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Surtos & Sustos, de Ronaldo Coelho Teixeira


O livro Surtos & Sustos, de Ronaldo Coelho Teixeira, apresenta 50 crônicas produzidas pelo autor entre os anos de 2004 e 2006, e tem o prefácio assinado pelo renomado escritor e médico gaúcho, Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras.

No prefácio, Scliar afirma: “Mas a crônica continua representando um apelo irrecusável, sobretudo para jovens escritores que podem nela viver sua aventura emocional e intelectual. É o caso de Ronaldo Teixeira com seus "Surtos & Sustos" (ótimo título, a propósito). Temos aqui a fórmula clássica do comentário sobre o cotidiano. Mas Ronaldo vai mais longe. As suas crônicas representam uma meditação sobre o modo de vida da classe média brasileira que oscila entre os surtos e sustos.

Surtos & Sustos reflete o homem dividido entre o mistério de Deus e as ações dos homens num mundo de fatalidades. A obra apresenta uma única unidade temática e grande coerência de objetivos. É nela e por ela que o autor manifesta a sua apocalíptica previsão de um mundo em pânico, é mais que uma invocação, é quase um grito do autor, conduzindo seu discurso crônico a um questionamento trágico na tentativa de desvendar o enigma cultural.

Ronaldo Teixeira faz com que se refleta, com uma literatura pragmática, persuasiva e de transformação, num esforço metalingüístico, sobre o trabalho do escritor, sobre produzir literatura pela criatividade e pela sensibilidade aguçada. De ser valorizado pelo estilo, consagrado pela abordagem temática, e, enfim, culturalmente aplaudido, por habilitar-se a iniciar um longo processo de transformação por meio da reflexão.

A razão humana vacila perante as imensas forças de destruição por ela geradas. Daí resulta a problemática existencial do homem contemporâneo. Em pleno século XXI... é a expressão que marca o início de várias crônicas pertencentes a esta obra em que o autor mostra-se surpreso e até indignado com certas atitudes e posturas assumidas pela sociedade. Dono de um discurso injuntivo e argumentativo, o autor demonstra preocupação com a globalização e a despersonalização do cidadão.

A obra dividida em duas partes, sendo a primeira voltada para os “Surtos”, em que Teixeira, retém e desvela a realidade social, política, econômica e educacional em que estamos inseridos. Suas crônicas revelam a busca incessante da situação do homem em relação ao mundo. A realidade é percebida através de olhos questionadores. O autor apresenta o mundo, sem mistificação, sem eufemismo e sem sentimentalismo. Por vezes, torna-se cético. Critica a sociedade, a mecanização e o tecnicismo: Há tempos cruzam o repulsivo triângulo da mesmice: casa – trabalho – escola. E, como resvalo – pobre resvalo – sobram a TV e o controle remoto com a vazia e inútil ilusão de que o mundo todo está a seus pés. O autor quer nos levar a reflexão sobre a rotina que se instaurou na sociedade, a falta da novidade e das perspectivas do sonho. Envolvidos nessa rotina, somos levados ao esquecimento de nossa identidade e dos objetivos que traçamos para nossas vidas.

Em “As duas faces do medo”, Teixeira viaja entre o passado e o presente, comenta de maneira saudosista dos medos que sentíamos na infância, causados pelas histórias que ouvia antes de dormir: Quem não se lembra daquelas noites de contação de histórias assombradas, em que, mesmo morrendo de medo e arrepiados, ficávamos ali naquela rodinha até o final. E hoje o medo que sentimos é causado pela insegurança, conseqüência da violência que se instaurou na sociedade. De resto, sobra esta trágica e triste constatação: quando crianças, temos medo de gente morta e, quando adultos, temos medo de gente viva.

Nas crônicas “Quando muito é pouco” e “O mundo no gibi” existe a preocupação com o avanço tecnológico e o acúmulo de informações que não trazem o verdadeiro conhecimento para a sociedade, incentiva a leitura e critica o sistema educacional brasileiro.

Teixeira afirma que o amor está dentro de cada indivíduo. É pela ironia que enfrenta a problemática angustiante trazida pelo excesso de novidades em todos os setores da vida humana. Mostra certo saudosismo emocional ao denunciar o desaparecimento da emotividade, do sentimento, substituídos pela modernidade ou “A era dos surtos”, em que a sociedade busca a perfeição da beleza física e torna-se vítima de síndromes, fobias, loucuras e paranóias.

Em algumas crônicas, o autor dialoga com Schopenhauer, Gibran, Nietzsche e Jung ao falar dos tédios e dos desejos que cercam o homem. Do consumismo, da divisão de classes sociais e da felicidade momentânea trazida pela tecnologia.

Na segunda parte da obra "& Sustos", o autor afirma que "A palavra tem sido a chave-guia do homem através dos séculos." Talvez, por isso, é que ele faz das palavras um meio de denúncia das mazelas sociais. Faz uso de um vocabulário despojado de artificialismos e conotações para não torná-las desligadas da realidade.

Os “Sustos” são descrições de uma sociedade angustiada que sabe que o mundo não é o que se quer, mas o que se tem. Daí o presente, o hoje e o aqui, espacial e temporalmente, tornarem-se uma obsessão para o nosso autor. O mesmo mostra grande consciência da realidade brasileira, o seu nacionalismo não é ufanista, ele mostra-se solidário com o homem que, pela necessidade, tem de lutar pelo dia-a-dia: Passar a vida toda trabalhando que quando se chega à velhice não há dinheiro para curtir o lazer merecido e, havendo-o, não sabe mais como fazê-lo. O presente é a convergência do passado e do futuro pré-visto. Sonha com um amanhã em que não haja lugar para desnivelamento social, injustiça , miséria. Debate-se entre a matéria e o espírito e considera-se representante dos desanimados – Votar por obrigação e eleger pessoas para serem nossos representantes nas esferas municipal, estadual e federal e terminarmos reféns de suas vilanias, incompetências, autoritarismos e corrupções. Por fim, já que tudo parece ser estromberância nesse país, deixo aqui a definição desse termo para o amigo leitor, e que significa absurdo, monstruoso, surreal.

Surtos & Sustos reflete o homem dividido entre o mistério de Deus e as ações dos homens num mundo de fatalidades. A obra apresenta uma única unidade temática e grande coerência de objetivos. É nela e por ela que o autor manifesta a sua apocalíptica previsão de um mundo em pânico, é mais que uma invocação, é quase um grito do autor, conduzindo seu discurso crônico a um questionamento trágico na tentativa de desvendar o enigma cultural.

Fontes: A Noticia (TO) | Maria Wellitania O. Cabral - Profª de Literatura

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