica de chapu na mo calado. "De repente, todos gostavam demais de Sorco."

O trem partiu e Sorco no esperou tudo se sumir. Nem olhou. S ficou de chapu na mo, mais de barba quadrada, surdo o que nele mais espantava. Todos os presentes ficaram condodos com o sofrimento do homem. Entretanto, Sorco pra e num rompido ele comeou a cantar. Alteado, forte, mas sozinho para si e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando. E eis que todos, de uma vez, de d de Sorco, principiaram tambm a acompanhar aquele canto sem razo. E com vozes to altas! (...) A gente estava levando agora o Sorco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia at aonde que ia aquela cantiga.

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