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Suíte para os habitantes da noite, de Aníbal Beça


Suíte para os habitantes da noite é o sexto livro de Aníbal Beça, e faz parte da trilogia iniciada em 1987, com Noite desmedida, e a ser encerrada com A palavra noturna.

Anibal Beça é um poeta moderno por excelência, a partir do momento em que elege a linguagem como o referencial de seu fazer poético. Já fora assim em Filhos da Várzea, também em Itinerário Poético, livros anteriores. Suíte para o habitantes da noite traz um poeta mais amadurecido, não apenas pelo inevitável passar do tempo, o que em alguns escritores traduz-se por repetição ou enfado, mas por guardar no cerne da sua elaboração poética uma força renovada, que transforma a linguagem, de objeto, em sujeito do poema.

Temos na obra as mais diversas formas poéticas: da ode ao soneto, da balada ao auto, resgatados da tradição, até ousadias formais historicamente recentes, como o poema concreto e o poema-práxis, além do poema livre das amarras rítmicas, cuja musicalidade se constrói a partir da interação entre autor e leitor. Ao lado da elaboração formal múltipla e inquieta, nota-se a preocupação com o enriquecimento da linguagem, a partir do uso de palavras exiladas do coloquial, bem como a criação de inúmeros neologismos. Leitor de Dante, Camões e Pessoa, fato evidenciado no texto, Anibal sabe que o poeta é o guardião da língua.

Outra característica facilmente observável em Suíte para os habitantes da noite é a dicotomia em que ela se alicerça: noite-dia, loucura-razão, sem que se estabeleça uma predominância de valor, antes, procurando o equilíbrio. Esse embate constante se trava também, sem que o poeta tome partido, na tensão entre fé mística e erotismo, urbano e bucólico, paixão e humor, apolíneo e dionisíaco, onde os contrários não se negam: se completam, se complementam como parte de uma estética una. A definição de Dámaso Alonso, acerca da poética de Góngora, "intensa no pormenor, densa no conjunto", enquadra-se à perfeição na poesia de Anibal Beça. Despido dos vícios que distinguem o Barroco, o poeta toma para si o que há de positivo naquela escola, reinventando a tradição e inserindo-se em seu tempo, num movimento circular de intemporalidade.

Uma outra evidência do caráter intencionalmente neobarroco de Suíte para os habitantes da noite é o empréstimo que ela faz à música para intitular seus "movimentos". Enquanto forma musical, a suíte foi estabelecida no século XVII, reunindo os ritmos de dança então em voga (sarabanda, giga, alemanda, entre outros), caracterizando-se como uma sucessão de peças de caráter contrastante, porém escritas numa mesma tonalidade. Tendo o barroco Johann Sebastian Bach, na primeira metade do século XVIII, como seu mais notável criador, a suíte, com o passar do tempo, perdeu sua característica dançante, passando a designar trechos sinfônicos representativos de óperas, balés ou música incidental para teatro. É, pois, com o sentido original que Anibal Beça designa a Suíte.

A obra é composta de poemas que podem ser lidos, e entendidos, independentes entre si, porém há uma guia, a mão do poeta-condutor, que atravessa todo o poema, desde o "Prólogo" até a "Balada Como/Vida", com sua coda em pianíssimo, figurando o transitório da vida, até então cantada em outros tons, altos e bons.

Tendo como ponto de partida a tradição persa, através da desventura do poeta Majnun, que enlouqueceu por amor a Laila, despojando-se de suas riquezas para viver no deserto, a Suíte traça um movimento sinuoso até um provável presente amazônico e aqui se universaliza:

Um rio negro lava minha aldeia
leva meu silêncio

Os elementos do poema, entretanto, são refratários a qualquer análise de cunho sociológico. Neta obra de Anibal somos conduzidos por labirintos habitados por animais tão domésticos, como o gato, o galo, ou mesmo éguas mouras, para, num repente, confrontarmo-nos com um tigre de basalto ou com

Os lobos sempre esses lobos
assaltantes da memória
recorrências de mim mesmo
ou de um outro que me habita

Mas o poeta que nos conduz não esquece das musas ou da mulher de um sonho distante, a própria Noite-Laila, o inconsciente, a desrazão, a fúria criadora do Louco-Majnun, que, enquanto poeta, representa o limite da palavra, palavra que se multiplica em lua (luaura, lualcoólica, lualém, luasente, luamante) ou noite (noitensa, noitelúrica, noitestelar, noitemporal, noiterminal). Onde a Poesia?, o poeta se pergunta: num auto-novena, no verbo em desconstrução, na contramão do silêncio, ou na solidão do Poema?

A trajetória que a Suíte percorre, do extremo Oriente às barrancas do Amazonas, enveredando por esse tempo milenar e atual, é uma clarividência de seu caráter de obra permanente, não fosse pelo rigor estético de sua elaboração a partir de sutis intertextos, que o leitor descobrirá ao sabor da leitura-viagem (via linguagem), e que funcionam como fachos a alumiar a caminhada na noite escura do poemenigma.

Quanto ao seu longo poema "Suíte para os habitantes da noite", que dá título à obra, o autor o dedica exatamente aos que habitam as cavernas luarenses da Deusa Negra, sorridente e misteriosa. Mas o que tem a ver esse título e os correspondentes sub-títulos do livro com os habitantes da suíte imaginária que lhe serve, no entanto, para abraçar as múltiplas variações de um belo itinerário poético, sólido e raro? É a pergunta que nos ocorre no decurso da viagem através de suas páginas extensas e generosas.

Trabalho sereno, o poeta mobiliza a noite e seus habitantes como testemunhas da insônia criadora, da nuvem, do solo ausente, da curva estelária, do tigre e do chão. O livro todo, no fundo, é uma balada extraída da noite e dos habitantes de uma cidade imaginária, de um tempo de seres remotos, cujo resgate parece iminente.

Dignas de nota, por outro lado, são as referências, embora de passagem, às raízes dessa cultura das mil e uma noites ao som e à luz da herança andaluza, através do alfenim, da Laila (ou Laile), como já citado anteriormente, e daquele trecho de Garcia Lorca que encima o poema XVI ("Pastorália com duas leituras para solo de avena"). Estes ares, solenemente enraizados na metáfora dos bons cantadores de cepa lusitana, mergulham, também, na lembrança de um passado inexplicavelmente submerso nas trevas do esquecimento e da morte.

"Serpente furtiva", o poema ou os poemas deste livro de Aníbal Beça restabelecem a vontade de criar e dar à beleza das noites que trazemos dentro de nós o brilho inédito de uma transfiguração a que nunca devem falta os brindes nem os verdadeiros convivas da serenata. Amigos e autores prediletos recebem, também, a homenagem do autor na parte final do volume, "poemas dedicados".

Belíssima nave constelada por tantos sons e orquestras fartamente dotadas dos mais sofisticados instrumentos musicais.

Alguns poemas escolhidos (Extraídos da obra Suíte para os habitantes da noite)


(Suíte para os habitantes da noite) VI

EM TOM DE OLD-BLUES PARA PIANO, SAX,
CONTRABAIXO, GUITARRA E BATERIA

Quem saberia de mim
se me visse assim como estou
rendido ao aço das manhãs
pastoreando esse meu cão
por essas ruas tão tranqüilas

Que gemelar seria eu
linha paralela de vida
e tão parelha dessas ruas
fagulha dupla de mão única
bifurcada e sem retorno
nos afazeres do meu sonho

Em mim eu sou o que não fui
comigo fui o que não era:
derrotado nominado
o nominado vencedor
e resta só o testemunho
do cão que me acompanha agora
e dessas ruas que me sabem antes


(Suíte para os habitantes da noite) IX

CZARDAS PARA SERROTES COM ARCOS DE VIOLINO
E BERIMBAU DE LATA

Esta anábase é de hora aberta desnudada
tão desmedida como foi a minha vida
de nada me arrependo apenas me perdôo
porque meu vôo nem sequer se iniciou

E dessas nuvens que me espaçam esgarçadas
trapos e cordas dissonantes dessa lira
são acidentes de percurso em que recorro
como um Zenão o parafuso desse vôo

Assim nessa colméia em zíper me percorro
como um zangão no zigue-zague nos hexágonos
ando à procura de uma abelha desvairada

que me acompanhe na aventura pelos pântanos
exorcizando a desrazão desses escorços
essa não-ave desgarrada do meu nada


(Suíte para os habitantes da noite) XIII

ÁRIA PARA TENORINO E FLAUTIM

o gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas

O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
E alcança nessa limpeza
movimento mais presto
o guincho mais desouvido

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato:
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas de seu estrago


(Suíte para os habitantes da noite) XXXII

SONATA PARA IR À LUA

Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta

A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta

Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência

Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer


Samba-canção para ser acompanhado de regional

Mulher de um sonho distante
na névoa densa da noite
eu te sabia em mim
dispersa em minha canção

Eu te queria tão próxima
de luz e raio constante
pra te dizer tantas coisas
como o mais comum amante

Sussurrar no teu ouvido
palavras soltas ao vento
mas te vais sem deixar rastros
dona e senhora do tempo

Mulher de um sonho distante
não sei se existes de fato
sei da maneira que chegas
no clique de algum retrato

Mas teu rosto não me foge
nem teu riso enigmático
nesse mistério que explode
como um flash fotográfico

Mulher sem nome consomes
minha sede de ficar
nas asas de tua gruta
meu abrigo meu luar

Nesse instante és meu apelo
Aumentando esse tesão
só te quero verdadeira
se teu nome for paixão

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